ENCARANDO A AMÉRICA
A banda tirou dois dias de folga antes de enfrentarem o maior dos desafios: A
América. É bom frisar que naqueles tempos pré-MTV, a promoção de um artista
dependia muito da programação de rádio. E a música poderosa do Maiden não era o
padrão FM que os DJ yankees estavam tocando na época. Apenas quatro estações
tinham tocado o primeiro LP, isto entre mais de duzentas rádios espalhadas pelo
país. Uma pena, visto o sucesso imenso que as bandas HM tiveram na década de
setenta quando Led Zeppelin era simplesmente endeusado pelos americanos, além de
Deep Purple, Black Sabbath e outros.
Talvez o imenso fracasso comercial dos Punks pouco tempo antes tenha feito os
chefões das rádios pensarem que o gosto do público jovem houvesse mudado e que
os adolescentes não gostassem mais de música pesada. Não tinha: Rush, Heart e outras bandas pesadas continuavam a fazer sucesso, embora com muito menos
cobertura jornalística do que na década anterior. Mas, tal como na Inglaterra,
as vozes das ruas demoraram a ser ouvidas e só quando ficou evidente para todo
mundo é que acordaram as gravadoras.
O Maiden encarou o desafio como tinha feito na sua terra natal: com garra e
profissionalismo. Abriram shows para o Judas Priest, além de tocarem em dois
clubes em Chicago e Detroit e um festival em Milwaukee. Depois foram para o
Canadá, onde o primeiro LP tinha se tornado disco de ouro, o que queria dizer
que podiam ser a atração principal em lugares como Toronto (em teatros com
capacidade de 1500 pessoas), além de clubes em Montreal e Quebec.
As dificuldades eram que a banda já conseguia viajar de avião quando as
distâncias eram maiores que 300 milhas (uns 450 quilômetros), sendo que
distâncias menores que estas tinham que ser percorridas de carro alugado. O
resultado foi que nas alturas do Canadá todo mundo estava moído até os ossos,
especialmente os motoristas, que eram o tour manager Tony Wigens e o relutante
SmallWood. Eles tinham que sair de uma cidade, chegar na outra até as quatro da
tarde para aprontar tudo e ter que sair às sete da manhã. Wigens comentou: "Rod
e eu estávamos nos mantendo vivos à base de café puro”.Inevitavelmente houve
incidentes. Tony estava saindo do palco uma noite, tão cansado que não viu que
saía pelo lado errado, onde não tinha escada e levou um tombo de quase quatro
metros. Foi levado às pressas ao hospital mais próximo, coberto de hematomas e
suspeita de fraturas, mas voltou a tempo para cuidar do equipamento para o show
daquela noite.
Smallwood acabou achando que aquela economia não adiantava nada e,
relutantemente, concordou em alugar um ônibus para a tour. Tocaram com
Whitesnake, Humble Pie, e seus velhos ídolos do UFO depois dos shows no Canadá.
A banda estava na Philadélfia tocando seus últimos shows com o Priest quando
receberam o convite de tocar com o UFO no Long Beach Arena, na Califórnia, no
outro lado do país. O Maiden achava estes shows tão importantes que fretaram
todo o seu equipamento para poderem chegar a tempo. Essa atitude custou uma nota
preta mas a reação da platéia fez tudo valer a pena.
Vale dizer que o Maiden, que não aceitou a sugestão de modificarem sua música,
tornando-a mais "palatável" para tocar nas rádios, tornou-se rapidamente num
cult band underground. Killers vendeu por conta da turné, e chegou a
respeitáveis 200 mil cópias ( quatro vezes a de 'Iron Maiden" ). Por todos os
cantos encontravam garotos que os seguiam fanáticamente, comprando ou arranjando
camisetas com o logotipo e a figura de Eddie numa velocidade de dar inveja a
bandas muito mais estabelecidas. Encontraram um garoto que tinha o logotipo
tatuado nos dois braços e outro com uma cabeça de Eddie gravada no peito. Mas o
melhor de tudo foi o cara que tinha a capa do single 'Sanctuary' (aquela do
Eddie matando a Margaret Thatcher) tatuada no braço, com os dizeres "Up The
Hammers" embaixo. Harris contou que quando lhe explicou que aquilo era um grito
de guerra de um time de futebol, ele ficou decepcionado. "Acho que ele esperava
que isso fosse um tipo de encantamento mágico ou coisa parecida”.
Terminada a tour americana, o Maiden voltou à carga na Europa para honrar os
compromissos que faltaram devido aos problemas com a garganta de Paul. Tocaram
em três grande festivais ao ar livre na Alemanha durante este processo, com
Foreigner, Kansas, Blue Oyster Cult, Motorhead e outros. Logo depois
atravessaram a Cortina de Ferro pra tocar na Iugoslávia, onde o disco Killers também tinha ganho o disco de ouro. Nada menos que 5000 garotos estavam
esperando por eles dormindo ao relento durante a noite anterior só para garantir
os lugares. Com o dinheiro conseguido por lá, a banda refez os esquemas para se
apresentarem na Escandinávia, para honrar as datas canceladas. Seriam as últimas
apresentações da banda com Paul Di'Anno.
MUDANÇAS RADICAIS
Boatos sobre as dificuldades do vocalista com o resto da banda já estavam se
espalhando desde os problemas de voz que Paul teve durante a primeira parte da
tour. Pouco tempo depois que voltaram para a Inglaterra, a Sounds publicou uma
matéria de capa: "Di'Anno fora do Maiden". Apesar de dizerem que a separação foi
"totalmente amigável" e por diferenças em torno de música e tournés, a coisa não
foi bem assim. Durante muito tempo aceitou-se como verdadeira a tese de que Paul
andava cansado das longas excursões da banda. Essa notícia chegou a ser dada em
algumas biografias que saíram até no Brasil. O próprio Paul Di'anno a negou
pouco antes de se apresentar no Brasil em 97 além de acusar Steve Harris de ser
o dono da banda, um "fuhrer" (ditador).
O grande problema foi que Paul adorava o estilo de vida rock'n roll. E não
cuidava bem do seu instrumento: sua voz. Paul fumava, bebia demais e era
largamente indisciplinado. Com isso sua voz sofria e a banda perdia shows
importantes e levava a culpa. Os membros do Maiden sabiam se divertir, mas se
cuidavam, eram profissionais e tinham orgulho de se apresentar para a platéia um
show sensacional, dando do melhor de si. Não é pra menos que ficavam zangados
quando um deles podia estragar tudo por descuido. Paul também não tinha a mesma
ambição de vencer mundialmente como Steve e se dizia assustado com a proporção
gigantesca que o Maiden estava alcançando, sentindo que era muito grande o peso
de tanta responsabilidade.
Paul saiu da banda e foi uma grande perda, ainda que por sua própria culpa. Um
cantor carismático, com um timbre diferente e marcante. Na sua carreira
posterior, mostrou-se tão irregular e errático quanto a vida que escolheu,
alternando grandes momentos com outros absolutamente medíocres. Parece que
resolveu finalmente fazer algo direito tendo recentemente reunido sua melhor
banda, o Battlezone, e lançando em 99 um CD digno do grande cantor que é. Seu
trabalho seguinte seguiu a mesma linha, sendo gravado no Brasil com músicos
brasileiros. O resultado, Nomad, foi um disco brilhante, talvez seu melhor
trabalho pós Maiden.
UMA SUBSTITUIÇÃO FELIZ
O substituto de Paul foi, como todos sabemos, Bruce Bruce, do Samson, que tanto
havia impressionado Harris no festival de Reading um ano antes. Ao contrário do
que diz a lenda, não foram ouvidos uma série de cantores antes de chegarem a
Bruce Bruce, isto é, Bruce Dickinson. Quando Paul saiu, foi o próprio Steve
Harris, com sua habitual objetividade que o convidou para um teste. Steve pediu
que ele decorasse seis músicas. Dickinson sentiu a oportunidade e não perdeu
tempo: decorou 15. No teste tocaram dez direto e dali saíram para o bar mais
próximo para comemorar.
Em muitos aspectos Bruce Dickinson era diferente da banda: estudou em escolas
particulares e se formou na faculdade em História. Ao invés de se tornar um
chato intelectual, Bruce se mostrou perfeito em todos os sentidos para o Maiden: profissional rigoroso, ambicioso, nem um pouco chegado à trips de superstar e
com um senso de humor à toda prova. Mais importante: cuidava muito bem das
cordas vocais. E que cordas! Dizem as lendas que ele ganhou o apelido de "Sirene
de Ataque Aéreo" quando, durante um show do Samson no Chelsea College, ele
trincou um enorme globo de vidro com um grito bem colocado.
Paul Bruce Dickinson (ele sempre preferiu usar o segundo nome, mesmo quando
criança) teve seus primeiros contatos com o showbusiness logo depois de entrar
na faculdade, através do grêmio estudantil, ajudando a organizar apresentações
de bandas por lá. Um pouco depois entrou como cantor num conjunto local. "Eu
queria tocar bateria" Contaria ele mais tarde "Mas eu nunca tive o dinheiro para
comprar uma." O destino não deixaria Bruce cair anonimato nem nesses primeiros
tempos. Logo uma apresentação com o grupo acabou virando notícia no jornal
local. Não tanto pela música, que ainda tinham muito a aprender, mas pelo fato
de terem sido atacados em pleno palco por um cidadão que morava por perto e
tinha sido acordado por eles. "Ele acertou uma garrafa no guitarrista e chutou o
kit da bateria fora do palco. Então eu o ataquei com uma cadeira." Relembra
Bruce.
Nos tempos de faculdade, Bruce cantou em duas bandas: no Speed, que tinha
teclados e faziam um som estilo Stranglers e no Shots, que era um pouco mais
pesado e com quem excursionaria durante boa parte de 1978. Seus exames finais na
faculdade puseram uma pausa na carreira com o Shots. Pouco depois seria chamado
por Paul Samson, que o tinha visto se apresentar na Soundhouse ( sempre lá ).
Assim, depois de fazer sua última prova da faculdade na parte da manhã, Bruce passou a tarde ensaiando com o Samson. Ele ficaria com eles durante dois anos e
meio, gravando três LPs (entre eles o bom Head On). O apelido Bruce Bruce foi
dado pelo empresário e se referia a um personagem famoso do grupo de comédias
Monty Python. Bruce até recebia seu pagamento em cheques com esse nome.
Mas logo ficou claro que as idéias musicais entre Paul e Bruce iam por linhas
divergentes. Samson seguia pelo lado do blues mais tradicional, enquanto que
Bruce era obviamente um cantor de HM. Assim, a saída não foi tão difícil no
ponto de vista artístico. Infelizmente os processos legais de separação foram
muito mais complexos: houve a quebra da gravadora do Samson, a Gem records e má
administração dos negócios da banda. Essa confusão legal impediu que Bruce
pudesse incluir alguma canção sua no seu primeiro ano no Maiden.
Assim que sua entrada na banda foi tornada oficial, eles partiram para a Itália
para fazerem quatro apresentações por lá, apenas para testar a reação da platéia
e deixar Bruce se acostumar. Todos os shows lotaram, o público ficou doido como
sempre e ninguém parecia notar alguma diferença. Londres seria um teste mais
duro. A banda tinha agendado um show no Rainbow, com o Praying Mantis abrindo.
Naturalmente, Bruce se deu muito bem. Claro, teve aqueles retrógrados que
gritaram de vez em quando um "Tragam Di'Anno de volta!", mas a maioria
reconheceu que estavam diante de um grande cantor e aprovou. Depois do show foi
dada uma festa pelo Pão-Duro Smallwood em que Paul Di'Anno esteve presente,
provando que não havia mais ressentimentos.
Dessa forma, 81 se fechou como um ano de mudanças e muita, muita batalha na
estrada. Mas foi altamente recompensador em termos de carreira: mesmo com más
críticas e muito por causa dos excelentes shows, Killers chegou ao top 10 de vários países: Inglaterra, França, Alemanha, Japão, Suécia e Bélgica (chegou ao
número 80 nos Estados Unidos). E disco de ouro no Canadá, Inglaterra e Japão. Na
França se tornou disco de ouro duas vezes. Nada mal. Mas o melhor ainda estava
por vir...
