ENCARANDO A AMÉRICA

A banda tirou dois dias de folga antes de enfrentarem o maior dos desafios: A América. É bom frisar que naqueles tempos pré-MTV, a promoção de um artista dependia muito da programação de rádio. E a música poderosa do Maiden não era o padrão FM que os DJ yankees estavam tocando na época. Apenas quatro estações tinham tocado o primeiro LP, isto entre mais de duzentas rádios espalhadas pelo país. Uma pena, visto o sucesso imenso que as bandas HM tiveram na década de setenta quando Led Zeppelin era simplesmente endeusado pelos americanos, além de Deep Purple, Black Sabbath e outros.

Talvez o imenso fracasso comercial dos Punks pouco tempo antes tenha feito os chefões das rádios pensarem que o gosto do público jovem houvesse mudado e que os adolescentes não gostassem mais de música pesada. Não tinha: Rush, Heart e outras bandas pesadas continuavam a fazer sucesso, embora com muito menos cobertura jornalística do que na década anterior. Mas, tal como na Inglaterra, as vozes das ruas demoraram a ser ouvidas e só quando ficou evidente para todo mundo é que acordaram as gravadoras.

O Maiden encarou o desafio como tinha feito na sua terra natal: com garra e profissionalismo. Abriram shows para o Judas Priest, além de tocarem em dois clubes em Chicago e Detroit e um festival em Milwaukee. Depois foram para o Canadá, onde o primeiro LP tinha se tornado disco de ouro, o que queria dizer que podiam ser a atração principal em lugares como Toronto (em teatros com capacidade de 1500 pessoas), além de clubes em Montreal e Quebec.

As dificuldades eram que a banda já conseguia viajar de avião quando as distâncias eram maiores que 300 milhas (uns 450 quilômetros), sendo que distâncias menores que estas tinham que ser percorridas de carro alugado. O resultado foi que nas alturas do Canadá todo mundo estava moído até os ossos, especialmente os motoristas, que eram o tour manager Tony Wigens e o relutante SmallWood. Eles tinham que sair de uma cidade, chegar na outra até as quatro da tarde para aprontar tudo e ter que sair às sete da manhã. Wigens comentou: "Rod e eu estávamos nos mantendo vivos à base de café puro”.Inevitavelmente houve incidentes. Tony estava saindo do palco uma noite, tão cansado que não viu que saía pelo lado errado, onde não tinha escada e levou um tombo de quase quatro metros. Foi levado às pressas ao hospital mais próximo, coberto de hematomas e suspeita de fraturas, mas voltou a tempo para cuidar do equipamento para o show daquela noite.

Smallwood acabou achando que aquela economia não adiantava nada e, relutantemente, concordou em alugar um ônibus para a tour. Tocaram com Whitesnake, Humble Pie, e seus velhos ídolos do UFO depois dos shows no Canadá. A banda estava na Philadélfia tocando seus últimos shows com o Priest quando receberam o convite de tocar com o UFO no Long Beach Arena, na Califórnia, no outro lado do país. O Maiden achava estes shows tão importantes que fretaram todo o seu equipamento para poderem chegar a tempo. Essa atitude custou uma nota preta mas a reação da platéia fez tudo valer a pena.

Vale dizer que o Maiden, que não aceitou a sugestão de modificarem sua música, tornando-a mais "palatável" para tocar nas rádios, tornou-se rapidamente num cult band underground. Killers vendeu por conta da turné, e chegou a respeitáveis 200 mil cópias ( quatro vezes a de 'Iron Maiden" ). Por todos os cantos encontravam garotos que os seguiam fanáticamente, comprando ou arranjando camisetas com o logotipo e a figura de Eddie numa velocidade de dar inveja a bandas muito mais estabelecidas. Encontraram um garoto que tinha o logotipo tatuado nos dois braços e outro com uma cabeça de Eddie gravada no peito. Mas o melhor de tudo foi o cara que tinha a capa do single 'Sanctuary' (aquela do Eddie matando a Margaret Thatcher) tatuada no braço, com os dizeres "Up The Hammers" embaixo. Harris contou que quando lhe explicou que aquilo era um grito de guerra de um time de futebol, ele ficou decepcionado. "Acho que ele esperava que isso fosse um tipo de encantamento mágico ou coisa parecida”.

Terminada a tour americana, o Maiden voltou à carga na Europa para honrar os compromissos que faltaram devido aos problemas com a garganta de Paul. Tocaram em três grande festivais ao ar livre na Alemanha durante este processo, com Foreigner, Kansas, Blue Oyster Cult, Motorhead e outros. Logo depois atravessaram a Cortina de Ferro pra tocar na Iugoslávia, onde o disco Killers também tinha ganho o disco de ouro. Nada menos que 5000 garotos estavam esperando por eles dormindo ao relento durante a noite anterior só para garantir os lugares. Com o dinheiro conseguido por lá, a banda refez os esquemas para se apresentarem na Escandinávia, para honrar as datas canceladas. Seriam as últimas apresentações da banda com Paul Di'Anno.

MUDANÇAS RADICAIS

Boatos sobre as dificuldades do vocalista com o resto da banda já estavam se espalhando desde os problemas de voz que Paul teve durante a primeira parte da tour. Pouco tempo depois que voltaram para a Inglaterra, a Sounds publicou uma matéria de capa: "Di'Anno fora do Maiden". Apesar de dizerem que a separação foi "totalmente amigável" e por diferenças em torno de música e tournés, a coisa não foi bem assim. Durante muito tempo aceitou-se como verdadeira a tese de que Paul andava cansado das longas excursões da banda. Essa notícia chegou a ser dada em algumas biografias que saíram até no Brasil. O próprio Paul Di'anno a negou pouco antes de se apresentar no Brasil em 97 além de acusar Steve Harris de ser o dono da banda, um "fuhrer" (ditador).

O grande problema foi que Paul adorava o estilo de vida rock'n roll. E não cuidava bem do seu instrumento: sua voz. Paul fumava, bebia demais e era largamente indisciplinado. Com isso sua voz sofria e a banda perdia shows importantes e levava a culpa. Os membros do Maiden sabiam se divertir, mas se cuidavam, eram profissionais e tinham orgulho de se apresentar para a platéia um show sensacional, dando do melhor de si. Não é pra menos que ficavam zangados quando um deles podia estragar tudo por descuido. Paul também não tinha a mesma ambição de vencer mundialmente como Steve e se dizia assustado com a proporção gigantesca que o Maiden estava alcançando, sentindo que era muito grande o peso de tanta responsabilidade.

Paul saiu da banda e foi uma grande perda, ainda que por sua própria culpa. Um cantor carismático, com um timbre diferente e marcante. Na sua carreira posterior, mostrou-se tão irregular e errático quanto a vida que escolheu, alternando grandes momentos com outros absolutamente medíocres. Parece que resolveu finalmente fazer algo direito tendo recentemente reunido sua melhor banda, o Battlezone, e lançando em 99 um CD digno do grande cantor que é. Seu trabalho seguinte seguiu a mesma linha, sendo gravado no Brasil com músicos brasileiros. O resultado, Nomad, foi um disco brilhante, talvez seu melhor trabalho pós Maiden.

UMA SUBSTITUIÇÃO FELIZ

O substituto de Paul foi, como todos sabemos, Bruce Bruce, do Samson, que tanto havia impressionado Harris no festival de Reading um ano antes. Ao contrário do que diz a lenda, não foram ouvidos uma série de cantores antes de chegarem a Bruce Bruce, isto é, Bruce Dickinson. Quando Paul saiu, foi o próprio Steve Harris, com sua habitual objetividade que o convidou para um teste. Steve pediu que ele decorasse seis músicas. Dickinson sentiu a oportunidade e não perdeu tempo: decorou 15. No teste tocaram dez direto e dali saíram para o bar mais próximo para comemorar.

Em muitos aspectos Bruce Dickinson era diferente da banda: estudou em escolas particulares e se formou na faculdade em História. Ao invés de se tornar um chato intelectual, Bruce se mostrou perfeito em todos os sentidos para o Maiden: profissional rigoroso, ambicioso, nem um pouco chegado à trips de superstar e com um senso de humor à toda prova. Mais importante: cuidava muito bem das cordas vocais. E que cordas! Dizem as lendas que ele ganhou o apelido de "Sirene de Ataque Aéreo" quando, durante um show do Samson no Chelsea College, ele trincou um enorme globo de vidro com um grito bem colocado.

Paul Bruce Dickinson (ele sempre preferiu usar o segundo nome, mesmo quando criança) teve seus primeiros contatos com o showbusiness logo depois de entrar na faculdade, através do grêmio estudantil, ajudando a organizar apresentações de bandas por lá. Um pouco depois entrou como cantor num conjunto local. "Eu queria tocar bateria" Contaria ele mais tarde "Mas eu nunca tive o dinheiro para comprar uma." O destino não deixaria Bruce cair anonimato nem nesses primeiros tempos. Logo uma apresentação com o grupo acabou virando notícia no jornal local. Não tanto pela música, que ainda tinham muito a aprender, mas pelo fato de terem sido atacados em pleno palco por um cidadão que morava por perto e tinha sido acordado por eles. "Ele acertou uma garrafa no guitarrista e chutou o kit da bateria fora do palco. Então eu o ataquei com uma cadeira." Relembra Bruce.

Nos tempos de faculdade, Bruce cantou em duas bandas: no Speed, que tinha teclados e faziam um som estilo Stranglers e no Shots, que era um pouco mais pesado e com quem excursionaria durante boa parte de 1978. Seus exames finais na faculdade puseram uma pausa na carreira com o Shots. Pouco depois seria chamado por Paul Samson, que o tinha visto se apresentar na Soundhouse ( sempre lá ). Assim, depois de fazer sua última prova da faculdade na parte da manhã, Bruce passou a tarde ensaiando com o Samson. Ele ficaria com eles durante dois anos e meio, gravando três LPs (entre eles o bom Head On). O apelido Bruce Bruce foi dado pelo empresário e se referia a um personagem famoso do grupo de comédias Monty Python. Bruce até recebia seu pagamento em cheques com esse nome.

Mas logo ficou claro que as idéias musicais entre Paul e Bruce iam por linhas divergentes. Samson seguia pelo lado do blues mais tradicional, enquanto que Bruce era obviamente um cantor de HM. Assim, a saída não foi tão difícil no ponto de vista artístico. Infelizmente os processos legais de separação foram muito mais complexos: houve a quebra da gravadora do Samson, a Gem records e má administração dos negócios da banda. Essa confusão legal impediu que Bruce pudesse incluir alguma canção sua no seu primeiro ano no Maiden.

Assim que sua entrada na banda foi tornada oficial, eles partiram para a Itália para fazerem quatro apresentações por lá, apenas para testar a reação da platéia e deixar Bruce se acostumar. Todos os shows lotaram, o público ficou doido como sempre e ninguém parecia notar alguma diferença. Londres seria um teste mais duro. A banda tinha agendado um show no Rainbow, com o Praying Mantis abrindo. Naturalmente, Bruce se deu muito bem. Claro, teve aqueles retrógrados que gritaram de vez em quando um "Tragam Di'Anno de volta!", mas a maioria reconheceu que estavam diante de um grande cantor e aprovou. Depois do show foi dada uma festa pelo Pão-Duro Smallwood em que Paul Di'Anno esteve presente, provando que não havia mais ressentimentos.

Dessa forma, 81 se fechou como um ano de mudanças e muita, muita batalha na estrada. Mas foi altamente recompensador em termos de carreira: mesmo com más críticas e muito por causa dos excelentes shows, Killers chegou ao top 10 de vários países: Inglaterra, França, Alemanha, Japão, Suécia e Bélgica (chegou ao número 80 nos Estados Unidos). E disco de ouro no Canadá, Inglaterra e Japão. Na França se tornou disco de ouro duas vezes. Nada mal. Mas o melhor ainda estava por vir...

