Maria Helena Bandeira

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Uma Questão de Estilo

Maria Helena Bandeira

Ficção Científica

[Processo criativo: Este conto surgiu na minha cabeça pouco antes da
Copa em que o Brasil foi tetra, nos Estados Unidos. Gosto muito de
futebol e queria homenagear a seleção e nosso maior jogador, Pelé, com
uma visão humorística do que seria o futebol no futuro. Esperava que o
Brasil mantivesse a ginga e a malícia que eram características nossas
e que os jogadores não se tornassem os rôbos de hoje, mais
preocupados com dólares do que com camisas. Estou mandando este conto
porque é bem diferente dos outros que a OE conhece.]


Giusto driblou Cambère e continuou com a bola dominada em direção ao
gol.

Valois correu da direita e, com um toque por trás do pé esquerdo,
derrubou o italiano no chão.

A bola rolou para a linha de fundo, escorregando na grama sintética.

Todo o público se levantou.

O juiz girou o deslizador e se aproximou do jogador caído. Apitou o
pênalti e mostrou o cartão luminoso para Valois. O vermelho se
acendeu. O francês abaixou a cabeça e saiu de campo.

O italiano já estava de pé. A unidade móvel de socorro substituíra a
perna mecânica em apenas 40 segundos. A Itália batera seu próprio
recorde de velocidade.

A torcida agitava os estandartes e bandeiras esperando a batida da
penalidade máxima.

Diante do retângulo da rede, Langlos, um andróide francês de dois
metros, aguardava. Seus reflexos eram superiores aos de qualquer
similar humano. Porisso, os goleiros raramente eram originais.

Nessa partida só havia humanóides.

Os países da União das Repúblicas Européias e de Orient Amerikan não
usavam outro tipo de jogador. Eles eram permitidos até a altura de
2.10 metros.

Só a Latináfrica ainda empregava humanos defendendo a camisa de suas
seleções.

Mas nunca no gol.

O lateral Valdeto, escolhido para bater a penalidade, esperou o apito
do juiz. Quando o sinal foi dado, chutou forte e rasteiro. A rede
balançou com o impacto da bola. O goleiro ficou caído do outro lado.

A torcida italiana foi ao delírio.

Do alto do estádio o enorme holograma se destacou, saltando em várias
direções:

GOOOOOOOOOOOOOLLLLLLLLL!!!!!!!!!!!!!!.......
GOOOOOOLLLLLLLLLLLLLLLL!!!!!!!!!!!!!.... DA ITÁLIA!!!... Comemore com
CANÁBIA-COLA!!.....

Colorido e em três dimensões, cobria parcialmente, por alguns
segundos, a visão do gramado.

Sentado no meio da torcida francesa, o técnico Benício observava,
preocupado. A Itália seria a adversária do Brasil na final.

Os três atacantes do seu time eram humanos. Bastante altos e muito
habilidosos... mas contra esse goleirão Perti... só mesmo de
pênalti!...

Franziu a testa.

Sofrer uma falta desses zagueiros de laboratório era, no mínimo,
suicídio. É verdade que há regras protegendo os jogadores originais e
as unidades de socorro são avançadíssimas. Mas não existe perna humana
capaz de ser recolocada em segundos como a dos andróides.

Tenso, observava o desenrolar da partida.

O resto era o esquema de sempre, não mudava há cem anos: defesas
fechadas, contra-ataques velozes. As mesmas bolas cruzadas das
laterais para a cabeçada em gol. Jogadas ensaiadas eram o forte dos
humanóides, mas faltava criatividade.

Nesse ponto os brasileiros eram imbatíveis.

Poristo estavam na final.

Mas furar a retranca cibernética da Itália!...Ele tinha uma idéia que
dependia da confirmação de alguns boatos... seus espiões estavam a
postos para informar com certeza....

Roeu um pouco o dedo grande da mão esquerda. Nesta Copa já substituíra
duas unhas. Se continuasse assim ia ser o próprio dedo. Queria ser um
robô como o técnico italiano ou um ciborgue semi-humano como o
francês.