A BESTA ESTÁ SOLTA
1982 entrou com a banda gravando seu terceiro LP na carreira e o primeiro com o
novo vocalista. E as coisas começaram de forma bem negativa nos estúdios Battery,
em fevereiro. Segundo Bruce, os equipamentos pareciam enlouquecer, com luzes
acendendo e apagando a todo o momento sem nenhuma razão aparente, com a
aparelhagem de gravação deixando de funcionar e ruídos estranhos ocorrendo com
amplificadores e instrumentos da banda. Parecia que o grupo tinha mexido com o
oculto, como numa das músicas que gravariam por lá e que daria o nome ao novo
disco: The Number Of The Beast (como boa parte das canções de Steve Harris, baseado num filme: Omen II [no Brasil: A Profecia 2]).
Como se para confirmar tal loucura, o produtor Martin Birch teve um acidente de
trânsito quando dirigia-se para o estúdio numa noite. O motorista do outro carro
era um fanático religioso e a conta do mecânico foi 666,66 Libras! Embora pareça
uma das várias estórias para promover discos, todos os envolvidos garantem que é
verdadeira (tanto as biografias oficiais quanto o documentário Twelve Wasted
Years o mencionam como fato): "Aquilo mexeu com a gente e o Martin ficou
apavorado." Relembra Steve Harris "Ele fez com que o pessoal arredondasse a
conta para 667 libras!"
Apesar de todos esses incidentes bizarros e inexplicáveis, o álbum resultante
seria um triunfo e catapultaria definitivamente o Maiden para seu lugar como os
reis do novo Metal. Um sinal de que as coisas seriam bem maiores ficou claro
quando a banda lançou o primeiro compacto resultante das gravações com a música
'Run To The Hills': nele estava provado que o novo cantor era simplesmente
sensacional e que possuía uma técnica e potência à altura do muro de som que
Harris & co estavam elaborando.
Como prova, o disco chegou ao número 7 nas paradas de compactos, mesmo com a
habitual recusa das rádios de tocar o estilo. Foi a primeira vez que a banda
conseguia chegar tão alto em termos de singles. O vídeo que a banda fez para
promover o disco também ajudou a torná-los mais conhecidos nos Estados Unidos,
já que agora existia a MTV e a necessidade de novos vídeos ainda fazia passar
por cima de velhos preconceitos. De qualquer forma o clip da banda mostrava bem
que a turma tinha humor, alternando cenas deles no palco e extratos de uma velha
comédia de Buster Keaton, tornando mais leve a música, cuja letra amarga falava
do massacre que os brancos perpetraram aos índios americanos.
Mas se o compacto já era muito bom, o LP resultante era simplesmente o máximo.
Quando foi lançado no dia 22 de março o disco estabeleceu novos parâmetros para
o Heavy Metal. Os críticos que temiam que a banda estivesse ficando sem
inspiração e que tinha esgotado todas as suas fichas nos dois primeiros discos,
ficaram estupefatos. A nova fornada de músicas era espetacular: Não tendo mais
material antigo para utilizar, as novas composições vieram mais maduras, mais
ousadas e com uma nova perspectiva, por causa do vocal mais técnico e poderoso
de Bruce Dickinson. Da primeira faixa à última (e principalmente a última, a
sen-sa-cio-nal Hallowed Be Thy Name), ninguém tinha dúvidas de que se tratava de
um clássico absoluto, tão ou mais surpreendente quanto ao magnífico disco de
estréia. The Number Of The Beast lançaria o grupo definitivamente no cenário
mundial (leia-se, Estados Unidos).
Até a capa, uma obra-prima, contribuiu, embora não fosse específica. Derek Riggs
a tinha desenhado com intenções ao compacto Purgatory, mas a banda gostou tanto
do desenho que resolveram deixá-la para o LP. Purgatory então recebeu um outro
desenho (uma figura do diabo apodrecendo para se transformar no Eddie) e foi o
menos bem sucedido single da banda, chegando só ao número 46 das paradas, fato
esse talvez explicável por já se incluir no LP Killes, que todo fã já tinha
comprado.
A crítica especializada amou The Number Of The Beast e o colocou no seu devido
lugar: um disco tão importante e renovador para os anos 80 quanto In Rock do
Deep Purple tinha sido para os anos 70 (uma comparação para grupo de HM nenhum
botar defeito). E, só para confirmar, o LP foi direto ao topo da parada inglesa,
chegando ao primeiro lugar e ficando lá por duas semanas. The Number Of The
Beast bateu Killers em vendas em todos os lugares que foi lançado.
(Obs. Curiosamente, Steve Harris não considera o disco tão bem assim. Segundo
ele mesmo as gravações foram muito corridas, não deu tempo para polir melhor as
músicas e que se arrepende de não ter substituído a faixa Gangland por Total
Eclipse - que acabou sendo o lado b do compacto Run To The Hills - e de não ter
algo melhor do que Invaders para abrir o disco. Imaginem o que seria esse
clássico se ele tivesse tido tempo para essas melhoras!)
A banda ficou sabendo das boas novas quando estavam indo da Suíça para Paris e o
ônibus tinha quebrado no meio do caminho. Como os roadies já tinham ido na
frente para montar o equipamento, o pessoal do Maiden não teve outra alternativa
a não ser sair fora e começar a empurrar. Tony Wiggins se lembra da ocasião:
"Então lá estavam aqueles caras, cujo álbum tinha chegado ao topo das paradas da
Inglaterra, empurrando o ônibus para ver se ele pegava. E ninguém pensou duas
vezes antes de fazê-lo. Não houve reclamações, ninguém entrou numa de superstar.
Depois que o ônibus voltou a funcionar todo mundo voltou a seus lugares como se
nada tivesse acontecido."
Isso aconteceu, claro, na parte européia da "Beast On The Road 1982" , a segunda
tourné mundial do Maiden, que iniciou-se em fevereiro e iria até o dia 20 de
dezembro daquele ano, cobrindo nada menos do que 18 países e um recorde de 180
apresentações! Foi nessa época que o importante jornal New Musical Express pediu
uma entrevista. Vale dizer que o referido tablóide detestava (e provavelmente
ainda detesta) rock pesado, sendo formado principalmente por elitistas que nunca
viram o HM como algo a se considerar seriamente.
Rod concordou, mas com a condição de toda a entrevista ser na forma de perguntas
e respostas (para não haver interpretações por parte do entrevistador) e que
estariam na primeira página. Relutantemente o jornal aceitou e mandou um dos
mais hábeis entrevistadores que possuíam, na certa esperando encontrar pessoas
que não estariam à altura das perguntas. E o cara começou logo com as
provocações perguntando sobre a "complacência moral e intelectual" das músicas.
Acontece que ele trombou de frente com Dickinson e Harris, inteligentes e
articulados, que viraram o jogo a seu favor. Eddie apareceu assim na capa do NME
e a entrevista ajudou a abrir muitas cabeças para o novo Metal.
ANDY TAYLOR
Nessa tour Andy Taylor, sempre parceiro de Smallwood, ainda não envolvido
diretamente com o Maiden, entrou como co-empresário de forma integral. Andy e
Rod são completamente diferentes: Rod mais parece um membro da banda: cabeludo,
sempre usou jeans, tênis e camisetas da banda, além de ser famoso pelo humor.
Andy, ao contrário, sempre pareceu o típico executivo inglês: alto, gorducho,
quase totalmente careca, de óculos e sempre vestindo terno e gravata. Rod é um fã de Heavy Metal, enquanto Andy prefere músicas mais leves para ouvir no carro.
Curiosamente a dupla sempre se deu muito bem, unindo forças e provando que os
opostos podem agir para o bem comum (e fazer uma fortuna juntos!). Ambos
demonstram um recíproca admiração mútua e, como Rod gosta de lembrar, as
aparências enganam: "Andy é um grande cara, sempre foi. Tem uma mente brilhante
e cheia de surpresas". Andy Taylor foi ver o Maiden pela primeira vez num show
em Newcastle, 1980. Ele apareceu na apresentação de terno e foi parado pelo
porteiro, que perguntou se ele sabia quem iria se apresentar ali. Andy Taylor
respondeu que sim, que sabia. "Oh - retrucou o porteiro "É que não vem muita
gente de terno aqui." Taylor então disparou essa: "O que demonstra mais ou menos
que tipo de relação eu tenho com a banda." Uma das primeiras providências que
Taylor cuidou logo que assumiu sua nova função foi tratar de acabar com a
pirataria que se espalhava como uma praga envolvendo todo o merchandising da
banda. O Maiden tinha orgulho de vender apenas material de alta qualidade para
os fans.
A tourné européia foi um sucesso absoluto: embora fosse a primeira vez que
fossem à Espanha, isso não os impediu de conseguirem lotar as três noites
seguidas que deram em estádios de 8.000 lugares. França, Alemanha, Holanda,
Bélgica, Suíça, seguiram-se antes do grande desafio: Os Estados Unidos.
Principalmente porque a banda ganhou a fama de satanista por causa da capa e do
conteúdo da música The Number Of The Beast. A maioria dos americanos parecia não
ter prestado a mínima atenção de que somente aquela canção podia ser considerada
de teor demoníaco, e ainda assim era baseada apenas num filme. Harris teve que
gastar muita saliva em entrevistas para tentar esclarecer o óbvio: o Maiden não
tinha uma linha de pensamento fixa, nem eram adoradores do diabo. Levou muito
tempo para conseguirem mudar essa imagem errônea na terra dos yankees.
Um segundo compacto, com a faixa-título, também chegou ao Top 20 das paradas
inglesas. O vídeo que vincularam para a música também ajudou e, pela primeira
vez, um Eddie de mais de três metros de altura fez sua primeira aparição. Uma
pena que o fizessem numa época de Margaret Thatchers e Ronald Reagans: a parte
do Eddie foi editada do vídeo, depois que cidadãos conservadores o acharam muito
assustador para aparecer na MTV.
BACK IN THE USA
O Maiden começou a parte americana da tour em Michingan, no dia 11 de maio, e
seria a primeira de 102 apresentações no continente (com apenas um intervalo
para poderem tocar no Reading Festival). The Number Of The Beast ficaria nas
paradas da Billboard durante 8 meses, atingindo o 33ª lugar e vendendo só nos
EUA 350.000 cópias (o que queria dizer que o Maiden, em termos mundiais, tinha
vendido mais do que tudo que conseguiram no ano anterior [1 milhão de discos] em
apenas 5 meses!).
Nos Estados Unidos o Maiden abriu shows do Rainbow e do 38 Special, para depois,
na condição de 'convidados especiais', dividirem o palco primeiro com os
Scorpions (com o Girlscholl na abertura) e depois com o Judas Priest. Para variar, os shows foram excelentes, com o Maiden dando muito trabalho para as
outras bandas se equipararem ao seu espetáculo. De nota vale mencionar uma
partida de futebol, para relaxar, entre os alemães do Scorpions e os ingleses do
Iron que, depois de um jogo muito disputado, terminou num cavalheiresco 0 X 0.
Em alguns shows o Maiden tocou na frente de 57.000 (Oakland) e 75.000 (Anaheim) pessoas.
No Canadá, assim como todos os outros países fora os EUA, o Maiden foi a atração
principal. Naquele país do norte o novo LP tinha ganho disco de platina e o
pessoal do grupo ficou muito feliz em saber que as rádios por ali não tinham
tanto preconceito contra Heavy Metal quanto seus vizinhos americanos. Em Quebec
tocaram em um estádio com capacidade de 9.000 e o lotaram, apesar da população
ser muito menor do que nos Estados Unidos.
