Uma
vez que é possível deter-se isoladamente na observação do fenômeno
sonoro em seus aspectos diversificados, não há como deixar passar a
oportunidade de abordar a teoria da música através dos principais
parâmetros sonoros: altura, timbre, intensidade e duração em separado.
Esse fator propicia o ensejo de melhor proceder-se a distinção, a
verificação da afinidade que existe entre esses parâmetros, bem como de
favorecer a possibilidade de buscar definições precisas, sobretudo a
terminologia exclusiva de cada área, à parte. Impossível não
diferenciar, por exemplo que:
-
altura
é freqüência;
-
timbre
é consistência;
-
intensidade
é premência;
-
duração
é permanência.
A
cada um desses parâmetros deve corresponder uma terminologia
compatível, bem distinta, para se evitar confusão. Infelizmente, reina
uma misturada enorme, que as pessoas acabam por não mais se preocupar, e
vão, progressivamente, tolerando até findar se acostumando. Alguns
exemplos: Não se diga que ...
As notas são sete, citando-as como sendo "semibreve, mínima,
semínima, colcheia, semicolcheia, fusa e semifusa", porquanto,
constitui um tremendo equívoco, uma vez que dois parâmetros foram aí
misturados: nota é referencial de altura, sendo, de fato,
também sete mas, "dó-ré-mi-fá-sol-lá-si", enquanto que a
menção anterior concerne à duração, e o que foi
supracitado foram os nomes dos valores positivos. Perceba-se bem: altura
é uma coisa, duração é outra. Nota é
referencial de altura, de índice freqüêncial e valor é
correlativo de durabilidade temporal. Ao escrever-se, nota é fonografema e valor é
cronografema.
Não se pode dizer também que o sustenido aumenta a nota
um ponto, pois aumentar é referencial de intensidade e, sustenido e nota
são correspondências com altura; o ponto, que pode ser de redução ou
de acrescentamento ou ainda aleatorizante, é que varia a duração do
valor, conforme sua disposição, enquanto que o sustenido altera a freqüência
da nota, elevando-a em semitom. Ressalte-se aumentar e diminuir, é
emprego consagrado da referência altura.
Evite-se dizer igualmente que o ponto aumenta a nota porque ponto se
aplica a sinal de duração, valor positivo (que pode combinar com a nota
ou não) ou negativo (pausa), respectivamente sinal de duração de som
indefinido (nota = som definido) e silêncio, espera. Nota aplicada
a valor ou vice-versa, respectivamente receberão: a primeira,
duração e o segundo, altura, sendo que se não houver pentagrama e
clave, valor positivo indica sonoridade imprecisa, sem ser uma nota
(afinada), apenas um ruído, som de tambor, de gongo, por exemplo.
Outra aberração arquifreqüente: "alto" e "baixo"
são sinônimos, em música e em física, significando, respectivamente,
agudo (fino = muita freqüência) e grave (grosso = pouca freqüência).
Faz-se uma tremenda confusão, entre os parâmetros altura e intensidade,
a toda hora, mandando-se, por exemplo, "falar mais alto ou mais
baixo" querendo-se dizer "falar mais forte ou mais
fraco"
Ao invés de se dizer "linha melódica" (visual) ou
"contorno melódico"(visual), deve-se dizer
"seqüência melódica" (auditiva) não existe
"linha" melódica, linha é referenciamento visual (geometria);
Ao invés de "quintas paralelas", "quinta diretas"
ou "quintas seguidas" (em derradeiro caso, o paralelismo
exigiria a sucessão de quintas todas do mesmo modo: j, dim, aum);
Ao invés de "movimento oblíquo", "encadeiamento
indireto";
Ao invés de "curva melódica" ou "desenho
melódico", "variedade" ou "esquema" (do
"sentido") melódico pois não há mesmo como enxergar
(visão) desenho ou contorno em seqüência sonora
(ouvido), a não ser com enorme exagero imaginativo.