A BESTA ESTÁ SOLTA

1982 entrou com a banda gravando seu terceiro LP na carreira e o primeiro com o novo vocalista. E as coisas começaram de forma bem negativa nos estúdios Battery, em fevereiro. Segundo Bruce, os equipamentos pareciam enlouquecer, com luzes acendendo e apagando a todo o momento sem nenhuma razão aparente, com a aparelhagem de gravação deixando de funcionar e ruídos estranhos ocorrendo com amplificadores e instrumentos da banda. Parecia que o grupo tinha mexido com o oculto, como numa das músicas que gravariam por lá e que daria o nome ao novo disco: The Number Of The Beast (como boa parte das canções de Steve Harris, baseado num filme: Omen II [no Brasil: A Profecia 2]).

Como se para confirmar tal loucura, o produtor Martin Birch teve um acidente de trânsito quando dirigia-se para o estúdio numa noite. O motorista do outro carro era um fanático religioso e a conta do mecânico foi 666,66 Libras! Embora pareça uma das várias estórias para promover discos, todos os envolvidos garantem que é verdadeira (tanto as biografias oficiais quanto o documentário Twelve Wasted Years o mencionam como fato): "Aquilo mexeu com a gente e o Martin ficou apavorado." Relembra Steve Harris "Ele fez com que o pessoal arredondasse a conta para 667 libras!"

Apesar de todos esses incidentes bizarros e inexplicáveis, o álbum resultante seria um triunfo e catapultaria definitivamente o Maiden para seu lugar como os reis do novo Metal. Um sinal de que as coisas seriam bem maiores ficou claro quando a banda lançou o primeiro compacto resultante das gravações com a música 'Run To The Hills': nele estava provado que o novo cantor era simplesmente sensacional e que possuía uma técnica e potência à altura do muro de som que Harris & co estavam elaborando.

Como prova, o disco chegou ao número 7 nas paradas de compactos, mesmo com a habitual recusa das rádios de tocar o estilo. Foi a primeira vez que a banda conseguia chegar tão alto em termos de singles. O vídeo que a banda fez para promover o disco também ajudou a torná-los mais conhecidos nos Estados Unidos, já que agora existia a MTV e a necessidade de novos vídeos ainda fazia passar por cima de velhos preconceitos. De qualquer forma o clip da banda mostrava bem que a turma tinha humor, alternando cenas deles no palco e extratos de uma velha comédia de Buster Keaton, tornando mais leve a música, cuja letra amarga falava do massacre que os brancos perpetraram aos índios americanos.

Mas se o compacto já era muito bom, o LP resultante era simplesmente o máximo. Quando foi lançado no dia 22 de março o disco estabeleceu novos parâmetros para o Heavy Metal. Os críticos que temiam que a banda estivesse ficando sem inspiração e que tinha esgotado todas as suas fichas nos dois primeiros discos, ficaram estupefatos. A nova fornada de músicas era espetacular: Não tendo mais material antigo para utilizar, as novas composições vieram mais maduras, mais ousadas e com uma nova perspectiva, por causa do vocal mais técnico e poderoso de Bruce Dickinson. Da primeira faixa à última (e principalmente a última, a sen-sa-cio-nal Hallowed Be Thy Name), ninguém tinha dúvidas de que se tratava de um clássico absoluto, tão ou mais surpreendente quanto ao magnífico disco de estréia. The Number Of The Beast lançaria o grupo definitivamente no cenário mundial (leia-se, Estados Unidos).

Até a capa, uma obra-prima, contribuiu, embora não fosse específica. Derek Riggs a tinha desenhado com intenções ao compacto Purgatory, mas a banda gostou tanto do desenho que resolveram deixá-la para o LP. Purgatory então recebeu um outro desenho (uma figura do diabo apodrecendo para se transformar no Eddie) e foi o menos bem sucedido single da banda, chegando só ao número 46 das paradas, fato esse talvez explicável por já se incluir no LP Killes, que todo fã já tinha comprado.

A crítica especializada amou The Number Of The Beast e o colocou no seu devido lugar: um disco tão importante e renovador para os anos 80 quanto In Rock do Deep Purple tinha sido para os anos 70 (uma comparação para grupo de HM nenhum botar defeito). E, só para confirmar, o LP foi direto ao topo da parada inglesa, chegando ao primeiro lugar e ficando lá por duas semanas. The Number Of The Beast bateu Killers em vendas em todos os lugares que foi lançado.

(Obs. Curiosamente, Steve Harris não considera o disco tão bem assim. Segundo ele mesmo as gravações foram muito corridas, não deu tempo para polir melhor as músicas e que se arrepende de não ter substituído a faixa Gangland por Total Eclipse - que acabou sendo o lado b do compacto Run To The Hills - e de não ter algo melhor do que Invaders para abrir o disco. Imaginem o que seria esse clássico se ele tivesse tido tempo para essas melhoras!)

A banda ficou sabendo das boas novas quando estavam indo da Suíça para Paris e o ônibus tinha quebrado no meio do caminho. Como os roadies já tinham ido na frente para montar o equipamento, o pessoal do Maiden não teve outra alternativa a não ser sair fora e começar a empurrar. Tony Wiggins se lembra da ocasião: "Então lá estavam aqueles caras, cujo álbum tinha chegado ao topo das paradas da Inglaterra, empurrando o ônibus para ver se ele pegava. E ninguém pensou duas vezes antes de fazê-lo. Não houve reclamações, ninguém entrou numa de superstar. Depois que o ônibus voltou a funcionar todo mundo voltou a seus lugares como se nada tivesse acontecido."

Isso aconteceu, claro, na parte européia da "Beast On The Road 1982" , a segunda tourné mundial do Maiden, que iniciou-se em fevereiro e iria até o dia 20 de dezembro daquele ano, cobrindo nada menos do que 18 países e um recorde de 180 apresentações! Foi nessa época que o importante jornal New Musical Express pediu uma entrevista. Vale dizer que o referido tablóide detestava (e provavelmente ainda detesta) rock pesado, sendo formado principalmente por elitistas que nunca viram o HM como algo a se considerar seriamente.

Rod concordou, mas com a condição de toda a entrevista ser na forma de perguntas e respostas (para não haver interpretações por parte do entrevistador) e que estariam na primeira página. Relutantemente o jornal aceitou e mandou um dos mais hábeis entrevistadores que possuíam, na certa esperando encontrar pessoas que não estariam à altura das perguntas. E o cara começou logo com as provocações perguntando sobre a "complacência moral e intelectual" das músicas. Acontece que ele trombou de frente com Dickinson e Harris, inteligentes e articulados, que viraram o jogo a seu favor. Eddie apareceu assim na capa do NME e a entrevista ajudou a abrir muitas cabeças para o novo Metal.

ANDY TAYLOR

Nessa tour Andy Taylor, sempre parceiro de Smallwood, ainda não envolvido diretamente com o Maiden, entrou como co-empresário de forma integral. Andy e Rod são completamente diferentes: Rod mais parece um membro da banda: cabeludo, sempre usou jeans, tênis e camisetas da banda, além de ser famoso pelo humor. Andy, ao contrário, sempre pareceu o típico executivo inglês: alto, gorducho, quase totalmente careca, de óculos e sempre vestindo terno e gravata. Rod é um fã de Heavy Metal, enquanto Andy prefere músicas mais leves para ouvir no carro.

Curiosamente a dupla sempre se deu muito bem, unindo forças e provando que os opostos podem agir para o bem comum (e fazer uma fortuna juntos!). Ambos demonstram um recíproca admiração mútua e, como Rod gosta de lembrar, as aparências enganam: "Andy é um grande cara, sempre foi. Tem uma mente brilhante e cheia de surpresas". Andy Taylor foi ver o Maiden pela primeira vez num show em Newcastle, 1980. Ele apareceu na apresentação de terno e foi parado pelo porteiro, que perguntou se ele sabia quem iria se apresentar ali. Andy Taylor respondeu que sim, que sabia. "Oh - retrucou o porteiro "É que não vem muita gente de terno aqui." Taylor então disparou essa: "O que demonstra mais ou menos que tipo de relação eu tenho com a banda." Uma das primeiras providências que Taylor cuidou logo que assumiu sua nova função foi tratar de acabar com a pirataria que se espalhava como uma praga envolvendo todo o merchandising da banda. O Maiden tinha orgulho de vender apenas material de alta qualidade para os fans.

A tourné européia foi um sucesso absoluto: embora fosse a primeira vez que fossem à Espanha, isso não os impediu de conseguirem lotar as três noites seguidas que deram em estádios de 8.000 lugares. França, Alemanha, Holanda, Bélgica, Suíça, seguiram-se antes do grande desafio: Os Estados Unidos. Principalmente porque a banda ganhou a fama de satanista por causa da capa e do conteúdo da música The Number Of The Beast. A maioria dos americanos parecia não ter prestado a mínima atenção de que somente aquela canção podia ser considerada de teor demoníaco, e ainda assim era baseada apenas num filme. Harris teve que gastar muita saliva em entrevistas para tentar esclarecer o óbvio: o Maiden não tinha uma linha de pensamento fixa, nem eram adoradores do diabo. Levou muito tempo para conseguirem mudar essa imagem errônea na terra dos yankees.

Um segundo compacto, com a faixa-título, também chegou ao Top 20 das paradas inglesas. O vídeo que vincularam para a música também ajudou e, pela primeira vez, um Eddie de mais de três metros de altura fez sua primeira aparição. Uma pena que o fizessem numa época de Margaret Thatchers e Ronald Reagans: a parte do Eddie foi editada do vídeo, depois que cidadãos conservadores o acharam muito assustador para aparecer na MTV.

BACK IN THE USA

O Maiden começou a parte americana da tour em Michingan, no dia 11 de maio, e seria a primeira de 102 apresentações no continente (com apenas um intervalo para poderem tocar no Reading Festival). The Number Of The Beast ficaria nas paradas da Billboard durante 8 meses, atingindo o 33ª lugar e vendendo só nos EUA 350.000 cópias (o que queria dizer que o Maiden, em termos mundiais, tinha vendido mais do que tudo que conseguiram no ano anterior [1 milhão de discos] em apenas 5 meses!).

Nos Estados Unidos o Maiden abriu shows do Rainbow e do 38 Special, para depois, na condição de 'convidados especiais', dividirem o palco primeiro com os Scorpions (com o Girlscholl na abertura) e depois com o Judas Priest. Para variar, os shows foram excelentes, com o Maiden dando muito trabalho para as outras bandas se equipararem ao seu espetáculo. De nota vale mencionar uma partida de futebol, para relaxar, entre os alemães do Scorpions e os ingleses do Iron que, depois de um jogo muito disputado, terminou num cavalheiresco 0 X 0. Em alguns shows o Maiden tocou na frente de 57.000 (Oakland) e 75.000 (Anaheim) pessoas.

No Canadá, assim como todos os outros países fora os EUA, o Maiden foi a atração principal. Naquele país do norte o novo LP tinha ganho disco de platina e o pessoal do grupo ficou muito feliz em saber que as rádios por ali não tinham tanto preconceito contra Heavy Metal quanto seus vizinhos americanos. Em Quebec tocaram em um estádio com capacidade de 9.000 e o lotaram, apesar da população ser muito menor do que nos Estados Unidos.