De volta aos EUA, novos problemas com o velho assunto: o pessoal da God Squad
(Patrulha de Deus) no Arkansas queria que o disco tivesse tarjas avisando sobre
a natureza satânica do conteúdo. "As pessoas levaram isso tudo muito além da
conta." Reclamou Steve Harris numa entrevista "Eles acham que se trata de um
álbum sobre um tema e isso obviamente não é o caso. Há apenas duas faixas sobre
o assunto e as duas são claramente escapistas."
Na mesma entrevista ficou claro que Steve não parecia saber ou se importar com a
enorme proporção do sucesso e da fama que o Maiden havia atingido. Para ele as
coisas continuavam as mesmas e se considerava um fã de rock, mesmo tendo mais
projeção do que as bandas que o inspiraram. "É esquisito." Admitiu Steve "Eu
ainda gosto destas bandas e pagaria para vê-los tocar, mas eu me sinto estranho
em poder encontrar com eles em termos de igualdade como um músico ao invés de
fã. Acho que é por isso que o Maiden se relaciona tão bem com os garotos. Eles
devem pensar: se eles podem nós também podemos. Isso faz o sonho ficar muito
mais perto."
Harris saiu pela tangente quando perguntado porque tanta gente os compara com o
Deep Purple: "Eu não sei ao certo. Martin Birch diz que 'Innocent Exile' têm o
mesmo feeling de 'Into The Fire'. Ele trabalhou com eles, então ele deve saber."
O entrevistador foi mais longe e tocou num ponto sensível: teria Steve copiado o
estilo de palco do baixista Pete Way do UFO? "Eu não quis copiar o Pete." Respondeu " mas ele é o único outro baixista que eu posso me lembrar que se
comporta no palco como um baixista deveria. Eu sempre pensei que o baixista não
deviam ficar ali parados tocando no fundo do palco. Tocar baixo não faz esse
efeito em mim - o baixo me faz querer pular o tempo todo."
O Maiden só parou a sua tourné monstro para tocar no Reading Festival, na
Inglaterra, o que os fez viajar nada menos que 12000 milhas ida e volta só para
um show! mas o festival era importante, tão importante que Bruce admitiu estar
"petrificado de medo" só com a expectativa. O equipamento também não ajudou, com
nenhum dos músicos conseguindo ouvir o que estavam tocando. Mas foi um sucesso
absoluto e serviu para solidificar a fama do Maiden na sua terra natal ainda
mais.
Assim que terminaram a turné americana, que incluiu uma apresentação lotada no
Madison Square Garden (junto com o Judas Priest), os incansáveis rapazes
partiram para a Austrália. Lá foram recebidos como heróis (era a primeira grande
banda inglesa a tocar lá desde o Rainbow seis anos antes) e ganharam disco de
platina (por The Number Of The Beast, que vendeu nada menos do que 27 vezes mais
do que Killers). Depois partiram para o velho conhecido Japão, mais outro disco
de ouro, antes de retornarem para casa para um merecidíssimo descanso. Três
semanas inteirinhas sem fazer nada antes de uma nova blitz de gravações e shows.
(Obs. É justo contar aqui uma estória engraçada para se conhecer a figura
interessante do empresário Smallwood. Bruce e sua namorada Jane chamaram Rod
para uma ceia de Natal na sua nova casa. Não contente em chegar tarde, Smallwood comeu o equivalente a três pessoas e depois tirou um baralho para um joguinho de
cartas, a dinheiro, com os convidados. Depois de limpar cada centavo de todo
mundo, levantou-se dizendo: "Com licença, tenho que ir, tenho um compromisso" e
saiu. Pela primeira vez, desde que entrou para o Maiden, Bruce Dickinson ficou
sem fala.)
PIECE OF MIND: A CONQUISTA QUE FALTAVA
1983 começou com uma má notícia para os fãs: Clive
Burr saía da banda. Ele deu declarações que estava saindo por 'razões pessoais"
e que pretendia deixar o mundo artístico permanentemente (Obs. nem tanto. No ano
seguinte ele formou o Clive Burr's Scape, que depois passou a se chamar Stratus).
Tudo indicava que sua saída foi amigável, chegando a receber o recado de "Boa
sorte, companheiro" na capa do Piece Of Mind. Mas não foi bem assim. Somente
muitos anos depois é que se soube que Clive havia tido problemas muito parecidos
com os de Paul Di'Anno. Na tour americana ele andou exagerando nas festas e nas
bebidas e, consequentemente, começou a tocar mal. Depois de avisado várias vezes
- e continuar se excedendo - a banda teve a dura tarefa de convidá-lo a se
retirar. Tão dura que seu melhor amigo na banda, Adrian Smith, sentiu que seria
o próximo e tratou de moderar nas festas. "Eu ainda me divertia muito, mas parei
de me "socializar" tanto nos dias de apresentações. Além disso, eu estava
cansado de subir no palco com dor de cabeça". Clive Burr até hoje se recusa a
falar sobre o assunto. Todos lamentaram a perda de um músico tão talentoso, mas
a banda não podia comprometer sua carreira por causa de uma pessoa só.
Encontrar um substituto à altura não era coisa fácil (Burr chegou a ser votado
na prestigiosa Kerrang! como o terceiro maior baterista do mundo), mas o Maiden tinha em mente um cara muito bom que tocava na banda francesa Trust. O Trust tinha aberto vários shows do Iron Maiden e resolveram checar sobre aquele
inglês.
Para a sorte geral, Michael 'Nicko' McBrain, tinha saído pouco antes do Trust e estava pronto para começar outra. Ele era natural de Londres, bem humorado e
tinha muita experiência, tocando bateria desde os 12 anos com inúmeras bandinhas
de colégio e algum trabalho de estúdio. Sua primeira banda importante foi o
Streetwalker, quando tinha 20 anos, antes de tocar com Pat Travers. Foi Billy
Day, do Streetwalker que criou seu apelido quando, caindo de bêbado, errou o
nome ao apresentá-lo a um chefão de uma gravadora: Neeko. O nome pegou desde
então. (seu apelido original era Nicky, desde criança, por causa de um ursinho
de estimação. Ele mudou a grafia para Nicko quando o adotou profissionalmente).
McBrain era um músico mais técnico e com uma pegada mais leve do que Burr, mas
também tinha uma energia inesgotável. Fã assumido do Maiden e desempregado, ele
não perdeu a oportunidade quando lhe foi oferecida à vaga. Mesmo adorando festas
e sendo como ele mesmo admite "O mister excesso em qualquer lugar", nunca deixou
que isso afetasse sua performance, o que muito surpreendeu o resto da banda
através dos anos. Sua alegria contagiante e sua técnica irrepreensível o fizeram
perfeito para dar o show energético que Steve Haris havia desejado para o Maiden.
A dupla se transformou numa das cozinhas mais imitadas do Heavy Metal.
Logo no início de janeiro a banda foi para Jersey, uma das ilhas do canal da
mancha, para ensaios e composições tendo em vista o que seria o LP Piece Of Mind.
A turma se instalou no hotel Le Chalet durante cinco semanas, onde alugaram
máquinas de vídeo games, uma mesa de sinuca, outra de tênis de mesa e um jogo de
dardos para tornar a vida tolerável naquele lugar frio e cinzento. Steve em
geral prefere trabalhar sozinho, na tranquilidade de seu quarto
(interessantemente ele costuma escrever suas músicas no baixo, daí resultando
aqueles riffs característicos). Já Dickinson e Smith costumavam escrever suas
canções na sala de ensaios, com amplificadores no talo. O Maiden sempre escreve
tudo e faz os arranjos antes de ir ao estúdio. Nenhuma de suas músicas é feita
de última hora.
Martin Birch esteve lá nos últimos dez dias para conhecer o material. Derek
Riggs também apareceu para trabalhar a arte da capa. De Jersey a turma se mandou
para Nassau, nas Bahamas, para gravarem no Compass Studios. As gravações
ocorreram de forma regular embora enfrentassem dois problemas. Um era a
constante queda de energia cada vez que chovia. Por pouco as fitas de Piece of
Mind não foram apagadas num desses blecautes. Outro era a falta de dinheiro: a
banda descobriu que lá os cartões de crédito não eram aceitos. Era difícil obter
ordens bancárias, que demoravam demais. Assim, com as últimas cinquenta pratas
que dispunham, apelaram para as lendárias habilidades de Rod Smallwood nas
cartas para conseguir alguma grana. Os membros da banda contam que durante seis
noites em seguida ele foi ao Cassino com 50 dólares e voltava com 300! Seis
noites em seguida!
O disco que sairia dessas sessões teria a capa mais elaborada de todas até
então: Um Eddie lobotomizado, mas raivoso, arrebentando a camisa de força numa
cela acolchoada. A capa abria com uma fantástica foto da banda na mesa, pronta
para o jantar (um cérebro, cru, com salada). Todos os rapazes tomando vinho,
exceto Harris, fiel à sua cervejinha.
A turma resolveu dar o troco aos fanáticos religiosos americanos mandando
mensagens "secretas": na contracapa do LP a citação de um trecho das revelações
da Bíblia está alterado, com a palavra brain (cérebro) ao invés de pain (dor).
Quase ninguém notou na época (o que prova que esse pessoal religioso não presta
a devida atenção). Outra foi gravar uma mensagem de trás para frente (entre The
Trooper e Still Life, no lado b), com esperança que os otários religiosos
perdessem tempo tentando entender o que queria dizer. De fato, Nicko McBrain era
quem falava umas bobagens concluindo com a frase: "Don't Meddle Wid t'ings you
don't understand" ( "Não mexam com coisas que vocês não entendem" ). Steve & cia
esperavam que muitos desses caras estragassem seus toca-discos forçando-os a
tocarem de trás para frente.
Antes do lançamento do LP, marcado para maio, um compacto com a música "Flight
Of Icarus" foi lançado. Boa parte dos fãs estranhou: a música era muito
"comercial", muito parecida com várias bandas de metal farofa, que começavam a
infestar os EUA. É certo que ao vivo ela ficava mais pesada e ganhava alguma
vida extra, mas era bem mais 'soft' que todo o material lançado antes em
compacto. Foi o primeiro single deles nos Estados Unidos e apesar de ter seu
lado comercial, não tocou nas rádios, para variar. Na Inglaterra chegou ao
número 11. Talvez por causa dele, o LP entrou no número 3 das paradas inglesas
ao invés de ser um número 1.
Piece Of Mind é um excelente disco com algumas canções memoráveis: 'Where Eagles
Dare' era um épico com as guitarras propositadamente soando como metralhadoras
e, acredite se quiser, levando apenas dois takes para ficar pronta. 'Revelations' seguia a linha de 'Children of The Dammed' e era tão boa quanto 'The Trooper', 'Die
With Your Boots On' e 'Still Life' eram brilhantes canções, cheias de energia e
maravilhosamente executadas. Apenas 'Sun and Steel' e 'Quest For Fire', meio
fracas, não estão à altura das outras, enquanto que 'To Tame A Land', ainda que
musicalmente excelente não conseguiu ser muito convincente na letra (sejamos
justos: como sintetizar um livro complexo, de mais de 500 páginas, como 'Duna'
numa música de pouco mais de 7 minutos?).
Ainda que não tivesse o impacto nem a musicalidade revolucionária do The Number
Of The Beast, Piece Of Mind seria o disco que abriria definitivamente as portas
do Maiden para os Estados Unidos (Talvez por isso Steve Harris viva dizendo que
prefere a ele do que The Number Of The Beast). A revista Circus e outras
publicações americanas anotaram como as músicas desse disco eram menos
"virulentas" do que as anteriores, o que provava a notável ignorância dos
críticos americanos ao material do Maiden desde o princípio.
OS EUA SE RENDEM: HEADLINERS NOS ESTADOS UNIDOS
A 'World Piece 83' Tour começou em 2 de maio na Inglaterra. No final do mesmo
mês eles começaram o que seria sua primeira tour pelos Estados Unidos e Canadá
como atrações principais. Era um passo audacioso, principalmente se levarmos em
conta que as rádios continuavam boicotando o Maiden como sempre. Mais
desafiadoramente ainda era o fato de Rod e a banda deixarem para lá lugares
menores e partirem logo para estádios. Também já levavam seu próprio equipamento
de som, o que facilitava uma qualidade mais regular nos shows.