Ao invés de "tonalidade de dó", diga-se "tom de
dó", porquanto tonalidade é uma coisa e tom outra:
"tonalidade" vem a ser o fenômeno físico-acústico, enquanto
que "tom" quer dizer o índice vibratório em que esse fenômeno
(da tonalidade) ocorre: se é na altura de dó ou de ré# e por ai vai.
Ao invés de "tonalidade maior e/ou menor", "tom (em
modo) Maior e/ou menor" evitar a confusão entre os termos
"tonalidade" e "tom" que, vale a pena insistir, não
são sinônimos). Modular e tonular igualmente não são sinônimos:
ao invés de modular de dó M para sol M (o modo permanecendo o mesmo
pois, modula-se apenas se troca de modo) diga-se tonular de dó M
para sol M (já que é só o tom a ser trocado); não se pode tonular de
dó M para dó m, enquanto apenas se modula, permanecendo-se o mesmo tom;
já quando se passa de dó M para lá m tonula-se e modula-se ao mesmo
tempo.
Ao invés de harmonia vertical ou harmonia horizontal (não é visual,
é auditiva) Harmonia acordal (sincrônica) e harmonia frasear
(diacrônica).
Ao invés de harmonia aberta ou harmonia fechada, diga-se
distribuição harmônica espaçada e distribuição harmônica
cerrada.
Ao invés de movimento harmônico, diga-se encadeiamento.
Ao invés de dizer que o som "cresce de duração" diga-se
que o som acresce (é acrescentado) de duração porquanto os termos
crescer/decrescer (crescendo/decrescendo) têm a ver é com intensidade e
não com duração e o termo próprio para duração é adir, ou
aditar, adicionar, acrescentar (acrescentar).
Ainda
há quem ache música saborosa, gostosa, música doce, azeda, amarga ou
ácida, salgada, insossa, picante (paladar)... quiçá cheirosa ou
fedorenta (olfato), música fria ou quente [metais em brasa], voz
aveludada ou áspera (tato), sonoridade brilhante, luminosa, transparente,
translúcida, colorida, opaca, escura, clara (visão); há quem se refira
com toda seriedade, à "cor" do som querendo definir timbre
e por ai vai. Há músicos que dizem "ver coisas": luzes, cores,
formas . . . quando escrevem ou ouvem música. É bem capaz, nesse caso,
de haver também quem se acabe de sentir cheiro-bom, gosto-bom ou
conforto-epidérmico, arrepio, "frisson"
musical . . . coceira . . . sonora, "vontade de beber água
musical". . . ou até mesmo "cócega metafísica" com
música; ou então de cuspir-sentindo-catinga, fedor, gosto-ruim, vontade
de vomitar musical (enjôo) ou também vontade de tirar a roupa . .
. de desconforto ... ou conforto musical ou sonoro, por sugestão se faz
em outras áreas como, por exemplo: "tom ou tonalidade de cor"
ao invés de matiz (tonalidade verde, por exemplo ou tonalidade de
encarnado); "perfume doce" . . . "gosto de barata "
(gosto de cheiro de barata). . . azul cheiroso . . . sonoridade ardida.
Para
ser sincero, ao escrever este trabalho visei botar sentido nesses aspectos
todos. Acho que fazer qualquer concessão é protelar a solução do
problema, é facilitar, para nada, é escrever mais um desse
"livrecos" de música (alguns é uma pena, porque enganam os
leigos primorosamente bem impressos e de papel maravilhoso) que
pululam por ai .
Da
minha parte, digo com toda sinceridade, não sou, nuca fui de impor meu
modo de pensar aos outros sem que nem mais, todavia, convido todo mundo
para que raciocinemos unidamente, a fim de que, talvez, possamos, com
espírito generoso, chegar a mais acerto.
Retirado
do livro:
Teoria
Musical - Tomo II - Altura e Timbre de Reginaldo Carvalho,
com prévia autorização do autor.
Sua participação será sempre bem vinda, com
dicas e sugestões.
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