De volta aos EUA, novos problemas com o velho assunto: o pessoal da God Squad (Patrulha de Deus) no Arkansas queria que o disco tivesse tarjas avisando sobre a natureza satânica do conteúdo. "As pessoas levaram isso tudo muito além da conta." Reclamou Steve Harris numa entrevista "Eles acham que se trata de um álbum sobre um tema e isso obviamente não é o caso. Há apenas duas faixas sobre o assunto e as duas são claramente escapistas."

Na mesma entrevista ficou claro que Steve não parecia saber ou se importar com a enorme proporção do sucesso e da fama que o Maiden havia atingido. Para ele as coisas continuavam as mesmas e se considerava um fã de rock, mesmo tendo mais projeção do que as bandas que o inspiraram. "É esquisito." Admitiu Steve "Eu ainda gosto destas bandas e pagaria para vê-los tocar, mas eu me sinto estranho em poder encontrar com eles em termos de igualdade como um músico ao invés de fã. Acho que é por isso que o Maiden se relaciona tão bem com os garotos. Eles devem pensar: se eles podem nós também podemos. Isso faz o sonho ficar muito mais perto."

Harris saiu pela tangente quando perguntado porque tanta gente os compara com o Deep Purple: "Eu não sei ao certo. Martin Birch diz que 'Innocent Exile' têm o mesmo feeling de 'Into The Fire'. Ele trabalhou com eles, então ele deve saber." O entrevistador foi mais longe e tocou num ponto sensível: teria Steve copiado o estilo de palco do baixista Pete Way do UFO? "Eu não quis copiar o Pete." Respondeu " mas ele é o único outro baixista que eu posso me lembrar que se comporta no palco como um baixista deveria. Eu sempre pensei que o baixista não deviam ficar ali parados tocando no fundo do palco. Tocar baixo não faz esse efeito em mim - o baixo me faz querer pular o tempo todo."

O Maiden só parou a sua tourné monstro para tocar no Reading Festival, na Inglaterra, o que os fez viajar nada menos que 12000 milhas ida e volta só para um show! mas o festival era importante, tão importante que Bruce admitiu estar "petrificado de medo" só com a expectativa. O equipamento também não ajudou, com nenhum dos músicos conseguindo ouvir o que estavam tocando. Mas foi um sucesso absoluto e serviu para solidificar a fama do Maiden na sua terra natal ainda mais.

Assim que terminaram a turné americana, que incluiu uma apresentação lotada no Madison Square Garden (junto com o Judas Priest), os incansáveis rapazes partiram para a Austrália. Lá foram recebidos como heróis (era a primeira grande banda inglesa a tocar lá desde o Rainbow seis anos antes) e ganharam disco de platina (por The Number Of The Beast, que vendeu nada menos do que 27 vezes mais do que Killers). Depois partiram para o velho conhecido Japão, mais outro disco de ouro, antes de retornarem para casa para um merecidíssimo descanso. Três semanas inteirinhas sem fazer nada antes de uma nova blitz de gravações e shows.

(Obs. É justo contar aqui uma estória engraçada para se conhecer a figura interessante do empresário Smallwood. Bruce e sua namorada Jane chamaram Rod para uma ceia de Natal na sua nova casa. Não contente em chegar tarde, Smallwood comeu o equivalente a três pessoas e depois tirou um baralho para um joguinho de cartas, a dinheiro, com os convidados. Depois de limpar cada centavo de todo mundo, levantou-se dizendo: "Com licença, tenho que ir, tenho um compromisso" e saiu. Pela primeira vez, desde que entrou para o Maiden, Bruce Dickinson ficou sem fala.)

PIECE OF MIND: A CONQUISTA QUE FALTAVA

1983 começou com uma má notícia para os fãs: Clive Burr saía da banda. Ele deu declarações que estava saindo por 'razões pessoais" e que pretendia deixar o mundo artístico permanentemente (Obs. nem tanto. No ano seguinte ele formou o Clive Burr's Scape, que depois passou a se chamar Stratus). Tudo indicava que sua saída foi amigável, chegando a receber o recado de "Boa sorte, companheiro" na capa do Piece Of Mind. Mas não foi bem assim. Somente muitos anos depois é que se soube que Clive havia tido problemas muito parecidos com os de Paul Di'Anno. Na tour americana ele andou exagerando nas festas e nas bebidas e, consequentemente, começou a tocar mal. Depois de avisado várias vezes - e continuar se excedendo - a banda teve a dura tarefa de convidá-lo a se retirar. Tão dura que seu melhor amigo na banda, Adrian Smith, sentiu que seria o próximo e tratou de moderar nas festas. "Eu ainda me divertia muito, mas parei de me "socializar" tanto nos dias de apresentações. Além disso, eu estava cansado de subir no palco com dor de cabeça". Clive Burr até hoje se recusa a falar sobre o assunto. Todos lamentaram a perda de um músico tão talentoso, mas a banda não podia comprometer sua carreira por causa de uma pessoa só.

Encontrar um substituto à altura não era coisa fácil (Burr chegou a ser votado na prestigiosa Kerrang! como o terceiro maior baterista do mundo), mas o Maiden tinha em mente um cara muito bom que tocava na banda francesa Trust. O Trust tinha aberto vários shows do Iron Maiden e resolveram checar sobre aquele inglês.

Para a sorte geral, Michael 'Nicko' McBrain, tinha saído pouco antes do Trust e estava pronto para começar outra. Ele era natural de Londres, bem humorado e tinha muita experiência, tocando bateria desde os 12 anos com inúmeras bandinhas de colégio e algum trabalho de estúdio. Sua primeira banda importante foi o Streetwalker, quando tinha 20 anos, antes de tocar com Pat Travers. Foi Billy Day, do Streetwalker que criou seu apelido quando, caindo de bêbado, errou o nome ao apresentá-lo a um chefão de uma gravadora: Neeko. O nome pegou desde então. (seu apelido original era Nicky, desde criança, por causa de um ursinho de estimação. Ele mudou a grafia para Nicko quando o adotou profissionalmente).

McBrain era um músico mais técnico e com uma pegada mais leve do que Burr, mas também tinha uma energia inesgotável. Fã assumido do Maiden e desempregado, ele não perdeu a oportunidade quando lhe foi oferecida à vaga. Mesmo adorando festas e sendo como ele mesmo admite "O mister excesso em qualquer lugar", nunca deixou que isso afetasse sua performance, o que muito surpreendeu o resto da banda através dos anos. Sua alegria contagiante e sua técnica irrepreensível o fizeram perfeito para dar o show energético que Steve Haris havia desejado para o Maiden. A dupla se transformou numa das cozinhas mais imitadas do Heavy Metal.

Logo no início de janeiro a banda foi para Jersey, uma das ilhas do canal da mancha, para ensaios e composições tendo em vista o que seria o LP Piece Of Mind. A turma se instalou no hotel Le Chalet durante cinco semanas, onde alugaram máquinas de vídeo games, uma mesa de sinuca, outra de tênis de mesa e um jogo de dardos para tornar a vida tolerável naquele lugar frio e cinzento. Steve em geral prefere trabalhar sozinho, na tranquilidade de seu quarto (interessantemente ele costuma escrever suas músicas no baixo, daí resultando aqueles riffs característicos). Já Dickinson e Smith costumavam escrever suas canções na sala de ensaios, com amplificadores no talo. O Maiden sempre escreve tudo e faz os arranjos antes de ir ao estúdio. Nenhuma de suas músicas é feita de última hora.

Martin Birch esteve lá nos últimos dez dias para conhecer o material. Derek Riggs também apareceu para trabalhar a arte da capa. De Jersey a turma se mandou para Nassau, nas Bahamas, para gravarem no Compass Studios. As gravações ocorreram de forma regular embora enfrentassem dois problemas. Um era a constante queda de energia cada vez que chovia. Por pouco as fitas de Piece of Mind não foram apagadas num desses blecautes. Outro era a falta de dinheiro: a banda descobriu que lá os cartões de crédito não eram aceitos. Era difícil obter ordens bancárias, que demoravam demais. Assim, com as últimas cinquenta pratas que dispunham, apelaram para as lendárias habilidades de Rod Smallwood nas cartas para conseguir alguma grana. Os membros da banda contam que durante seis noites em seguida ele foi ao Cassino com 50 dólares e voltava com 300! Seis noites em seguida!

O disco que sairia dessas sessões teria a capa mais elaborada de todas até então: Um Eddie lobotomizado, mas raivoso, arrebentando a camisa de força numa cela acolchoada. A capa abria com uma fantástica foto da banda na mesa, pronta para o jantar (um cérebro, cru, com salada). Todos os rapazes tomando vinho, exceto Harris, fiel à sua cervejinha.

A turma resolveu dar o troco aos fanáticos religiosos americanos mandando mensagens "secretas": na contracapa do LP a citação de um trecho das revelações da Bíblia está alterado, com a palavra brain (cérebro) ao invés de pain (dor). Quase ninguém notou na época (o que prova que esse pessoal religioso não presta a devida atenção). Outra foi gravar uma mensagem de trás para frente (entre The Trooper e Still Life, no lado b), com esperança que os otários religiosos perdessem tempo tentando entender o que queria dizer. De fato, Nicko McBrain era quem falava umas bobagens concluindo com a frase: "Don't Meddle Wid t'ings you don't understand" ( "Não mexam com coisas que vocês não entendem" ). Steve & cia esperavam que muitos desses caras estragassem seus toca-discos forçando-os a tocarem de trás para frente.

Antes do lançamento do LP, marcado para maio, um compacto com a música "Flight Of Icarus" foi lançado. Boa parte dos fãs estranhou: a música era muito "comercial", muito parecida com várias bandas de metal farofa, que começavam a infestar os EUA. É certo que ao vivo ela ficava mais pesada e ganhava alguma vida extra, mas era bem mais 'soft' que todo o material lançado antes em compacto. Foi o primeiro single deles nos Estados Unidos e apesar de ter seu lado comercial, não tocou nas rádios, para variar. Na Inglaterra chegou ao número 11. Talvez por causa dele, o LP entrou no número 3 das paradas inglesas ao invés de ser um número 1.

Piece Of Mind é um excelente disco com algumas canções memoráveis: 'Where Eagles Dare' era um épico com as guitarras propositadamente soando como metralhadoras e, acredite se quiser, levando apenas dois takes para ficar pronta. 'Revelations' seguia a linha de 'Children of The Dammed' e era tão boa quanto 'The Trooper', 'Die With Your Boots On' e 'Still Life' eram brilhantes canções, cheias de energia e maravilhosamente executadas. Apenas 'Sun and Steel' e 'Quest For Fire', meio fracas, não estão à altura das outras, enquanto que 'To Tame A Land', ainda que musicalmente excelente não conseguiu ser muito convincente na letra (sejamos justos: como sintetizar um livro complexo, de mais de 500 páginas, como 'Duna' numa música de pouco mais de 7 minutos?).

Ainda que não tivesse o impacto nem a musicalidade revolucionária do The Number Of The Beast, Piece Of Mind seria o disco que abriria definitivamente as portas do Maiden para os Estados Unidos (Talvez por isso Steve Harris viva dizendo que prefere a ele do que The Number Of The Beast). A revista Circus e outras publicações americanas anotaram como as músicas desse disco eram menos "virulentas" do que as anteriores, o que provava a notável ignorância dos críticos americanos ao material do Maiden desde o princípio.

OS EUA SE RENDEM: HEADLINERS NOS ESTADOS UNIDOS

A 'World Piece 83' Tour começou em 2 de maio na Inglaterra. No final do mesmo mês eles começaram o que seria sua primeira tour pelos Estados Unidos e Canadá como atrações principais. Era um passo audacioso, principalmente se levarmos em conta que as rádios continuavam boicotando o Maiden como sempre. Mais desafiadoramente ainda era o fato de Rod e a banda deixarem para lá lugares menores e partirem logo para estádios. Também já levavam seu próprio equipamento de som, o que facilitava uma qualidade mais regular nos shows.