E, como a fortuna sorri aos audazes, eles conseguiram de novo. Lugares como
Seattle, em junho (12.000 lugares), Long Beach (14.000) e San Antonio no Texas
(15.000!) tiveram lotação esgotada, provando de vez que o Metal tinha um público
muito maior do que se imaginava, e a mídia queria. Nessa primeira fase da tour o
Maiden teve como abertura o Fastway, e o Saxon como convidado especial. Depois o
Saxon saiu e Coney Hatch assumiu a abertura.
Mas a tour não foi só um sucesso em termos de estádios lotados: Piece Of Mind entraria na parada da Billboard no dia 2 de junho na posição número 127. Em oito
semanas, subiria até chegar à 15ª posição. Lá ficaria durante durante 5 semanas
chegando a subir mais um ponto, o número 14. Ganharia o disco de ouro depois de
dez semanas. O sucesso foi tão grande que trouxe até o 'The Number Of The Beast'
de volta às paradas, onde voltou no número 79 e também virou disco de ouro. Ao
final desse tour The Number Of The Beast se tornaria disco de platina, tendo
ficado nas paradas durante 43 semanas.
O RETORNO DO PODER: POWERSLAVE TRIUNFA!
O Maiden voltaria a Londres no final do ano para umas rápidas férias (e o
casamento de Steve Harris no dia 29 de dezembro) antes de encararem o habitual
estúdio para escreverem e ensaiarem as novas músicas no estúdio Le Chalet. Depois partiram para Nassau de novo, onde gravariam no Compass Studios e no The
Waterloo, sempre com Martin Birch produzindo.
Apesar da capa, mais 'simpática' e menos agressiva de todas até então (o Eddie
como o faraó egipcio Ramsés II não convence mesmo. Muito menos assusta), o
conteúdo era pura adrenalina. Muita gente esperava que o Maiden fosse suavizar
seu som depois de Piece Of Mind, mas não podiam estar mais enganadas. Nada de
canções 'fáceis' como 'Flight of Icarus': Powerslave era heavy metal em estado
bruto do início ao fim, sendo um bloco de sons de difícil assimilação no início.
Músicas como '2 Minutes To Midnight', 'Aces High' e a faixa-título (realmente
impressionante) se tornariam clássicos absolutos, com a banda ainda mais
entrosada, coisa que parecia impossível. 'Rime Of The Ancient Mariner' era uma
extensão lógica das longas faixas épicas de Steve Harris, mostrando influências
do rock progressivo, que iria marcar os futuros trabalhos da banda. Embora o
restante do material não conseguisse seguir no mesmo nível (bem mostrado na
instrumental 'Losfer Words') 'Powerslave' foi para muitos o ápice da carreira da
banda, que ostentava um fôlego criativo muito acima da média de seus
contemporâneos.
Foi também o "disco da moda" nos Estados Unidos, onde a banda consolidou de vez
sua carreira. Nunca mais deixariam de ser a atração principal, onde quer que se
apresentassem. O LP tornou-se o segundo a vender mais de um milhão de cópias por
lá, atingindo o décimo segundo lugar na parada da Billbord. Na Inglaterra só não
chegou em primeiro por conta de uma coletânea que segurou-os no segundo posto.
O disco chegou em boa hora, já que muitos críticos insistiam em dizer que o
Metal tinha se esgotado e já dera tudo que podia no início da década. Numa época
em que a guerra fria havia voltado com toda a força e o conservadorismo da
chamada 'era Reagan' imperavam, o anticonformismo e as letras críticas do Heavy
Metal não eram bem vindas de jeito nenhum. Já haviam começado as infames
campanhas pela 'moralização' das artes em geral e da música em particular. O
Iron viria provar que o Metal continuava vivo e bem. Ignorando os conservadores
e fanáticos religiosos, se lançaram à sua mais nova tour pelo mundo.
E a 'World Slavery Tour' seria ainda mais longa que as antecedentes: 300
apresentações em 325 dias, abarcando 28 países no processo. Poucas, muito poucas
bandas tão bem sucedidas aguentariam e manteriam a qualidade de som num período
tão longo e estafante. Para a sorte dos brasileiros, o grupo concordou em se
apresentar no Rock In Rio, apesar do Brasil não estar no programa inicial.
Assim, nós sortudos tivemos a chance de ver a banda no auge, ainda que por
apenas um show.
SEM PAUSA PARA RESPIRAR
Por melhor que tenha sido a recepção do novo disco e a enorme demanda de
ingressos para ver "a última novidade" (nos Estados Unidos), esta quase foi a
tour que acabou com o Maiden. Bruce Dickinson sintetizou muito bem o sentimento
geral com uma frase: "Esta foi a nossa melhor tour e a nossa pior tour. Quase
que nós terminamos de vez”.
A banda foi para a estrada levando um cenário ao mesmo tempo simples e
impressionante, que ganhou a aprovação geral da banda, pois servia para qualquer
ambiente. Os próprios membros do Maiden consideram que foi o cenário mais bem
sucedido deles até hoje e quem viu o sensacional vídeo "Live After Death"
(dirigido com rara competência por Jim Yukich) pode conferir. Os shows foram um
'must' para o verão de 1985, onde a banda desfrutava uma fama sem precedentes
nos EUA. Todo mundo parecia querer ver a "última moda". Powerslave tornou-se o
disco que todo mundo tinha, mesmo que nunca comprassem outro LP do Maiden, como
Bruce comentou tão acertadamente. Com isso a demanda para shows extras aumentou
de forma assustadora, obrigando a banda a aguentar um esquema ainda mais pesado
do que vinham enfrentando até então.
O número de apresentações foi crescendo tanto que Bruce teve que, literalmente,
chegar até Rod e ordenar que parassem ou "eu teria pulado fora. Eu acho que foi
a primeira vez que eu realmente pensei em cair fora - e não digo só do Iron
Maiden, mas desistir até da carreira musical. No final daquela tour eu estava me
sentindo como se fosse só uma parte da maquinaria, assim como os fios do
equipamento de luz."
Adrian Smith confirma a dureza: "Parecia que ia continuar para sempre... seis
meses, tudo bem... nove meses, tudo bem. E então era estendida. (...) Você
perdia o ano inteiro, perdia contato com as pessoas... eu me lembro de quando eu
fui visitar meus pais quando voltamos para a Inglaterra e eu bati na porta
errada! Sério!"
Até mesmo os incansáveis Nicko McBrain e Steve Haris acharam que a coisa estava
fora de controle e deram um basta para Rod Smallwood que, sendo um ex-agente,
parecia achar que estava mantendo todo mundo feliz enchendo a agenda com novos
compromissos.
Da tour resultou o primeiro 'verdadeiro' álbum ao vivo do Maiden: "Live After
Death". Um impressionante álbum duplo gravado no Long Beach Arena, durante duas
noites das quatro em que tocaram por lá durante a World Slavery tour. Ao
contrário da maioria dos discos ao vivo, esse não possuía nenhuma regravação ou
melhoria feita em estúdio, como é de costume. Foi gravado quase todo direto num
único show, o que o torna ainda mais raro. "Nós queríamos um verdadeiro disco ao
vivo, porque é isso que somos, afinal de contas. Uma banda ao vivo." Disse Steve
Harris na época. Até mesmo o vídeo foi todo filmado usando apenas dois shows,
sendo que apenas umas poucas partes do segundo foi usado na edição final, a fim
de que o público tivesse uma boa idéia do que seria uma apresentação verdadeira
da banda.
O sucesso tanto do álbum (o terceiro a virar disco de ouro em seguida nos EUA)
quanto do vídeo, deu o necessário descanso para que a banda se recuperasse da
estafante maratona. Mas os efeitos dessa loucura continuariam a afetar a banda
por muito tempo ainda no futuro, atingindo principalmente Bruce Dickinson.
CAUGHT SOMEWHERE IN TIME
A pausa que deveria durar seis meses acabou sendo de apenas quatro. Logo a banda
estava preparando material para gravar seu sexto álbum de estúdio. O disco
mostraria bem a divisão em que a banda se encontrava internamente: enquanto
Steve, Adrian e Dave se atiravam de cabeça na mais avançada tecnologia das novas
guitarras sintetizadas, Bruce estava interessado em fazer algo mais acústico.
Suas composições acabaram rejeitadas pelos outros, embora neguem que fosse pelo
fato de serem acústicas. Para piorar a situação, Adrian Smith voltou a escrever
suas próprias letras durante as férias. O resultado foi que nenhuma composição
de Dickinson entrou no novo disco. Adrian também teve uma música sua, Reach Out,
ejetada do álbum por ser muito pop ("parecia Bryan Adams" comentou Martin Birch),
sendo aproveitada apenas como lado b de um compacto.
Somewhere in Time foi o disco mais caro que a banda já tinha gravado até então.
Baixo e bateria foram gravados em Nassau, guitarras e vocais na Holanda e a
mixagem final foi feita em Nova York. Tudo feito sem pressa e com muito cuidado,
com a preciosa ajuda de Martin Birch, claro. O resultado foi um disco
espetacular, com grandes clássicos do Maiden, como Heaven Can Wait, a
faixa-título, e Wasted Years, enquanto Alexander the Great continuava a linha de
grandes épicos de Steve Harris. A levada de baixo meio funk de Stranger In A
Strange Land era outra surpresa. A capa também é uma obra-prima e revela muito
do conteúdo do disco: num cenário futurístico, bem à Blade Runner, um Eddie meio
máquina, meio humano, liquida um adversário usando armas de raios, enquanto a
banda os observa ao longe.
A recepção do novo trabalho não foi unânime: a crítica se dividiu, uns elogiando
a audácia dos músicos e sua tentativa de estender os horizontes do Heavy Metal,
outros execrando a "sofisticação excessiva" do disco. Comercialmente, no
entanto, foi o LP mais vendido até então, tendo ultrapassado a barreira dos dois
milhões de cópias só nos Estados Unidos (alcançou o número 3 nas paradas
britânicas). A tour que se seguiu também foi altamente bem sucedida, além de
cuidadosamente planejada e, graças a isso, muito menos stressante que a
anterior. Ainda assim, Bruce não engoliu totalmente a rejeição de suas
composições, embora tivesse escondido bem seus sentimentos na época.
TEMPOS RADICAIS: SEVENTH SON OF A SEVENTH SON
O sétimo álbum do Iron Maiden foi, ao mesmo tempo, um triunfo e uma polêmica.
Deve-se apontar aqui que os tempos haviam mudado muito em relação ao Metal.
Depois do sucesso imensas a partir do início dos anos 80, muitas bandas que
pouco ou nada tinham a ver com o estilo passaram a ser chamadas de metal apenas
para aproveitar a moda. Assim, grupos "fabricados" ganhavam a mídia, em geral
fazendo um som mais comercial, com letras mais leves e visual mais colorido ( as
famosas bandas "farofas" ) . A reação do verdadeiro Metal foi radicalizar
totalmente, com bandas de Black Metal, Speed Metal e Thrash. Qualquer um que não
fizesse um som rápido, violento e cru era tido como vendido. O som do novo Metal
fazia a música do Maiden parecer, como o próprio Steve Harris comentou, "quase
comercial".
Nada mais injusto. O novo disco, Seventh Son Of A Seventh Son, era ainda mais
sofisticado do que Somewhere In Time, com o uso extensivo de teclados na maioria
das faixas. Era pesado e melódico como tudo que o Iron Maiden havia feito antes,
mas as influências de rock progressivo (o primeiro amor de Steve Harris quando
começou a gostar de música) ficaram mais evidentes. Na época muita gente pensava
que o uso de teclados era um pecado imperdoável para uma banda de Metal. Na
verdade o Iron Maiden esta um pouco à frente do seu tempo e o disco antecipava a
rica combinação de Progressivo com Metal, que geraria tantas bandas importantes
nos anos 90.