O juiz apitou o final da partida.

A torcida italiana, alegre e barulhenta, fazia a sua festa.

Os jogadores desceram para o vestiário e a grama foi sendo recolhida
através de movimentos giratórios, dando lugar à superfície espelhada
da sala de concertos.

Benício se apressou. Seu ingresso dava direito apenas à partida de
futebol e começaria a apitar em 10 minutos.

Os primeiros acordes do "Va piensero" já invadiam o estádio quando ele
ultrapassou os portões e tomou a esteira rolante em direção ao
aeróbus.

Os italianos entraram no vestiário, livraram-se dos uniformes
descartáveis e foram para os chuveiros. A nuvem de vapor embaçou o
vidro que protegia as cabines.

Décimo-terceiro AB, tratado carinhosamente de Detê, um robô metalizado
de duas pernas e com aparência levemente humana aguardava no saguão ao
lado.

A imprensa fôra impedida de entrar e esbravejava, furiosa, lá fora,
contida pela luz azul do cinturão magnético.

Policiais, com cassetetes eletrônicos, apenas observavam a confusão de
fios e luzes, sem se importar com os palavrões de variadas
nacionalidades.

Todas as principais redes de estereovisão das mais distantes partes do
mundo, desde a africana Taboo até a sofisticada Transeuropean, tinham
mandado seus representantes que agora estavam ali, frenéticos,
aguardando uma palavra ou imagem dos jogadores.

Detê se aproximou do médico.

"Doutor Pietro, quero que examine os garotos antes do pessoal entrar.
Vamos fazer uns reparos logo e deixar todos em forma para dois dias de
descanso. Vai ser off total."

"Off total?... Não sei, não... pode atrapalhar o condicionamento
deles... dois dias é muito tempo."

"Não tem perigo, doutor... já estão completamente preparados. Vou
levá-los para uma fazenda de mutantes animais em Thor. Eles gostam
muito de lá. E não quero nenhum jornalista intrometido estragando a
nossa surpresa para o Brasil."

O Doutor Pietro riu, segurando carinhosamente o braço metálico do
treinador:

"E que surpresa!... você é o primeiro robô maquiavélico do mundo,
Detê... o feitiço contra o feiticeiro..."

Décimo-terceiro AB levantou os ombros e as luzes de seus olhos se
tornaram mais intensas.

Ele não estava imune ao sentimento de auto-satisfação.

Tal era o desenvolvimento da robótica em 2070.



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O aeróbus pousou suavemente no terminal 3 da montanha. A esteira
rolante levou Benício até o Hotel Alpino onde os jogadores estavam
concentrados.

A maioria ainda não tinha abandonado a sala de recreação e se reunia
diante da tela que cobria toda uma parede.

Eram todos humanos originais, exceto Táfel, o goleiro, um andróide
negro de 2 metros, no momento ocupado em descascar uma tanranja
fabricada nas hortas suspensas da área de cítricos da Alimentação
Planejada. Com uma faca, à moda antiga, sem a ajuda do descascador.

Ele fôra programado para tarefas específicas de futebol, porisso sua
dificuldade era considerável. Para diversão de Júnior e Zico que
adoravam brincar com o goleirão. Mas ele era de boa paz e ria,
mostrando os dentes perfeitos.

O técnico entrou e desligou o estereovídeo.

"Pessoal, vamos trabalhar que agora o negócio é papar a Itália. Depois
do almoço vou colocar os vídeo das seleções brasileiras de 1958, 62 e
70, os primeiros campeonatos mundiais do Brasil pra gente rever. Quero
todo mundo decorando aquelas jogadas."

"Pô, Beni, a gente já assistiu aquilo um milhão de vezes. Dá até para
tocar de ouvido..."

Dadá resmungava, ajeitando as chuteiras.

O Brasil já fôra campeão muitas outras vezes, nesses cem anos,  mas
Benício tinha paixão por aquele time que levara, pela primeira vez um
caneco, definitivamente, para casa.