E, como a fortuna sorri aos audazes, eles conseguiram de novo. Lugares como Seattle, em junho (12.000 lugares), Long Beach (14.000) e San Antonio no Texas (15.000!) tiveram lotação esgotada, provando de vez que o Metal tinha um público muito maior do que se imaginava, e a mídia queria. Nessa primeira fase da tour o Maiden teve como abertura o Fastway, e o Saxon como convidado especial. Depois o Saxon saiu e Coney Hatch assumiu a abertura.

Mas a tour não foi só um sucesso em termos de estádios lotados: Piece Of Mind entraria na parada da Billboard no dia 2 de junho na posição número 127. Em oito semanas, subiria até chegar à 15ª posição. Lá ficaria durante durante 5 semanas chegando a subir mais um ponto, o número 14. Ganharia o disco de ouro depois de dez semanas. O sucesso foi tão grande que trouxe até o 'The Number Of The Beast' de volta às paradas, onde voltou no número 79 e também virou disco de ouro. Ao final desse tour The Number Of The Beast se tornaria disco de platina, tendo ficado nas paradas durante 43 semanas.


O RETORNO DO PODER: POWERSLAVE TRIUNFA!

O Maiden voltaria a Londres no final do ano para umas rápidas férias (e o casamento de Steve Harris no dia 29 de dezembro) antes de encararem o habitual estúdio para escreverem e ensaiarem as novas músicas no estúdio Le Chalet. Depois partiram para Nassau de novo, onde gravariam no Compass Studios e no The Waterloo, sempre com Martin Birch produzindo.

Apesar da capa, mais 'simpática' e menos agressiva de todas até então (o Eddie como o faraó egipcio Ramsés II não convence mesmo. Muito menos assusta), o conteúdo era pura adrenalina. Muita gente esperava que o Maiden fosse suavizar seu som depois de Piece Of Mind, mas não podiam estar mais enganadas. Nada de canções 'fáceis' como 'Flight of Icarus': Powerslave era heavy metal em estado bruto do início ao fim, sendo um bloco de sons de difícil assimilação no início.

Músicas como '2 Minutes To Midnight', 'Aces High' e a faixa-título (realmente impressionante) se tornariam clássicos absolutos, com a banda ainda mais entrosada, coisa que parecia impossível. 'Rime Of The Ancient Mariner' era uma extensão lógica das longas faixas épicas de Steve Harris, mostrando influências do rock progressivo, que iria marcar os futuros trabalhos da banda. Embora o restante do material não conseguisse seguir no mesmo nível (bem mostrado na instrumental 'Losfer Words') 'Powerslave' foi para muitos o ápice da carreira da banda, que ostentava um fôlego criativo muito acima da média de seus contemporâneos.

Foi também o "disco da moda" nos Estados Unidos, onde a banda consolidou de vez sua carreira. Nunca mais deixariam de ser a atração principal, onde quer que se apresentassem. O LP tornou-se o segundo a vender mais de um milhão de cópias por lá, atingindo o décimo segundo lugar na parada da Billbord. Na Inglaterra só não chegou em primeiro por conta de uma coletânea que segurou-os no segundo posto.

O disco chegou em boa hora, já que muitos críticos insistiam em dizer que o Metal tinha se esgotado e já dera tudo que podia no início da década. Numa época em que a guerra fria havia voltado com toda a força e o conservadorismo da chamada 'era Reagan' imperavam, o anticonformismo e as letras críticas do Heavy Metal não eram bem vindas de jeito nenhum. Já haviam começado as infames campanhas pela 'moralização' das artes em geral e da música em particular. O Iron viria provar que o Metal continuava vivo e bem. Ignorando os conservadores e fanáticos religiosos, se lançaram à sua mais nova tour pelo mundo.

E a 'World Slavery Tour' seria ainda mais longa que as antecedentes: 300 apresentações em 325 dias, abarcando 28 países no processo. Poucas, muito poucas bandas tão bem sucedidas aguentariam e manteriam a qualidade de som num período tão longo e estafante. Para a sorte dos brasileiros, o grupo concordou em se apresentar no Rock In Rio, apesar do Brasil não estar no programa inicial. Assim, nós sortudos tivemos a chance de ver a banda no auge, ainda que por apenas um show.

SEM PAUSA PARA RESPIRAR

Por melhor que tenha sido a recepção do novo disco e a enorme demanda de ingressos para ver "a última novidade" (nos Estados Unidos), esta quase foi a tour que acabou com o Maiden. Bruce Dickinson sintetizou muito bem o sentimento geral com uma frase: "Esta foi a nossa melhor tour e a nossa pior tour. Quase que nós terminamos de vez”.

A banda foi para a estrada levando um cenário ao mesmo tempo simples e impressionante, que ganhou a aprovação geral da banda, pois servia para qualquer ambiente. Os próprios membros do Maiden consideram que foi o cenário mais bem sucedido deles até hoje e quem viu o sensacional vídeo "Live After Death" (dirigido com rara competência por Jim Yukich) pode conferir. Os shows foram um 'must' para o verão de 1985, onde a banda desfrutava uma fama sem precedentes nos EUA. Todo mundo parecia querer ver a "última moda". Powerslave tornou-se o disco que todo mundo tinha, mesmo que nunca comprassem outro LP do Maiden, como Bruce comentou tão acertadamente. Com isso a demanda para shows extras aumentou de forma assustadora, obrigando a banda a aguentar um esquema ainda mais pesado do que vinham enfrentando até então.

O número de apresentações foi crescendo tanto que Bruce teve que, literalmente, chegar até Rod e ordenar que parassem ou "eu teria pulado fora. Eu acho que foi a primeira vez que eu realmente pensei em cair fora - e não digo só do Iron Maiden, mas desistir até da carreira musical. No final daquela tour eu estava me sentindo como se fosse só uma parte da maquinaria, assim como os fios do equipamento de luz."

Adrian Smith confirma a dureza: "Parecia que ia continuar para sempre... seis meses, tudo bem... nove meses, tudo bem. E então era estendida. (...) Você perdia o ano inteiro, perdia contato com as pessoas... eu me lembro de quando eu fui visitar meus pais quando voltamos para a Inglaterra e eu bati na porta errada! Sério!"

Até mesmo os incansáveis Nicko McBrain e Steve Haris acharam que a coisa estava fora de controle e deram um basta para Rod Smallwood que, sendo um ex-agente, parecia achar que estava mantendo todo mundo feliz enchendo a agenda com novos compromissos.

Da tour resultou o primeiro 'verdadeiro' álbum ao vivo do Maiden: "Live After Death". Um impressionante álbum duplo gravado no Long Beach Arena, durante duas noites das quatro em que tocaram por lá durante a World Slavery tour. Ao contrário da maioria dos discos ao vivo, esse não possuía nenhuma regravação ou melhoria feita em estúdio, como é de costume. Foi gravado quase todo direto num único show, o que o torna ainda mais raro. "Nós queríamos um verdadeiro disco ao vivo, porque é isso que somos, afinal de contas. Uma banda ao vivo." Disse Steve Harris na época. Até mesmo o vídeo foi todo filmado usando apenas dois shows, sendo que apenas umas poucas partes do segundo foi usado na edição final, a fim de que o público tivesse uma boa idéia do que seria uma apresentação verdadeira da banda.

O sucesso tanto do álbum (o terceiro a virar disco de ouro em seguida nos EUA) quanto do vídeo, deu o necessário descanso para que a banda se recuperasse da estafante maratona. Mas os efeitos dessa loucura continuariam a afetar a banda por muito tempo ainda no futuro, atingindo principalmente Bruce Dickinson.

CAUGHT SOMEWHERE IN TIME

A pausa que deveria durar seis meses acabou sendo de apenas quatro. Logo a banda estava preparando material para gravar seu sexto álbum de estúdio. O disco mostraria bem a divisão em que a banda se encontrava internamente: enquanto Steve, Adrian e Dave se atiravam de cabeça na mais avançada tecnologia das novas guitarras sintetizadas, Bruce estava interessado em fazer algo mais acústico. Suas composições acabaram rejeitadas pelos outros, embora neguem que fosse pelo fato de serem acústicas. Para piorar a situação, Adrian Smith voltou a escrever suas próprias letras durante as férias. O resultado foi que nenhuma composição de Dickinson entrou no novo disco. Adrian também teve uma música sua, Reach Out, ejetada do álbum por ser muito pop ("parecia Bryan Adams" comentou Martin Birch), sendo aproveitada apenas como lado b de um compacto.

Somewhere in Time foi o disco mais caro que a banda já tinha gravado até então. Baixo e bateria foram gravados em Nassau, guitarras e vocais na Holanda e a mixagem final foi feita em Nova York. Tudo feito sem pressa e com muito cuidado, com a preciosa ajuda de Martin Birch, claro. O resultado foi um disco espetacular, com grandes clássicos do Maiden, como Heaven Can Wait, a faixa-título, e Wasted Years, enquanto Alexander the Great continuava a linha de grandes épicos de Steve Harris. A levada de baixo meio funk de Stranger In A Strange Land era outra surpresa. A capa também é uma obra-prima e revela muito do conteúdo do disco: num cenário futurístico, bem à Blade Runner, um Eddie meio máquina, meio humano, liquida um adversário usando armas de raios, enquanto a banda os observa ao longe.

A recepção do novo trabalho não foi unânime: a crítica se dividiu, uns elogiando a audácia dos músicos e sua tentativa de estender os horizontes do Heavy Metal, outros execrando a "sofisticação excessiva" do disco. Comercialmente, no entanto, foi o LP mais vendido até então, tendo ultrapassado a barreira dos dois milhões de cópias só nos Estados Unidos (alcançou o número 3 nas paradas britânicas). A tour que se seguiu também foi altamente bem sucedida, além de cuidadosamente planejada e, graças a isso, muito menos stressante que a anterior. Ainda assim, Bruce não engoliu totalmente a rejeição de suas composições, embora tivesse escondido bem seus sentimentos na época.

TEMPOS RADICAIS: SEVENTH SON OF A SEVENTH SON

O sétimo álbum do Iron Maiden foi, ao mesmo tempo, um triunfo e uma polêmica. Deve-se apontar aqui que os tempos haviam mudado muito em relação ao Metal. Depois do sucesso imensas a partir do início dos anos 80, muitas bandas que pouco ou nada tinham a ver com o estilo passaram a ser chamadas de metal apenas para aproveitar a moda. Assim, grupos "fabricados" ganhavam a mídia, em geral fazendo um som mais comercial, com letras mais leves e visual mais colorido ( as famosas bandas "farofas" ) . A reação do verdadeiro Metal foi radicalizar totalmente, com bandas de Black Metal, Speed Metal e Thrash. Qualquer um que não fizesse um som rápido, violento e cru era tido como vendido. O som do novo Metal fazia a música do Maiden parecer, como o próprio Steve Harris comentou, "quase comercial".

Nada mais injusto. O novo disco, Seventh Son Of A Seventh Son, era ainda mais sofisticado do que Somewhere In Time, com o uso extensivo de teclados na maioria das faixas. Era pesado e melódico como tudo que o Iron Maiden havia feito antes, mas as influências de rock progressivo (o primeiro amor de Steve Harris quando começou a gostar de música) ficaram mais evidentes. Na época muita gente pensava que o uso de teclados era um pecado imperdoável para uma banda de Metal. Na verdade o Iron Maiden esta um pouco à frente do seu tempo e o disco antecipava a rica combinação de Progressivo com Metal, que geraria tantas bandas importantes nos anos 90.