Gravado na Alemanha, no Musicland Studios, entre fevereiro e março de 1988, o
disco seria o primeiro desde The Number Of the Beast, a atingir o primeiro posto
da parada britânica. Apesar de toda a polêmica por causa do novo som, foi também
dele que saíram os compactos mais bem sucedidos da carreira do Maiden, sendo que
um deles, Can I Play With Madness, chegou ao terceiro posto da parada e, mais
incrível ainda, lá ficou por três semanas. Foi o LP que mais vendeu na
discografia do Maiden em termos mundiais. Só nos Estados Unidos o disco vendeu
menos ("apenas" 1,2 milhões de cópias). Steve Harris têm frequentemente
comentado ser este um de seus discos favoritos. De fato, ele possui um belo
número de grandes músicas como a Infinite Dreams, The Clairvoyant e The Evil
That Men Do (as duas últimas também chegaram ao top ten da parada inglesa). O
disco quase todo falava sobre a vida após a morte e temas espirituais, mas os
membros garantem que, assim como Somewhere... tinha uma temática sobre o tempo,
tudo não passou de coincidência, que nada foi planejado.
A tour que se seguiu foi igualmente bem planejada e mais calma (mas ainda assim
carregada: 25 países em 7 meses). Steve Harris, casado e então pai de duas
meninas até deu um jeito de carregar a família a partir dessa excursão. Também
foi a primeira vez que tiveram um músico de fora dando força, o tecladista
Michael Kenney. Kenney, um americano, na realidade era um velho conhecido da
banda tendo sido contratado por Steve Harris desde 1979 como o técnico
responsável por seu equipamento. No palco ganhou o apelido de The Count (O
Conde), por conta de uma ridícula capa escura que usava nas apresentações.
Surpreendentemente, começaram a tour nos Estados
Unidos para depois irem para a Inglaterra. Isso porque a banda estava orgulhosa
de ser a atração principal no maior festival de rock do mundo o Castle
Donnington (que havia superado em prestígio o até então inabalável Reading
Festival). Tocaram encerrando a noite depois de Kiss, David Lee Roth, Megadeth,
Guns N'Roses e Helloween. Foi uma noite apoteótica: Por quase duas horas 100.000
fãs cantaram com o Maiden seus maiores clássicos (o maior público já registrado
no evento, antes ou depois daquela noite), ficaram encantados com a chuva de
fogos de artifício no final e continuaram pulando e aplaudindo uma boa meia hora
depois que o Iron deixou o palco. Infelizmente a banda ficou arrasada ao saber
que dois fãs haviam morrido sufocados na lama depois de uma forte chuva durante
a apresentação do Guns. A imprensa sensacionalista se aproveitou disso: futuros
festivais foram muito cerceados e tiveram um limite fixo de público determinado
pelas autoridades.
Mesmo abalados, os membros do Maiden deram prosseguimento à tour britânica, que
deu muito certo. Tão certo que um dos shows, gravado no NEC de Birmingham, virou
um dos melhores vídeos de rock de toda a história, o Maiden In England. Steve
co-dirigiu e editou o vídeo, que foi aclamado por críticos e fãs como ainda
melhor do que o clássico Live After Death. Foi também uma das fitas de vídeo
mais vendidas no ano de 1989. O que ninguém sabia era que aqueles shows na
Inglaterra seriam os últimos com Adrian Smith.
PROJETOS PARALELOS
Oficialmente, 1989 era para ser um ano de "folga" para as atividades da banda,
mas os eventos acabaram modificando esta expectativa. Steve Harris se trancou em
estúdio para fazer a edição do que viria a ser o vídeo de Maiden In England,
enquanto Dave Murray cuidava de arranjar residência no Havaí, com sua mulher
Tamara. Nicko McBrain então resolveu fazer umas jams com Adrian Smith. Estas
jams evoluíram para algumas pequenas apresentações com músicos convidados em
bares locais. Depois Adrian resolveu aproveitar músicas suas que não seriam
gravadas pelo Maiden para lançar seu próprio projeto solo chamado ASAP (as
inicias de Adrian Smith Album Project).
A idéia foi aprovada por Rod Smallwood que via com bons olhos o plano de
promover um membro do Iron nos Estados Unidos e assim conseguir alguma
publicidade extra para o grupo. Mas, apesar de ter conseguido até mesmo um
grande adiantamento da EMI, o disco foi um fracasso total. Nem uma série de
entrevistas, nem uma pequena tour promocional (com o filho de Ringo Starr, Zak,
substituindo Nicko) conseguiram atrair interesse. "Aquele material não era
pesado o suficiente para fãs do Metal." Explicou o guitarrista "E o fato de eu
pertencer ao Maiden não me ajudou a entrar em outros mercados."
Já a tentativa solo de Bruce Dickinson teria outro caminho e mudaria os rumos da
banda dali em diante. Tudo aconteceu meio por acaso quando Rod estava procurando
alguém para escrever o tema do filme Nightmare On Elm Street - part 5 e
perguntou a Bruce se ele tinha alguma coisa. Bruce mentiu dizendo que sim,
achando que isso seria uma boa oportunidade para dar uma força a um amigo seu
que andava sem emprego e deprimido: um guitarrista descendente de poloneses
chamado Janick Gers.
Janick já havia tocado com o antigo vocalista do Deep Purple, Ian Gillan, mas
estava sem trabalho há bastante tempo e pensando em desistir da música para
voltar a estudar. Bruce o conhecia de longa data e admirava seu talento. Ambos
se encontraram pela primeira vez quando Bruce cantava no Samson e Gers era
guitarrista da boa banda White Spirit. Bruce achava que era um desperdício
alguém como Gers ficar parado e o chamou para fazerem uma pequena apresentação
ao vivo no Prince Trust, em 1988. Em seguida mostrou-lhe o novo tema para o
filme. Janick ajudou a acabar a música e ela foi aprovada para a película: a
canção chamava-se Bring Your Daughter To the Slaughter.
A gravadora gostou tanto da música que sugeriu fazerem um álbum com material
parecido. Bruce achou boa a idéia de fazer algo diferente do Maiden e topou na
hora, embora não tivesse nenhuma outra coisa pronta. Em duas semanas fizeram
tudo ("as duas semanas mais rápidas da minha vida" diria Janick): entre
originais e covers, Tatooed Millionaire, foi lançado e provou que Bruce podia
viver sem o Maiden. O cover de David Bowie "All The Young Dudes" chegou ao top
20 da Inglaterra. Bruce conseguiu mesmo arranjar uma mini-tour de quatro semanas
nos Estados Unidos com Gers, mais o baixista Andy Carr e o baterista Fabio Del
Rio. Não tocaram nenhuma música do Maiden, preferindo outras covers como 'Black
Night' do Deep Purple e 'Sin City' (AC/DC).
Curiosamente, a música que iniciou todo esse processo não está incluída em
Tattoed Millionaire. Quando Steve Harris ouviu a gravação gostou tanto que
tratou de convencer Bruce a incluí-la no disco seguinte do Maiden. Bruce
naturalmente ficou com o ego massageado e topou. Apenas a versão americana do
disco do filme incluiu uma versão solo (com Janick Gers) de Bring Your Daughter
to The Slaughter.
MUDANÇAS RADICAIS O disco seguinte seria gravado na Inglaterra (o primeiro desde
The Number Of the Beast), usando o estúdio móvel pertencente aos Rolling Stones,
instalada num galpão ao lado da mansão de Steve Harris, em Sussex, no início de
1990. Antes que as gravações começassem, no entanto, aconteceu outra baixa no
Maiden e das mais sérias: Steve Harris conta que a banda questionou Adrian
Smith, dizendo que ele não parecia feliz em estar no grupo. Adrian confirma que
estava chateado com a idéia de gravarem um disco "de volta às bases" ao invés do
material mais sofisticado que andavam fazendo nos dois discos anteriores. Também
tinha gostado de ter completo controle no seu projeto solo, de voltar a cantar e
compor todo o material. Sentindo que não estava 110% integrado no grupo (um
pecado para Steve Harris e que já havia custado o mesmo posto à Dennis Stratton),
banda e guitarrista acharam melhor não começarem disco e tour nesse clima.
Adrian estava fora. Apenas uma música de Smith entraria no novo disco (a
diferente Hooks In You). Como as gravações iam começar logo, Bruce Dickinson
sugeriu o nome de Janick Gers para o posto vago. Janick foi chamado, fez uma
audição relâmpago (onde tocaram The Trooper, Iron Maiden e The Prisioner) e deu
tão certo que Steve Harris declarou que ele estava aceito e que as gravações
começariam no dia seguinte. Gers ficou pasmo, mas era verdade. No dia seguinte
começariam a gravar o novo disco do Maiden, intitulado No Prayer For The Dying.
Martin Birch estava produzindo novamente, mas o resultado foi bem diferente.
Gravado rápido e sem usar a vasta tecnologia dos dois anteriores, No Prayer For
The Dying, soa como uma demo bem produzida. O grupo tentou fazer o som sair mais
ao vivo possível, como se fosse num show. As críticas variavam muito, alguns
gostando outros detestando, mas muito poucos adorando. Sem dúvida houve uma
grande perda com a saída do elegante estilo de Adrian Smith e sem tempo de Gers
se adaptar devidamente. Ainda assim o disco tinha seus momentos, com Steve
Harris escrevendo algumas de suas melhores letras. O lado progressivo também não
ficou totalmente de fora em canções como a faixa-título e Mother Russia. Outro
destaque foi a hard rock esperto Holy Smoke (com a letra descendo o pau nos
pregadores televisivos), que chegou ao top 10 das paradas inglesas em setembro
de 1990. A grande surpresa, no entanto, foi Bring Your Daughter to The Slaughter:
seria o primeiro compacto da carreira do Maiden a atingir o primeiro posto na
Inglaterra, apesar da letra algo pesada com seu humor negro de filmes de terror.
Fato ainda mais extraordinário se levarmos em conta que a rádio estatal inglesa,
BBC, se recusava a tocar o disco em horários "familiares". Lançado no dia
primeiro de outubro de 1990, o novo disco alcançou o segundo posto da parada
inglesa e se deu bem no resto do mundo, exceto nos Estados Unidos, onde, apesar
de ganhar disco de ouro, vendeu apenas 500.000 cópias (uma queda considerável se
levarmos em conta os cinco discos de platina consecutivos anteriores). Os
americanos andavam, como se veria, recusando tudo que representavam os anos 80
em troca de um som mais largadão, produzido basicamente em Seattle: o Grunge. A
banda iniciou nova tour, com um palco mais simples e básico, seguindo a nova
filosofia contida no disco. A boa surpresa para os fãs foi ver que Janick Gers
era um animal no palco, animadíssimo. Isso acabou contagiando o resto da banda e
até o tímido Dave Murray. Mas o maior desafio que a banda iria enfrentar em sua
carreira ainda estava para acontecer.