"É isso aí, não basta tocar de ouvido, quero ver vocês encarnando o
espírito daquele pessoal. Vamos dar essa alegria ao povão no
centenário da conquista da Jules Rimet. Afinal, todo mundo aqui é
brasileiro..."

"Tudo bem... mas, depois que a FIFA permitiu os ciborgues nos jogos,
nunca mais nenhum time da Latináfrica levou o título."

"Porisso mesmo... agora é a nossa vez!... Se a gente conseguir
reencarnar os tricampeões de 1970 vamos botar todos eles na roda...
olé!..."

Rodopiou o corpo meio de lado, imitando os toureiros antigos e os
dribles de Garrincha, o anjo de pernas tortas que desnorteou os
zagueiros do século XX ao som do olé da arquibancada.

"Bola neles, Brasil!... Vamos em frente que atrás vem gente!..."

Brincando e cheios de otimismo, os jogadores passaram para o setor de
Condicionamento. Era lá que, com a ajuda de psicólogos, computadores e
até pais-de-santo trazidos especialmente da Bahia ( as tradições
religiosas eram muito arraigadas em alguns deles ) aqueles vinte e
dois atletas entravam na pele da maior seleção de futebol de todos os
tempos.

Até os cacoetes e a maneira de falar tinham sido cuidadosamente
copiados do "II Dicionário de Gírias e Expressões Correntes do Século
XX" de Aurélio Buarque de Hollanda Neto.

Esta era a arma mortal dos brasileiros para enfrentar os andróides da
poderosa Itália.

O preparador físico chamou Benício num canto:

"Estou preocupado, Beni. O nosso espião na concentração italiana
trouxe uma notícia que... eu não sei não... fiquei meio sem gás..."

"Que que é isso, Toledo?... Nunca vi você desanimado..."

"Ele disse que os italianos colocaram uma nova programação cerebral no
artilheiro Giusto."

"E daí, cara?... eles mudam de programa todos os jogos... Contra nós
isso não adianta mais..."

Você quer saber de quem eles tiraram o novo esquema?... Giusto está
com o cérebro de Pelé!...

"Pelé?!!... O nosso Pelé?!!!.... O maior jogador de todos os
tempos?!... eu tinha ouvido uns boatos, mas não acreditei..."

"É, mas é isso mesmo. O brasileiro que foi considerado o atleta do
século XX. O maior artilheiro de todos os tempos, com 1000 gols. O
único até hoje a conseguir sozinho essa marca."

"Mas que absurdo!!!... A gente não pode permitir uma coisa dessas... é
uma loucura!... um desrespeito!..."

"Estamos pensando em recorrer à FIFA. Eu falei até com o Giullitte
Neto na CBF, mas ele acha que não vai adiantar nada. O prestígio do
futebol da Latináfrica anda lá embaixo e a Itália é a Itália... campeã
do mundo em 2062 e 66..."

Benício ficou pensativo.

"Sabe de uma coisa, Toledo, eu não vou recorrer  não. Tenho uma idéia
que talvez.... deixa eu amadurecer melhor, depois eu explico..."

Durante uma hora, o técnico ficou trancado na sala de recreação,
revendo velhos teipes. Quando saiu, estava sorridente.

Chamou os jogadores e a comissão técnica e explicou seu plano.

Do lado de fora, o cozinheiro e o roupeiro robôs ouviram, perplexos,
as gargalhadas que vinham do salão.

"O astral aqui na concentração é o melhor possível..." Comentou o
XPV-4, enquanto dobrava, meticulosamente, os uniformes e os colocava
no armário.

"Oxalá nos ajude!... Axé para todos nós..."

O XPV-17 se persignou e bateu na madeira três vezes.

Eles andavam íntimos de Pai Joaquim, o babalorixá importado de
Salvador, na Bahia de Todos os Santos e mais alguns.