Gravado na Alemanha, no Musicland Studios, entre fevereiro e março de 1988, o disco seria o primeiro desde The Number Of the Beast, a atingir o primeiro posto da parada britânica. Apesar de toda a polêmica por causa do novo som, foi também dele que saíram os compactos mais bem sucedidos da carreira do Maiden, sendo que um deles, Can I Play With Madness, chegou ao terceiro posto da parada e, mais incrível ainda, lá ficou por três semanas. Foi o LP que mais vendeu na discografia do Maiden em termos mundiais. Só nos Estados Unidos o disco vendeu menos ("apenas" 1,2 milhões de cópias). Steve Harris têm frequentemente comentado ser este um de seus discos favoritos. De fato, ele possui um belo número de grandes músicas como a Infinite Dreams, The Clairvoyant e The Evil That Men Do (as duas últimas também chegaram ao top ten da parada inglesa). O disco quase todo falava sobre a vida após a morte e temas espirituais, mas os membros garantem que, assim como Somewhere... tinha uma temática sobre o tempo, tudo não passou de coincidência, que nada foi planejado.

A tour que se seguiu foi igualmente bem planejada e mais calma (mas ainda assim carregada: 25 países em 7 meses). Steve Harris, casado e então pai de duas meninas até deu um jeito de carregar a família a partir dessa excursão. Também foi a primeira vez que tiveram um músico de fora dando força, o tecladista Michael Kenney. Kenney, um americano, na realidade era um velho conhecido da banda tendo sido contratado por Steve Harris desde 1979 como o técnico responsável por seu equipamento. No palco ganhou o apelido de The Count (O Conde), por conta de uma ridícula capa escura que usava nas apresentações.

Surpreendentemente, começaram a tour nos Estados Unidos para depois irem para a Inglaterra. Isso porque a banda estava orgulhosa de ser a atração principal no maior festival de rock do mundo o Castle Donnington (que havia superado em prestígio o até então inabalável Reading Festival). Tocaram encerrando a noite depois de Kiss, David Lee Roth, Megadeth, Guns N'Roses e Helloween. Foi uma noite apoteótica: Por quase duas horas 100.000 fãs cantaram com o Maiden seus maiores clássicos (o maior público já registrado no evento, antes ou depois daquela noite), ficaram encantados com a chuva de fogos de artifício no final e continuaram pulando e aplaudindo uma boa meia hora depois que o Iron deixou o palco. Infelizmente a banda ficou arrasada ao saber que dois fãs haviam morrido sufocados na lama depois de uma forte chuva durante a apresentação do Guns. A imprensa sensacionalista se aproveitou disso: futuros festivais foram muito cerceados e tiveram um limite fixo de público determinado pelas autoridades.

Mesmo abalados, os membros do Maiden deram prosseguimento à tour britânica, que deu muito certo. Tão certo que um dos shows, gravado no NEC de Birmingham, virou um dos melhores vídeos de rock de toda a história, o Maiden In England. Steve co-dirigiu e editou o vídeo, que foi aclamado por críticos e fãs como ainda melhor do que o clássico Live After Death. Foi também uma das fitas de vídeo mais vendidas no ano de 1989. O que ninguém sabia era que aqueles shows na Inglaterra seriam os últimos com Adrian Smith.

PROJETOS PARALELOS

Oficialmente, 1989 era para ser um ano de "folga" para as atividades da banda, mas os eventos acabaram modificando esta expectativa. Steve Harris se trancou em estúdio para fazer a edição do que viria a ser o vídeo de Maiden In England, enquanto Dave Murray cuidava de arranjar residência no Havaí, com sua mulher Tamara. Nicko McBrain então resolveu fazer umas jams com Adrian Smith. Estas jams evoluíram para algumas pequenas apresentações com músicos convidados em bares locais. Depois Adrian resolveu aproveitar músicas suas que não seriam gravadas pelo Maiden para lançar seu próprio projeto solo chamado ASAP (as inicias de Adrian Smith Album Project).

A idéia foi aprovada por Rod Smallwood que via com bons olhos o plano de promover um membro do Iron nos Estados Unidos e assim conseguir alguma publicidade extra para o grupo. Mas, apesar de ter conseguido até mesmo um grande adiantamento da EMI, o disco foi um fracasso total. Nem uma série de entrevistas, nem uma pequena tour promocional (com o filho de Ringo Starr, Zak, substituindo Nicko) conseguiram atrair interesse. "Aquele material não era pesado o suficiente para fãs do Metal." Explicou o guitarrista "E o fato de eu pertencer ao Maiden não me ajudou a entrar em outros mercados."

Já a tentativa solo de Bruce Dickinson teria outro caminho e mudaria os rumos da banda dali em diante. Tudo aconteceu meio por acaso quando Rod estava procurando alguém para escrever o tema do filme Nightmare On Elm Street - part 5 e perguntou a Bruce se ele tinha alguma coisa. Bruce mentiu dizendo que sim, achando que isso seria uma boa oportunidade para dar uma força a um amigo seu que andava sem emprego e deprimido: um guitarrista descendente de poloneses chamado Janick Gers.

Janick já havia tocado com o antigo vocalista do Deep Purple, Ian Gillan, mas estava sem trabalho há bastante tempo e pensando em desistir da música para voltar a estudar. Bruce o conhecia de longa data e admirava seu talento. Ambos se encontraram pela primeira vez quando Bruce cantava no Samson e Gers era guitarrista da boa banda White Spirit. Bruce achava que era um desperdício alguém como Gers ficar parado e o chamou para fazerem uma pequena apresentação ao vivo no Prince Trust, em 1988. Em seguida mostrou-lhe o novo tema para o filme. Janick ajudou a acabar a música e ela foi aprovada para a película: a canção chamava-se Bring Your Daughter To the Slaughter.

A gravadora gostou tanto da música que sugeriu fazerem um álbum com material parecido. Bruce achou boa a idéia de fazer algo diferente do Maiden e topou na hora, embora não tivesse nenhuma outra coisa pronta. Em duas semanas fizeram tudo ("as duas semanas mais rápidas da minha vida" diria Janick): entre originais e covers, Tatooed Millionaire, foi lançado e provou que Bruce podia viver sem o Maiden. O cover de David Bowie "All The Young Dudes" chegou ao top 20 da Inglaterra. Bruce conseguiu mesmo arranjar uma mini-tour de quatro semanas nos Estados Unidos com Gers, mais o baixista Andy Carr e o baterista Fabio Del Rio. Não tocaram nenhuma música do Maiden, preferindo outras covers como 'Black Night' do Deep Purple e 'Sin City' (AC/DC).

Curiosamente, a música que iniciou todo esse processo não está incluída em Tattoed Millionaire. Quando Steve Harris ouviu a gravação gostou tanto que tratou de convencer Bruce a incluí-la no disco seguinte do Maiden. Bruce naturalmente ficou com o ego massageado e topou. Apenas a versão americana do disco do filme incluiu uma versão solo (com Janick Gers) de Bring Your Daughter to The Slaughter.


MUDANÇAS RADICAIS O disco seguinte seria gravado na Inglaterra (o primeiro desde The Number Of the Beast), usando o estúdio móvel pertencente aos Rolling Stones, instalada num galpão ao lado da mansão de Steve Harris, em Sussex, no início de 1990. Antes que as gravações começassem, no entanto, aconteceu outra baixa no Maiden e das mais sérias: Steve Harris conta que a banda questionou Adrian Smith, dizendo que ele não parecia feliz em estar no grupo. Adrian confirma que estava chateado com a idéia de gravarem um disco "de volta às bases" ao invés do material mais sofisticado que andavam fazendo nos dois discos anteriores. Também tinha gostado de ter completo controle no seu projeto solo, de voltar a cantar e compor todo o material. Sentindo que não estava 110% integrado no grupo (um pecado para Steve Harris e que já havia custado o mesmo posto à Dennis Stratton), banda e guitarrista acharam melhor não começarem disco e tour nesse clima. Adrian estava fora. Apenas uma música de Smith entraria no novo disco (a diferente Hooks In You). Como as gravações iam começar logo, Bruce Dickinson sugeriu o nome de Janick Gers para o posto vago. Janick foi chamado, fez uma audição relâmpago (onde tocaram The Trooper, Iron Maiden e The Prisioner) e deu tão certo que Steve Harris declarou que ele estava aceito e que as gravações começariam no dia seguinte. Gers ficou pasmo, mas era verdade. No dia seguinte começariam a gravar o novo disco do Maiden, intitulado No Prayer For The Dying. Martin Birch estava produzindo novamente, mas o resultado foi bem diferente. Gravado rápido e sem usar a vasta tecnologia dos dois anteriores, No Prayer For The Dying, soa como uma demo bem produzida. O grupo tentou fazer o som sair mais ao vivo possível, como se fosse num show. As críticas variavam muito, alguns gostando outros detestando, mas muito poucos adorando. Sem dúvida houve uma grande perda com a saída do elegante estilo de Adrian Smith e sem tempo de Gers se adaptar devidamente. Ainda assim o disco tinha seus momentos, com Steve Harris escrevendo algumas de suas melhores letras. O lado progressivo também não ficou totalmente de fora em canções como a faixa-título e Mother Russia. Outro destaque foi a hard rock esperto Holy Smoke (com a letra descendo o pau nos pregadores televisivos), que chegou ao top 10 das paradas inglesas em setembro de 1990. A grande surpresa, no entanto, foi Bring Your Daughter to The Slaughter: seria o primeiro compacto da carreira do Maiden a atingir o primeiro posto na Inglaterra, apesar da letra algo pesada com seu humor negro de filmes de terror. Fato ainda mais extraordinário se levarmos em conta que a rádio estatal inglesa, BBC, se recusava a tocar o disco em horários "familiares". Lançado no dia primeiro de outubro de 1990, o novo disco alcançou o segundo posto da parada inglesa e se deu bem no resto do mundo, exceto nos Estados Unidos, onde, apesar de ganhar disco de ouro, vendeu apenas 500.000 cópias (uma queda considerável se levarmos em conta os cinco discos de platina consecutivos anteriores). Os americanos andavam, como se veria, recusando tudo que representavam os anos 80 em troca de um som mais largadão, produzido basicamente em Seattle: o Grunge. A banda iniciou nova tour, com um palco mais simples e básico, seguindo a nova filosofia contida no disco. A boa surpresa para os fãs foi ver que Janick Gers era um animal no palco, animadíssimo. Isso acabou contagiando o resto da banda e até o tímido Dave Murray. Mas o maior desafio que a banda iria enfrentar em sua carreira ainda estava para acontecer.