FEAR OF THE DARK
Os anos 90 não foram bons para a turma que fez a fama na década anterior. O
cenário Heavy Metal estava sendo tomado pelas bandas thrash (Metallica, Slayer,
Megadeth, etc.) e a moda do som Grunge (Nirvana, Perl Jam, Soundgarden) atingia
não só os Estados Unidos, mas boa parte do mundo. O hard rock e o metal
tradicional começaram a ser encarados como "coisa ultrapassada". Ricos e
famosos, o pessoal do Maiden podia ter simplesmente pendurado as chuteiras e
viver de renda. Ao invés disso encaram as mudanças e foram em frente. Lançaram
Fear Of The Dark, em maio de 1992. Bem mais entrosados com Gers agora e com uma
nova fornada de canções fortes, o novo disco estreou no posto número um da
parada britânica (a terceira vez que a banda conseguia este feito). Pouco antes
o potencial do novo disco era mostrado com o sucesso de um single rápido e
pesado: Be Quick Or Be Dead (chegou ao número dois das paradas). Para os fãs de
longa data a novidade inicial era a capa: a primeira sem Derek Riggs. A banda
estava achando que o Eddie precisava ser renovado e por isso escolheram o
desconhecido Melvyn Grant para o trabalho. O resultado foi algo muito parecido
com as anteriores, mas sem o humor nem a classe de Riggs. "Era apenas nossa
tentativa de fazer algo novo" Diz hoje Harris dando os ombros. O disco no
entanto continha um bom material: doze faixas inéditas gravadas no novo estúdio
de Steve Harris, instalado em sua casa de Sussex. Com a nova tecnologia de CDs o
grupo resolveu aumentar no número de músicas. O resultado foi consideravelmente
superior ao No Prayer For The Dying, com músicas certeiras como Be Quick Or Be
Dead, a épica faixa título, a balançante From Here To Eternity e até uma balada,
Wasting Love. Havia um pouco de tudo no disco e parecia que o Maiden havia se
acertado afinal na nova década. Só parecia. Para um bom observador a letra de
Wasting Love começava com uma frase que parecia dizer como andava o espírito de
Bruce: "Talvez algum dia eu me torne um homem honesto / Até agora eu estou
fazendo o melhor que posso..." A tourné promocional de Fear Of The Dark começou
na Escandinávia , em maio, e continuou por boa parte do verão europeu, sendo que
muitos shows foram gravados já que a banda teve a idéia de lançar um disco ao
vivo no meio da tour. Um dos melhores momentos que tiveram foi quando se
tornaram pela segunda vez a atração principal do festival do Donnington Castle.
Embora com menos estrelas que em 88 (Skid Row, Sepultura e Thunder), o Maiden
surpreendeu a todos com um show ainda melhor do que aquele. Todo ele foi filmado
para um disco ao vivo e vídeo para serem lançados no ano seguinte. O público era
menor e mais controlado, devido aos tristes acontecimentos da vez anterior, mas
a animação foi total e o sucesso imenso. Mas havia pelo menos uma pessoa na
platéia estranhando aquilo tudo: Adrian Smith. "Me senti esquisito vendo a banda
tocar músicas que eu escrevi e participei." comentou Adrian. O pessoal do Iron
no entanto o chamou para a última música e tocaram juntos "Running Free". Pouca
gente então podia acreditar ou sonhar que aquela formação completa, com três
guitarras, iria se reunir de forma permanente muitos anos depois. Infelizmente o
vídeo Iron Maiden At The Donington Castle, que apareceria tempos depois com a
espetacular apresentação, seria o pior de toda a filmoteca do Maiden: cheio de
efeitos esquisitos, muitíssimo mal dirigido, câmeras que corriam de um lado para
o outro , não parecendo saber o que filmar, cores entrando e saindo como se o
videocassete estivesse defeituoso. Lamentável. primeira parte da tour terminou
no dia 4 de novembro, no Japão. A idéia era tirar dois meses de férias, durante
os quais Steve Harris cuidaria de fazer a mixagem do disco ao vivo e lançá-lo a
tempo de pegar a segunda parte das apresentações, no ano-novo.
INSATISFAÇÕES INTERNAS
Apesar do sucesso de Fear Of the Dark e do triunfo no Donington Castle. Bruce
não andava feliz da vida: "Eu estava entediado e desesperado para fazer alguma
coisa diferente" e se ressentia de "ter que me adaptar sempre aos moldes do
Maiden". A situação não melhorou nada com as férias forçadas por conta do
trabalho de mixagem de Steve Harris. Bruce já tinha começado suas atividades
extra Maiden há algum tempo, lançando dois livros de ficção, praticando esgrima
com dedicação e trabalhando ocasionalmente em Rádio e TV como apresentador.
Quando durante o intervalo da tour recebeu um convite da Sony Music para fazer
uma continuação de Tatooed Millionaire, não foi preciso que pedissem duas vezes.
Fez algumas gravações na Inglaterra com os membros do grupo Skin atuando como
acompanhantes, mas achou que não ficaram boas. Bruce então se mandou para os
EUA, indo trabalhar com o produtor Keith Olsen, nas demos do que seria seu
segundo disco solo, Balls to Picasso. Segundo o próprio, Bruce andava decidido a
fazer um disco diferente, explorar novos sons e se arriscar mais. Depois que
começou as gravações percebeu que suas idéias estavam indo para muito longe de
tudo que fazia no Maiden. Uma das faixas que gravou nessas sessões "Original Sin",
que falava sobre seu relacionamento com seu pai, se tornou um momento de decisão
para ele. Vendo que não poderia dar tudo o que tinha no Maiden (e que este não
iria mudar o seu som por sua causa), achou que era hora de sair. Mesmo sabendo
que era um tremendo risco tanto financeiro quanto artístico, Bruce resolveu
seguir seu caminho. Depois de muito pensar, contou a novidade para Rod Smallwood,
que tinha ido visitá-lo em Los Angeles. Rod decidiu que ele daria a notícia aos
outros. Embora a decisão estivesse tomada, Bruce e a banda se viram numa
situação difícil: e o resto da tour? Praticamente todos os ingressos já estavam
vendidos, as datas marcadas, locais alugados, etc. Deveriam cancelar tudo e
decepcionar os fãs? Segundo Steve Harris a proposta era de que Bruce daria tudo
na tour, sem problemas, se eles quisessem honrar os compromissos. Embora a saída
do vocalista não tivesse pego Steve totalmente de surpresa, a hora não poderia
ser pior: Steve estava passando por um processo de divórcio e andava muito
deprimido. Chegou mesmo a pensar em desistir de tudo e encerrar a carreira e
banda quando soube da novidade sobre o vocalista. Mas recebeu muito apoio do
resto do grupo, especialmente de Dave Murray, que segurou as pontas e o
encorajou a continuar. "Mas, mesmo assim, eu falei: como fazer a tour e olhar
nos olhos do público, quando eles sabem que há uma pessoa ali que não gostaria
de estar ali?" Relembra Steve. Rod garantiu: 'Ele disse que quer fazer a tour,
vai dar tudo por ela e que deixará a banda no final. E que será um bom
encerramento." Steve acabou concordando mas, como ele próprio diria mais tarde:
"Claro que hoje eu me arrependo disso." O restante da tour foi um período
difícil para todos, para dizer o mínimo: houve muita polêmica sobre as atuações
de Bruce. Segundo o pessoal do Maiden (menos Janick Gers) e várias testemunhas,
Bruce estaria se esforçando apenas em shows mais importantes, sendo que algumas
vezes nem cantava direito, simplesmente ruminando ao microfone. O tour manager
Dickie Bell se lembra: "Quando ele estava bem, ele era muito, muito bom. Mas
quando ele estava mal, ele era horrível. Ele nem se importava em cantar algumas
partes, tanto quanto eu pude perceber. Bruce era sempre o último a chegar para o
show e o último a deixar o camarim para ir para o palco, o que, pela minha
experiência, era sempre um mal sinal. Eu comecei a achar, simplesmente, que a
hora tinha chegado para ele sair. Ficar por ali não estava fazendo bem a
ninguém." Bruce nega tudo, embora admita que ficou numa posição difícil, como
frontman. "Eu não iria colocar uma máscara de cara feliz. Provavelmente eu fui
ingênuo em ter me colocado naquela situação, mas eu estava tentando. Eu tentei o
melhor de mim mas eu vi que não dava para ser a mesma coisa. Em algumas noites,
por mais que eu tentasse, realmente não dava. Um concerto de rock deveria ser
uma celebração e não um velório."O clima ficou tenso, com o profissionalíssimo,
Harris louco para torcer o pescoço de Bruce e o resto da banda ressentida com
todo o affair. Assim sendo, todo mundo ficou aliviado quando a tour finalmente
acabou. A última apresentação do cantor com a banda seria num especial para TV,
Raising Hell (que depois viraria vídeo), com a presença do mágico performático
Simon Drake, em agosto de 1993. A presença do teatral Drake deu um sabor
diferente, sem dúvida, mas a performance em geral deixou muito a desejar (é
óbvia a divisão entre Bruce e os demais. Ele só se arrisca a brincar com Janick
Gers). Apesar de uma estupenda versão de Transylvania, de todos os truques de
ilusionismo e do humor negro do convidado especial, é um vídeo melancólico e não
acrescentou muito na carreira da banda. Naturalmente lidar com a imprensa não
foi fácil: antes de começar a segunda parte da tour, uma coletiva anunciou a
separação usando o velho termo de "diferenças musicais". Depois que acabou a
excursão e Bruce saiu, começou a esperada troca de farpas, com o vocalista
tentando se afastar o máximo possível da sombra do Maiden. Mas nada do que foi
dito, ou justificado, retirou a impressão (muito incômoda para ambas as partes)
de que eram perfeitos um para o outro. Bruce mesmo deixaria escapar numa
entrevista: "Eu acho que basicamente as coisas se desgastam depois de um tempo,
especialmente dentro de uma banda. Quero dizer, ficamos juntos 12 anos e eu
penso que algumas vezes eu deveria ter saído em 1986, antes de Somewhere In
Time, sabe? Mas isso agora é passado."
NOVO VOCALISTA?
No meio de toda a confusão com a saída de Bruce Dickinson da banda a boa notícia
foi a chegada de dois discos ao vivo (ambos da primeira parte da tourné Fear Of
The Dark): A Real Live One (com músicas da fase pós 1985) foi lançado em 22 de
março de 1993, e A Real Dead One que seguiu em 18 de outubro do mesmo ano (com
material mais antigo). Dos dois o primeiro é, de longe, o melhor, pois pegou
muito bem a fase pós Powerslave e tem algumas interpretações muito inspiradas. O
segundo deixou a desejar: Bruce Dickinson e a banda estão longe de conseguir
performances tão boas quanto Live After Death. Mas ambos se deram bem nas
paradas, os dois atingindo o top 10 da Inglaterra. (na versão mais recente da
discografia do Maiden os dois foram juntados num CD duplo).
A maior novidade desta fase foi a notada ausência do produtor Martin Birch.
Birch, depois de 25 anos produzindo disco após disco, achou que estava na hora
de se retirar de cena como um todo, e não só do Maiden. "Eu já tinha tomado a
minha decisão na época da saída de Bruce, e uma coisa nada tinha a ver com a
outra." comentou ele "De fato, já no Fear Of The Dark eu fiquei pensando que
talvez fosse a hora de uma mudança de produtor para eles. Mas uma vez que eu
comecei o trabalho, eu mergulhei de cabeça nele. Eu adorei cada minuto e acho
que ficou um álbum muito bom." Mas assim que terminou o trabalho, Martin
perguntou a Steve Harris se não estava na hora de mudarem. Na verdade Martin já
queria parar completamente: "Naquele ponto, eu achava que já tinha tido o
bastante de produzir discos. E pouco depois parei de trabalhar na área. Eu senti
que se eu não queria ir para o estúdio, então não seria justo para eles eu ficar
forçando. Eu não queria dar menos do que 100% para Steve e o Maiden. Nós fizemos
álbuns durante anos juntos, mas chega uma época em que você tem que seguir outro
caminho."
Steve Harris andava trabalhando muito no estúdio em anos recentes e havia
aprendido bastante com o mestre. Nada mais natural que ele assumisse a nova
função, com a ajuda de um fiel escudeiro, o engenheiro de som Nigel Green (que
vinha trabalhando a anos nos discos do Maiden). Harris confirma: "Martin queria
se aposentar e fazer suas próprias coisas e jogar golf. Eu já estava basicamente
co-produzindo os dois últimos discos do Maiden com Martin, então eu sabia onde
eu estava entrando. Foi um crescimento natural, mesmo."
Mas o problema mais sério continuava: como substituir alguém como Dickinson,
alguém que tinha se tornado tão lendário quanto seus heróis Ian Gillan ou Ronnie
James Dio? A banda anunciou que estava procurando um novo cantor e foi,
literalmente, inundada de fitas, vídeos e CDs de candidatos de todo o mundo.