"Pois é, pessoal, estamos aqui com vocês para mais um jogão de bola:
Brasil e Itália!... Final da Copa João Havelange de Futebol... Quem
vencer leva a taça que tem o nome daquele que foi durante mais tempo
presidente da FIFA... é!!!!... e era brasileiro!.... é isso aí,
gente!.... Vamos torcer pelo nosso Brasil!!!! Siiillll!!!
Siiiillll!!!..." o eco repetia a última sílaba ampliada  e os
torcedores brasileiros  levantavam as bandeirolas iluminadas...... "
estamos retransmitindo as imagens da Rede Transeuropean de
Estereovisão, diretamente do Estádio Comunale, em Asti, na Itália.
Aqui, conosco, os comentaristas da nossa Rede Universal de
Transmissão, ligados diretamente à Central e passando a vocês, no
vídeo opcional, as informações e imagens complementares. Tudo para dar
aos nossos estereoespectadores o melhor desta Copa de 2070 , sempre
sob o patrocínio da sua cerveja Diet Line e de Canábia-Cola, o
refrigerante que leva você direto para as estrelas.

A grama já foi colocada... Está aí a banda que simula tocar os hinos
aguardando a entrada dos times, uma tradição bonita que vem do século
passado. No vídeo opcional nosso companheiro Décio Delamônica que vem
acompanhando a seleção desde a preparação em Nápoles... Boa tarde
Décio..."

"Boa tarde, Gerson, essas bandas antigamente tocavam ao vivo, imagine
só!... hoje quem toca é o computador do estádio, aqui pertinho do
setor de imprensa..."

"Obrigado, Décio, mesmo assim o público aplaude os atores-músicos...
agora sim a entrada dos jogadores... com exclusividade, pela Rede
Universal você está assistindo a essa Copa da Itália, sob o patrocínio
da cerveja Diet Line e de Canábia-Cola ... aí o time da Itália... este
é o capitão Andreotti... Valdeto... agora Berti... Maldone... o
zagueirão Giancarlo... Zanine... Giusto... Camberra... Benine... Paolo
e o goleiro Perti. No banco, os reservas e o técnico-robô Detê..."

"Gerson, esse Detê é cheio de mistérios... até a hora da partida ele
dizia que o atacante Giusto não seria escalado, por problemas com a
perna substituída na partida anterior... vocês estão vendo o lance no
vídeo opcional..."

"É, Décio, mas o rapaz está aí, tá tudo bem com ele e o time da Itália
vem com a força toda contra nós... E olha aí o time do Brasil!... A
torcida italiana vaia, mas nós estamos na final... Júnior, Zico, o
capitão Danilo, Andrade, Mozer e Leandro... Tita e Branco... Rubens...
Dida e o goleiro Táfel, único andróide do grupo. Benício, preocupado,
roendo as unhas como sempre... aí estão os reservas... os dois times
já estão formados, vai começar o Hino Nacional do Brasil... e olha aí
a nossa torcida!... pequena  mas muito animada, fazendo a festa aqui
no Estádio Comunale em Asti!... E agora o Hino Italiano... a torcida
vai ao delírio!... é uma massa humana impressionante... o estádio
chega a tremer...

E atenção!... o juiz chamou os dois capitães, Andreotti e Danilo... O
Brasil vai ficar com o gol à sua esquerda...

Começa a partida!..."



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A bola rolou para fora do gramado.

O bandeirinha, no deslizador, a uns 50 cm do solo, apontou lateral
para a Itália.

Giusto aguarda na linha lateral, avaliando a melhor maneira de
recolocar a bola em jogo.

O placar holográfico salta em todas as direções:

"Brasil 0 x Itália 0  - COMEMORE COM CANÁBIA-COLA! ; - 44 minutos e 10
segundos - Segundo Tempo "



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"Branco recebe a bola, manda para Dida, de lá para Zico que engana
Andreotti, passando o balão de volta para Branco...Branco enfia pela
esquerda, Tita com ele... O GOLEIRÃO SAIU!!!... QUE QUE É ISSO ,
GAROTÃO!!!... Que chute esquisito!!!.... a bola vai parar lá em Roma,
bem longe do travessão do goleiro Perti!!!... Assim não dá!!... não
tem coração que agüente!!!... Décio..."

"É verdade, Gerson... Branco perdeu um gol incrível... o goleirão
batido... foi uma pena!... o Brasil não pode continuar a desperdiçar
as chances dessa maneira!... é Copa do Mundo, gente!!..."