FEAR OF THE DARK

Os anos 90 não foram bons para a turma que fez a fama na década anterior. O cenário Heavy Metal estava sendo tomado pelas bandas thrash (Metallica, Slayer, Megadeth, etc.) e a moda do som Grunge (Nirvana, Perl Jam, Soundgarden) atingia não só os Estados Unidos, mas boa parte do mundo. O hard rock e o metal tradicional começaram a ser encarados como "coisa ultrapassada". Ricos e famosos, o pessoal do Maiden podia ter simplesmente pendurado as chuteiras e viver de renda. Ao invés disso encaram as mudanças e foram em frente. Lançaram Fear Of The Dark, em maio de 1992. Bem mais entrosados com Gers agora e com uma nova fornada de canções fortes, o novo disco estreou no posto número um da parada britânica (a terceira vez que a banda conseguia este feito). Pouco antes o potencial do novo disco era mostrado com o sucesso de um single rápido e pesado: Be Quick Or Be Dead (chegou ao número dois das paradas). Para os fãs de longa data a novidade inicial era a capa: a primeira sem Derek Riggs. A banda estava achando que o Eddie precisava ser renovado e por isso escolheram o desconhecido Melvyn Grant para o trabalho. O resultado foi algo muito parecido com as anteriores, mas sem o humor nem a classe de Riggs. "Era apenas nossa tentativa de fazer algo novo" Diz hoje Harris dando os ombros. O disco no entanto continha um bom material: doze faixas inéditas gravadas no novo estúdio de Steve Harris, instalado em sua casa de Sussex. Com a nova tecnologia de CDs o grupo resolveu aumentar no número de músicas. O resultado foi consideravelmente superior ao No Prayer For The Dying, com músicas certeiras como Be Quick Or Be Dead, a épica faixa título, a balançante From Here To Eternity e até uma balada, Wasting Love. Havia um pouco de tudo no disco e parecia que o Maiden havia se acertado afinal na nova década. Só parecia. Para um bom observador a letra de Wasting Love começava com uma frase que parecia dizer como andava o espírito de Bruce: "Talvez algum dia eu me torne um homem honesto / Até agora eu estou fazendo o melhor que posso..." A tourné promocional de Fear Of The Dark começou na Escandinávia , em maio, e continuou por boa parte do verão europeu, sendo que muitos shows foram gravados já que a banda teve a idéia de lançar um disco ao vivo no meio da tour. Um dos melhores momentos que tiveram foi quando se tornaram pela segunda vez a atração principal do festival do Donnington Castle. Embora com menos estrelas que em 88 (Skid Row, Sepultura e Thunder), o Maiden surpreendeu a todos com um show ainda melhor do que aquele. Todo ele foi filmado para um disco ao vivo e vídeo para serem lançados no ano seguinte. O público era menor e mais controlado, devido aos tristes acontecimentos da vez anterior, mas a animação foi total e o sucesso imenso. Mas havia pelo menos uma pessoa na platéia estranhando aquilo tudo: Adrian Smith. "Me senti esquisito vendo a banda tocar músicas que eu escrevi e participei." comentou Adrian. O pessoal do Iron no entanto o chamou para a última música e tocaram juntos "Running Free". Pouca gente então podia acreditar ou sonhar que aquela formação completa, com três guitarras, iria se reunir de forma permanente muitos anos depois. Infelizmente o vídeo Iron Maiden At The Donington Castle, que apareceria tempos depois com a espetacular apresentação, seria o pior de toda a filmoteca do Maiden: cheio de efeitos esquisitos, muitíssimo mal dirigido, câmeras que corriam de um lado para o outro , não parecendo saber o que filmar, cores entrando e saindo como se o videocassete estivesse defeituoso. Lamentável. primeira parte da tour terminou no dia 4 de novembro, no Japão. A idéia era tirar dois meses de férias, durante os quais Steve Harris cuidaria de fazer a mixagem do disco ao vivo e lançá-lo a tempo de pegar a segunda parte das apresentações, no ano-novo.

INSATISFAÇÕES INTERNAS

Apesar do sucesso de Fear Of the Dark e do triunfo no Donington Castle. Bruce não andava feliz da vida: "Eu estava entediado e desesperado para fazer alguma coisa diferente" e se ressentia de "ter que me adaptar sempre aos moldes do Maiden". A situação não melhorou nada com as férias forçadas por conta do trabalho de mixagem de Steve Harris. Bruce já tinha começado suas atividades extra Maiden há algum tempo, lançando dois livros de ficção, praticando esgrima com dedicação e trabalhando ocasionalmente em Rádio e TV como apresentador. Quando durante o intervalo da tour recebeu um convite da Sony Music para fazer uma continuação de Tatooed Millionaire, não foi preciso que pedissem duas vezes. Fez algumas gravações na Inglaterra com os membros do grupo Skin atuando como acompanhantes, mas achou que não ficaram boas. Bruce então se mandou para os EUA, indo trabalhar com o produtor Keith Olsen, nas demos do que seria seu segundo disco solo, Balls to Picasso. Segundo o próprio, Bruce andava decidido a fazer um disco diferente, explorar novos sons e se arriscar mais. Depois que começou as gravações percebeu que suas idéias estavam indo para muito longe de tudo que fazia no Maiden. Uma das faixas que gravou nessas sessões "Original Sin", que falava sobre seu relacionamento com seu pai, se tornou um momento de decisão para ele. Vendo que não poderia dar tudo o que tinha no Maiden (e que este não iria mudar o seu som por sua causa), achou que era hora de sair. Mesmo sabendo que era um tremendo risco tanto financeiro quanto artístico, Bruce resolveu seguir seu caminho. Depois de muito pensar, contou a novidade para Rod Smallwood, que tinha ido visitá-lo em Los Angeles. Rod decidiu que ele daria a notícia aos outros. Embora a decisão estivesse tomada, Bruce e a banda se viram numa situação difícil: e o resto da tour? Praticamente todos os ingressos já estavam vendidos, as datas marcadas, locais alugados, etc. Deveriam cancelar tudo e decepcionar os fãs? Segundo Steve Harris a proposta era de que Bruce daria tudo na tour, sem problemas, se eles quisessem honrar os compromissos. Embora a saída do vocalista não tivesse pego Steve totalmente de surpresa, a hora não poderia ser pior: Steve estava passando por um processo de divórcio e andava muito deprimido. Chegou mesmo a pensar em desistir de tudo e encerrar a carreira e banda quando soube da novidade sobre o vocalista. Mas recebeu muito apoio do resto do grupo, especialmente de Dave Murray, que segurou as pontas e o encorajou a continuar. "Mas, mesmo assim, eu falei: como fazer a tour e olhar nos olhos do público, quando eles sabem que há uma pessoa ali que não gostaria de estar ali?" Relembra Steve. Rod garantiu: 'Ele disse que quer fazer a tour, vai dar tudo por ela e que deixará a banda no final. E que será um bom encerramento." Steve acabou concordando mas, como ele próprio diria mais tarde: "Claro que hoje eu me arrependo disso." O restante da tour foi um período difícil para todos, para dizer o mínimo: houve muita polêmica sobre as atuações de Bruce. Segundo o pessoal do Maiden (menos Janick Gers) e várias testemunhas, Bruce estaria se esforçando apenas em shows mais importantes, sendo que algumas vezes nem cantava direito, simplesmente ruminando ao microfone. O tour manager Dickie Bell se lembra: "Quando ele estava bem, ele era muito, muito bom. Mas quando ele estava mal, ele era horrível. Ele nem se importava em cantar algumas partes, tanto quanto eu pude perceber. Bruce era sempre o último a chegar para o show e o último a deixar o camarim para ir para o palco, o que, pela minha experiência, era sempre um mal sinal. Eu comecei a achar, simplesmente, que a hora tinha chegado para ele sair. Ficar por ali não estava fazendo bem a ninguém." Bruce nega tudo, embora admita que ficou numa posição difícil, como frontman. "Eu não iria colocar uma máscara de cara feliz. Provavelmente eu fui ingênuo em ter me colocado naquela situação, mas eu estava tentando. Eu tentei o melhor de mim mas eu vi que não dava para ser a mesma coisa. Em algumas noites, por mais que eu tentasse, realmente não dava. Um concerto de rock deveria ser uma celebração e não um velório."O clima ficou tenso, com o profissionalíssimo, Harris louco para torcer o pescoço de Bruce e o resto da banda ressentida com todo o affair. Assim sendo, todo mundo ficou aliviado quando a tour finalmente acabou. A última apresentação do cantor com a banda seria num especial para TV, Raising Hell (que depois viraria vídeo), com a presença do mágico performático Simon Drake, em agosto de 1993. A presença do teatral Drake deu um sabor diferente, sem dúvida, mas a performance em geral deixou muito a desejar (é óbvia a divisão entre Bruce e os demais. Ele só se arrisca a brincar com Janick Gers). Apesar de uma estupenda versão de Transylvania, de todos os truques de ilusionismo e do humor negro do convidado especial, é um vídeo melancólico e não acrescentou muito na carreira da banda. Naturalmente lidar com a imprensa não foi fácil: antes de começar a segunda parte da tour, uma coletiva anunciou a separação usando o velho termo de "diferenças musicais". Depois que acabou a excursão e Bruce saiu, começou a esperada troca de farpas, com o vocalista tentando se afastar o máximo possível da sombra do Maiden. Mas nada do que foi dito, ou justificado, retirou a impressão (muito incômoda para ambas as partes) de que eram perfeitos um para o outro. Bruce mesmo deixaria escapar numa entrevista: "Eu acho que basicamente as coisas se desgastam depois de um tempo, especialmente dentro de uma banda. Quero dizer, ficamos juntos 12 anos e eu penso que algumas vezes eu deveria ter saído em 1986, antes de Somewhere In Time, sabe? Mas isso agora é passado."

NOVO VOCALISTA?

No meio de toda a confusão com a saída de Bruce Dickinson da banda a boa notícia foi a chegada de dois discos ao vivo (ambos da primeira parte da tourné Fear Of The Dark): A Real Live One (com músicas da fase pós 1985) foi lançado em 22 de março de 1993, e A Real Dead One que seguiu em 18 de outubro do mesmo ano (com material mais antigo). Dos dois o primeiro é, de longe, o melhor, pois pegou muito bem a fase pós Powerslave e tem algumas interpretações muito inspiradas. O segundo deixou a desejar: Bruce Dickinson e a banda estão longe de conseguir performances tão boas quanto Live After Death. Mas ambos se deram bem nas paradas, os dois atingindo o top 10 da Inglaterra. (na versão mais recente da discografia do Maiden os dois foram juntados num CD duplo).

A maior novidade desta fase foi a notada ausência do produtor Martin Birch. Birch, depois de 25 anos produzindo disco após disco, achou que estava na hora de se retirar de cena como um todo, e não só do Maiden. "Eu já tinha tomado a minha decisão na época da saída de Bruce, e uma coisa nada tinha a ver com a outra." comentou ele "De fato, já no Fear Of The Dark eu fiquei pensando que talvez fosse a hora de uma mudança de produtor para eles. Mas uma vez que eu comecei o trabalho, eu mergulhei de cabeça nele. Eu adorei cada minuto e acho que ficou um álbum muito bom." Mas assim que terminou o trabalho, Martin perguntou a Steve Harris se não estava na hora de mudarem. Na verdade Martin já queria parar completamente: "Naquele ponto, eu achava que já tinha tido o bastante de produzir discos. E pouco depois parei de trabalhar na área. Eu senti que se eu não queria ir para o estúdio, então não seria justo para eles eu ficar forçando. Eu não queria dar menos do que 100% para Steve e o Maiden. Nós fizemos álbuns durante anos juntos, mas chega uma época em que você tem que seguir outro caminho."

Steve Harris andava trabalhando muito no estúdio em anos recentes e havia aprendido bastante com o mestre. Nada mais natural que ele assumisse a nova função, com a ajuda de um fiel escudeiro, o engenheiro de som Nigel Green (que vinha trabalhando a anos nos discos do Maiden). Harris confirma: "Martin queria se aposentar e fazer suas próprias coisas e jogar golf. Eu já estava basicamente co-produzindo os dois últimos discos do Maiden com Martin, então eu sabia onde eu estava entrando. Foi um crescimento natural, mesmo."

Mas o problema mais sério continuava: como substituir alguém como Dickinson, alguém que tinha se tornado tão lendário quanto seus heróis Ian Gillan ou Ronnie James Dio? A banda anunciou que estava procurando um novo cantor e foi, literalmente, inundada de fitas, vídeos e CDs de candidatos de todo o mundo. Steve Harris garante que ouviu todo o material, mas já estava de olho num vocalista desde o princípio. Um cara que cantava numa banda de Birmingham, que havia aberto alguns shows do Maiden na Inglaterra em 1990, chamada Wolfsbane.