Steve Harris garante que ouviu todo o material, mas já estava de olho num
vocalista desde o princípio. Um cara que cantava numa banda de Birmingham, que
havia aberto alguns shows do Maiden na Inglaterra em 1990, chamada Wolfsbane.
Blaze Bayley (nome verdadeiro: Bayley Cook) já tinha sido convidado a fazer um
teste logo depois da saída de Bruce, mas ele recusou inicialmente ao convite, já
que sua banda tinha sua própria tour agendada e um disco ao vivo para ser
lançado. Blaze agradeceu dizendo que estava lisongeado com a oferta. Steve
entendeu perfeitamente: ele muito apreciava pessoas leais às suas bandas. Mas
Blaze logo se arrependeu, sentindo que o Wolfsbane nunca seria um grande sucesso
(já tinham lançado quatro álbuns, um EP e alguns singles), conseguindo sempre
boas críticas, mas pouca vendagem. A gota d'água aconteceria com o novo disco de
estúdio, onde o Wolfsbane estava se afastando do Heavy Metal e Blaze sentiu que
"não havia mais lugar para uma voz do meu tipo." Ligou então para Steve para
saber se ainda procuravam um novo cantor.
Naquelas alturas o Iron só tinha um outro candidato: um cantor novo muito bom
chamado Dougie White. A banda resolveu deixar que ambos cantassem duas músicas
do Maiden com a voz de Bruce retirada para ver como se saíam. Apesar de Dougie
ter uma voz muitíssimo mais privilegiada e ser mais técnico, ficaram com Blaze.
Uma das decisões mais polêmicas (ou desastrosas, dependendo do ponto de vista)
da história do Metal. White mais tarde entrou para o Rainbow e quem quer que
tenha ouvido o disco que ele gravou com o grupo de Ritchie Blackmore, Stranger
In Us All, deve ter se perguntado se o pessoal do Maiden realmente tinha se dado
ao trabalho de ouvi-lo cantar .
DISCO INTROSPECTIVO E CRÍTICAS
Blaze foi anunciado oficialmente como membro do Iron Maiden em janeiro de 1994.
E logo partiram para a produção do novo disco, a ser chamado The X Factor. As
gravações ocorreram no estúdio da casa de Steve Harris, agora ainda mais bem
equipado e batizado como "The Barnyard" "o celeiro" . O CD seria lançado em
outubro de 1995, sob muitas expectativas. Depois de um ano dando duro no
trabalho, a banda ficou bastante confusa e magoada com a chuva de críticas que o
disco recebeu assim que foi posto no mercado.
Harris particularmente o considerava um dos "três melhores trabalhos da banda -
os outros dois seriam Piece Of Mind e Seventh Son of A Seventh Son". No entanto,
desde Killers que a imprensa do Metal não malhava tanto o Maiden. E isso incluía
críticos que eram fãs do Maiden, como David Ling, que não pouparam o disco,
mesmo três anos depois: "Pessoalmente eu achei o CD um grande erro. E eu ainda
acho isso." Apenas na França e na Alemanha, onde o disco ganharia prêmios de
Álbum do Ano, as opiniões foram melhores.
The X Factor é, sem dúvida, o disco mais sério e
"adulto" do Maiden. Não há estorinhas de terror nem ficção científica, muito
menos bom humor. Da capa até a última faixa, tudo reflete o momento difícil que
passava a banda, especialmente Steve Harris. Ainda abatido pelo doloroso
divórcio de sua mulher Lorraine, que tinha sido sua namorada desde a
adolescência, e com quatro filhos pequenos para cuidar, Steve não se sentia nada
à vontade para escrever canções animadas. "Foi provavelmente o período mais
difícil que tive que encarar na minha vida." Admitiu ele mais tarde. "Não fosse
pelo Dave (Murray) e os outros rapazes da banda terem me dado tanta força eu não
sei se teria me recuperado".
Assim sendo não é nenhuma surpresa que as músicas do principal compositor tenham
saído algo amargas, muito pessoais e introspectivas. Era um disco mais para si
mesmo, para poder exorcizar seus demônios. Mesmo as músicas em parceria com
Blaze ou Gers pareciam "contaminadas" pelo mesmo tom. Em Judgement of Heaven a
letra não podia ser mais explícita: "Senti vontade me suicidar uma dúzia de
vezes ou mais / mas este é o caminho fácil, o caminho do egoísta / a parte mais
difícil é levar sua vida adiante". A parte musical seguiu o clima das letras,
sendo que muito raramente se via toda a força explosiva do Maiden. Visto por
este ângulo não é também de surpreender que o primeiro single lançado para
promover o CD tenha sido a única música que Steve não escreveu ou co-escreveu no
disco: Man On The Edge (De Gers e Bayley), a mais "pra cima" (musicalmente) de
todo o X Factor.
O single se deu bem nas paradas, chegando ao décimo posto e permitindo a volta
do Maiden ao Top Of The Pops. A banda, mais flexível, até aceitou fazer mímica
para o playback (só Blaze cantou ao vivo). Mas o álbum não foi tão bem, chegando
apenas ao oitavo posto, o primeiro desde Killers a não chegar no top cinco. A
banda ficou chateada, claro (exceto Blaze, que nunca tinha ido tão longe em sua
carreira até então). Mas Rod Smallwood mesmo admitiu que o disco era "muito
sombrio" para ser um sucesso popular. Steve insiste que, pelo menos para ele, o
disco é um dos seus melhores: "eu gosto que ele leve mais tempo para você se
acostumar. Os melhores discos geralmente são assim." De fato, X Factor têm sido
reconsiderado por muitos críticos com o passar dos anos. Mas na época pegou mal.
O Iron Maiden sempre gostou de tocar em lugares diferentes e abrir novos
horizontes. E, claro, acharam que seria bom começarem a primeira tour com Blaze
indo para onde nunca tinham tocado antes, a fim de que o novo vocalista pudesse
ir se acostumando: até então Bayley nunca tinha feito tournés com mais de três
semanas de duração. E o Wolfsbane só tinha tocado dentro da Inglaterra. Assim
sendo a banda começou a tour com três shows em Israel, três na África do Sul,
antes de seguirem para o leste europeu, tocando na Bulgária, Eslovênia, Romênia
e Tchecoslováquia. A tour começou no dia 28 de setembro de 1995 e terminou quase
um ano depois, em 7 de setembro de 1996, abarcando meio mundo e tocando
inclusive no Brasil, onde a banda pode lotar o estádio Pacaembu em São Paulo. O
Iron adorou: enquanto que nos Estados Unidos eles ficaram em lugares menores,
entre 1.500 e 2.000 lugares, devido ao mercado ruim para o Metal, aqui eles
puderam tocar para 55.000 pessoas numa única noite.
Por melhor que pudesse parecer o quadro - o que não era o caso - um problema
continuava: Blaze tinha sido mesmo a melhor escolha? Ficou na cara que o novo
cantor era um cara extremamente simpático, bem-humorado e modesto. Era inclusive
um vocalista muito bom, mas para uma banda como o Maiden, muito bom não era o
bastante. Tinha que ser brilhante.
Nessa tour ficou claro que Bayley podia dar conta do novo material, mas não
convencia nos clássicos. Muito diferente quando Bruce substituiu Paul Di'Anno.
Mas, pelo menos por hora, a banda deu apoio total ao novato e insistiram Run To
The Hills tinha sido tirada não porque o cara não conseguia cantá-la, mas
somente porque tinha sido o primeiro hit com Bruce. Poucos acreditaram.
ENQUANTO ISSO...
O Maiden tentava ainda convencer com a nova formação. Para sua sorte, ou azar, o
cenário mundial do metal começava a mudar de novo: o som de Seattle começou a
decair enquanto bandas metálicas de todas as partes do mundo (e que tinham sido
direta ou indiretamente influenciadas pelo Iron) começaram a aparecer fazendo
justamente o metal rápido, pesado e melódico que era a raiz do Maiden, apenas
com uma ótima e tecnologia mais anos 90.
Mesmo nos Estados Unidos a cena musical foi lentamente mudando para um som mais
pesado (o chamado Alterna Metal): Machine Head e Korn, entre outras, estreavam
nas paradas. Muitas bandas antigas que tinham tentado mudar o seu som (e se dado
muito mal), voltaram a fazer o que sabiam fazer de melhor. Aí incluídos alguns
antigos relacionados do Maiden.
Dennis Straton, depois de formar e ter algum sucesso com o seu Lionheart, sumiu
de cena até o início de 1990, quando participou junto com o velho Praying Mantis
(acrescentado temporariamente com Paul Di'Anno) para as comemorações dos dez
anos da NWOBHM. Fizeram uma tour muito bem sucedida pelo Japão, lotando todos os
lugares onde tocaram e gerando um disco ao vivo: "Praying Mantis featuring Paul
Di'Anno and Dennis Straton Live In Japan", que chegou ao top dez japonês. Paul e
Dennis conseguiram reativar suas carreiras, mas outros não se deram tão bem:
Doug Sampson se tornou motorista de empilhadeiras e Clive Burr, que se recusa a
falar com a imprensa, dizem estar ganhando a vida como taxista.
THE BEST OF THE BEAST
O Maiden, pego no meio da "nova nova onda" do novo Metal, resolveu lançar pela
primeira vez uma coletânea oficial, enquanto dava um tempo para o decisivo
segundo trabalho com Bayley. The Best Of The Beast, um CD duplo, lançado em
novembro de 1996, foi saudado por público e críticos, ainda que apenas por
motivos saudosistas.
Certamente qualquer "maidenmaníaco" deve ter ficado felicíssimo de ver algumas
faixas raras incluídas, especialmente a versão original de Strange World
(gravada na sessão de Soundhouse Tapes, mas excluída do vinil. Paul canta
maravilhosamente desafinado). A prensagem inicial incluía um belíssimo encarte
com fotos raras e letras. Também trazia, como atrativo extra, uma música nova (e
muito boa): Vírus.
Gravada em setembro de 1996, nos estúdios de Steve Harris, essa peça de 6
minutos era a resposta de Steve para os críticos que malhavam a banda
impiedosamente havia um ano. Na frente de uma base poderosa, Blaze cuspia a
letra que ele e Steve haviam escrito: "Eles querem afundar o barco e partir / o
jeito que eles riem de você e eu / você sabe que isso acontece o tempo todo". O
CD, mesmo duplo, foi o décimo quarto trabalho do Maiden a vender mais de um
milhão de cópias em seguida.
A turma então resolveu tirar uma folga: entre gravações e tours tinham sido já
dois anos com Blaze. Levaria alguns meses para que o grupo se reunisse novamente
na mansão de Steve para iniciarem as composições e ensaios do novo disco.
BRUCE E ADRIAN
Bruce Dickinson enquanto isso se manteve durante um bom tempo distante do Heavy
Metal em geral, e de qualquer ligação com o Iron Maiden em particular. Mas
depois de dois discos meio esquisitos, Balls to Picasso e Skunkworks, finalmente
percebeu que sua praia era mesmo a música pesada. Ambos os CDs eram válidos como
experimentos, mas não convenceram nem os fãs antigos, nem conquistaram novos
mercados.
Em paz com o passado, casado pela segunda vez e pai de três filhos, parou de
criticar o Maiden e voltou para onde estavam suas raízes. Sua volta foi
triunfal: além de uma banda afiadíssima (destaque para o guitarrista, compositor
e produtor Roy Z), convidou o antigo companheiro Adrian Smith para ajudá-lo. A
química continuava intacta e o disco resultante foi o fantástico Accident Of
Birth, lançado em 1997, um sucesso de crítica e público. Bruce estava tão
reconciliado com o passado que até arranjou para que Derek Riggs desenhasse a
capa e criasse uma "paródia" do Eddie, que ele teve a cara dura de chamar de
Edison. "Eu fiz tudo isso deliberadamente" admitiu Bruce "Eu queria soar mais
Maiden do que o Maiden." E, segundo muitos, conseguiu. Até mesmo o cavalheiresco
Steve Harris, provavelmente ainda magoado com as críticas que a banda vinha
recebendo (enquanto acontecia o inverso com Bruce), soltou um raro comentário
venenoso: "Bruce gravaria um disco de Country, se ele pensasse que isso ia
vender."