Blaze Bayley (nome verdadeiro: Bayley Cook) já tinha sido convidado a fazer um teste logo depois da saída de Bruce, mas ele recusou inicialmente ao convite, já que sua banda tinha sua própria tour agendada e um disco ao vivo para ser lançado. Blaze agradeceu dizendo que estava lisongeado com a oferta. Steve entendeu perfeitamente: ele muito apreciava pessoas leais às suas bandas. Mas Blaze logo se arrependeu, sentindo que o Wolfsbane nunca seria um grande sucesso (já tinham lançado quatro álbuns, um EP e alguns singles), conseguindo sempre boas críticas, mas pouca vendagem. A gota d'água aconteceria com o novo disco de estúdio, onde o Wolfsbane estava se afastando do Heavy Metal e Blaze sentiu que "não havia mais lugar para uma voz do meu tipo." Ligou então para Steve para saber se ainda procuravam um novo cantor.

Naquelas alturas o Iron só tinha um outro candidato: um cantor novo muito bom chamado Dougie White. A banda resolveu deixar que ambos cantassem duas músicas do Maiden com a voz de Bruce retirada para ver como se saíam. Apesar de Dougie ter uma voz muitíssimo mais privilegiada e ser mais técnico, ficaram com Blaze. Uma das decisões mais polêmicas (ou desastrosas, dependendo do ponto de vista) da história do Metal. White mais tarde entrou para o Rainbow e quem quer que tenha ouvido o disco que ele gravou com o grupo de Ritchie Blackmore, Stranger In Us All, deve ter se perguntado se o pessoal do Maiden realmente tinha se dado ao trabalho de ouvi-lo cantar .

DISCO INTROSPECTIVO E CRÍTICAS

Blaze foi anunciado oficialmente como membro do Iron Maiden em janeiro de 1994. E logo partiram para a produção do novo disco, a ser chamado The X Factor. As gravações ocorreram no estúdio da casa de Steve Harris, agora ainda mais bem equipado e batizado como "The Barnyard" "o celeiro" . O CD seria lançado em outubro de 1995, sob muitas expectativas. Depois de um ano dando duro no trabalho, a banda ficou bastante confusa e magoada com a chuva de críticas que o disco recebeu assim que foi posto no mercado.

Harris particularmente o considerava um dos "três melhores trabalhos da banda - os outros dois seriam Piece Of Mind e Seventh Son of A Seventh Son". No entanto, desde Killers que a imprensa do Metal não malhava tanto o Maiden. E isso incluía críticos que eram fãs do Maiden, como David Ling, que não pouparam o disco, mesmo três anos depois: "Pessoalmente eu achei o CD um grande erro. E eu ainda acho isso." Apenas na França e na Alemanha, onde o disco ganharia prêmios de Álbum do Ano, as opiniões foram melhores.

The X Factor é, sem dúvida, o disco mais sério e "adulto" do Maiden. Não há estorinhas de terror nem ficção científica, muito menos bom humor. Da capa até a última faixa, tudo reflete o momento difícil que passava a banda, especialmente Steve Harris. Ainda abatido pelo doloroso divórcio de sua mulher Lorraine, que tinha sido sua namorada desde a adolescência, e com quatro filhos pequenos para cuidar, Steve não se sentia nada à vontade para escrever canções animadas. "Foi provavelmente o período mais difícil que tive que encarar na minha vida." Admitiu ele mais tarde. "Não fosse pelo Dave (Murray) e os outros rapazes da banda terem me dado tanta força eu não sei se teria me recuperado".

Assim sendo não é nenhuma surpresa que as músicas do principal compositor tenham saído algo amargas, muito pessoais e introspectivas. Era um disco mais para si mesmo, para poder exorcizar seus demônios. Mesmo as músicas em parceria com Blaze ou Gers pareciam "contaminadas" pelo mesmo tom. Em Judgement of Heaven a letra não podia ser mais explícita: "Senti vontade me suicidar uma dúzia de vezes ou mais / mas este é o caminho fácil, o caminho do egoísta / a parte mais difícil é levar sua vida adiante". A parte musical seguiu o clima das letras, sendo que muito raramente se via toda a força explosiva do Maiden. Visto por este ângulo não é também de surpreender que o primeiro single lançado para promover o CD tenha sido a única música que Steve não escreveu ou co-escreveu no disco: Man On The Edge (De Gers e Bayley), a mais "pra cima" (musicalmente) de todo o X Factor.

O single se deu bem nas paradas, chegando ao décimo posto e permitindo a volta do Maiden ao Top Of The Pops. A banda, mais flexível, até aceitou fazer mímica para o playback (só Blaze cantou ao vivo). Mas o álbum não foi tão bem, chegando apenas ao oitavo posto, o primeiro desde Killers a não chegar no top cinco. A banda ficou chateada, claro (exceto Blaze, que nunca tinha ido tão longe em sua carreira até então). Mas Rod Smallwood mesmo admitiu que o disco era "muito sombrio" para ser um sucesso popular. Steve insiste que, pelo menos para ele, o disco é um dos seus melhores: "eu gosto que ele leve mais tempo para você se acostumar. Os melhores discos geralmente são assim." De fato, X Factor têm sido reconsiderado por muitos críticos com o passar dos anos. Mas na época pegou mal.

O Iron Maiden sempre gostou de tocar em lugares diferentes e abrir novos horizontes. E, claro, acharam que seria bom começarem a primeira tour com Blaze indo para onde nunca tinham tocado antes, a fim de que o novo vocalista pudesse ir se acostumando: até então Bayley nunca tinha feito tournés com mais de três semanas de duração. E o Wolfsbane só tinha tocado dentro da Inglaterra. Assim sendo a banda começou a tour com três shows em Israel, três na África do Sul, antes de seguirem para o leste europeu, tocando na Bulgária, Eslovênia, Romênia e Tchecoslováquia. A tour começou no dia 28 de setembro de 1995 e terminou quase um ano depois, em 7 de setembro de 1996, abarcando meio mundo e tocando inclusive no Brasil, onde a banda pode lotar o estádio Pacaembu em São Paulo. O Iron adorou: enquanto que nos Estados Unidos eles ficaram em lugares menores, entre 1.500 e 2.000 lugares, devido ao mercado ruim para o Metal, aqui eles puderam tocar para 55.000 pessoas numa única noite.

Por melhor que pudesse parecer o quadro - o que não era o caso - um problema continuava: Blaze tinha sido mesmo a melhor escolha? Ficou na cara que o novo cantor era um cara extremamente simpático, bem-humorado e modesto. Era inclusive um vocalista muito bom, mas para uma banda como o Maiden, muito bom não era o bastante. Tinha que ser brilhante.

Nessa tour ficou claro que Bayley podia dar conta do novo material, mas não convencia nos clássicos. Muito diferente quando Bruce substituiu Paul Di'Anno. Mas, pelo menos por hora, a banda deu apoio total ao novato e insistiram Run To The Hills tinha sido tirada não porque o cara não conseguia cantá-la, mas somente porque tinha sido o primeiro hit com Bruce. Poucos acreditaram.

ENQUANTO ISSO...

O Maiden tentava ainda convencer com a nova formação. Para sua sorte, ou azar, o cenário mundial do metal começava a mudar de novo: o som de Seattle começou a decair enquanto bandas metálicas de todas as partes do mundo (e que tinham sido direta ou indiretamente influenciadas pelo Iron) começaram a aparecer fazendo justamente o metal rápido, pesado e melódico que era a raiz do Maiden, apenas com uma ótima e tecnologia mais anos 90.

Mesmo nos Estados Unidos a cena musical foi lentamente mudando para um som mais pesado (o chamado Alterna Metal): Machine Head e Korn, entre outras, estreavam nas paradas. Muitas bandas antigas que tinham tentado mudar o seu som (e se dado muito mal), voltaram a fazer o que sabiam fazer de melhor. Aí incluídos alguns antigos relacionados do Maiden.

Dennis Straton, depois de formar e ter algum sucesso com o seu Lionheart, sumiu de cena até o início de 1990, quando participou junto com o velho Praying Mantis (acrescentado temporariamente com Paul Di'Anno) para as comemorações dos dez anos da NWOBHM. Fizeram uma tour muito bem sucedida pelo Japão, lotando todos os lugares onde tocaram e gerando um disco ao vivo: "Praying Mantis featuring Paul Di'Anno and Dennis Straton Live In Japan", que chegou ao top dez japonês. Paul e Dennis conseguiram reativar suas carreiras, mas outros não se deram tão bem: Doug Sampson se tornou motorista de empilhadeiras e Clive Burr, que se recusa a falar com a imprensa, dizem estar ganhando a vida como taxista.

THE BEST OF THE BEAST

O Maiden, pego no meio da "nova nova onda" do novo Metal, resolveu lançar pela primeira vez uma coletânea oficial, enquanto dava um tempo para o decisivo segundo trabalho com Bayley. The Best Of The Beast, um CD duplo, lançado em novembro de 1996, foi saudado por público e críticos, ainda que apenas por motivos saudosistas.

Certamente qualquer "maidenmaníaco" deve ter ficado felicíssimo de ver algumas faixas raras incluídas, especialmente a versão original de Strange World (gravada na sessão de Soundhouse Tapes, mas excluída do vinil. Paul canta maravilhosamente desafinado). A prensagem inicial incluía um belíssimo encarte com fotos raras e letras. Também trazia, como atrativo extra, uma música nova (e muito boa): Vírus.

Gravada em setembro de 1996, nos estúdios de Steve Harris, essa peça de 6 minutos era a resposta de Steve para os críticos que malhavam a banda impiedosamente havia um ano. Na frente de uma base poderosa, Blaze cuspia a letra que ele e Steve haviam escrito: "Eles querem afundar o barco e partir / o jeito que eles riem de você e eu / você sabe que isso acontece o tempo todo". O CD, mesmo duplo, foi o décimo quarto trabalho do Maiden a vender mais de um milhão de cópias em seguida.

A turma então resolveu tirar uma folga: entre gravações e tours tinham sido já dois anos com Blaze. Levaria alguns meses para que o grupo se reunisse novamente na mansão de Steve para iniciarem as composições e ensaios do novo disco.

BRUCE E ADRIAN

Bruce Dickinson enquanto isso se manteve durante um bom tempo distante do Heavy Metal em geral, e de qualquer ligação com o Iron Maiden em particular. Mas depois de dois discos meio esquisitos, Balls to Picasso e Skunkworks, finalmente percebeu que sua praia era mesmo a música pesada. Ambos os CDs eram válidos como experimentos, mas não convenceram nem os fãs antigos, nem conquistaram novos mercados.

Em paz com o passado, casado pela segunda vez e pai de três filhos, parou de criticar o Maiden e voltou para onde estavam suas raízes. Sua volta foi triunfal: além de uma banda afiadíssima (destaque para o guitarrista, compositor e produtor Roy Z), convidou o antigo companheiro Adrian Smith para ajudá-lo. A química continuava intacta e o disco resultante foi o fantástico Accident Of Birth, lançado em 1997, um sucesso de crítica e público. Bruce estava tão reconciliado com o passado que até arranjou para que Derek Riggs desenhasse a capa e criasse uma "paródia" do Eddie, que ele teve a cara dura de chamar de Edison. "Eu fiz tudo isso deliberadamente" admitiu Bruce "Eu queria soar mais Maiden do que o Maiden." E, segundo muitos, conseguiu. Até mesmo o cavalheiresco Steve Harris, provavelmente ainda magoado com as críticas que a banda vinha recebendo (enquanto acontecia o inverso com Bruce), soltou um raro comentário venenoso: "Bruce gravaria um disco de Country, se ele pensasse que isso ia vender."

No meio desse tiroteio, Adrian Smith admite que levou tempo para recomeçar a tocar: "Eu acho que não fiz absolutamente nada durante os dois primeiros anos depois que deixei o grupo." Financeiramente ele não tinha que se preocupar pelo resto da vida depois de sete anos de gravações e tournés gigantescas em seguida. Ao invés disso, ele se mudou com a mulher, a canadense Natalie, para o interior da Inglaterra e começou uma família. "Acho que eu nem olhei para uma guitarra durante um tempo" admite ele.

Foi só depois de ir ver o Maiden tocar no Donington Castle em 1992 (e fazer uma jam com eles no final do show), que finalmente decidiu voltar à ativa. Um ano e meio depois apareceu com uma banda chamada Psycho Motel, dando início à gravação de seu primeiro disco auto intitulado. O CD seria lançado em 1996, depois que Rod Smallwood - sempre ele! - arranjou um contrato com uma gravadora independente, Castle Communications (a mesma de Bruce, depois que deixou o Maiden). Mas o Psycho Motel não deu muito certo. E, apesar de Adrian dizer que ia continuar e até começar a gravação de um segundo disco, acabou deixando um pouco de lado o projeto ao aceitar o convite de Bruce para fazer Accident Of Birth.

Aqui vale dizer que Adrian, ao contrário de Bruce, continuou amigo do pessoal do Maiden e a manter contato: "Eu continuei querendo saber tudo sobre eles desde que saí. Parte por causa de curiosidade e parte por causa de alguma devoção esquisita. Eu ainda me importo com eles. Acho que sempre me importarei. Você não pode escapar disso." Disse ele na época. Adrian seria também um dos poucos a apoiar publicamente o Maiden pós Bruce e a elogiar The X Factor.

EM ESTADO DE EBULIÇÃO

A grande prova da nova formação do Maiden seria seu segundo CD, que começaram a gravar em fins de 1997. O primeiro já tinha levado bastante fogo antiaéreo e não aguentariam uma segunda artilharia. O novo Metal se expandia e novas bandas fazendo um som próximo do Iron competiam no mercado. O sucesso do mais recente trabalho solo de Bruce só tornou as coisas mais tensas. O retorno do Metal nos anos 90 foi gradual, não a explosão que tinha sido no início da década de 80, onde grandes bandas dos anos 70 acabaram ficando para trás, meio esquecidas (como seus ídolos do UFO).

Desta vez muitos artistas que estavam decadentes ou tinham acabado puderam reativar suas carreiras graças a este renascimento em meados da década (Metal Church, Angel Witch, Twisted Sister, entre dezenas de outros). Mesmo assim, e ainda que somado ao fato das pessoas estarem com a mente mais aberta, público e críticos começaram a ficar impacientes com o Maiden, achando que a nova formação não honrava o nome e a fama da banda.

O grupo apostou todas as suas fichas no CD Virtual XI (o título se referindo à paixão do grupo tanto ao futebol quanto a jogos de computadores). Infelizmente o resultado, lançado no início de 1998, foi longe do que precisavam: razoável, no máximo. Menos sombrio e mais "para cima" do que The X Factor, o disco mostrava muito pouco para uma banda que se orgulhava de sempre apresentar trabalhos primorosos.

Faixas boas como Futureal ou Lightning Strikes Twice conviviam com outras que não convenciam de jeito nenhum, coisas como The Educated Fool. Embora The X Factor tivesse um certo "charme" sombrio e diferente, neste não dava para disfarçar a falta dos duelos de guitarra, a duração excessiva de algumas faixas, o uso indevido dos teclados e o que parecia ser uma notável falta de inspiração.

A banda ainda tentou defender o novo disco com uma barragem de entrevistas na imprensa, rádio e televisão. Até uma biografia oficial, Run To The Hills, foi lançada em abril de 1998, onde, na parte final, todos faziam a maior babação de ovo para Blaze e o novo trabalho. Mas todo este esforço não foi suficiente. Para piorar, na mesma época Bruce e Adrian lançariam um disco ainda mais pesado e vibrante do que o anterior: The Chemical Wedding , outro sucesso de crítica e público. Consequentemente a situação da banda em geral - e de Bayley em particular - ficou crítica. A tour subsequente com os alemães do Helloween abrindo só tornou as coisas ainda mais difíceis. Notícias de cancelamentos por falta de interesse do público (principalmente nos Estados Unidos) escapavam para a imprensa. Nesse clima não ficou difícil para que alguém levasse a culpa e se tornasse o bode espiatório do período.

Dados sobre o que realmente aconteceu nessa épocas não estão disponíveis: só no futuro poderemos saber exatamente o que rolou. O certo é que público e imprensa culpavam Bayley em maior escala e Gers em menor pela "decadência" da banda. Há quem diga que Blaze não estava dando conta do esquema pesado das tournés do Maiden , perdendo a voz e forçando o cancelamento de apresentações importantes, justamente como Paul Di'Anno havia feito tantos anos antes.

Testemunhas falam do clima tenso entre o vocalista e o resto da banda no que seria sua última tour com o Iron. Independente do que aconteceu internamente, o destino de Blaze estava selado desde o começo das apresentações. Era preciso uma mudança radical. E rápida.

UM SONHO QUE SE TORNA REALIDADE

Notícias da iminente saída de Blaze começaram a correr pela imprensa. O metal melódico e o Power Metal tradicional estavam voltando com toda a força. Um CD tributo ao Maiden, chamado A Call To The Irons, com bandas underground (na maioria de Death ou Doom Metal), foi um grande sucesso, tanto que levou a um segundo volume em 1999. Outros tributos apareceriam em seguida. Bandas veteranas como o Saxon lançaram grandes discos na segunda metade dos anos 90 provando que havia espaço para todos no novo cenário. O "som do Maiden" estava retornando com força total.

Mesmo antes da saída oficial de Blaze, muito se especulou sobre quem seria o novo vocalista do Maiden: Dougie White, que havia sido preterido em favor de Blaze, era uma possibilidade. Falava-se também em Michael Kiske (ex-Helloween). Mas a grande notícia pegou meio mundo de surpresa: Bruce Dickinson estava de volta ao Maiden! E, melhor ainda, trazia junto consigo Adrian Smith! Janick Gers, que manteve intacta sua amizade com aquele que lhe dera a mão quando mais precisava foi o principal articulador da reunião, aparando devidamente as arestas entre Steve Harris e o vocalista.

Numa série de encontros feitos secretamente em Paris, todos tiveram a oportunidade de conversar e chegar a um acordo. Vale dizer que durante todo este tempo, mesmo quando criticavam abertamente um ao outro, nenhum dos dois deixou de destacar o respeito mútuo pelo talento de parte a parte. Bruce em particular sempre deixou claro que considerava Steve um "cara muito talentoso e honesto".

Blaze, um bom vocalista, com talento e elegância, deixou o Maiden sem falar mal dos seus antigos companheiros e tratou de se concentrar em sua carreira solo, o resultado do trabalho é o magnífico 'Silicon Messiah', um disco 100% heavy metal com guitarras pesadas e letras de primeira, Blaze sempre se mostrou um cara bem heavy metal, o resultado não poderia ser outro, seu disco também por algumas vezes mostra marcas da sua passagem pelo Maiden, como 'The Launch' que lembra muito 'Man on the Edge', do Maiden.

BRAVE NEW WORLD?

A tour de reunião coincidiu com o lançamento do game Ed Hunter, um velho projeto do pessoal do Iron, sempre apaixonados por vídeo games. Quem apostava numa tourné "caça níqueis", onde a banda só teria se reunido para conseguir dinheiro, se deu muito mal. Com três guitarras o som ficou ainda mais poderoso e mesmo os críticos mais ferrenhos se renderam, admitindo que todos no Maiden pareciam rejuvenescidos e cheio de energia vibrante. "O Maiden nunca soou tão brilhante e Bruce Dickinson está tão animado quanto durante a World Beast Tour de 1983!"

Escrevia um jornalista americano que viu os primeiros shows da nova formação. A excursão foi um sucesso absoluto e provou de vez que havia mais do que simples ambição com a reunião dos músicos. Mas se provariam no estúdio? Ainda haveria inspiração para trabalhos inéditos? As três guitarras funcionariam num disco do Iron Maiden ano 2000? A resposta seria um trabalho que calaria a boca dos piores pessimistas.

Bruce e Steve disseram que o novo disco seria o mais importante da carreira do grupo. Era uma bravata, claro. Mas não deixou de surpreender. Gravado em Paris, com a produção desta vez dividida entre Steve e Kevin Shirley (Dream Theater, entre outros) foi lançado finalmente em maio de 2000. Brave New World veio ao mundo sob muitas expectativas e não é um disco tão revolucionário quanto The Number Of The Beast, por exemplo. Mas é, sem dúvida, seu melhor desde Seventh Son Of A Senventh Son. Um trabalho elaborado, surpreendente e, melhor de tudo, muito superior a tudo que lançaram na década de 90, com faixas mais diretas (The Mercenary, Fallen Angel) e outras mais viajantes (como a brilhante Nomad).

As três guitarras mostram um trabalho sutil e elaborado, muito longe da guerra de egos que se poderia imaginar com músicos tão bons, dando uma textura rica e diferente para o já consagrado "som do Maiden". Até mesmo Steve Harris está mais discreto, suas intervenções tanto no baixo quanto nos teclados mostrando um músico mais preocupado em fazer seus instrumentos funcionarem dentro do contexto do que simplesmente aparecer. Bruce canta com paixão e brilhantismo, mostrando que sempre foi a melhor voz que o Iron Maiden já teve.

Enfim, um disco que valeu toda a espera. Brave New World foi a prova final de que o Maiden ainda era capaz de ser criativo, surpreendente e relevante mesmo depois de todos os anos passados e com todas as crises musicais e pessoais que enfrentaram. E tal qualidade não pode ser ignorada. A mágica ainda está lá e a banda soa tão boa quanto sempre. Mas isso também não teria a menor importância nessas alturas. Mesmo que não desse certo. Mesmo que fosse um total fracasso, já teriam deixado para sempre a marca dos grandes nomes da história musical da humanidade. E não há dúvida que Steve e companhia tentariam de novo e de novo. Não se acaba com uma turma assim tão fácil.

CONCLUSÃO TEMPORÁRIA

Mundialmente falando o Maiden já vendeu, de acordo com dados disponíveis até 1998, mais de 50 milhões de discos. Recebeu mais de 150 discos de ouro e platina , entre compactos, LPs e CDs (incluindo oito discos de platina no Estados Unidos). Tiveram 13 álbuns no Top dez inglês e 11 singles também no Top dez. Mais do que números, a banda conseguiu uma legião de fãs pelo mundo afora e influenciou toda uma geração.

Poucas bandas na história da música teve uma carreira tão fulminante e influente quanto o Iron Maiden. Certamente o grupo será sempre mencionado quando falarem dos grandes de sua época: assim como o Led Zeppelin e o Deep Purple marcaram os anos 70, o Maiden ajudou a definir o som pesado da década seguinte. Se parassem hoje (ou mesmo bem antes), teriam fama e fortuna suficiente para desfrutarem o resto de suas vidas com orgulho de terem feito trabalho único.

Mas resolveram encarar novos desafios e permaneceram. Vinte anos após sua estréia com o disco Iron Maiden, eles continuam, sem nunca terem parado, uma banda ativa e influente, capaz de encher estádios, mesmo nos seus períodos mais difíceis. Quantas bandas podem clamar este feito?

 

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