No meio desse tiroteio, Adrian Smith admite que levou tempo para recomeçar a
tocar: "Eu acho que não fiz absolutamente nada durante os dois primeiros anos
depois que deixei o grupo." Financeiramente ele não tinha que se preocupar pelo
resto da vida depois de sete anos de gravações e tournés gigantescas em seguida.
Ao invés disso, ele se mudou com a mulher, a canadense Natalie, para o interior
da Inglaterra e começou uma família. "Acho que eu nem olhei para uma guitarra
durante um tempo" admite ele.
Foi só depois de ir ver o Maiden tocar no Donington Castle em 1992 (e fazer uma
jam com eles no final do show), que finalmente decidiu voltar à ativa. Um ano e
meio depois apareceu com uma banda chamada Psycho Motel, dando início à gravação
de seu primeiro disco auto intitulado. O CD seria lançado em 1996, depois que
Rod Smallwood - sempre ele! - arranjou um contrato com uma gravadora
independente, Castle Communications (a mesma de Bruce, depois que deixou o
Maiden). Mas o Psycho Motel não deu muito certo. E, apesar de Adrian dizer que
ia continuar e até começar a gravação de um segundo disco, acabou deixando um
pouco de lado o projeto ao aceitar o convite de Bruce para fazer Accident Of
Birth.
Aqui vale dizer que Adrian, ao contrário de Bruce, continuou amigo do pessoal do
Maiden e a manter contato: "Eu continuei querendo saber tudo sobre eles desde
que saí. Parte por causa de curiosidade e parte por causa de alguma devoção
esquisita. Eu ainda me importo com eles. Acho que sempre me importarei. Você não
pode escapar disso." Disse ele na época. Adrian seria também um dos poucos a
apoiar publicamente o Maiden pós Bruce e a elogiar The X Factor.
EM ESTADO DE EBULIÇÃO
A grande prova da nova formação do Maiden seria seu segundo CD, que começaram a
gravar em fins de 1997. O primeiro já tinha levado bastante fogo antiaéreo e não
aguentariam uma segunda artilharia. O novo Metal se expandia e novas bandas
fazendo um som próximo do Iron competiam no mercado. O sucesso do mais recente
trabalho solo de Bruce só tornou as coisas mais tensas. O retorno do Metal nos
anos 90 foi gradual, não a explosão que tinha sido no início da década de 80,
onde grandes bandas dos anos 70 acabaram ficando para trás, meio esquecidas
(como seus ídolos do UFO).
Desta vez muitos artistas que estavam decadentes ou tinham acabado puderam
reativar suas carreiras graças a este renascimento em meados da década (Metal
Church, Angel Witch, Twisted Sister, entre dezenas de outros). Mesmo assim, e
ainda que somado ao fato das pessoas estarem com a mente mais aberta, público e
críticos começaram a ficar impacientes com o Maiden, achando que a nova formação
não honrava o nome e a fama da banda.
O grupo apostou todas as suas fichas no CD Virtual XI (o título se referindo à
paixão do grupo tanto ao futebol quanto a jogos de computadores). Infelizmente o
resultado, lançado no início de 1998, foi longe do que precisavam: razoável, no
máximo. Menos sombrio e mais "para cima" do que The X Factor, o disco mostrava
muito pouco para uma banda que se orgulhava de sempre apresentar trabalhos
primorosos.
Faixas boas como Futureal ou Lightning Strikes Twice conviviam com outras que
não convenciam de jeito nenhum, coisas como The Educated Fool. Embora The X
Factor tivesse um certo "charme" sombrio e diferente, neste não dava para
disfarçar a falta dos duelos de guitarra, a duração excessiva de algumas faixas,
o uso indevido dos teclados e o que parecia ser uma notável falta de inspiração.
A banda ainda tentou defender o novo disco com uma barragem de entrevistas na
imprensa, rádio e televisão. Até uma biografia oficial, Run To The Hills, foi
lançada em abril de 1998, onde, na parte final, todos faziam a maior babação de
ovo para Blaze e o novo trabalho. Mas todo este esforço não foi suficiente. Para
piorar, na mesma época Bruce e Adrian lançariam um disco ainda mais pesado e
vibrante do que o anterior: The Chemical Wedding , outro sucesso de crítica e
público. Consequentemente a situação da banda em geral - e de Bayley em
particular - ficou crítica. A tour subsequente com os alemães do Helloween
abrindo só tornou as coisas ainda mais difíceis. Notícias de cancelamentos por
falta de interesse do público (principalmente nos Estados Unidos) escapavam para
a imprensa. Nesse clima não ficou difícil para que alguém levasse a culpa e se
tornasse o bode espiatório do período.
Dados sobre o que realmente aconteceu nessa épocas não estão disponíveis: só no
futuro poderemos saber exatamente o que rolou. O certo é que público e imprensa
culpavam Bayley em maior escala e Gers em menor pela "decadência" da banda. Há
quem diga que Blaze não estava dando conta do esquema pesado das tournés do
Maiden , perdendo a voz e forçando o cancelamento de apresentações importantes,
justamente como Paul Di'Anno havia feito tantos anos antes.
Testemunhas falam do clima tenso entre o vocalista e o resto da banda no que
seria sua última tour com o Iron. Independente do que aconteceu internamente, o
destino de Blaze estava selado desde o começo das apresentações. Era preciso uma
mudança radical. E rápida.
UM SONHO QUE SE TORNA REALIDADE
Notícias da iminente saída de Blaze começaram a correr pela imprensa. O metal
melódico e o Power Metal tradicional estavam voltando com toda a força. Um CD
tributo ao Maiden, chamado A Call To The Irons, com bandas underground (na
maioria de Death ou Doom Metal), foi um grande sucesso, tanto que levou a um
segundo volume em 1999. Outros tributos apareceriam em seguida. Bandas veteranas
como o Saxon lançaram grandes discos na segunda metade dos anos 90 provando que
havia espaço para todos no novo cenário. O "som do Maiden" estava retornando com
força total.
Mesmo antes da saída oficial de Blaze, muito se especulou sobre quem seria o
novo vocalista do Maiden: Dougie White, que havia sido preterido em favor de
Blaze, era uma possibilidade. Falava-se também em Michael Kiske (ex-Helloween).
Mas a grande notícia pegou meio mundo de surpresa: Bruce Dickinson estava de
volta ao Maiden! E, melhor ainda, trazia junto consigo Adrian Smith! Janick Gers,
que manteve intacta sua amizade com aquele que lhe dera a mão quando mais
precisava foi o principal articulador da reunião, aparando devidamente as
arestas entre Steve Harris e o vocalista.
Numa série de encontros feitos secretamente em Paris, todos tiveram a
oportunidade de conversar e chegar a um acordo. Vale dizer que durante todo este
tempo, mesmo quando criticavam abertamente um ao outro, nenhum dos dois deixou
de destacar o respeito mútuo pelo talento de parte a parte. Bruce em particular
sempre deixou claro que considerava Steve um "cara muito talentoso e honesto".
Blaze, um bom vocalista, com talento e elegância, deixou o Maiden sem falar mal
dos seus antigos companheiros e tratou de se concentrar em sua carreira solo, o
resultado do trabalho é o magnífico 'Silicon Messiah', um disco 100% heavy metal
com guitarras pesadas e letras de primeira, Blaze sempre se mostrou um cara bem
heavy metal, o resultado não poderia ser outro, seu disco também por algumas
vezes mostra marcas da sua passagem pelo Maiden, como 'The Launch' que lembra
muito 'Man on the Edge', do Maiden.
BRAVE NEW WORLD?
A tour de reunião coincidiu com o lançamento do game Ed Hunter, um velho projeto
do pessoal do Iron, sempre apaixonados por vídeo games. Quem apostava numa
tourné "caça níqueis", onde a banda só teria se reunido para conseguir dinheiro,
se deu muito mal. Com três guitarras o som ficou ainda mais poderoso e mesmo os
críticos mais ferrenhos se renderam, admitindo que todos no Maiden pareciam
rejuvenescidos e cheio de energia vibrante. "O Maiden nunca soou tão brilhante e
Bruce Dickinson está tão animado quanto durante a World Beast Tour de 1983!"
Escrevia um jornalista americano que viu os primeiros shows da nova formação. A
excursão foi um sucesso absoluto e provou de vez que havia mais do que simples
ambição com a reunião dos músicos. Mas se provariam no estúdio? Ainda haveria
inspiração para trabalhos inéditos? As três guitarras funcionariam num disco do
Iron Maiden ano 2000? A resposta seria um trabalho que calaria a boca dos piores
pessimistas.
Bruce e Steve disseram que o novo disco seria o mais importante da carreira do
grupo. Era uma bravata, claro. Mas não deixou de surpreender. Gravado em Paris,
com a produção desta vez dividida entre Steve e Kevin Shirley (Dream Theater,
entre outros) foi lançado finalmente em maio de 2000. Brave New World veio ao
mundo sob muitas expectativas e não é um disco tão revolucionário quanto The
Number Of The Beast, por exemplo. Mas é, sem dúvida, seu melhor desde Seventh
Son Of A Senventh Son. Um trabalho elaborado, surpreendente e, melhor de tudo,
muito superior a tudo que lançaram na década de 90, com faixas mais diretas (The
Mercenary, Fallen Angel) e outras mais viajantes (como a brilhante Nomad).
As três guitarras mostram um trabalho sutil e elaborado, muito longe da guerra
de egos que se poderia imaginar com músicos tão bons, dando uma textura rica e
diferente para o já consagrado "som do Maiden". Até mesmo Steve Harris está mais
discreto, suas intervenções tanto no baixo quanto nos teclados mostrando um
músico mais preocupado em fazer seus instrumentos funcionarem dentro do contexto
do que simplesmente aparecer. Bruce canta com paixão e brilhantismo, mostrando
que sempre foi a melhor voz que o Iron Maiden já teve.
Enfim, um disco que valeu toda a espera. Brave New World foi a prova final de
que o Maiden ainda era capaz de ser criativo, surpreendente e relevante mesmo
depois de todos os anos passados e com todas as crises musicais e pessoais que
enfrentaram. E tal qualidade não pode ser ignorada. A mágica ainda está lá e a
banda soa tão boa quanto sempre. Mas isso também não teria a menor importância
nessas alturas. Mesmo que não desse certo. Mesmo que fosse um total fracasso, já
teriam deixado para sempre a marca dos grandes nomes da história musical da
humanidade. E não há dúvida que Steve e companhia tentariam de novo e de novo.
Não se acaba com uma turma assim tão fácil.
CONCLUSÃO TEMPORÁRIA
Mundialmente falando o Maiden já vendeu, de acordo com dados disponíveis até
1998, mais de 50 milhões de discos. Recebeu mais de 150 discos de ouro e platina
, entre compactos, LPs e CDs (incluindo oito discos de platina no Estados
Unidos). Tiveram 13 álbuns no Top dez inglês e 11 singles também no Top dez.
Mais do que números, a banda conseguiu uma legião de fãs pelo mundo afora e
influenciou toda uma geração.
Poucas bandas na história da música teve uma carreira tão fulminante e influente
quanto o Iron Maiden. Certamente o grupo será sempre mencionado quando falarem
dos grandes de sua época: assim como o Led Zeppelin e o Deep Purple marcaram os
anos 70, o Maiden ajudou a definir o som pesado da década seguinte. Se parassem
hoje (ou mesmo bem antes), teriam fama e fortuna suficiente para desfrutarem o
resto de suas vidas com orgulho de terem feito trabalho único.
Mas resolveram encarar novos desafios e permaneceram. Vinte anos após sua
estréia com o disco Iron Maiden, eles continuam, sem nunca terem parado, uma
banda ativa e influente, capaz de encher estádios, mesmo nos seus períodos mais
difíceis. Quantas bandas podem clamar este feito?
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