Perti já bateu o tiro de meta... o jogador que é Valdeto mete a cabeça
nela... chega até o lateral que é Maldone... Andrade em cima dele...
mas o juiz já está se encaminhando pro meio do campo... apita o juiz
espanhol!!... é o fim do primeiro tempo... é isso aí... Brasil 0...
Itália também 0... tudo igual até agora... daqui a pouco a gente volta
com as emoções  dessa final da Copa de 2070, centenário da conquista
da Jules Rimet pelo Brasil, com o patrocínio da sua cerveja Diet Line
e de Canábia-Cola, o refrigerante que leva você às estrelas...



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Os dois times descem juntos a escada rolante que leva aos vestiários.

Benício reúne os jogadores, enquanto o médico e o massagista
distribuem cibertônicos e água e recondicionam os músculos cansados ou
doloridos e as pernas feridas.

"E aí, Júnior, fez o que a gente combinou?"

"Tudo em cima, Beni, está acontecendo direitinho como você previu..."

Então, pensamento positivo que vai dar tudo certo..."

O XPV-17 trouxe onze patuás - saquinhos bem pequenos de seda,
recheados com ervas especiais para cortar mau-olhado.

"Vocês vão colocar isso dentro das tornozeleiras, por favor... é para
o gol sair agora, no segundo tempo... nada de prorrogação..."

Zico riu.

"Que coisa, gente!... Um robô macumbeiro!... só no Brasil mesmo!...
sai pra lá com esse negócio que eu não acredito em mandinga..."

O XPV-17 desapontou

"Pai Joaquim diz que o nível de eficiência é total. Margem de erro -
zero. Por favor, devem usar!..."

"Tudo bem, Xispe. Zé Maria, ajuda a distribuir isso entre os
jogadores. Não custa a gente se garantir em todas as frentes..."

"Benício, suas decisões são sensatas. É um homem sábio... e um grande
técnico..."

"Além de macumbeiro é puxa-saco... para virar humano falta pouco..."

Todos riram e o XPV-17, orgulhoso, foi entregando seus talismãs.

Ia começar o segundo tempo da partida.



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... no rebote a bola fica com Maldone que passa rapidamente a Berti,
Andreotti vem pela direita, prefere Giusto... enfia pelo meio-campo do
Brasil... OLHA O PERIGO, GENTE!... dribla o primeiro que é branco,
Rubens vem atrás dele, não consegue nada...POSIÇÃO LEGAL!...
AGARRRRRRRA TAFEL QUASE SEM ÂNGULO!!!.... que sufoco, minha gente!...
esse Giusto está jogando uma barbaridade!... e lá vem contra-ataque
brasileiro!... Branco rola pra Júnior, abertura pra Zico...LANÇA PRA
TITA!... CARIIIIIMBA O TRAVESSÃO DA ITÁLIA!... A torcida chegou a
ficar em pé aqui no Estádio Comunale... é muita emoção, gente...
agüenta coração!...faltando 12 minutos para o final do segundo tempo
continua tudo igual aqui em Asti: Brasil 0 e Itália 0... desse jeito
vamos pra prorrogação... e olha a Itália de novo... Berti...
Maldone... GIUSTO... ele dribla o jogador que é Andrade... dribla mais
um...é Mozer... a defesa brasileira não se entende... passa por
Rubens... DRIBLA O GOLEIRO... JOGA O CORPO PARA A DIREITA, A BOLA VAI
PRA ESQUERDA... TÁFEL FICA TONTO... VOLTA PRA APANHAR A BOLA... GIUSTO
PASSA POR TRÁS DELE!... QUE JOGADA!!!.... OLHA O GOL DA ITÁLIA!!!!...
A BOLA SAI PELA LINHA DE FUNDO....RASPAAAAANDO, TIRANDO TIIIINTA DO
TRAVESSÃO DO BRASIL!!!!!.....incrível como esse gol não saiu!... Deus
é brasileiro e é só tiro de meta para o Brasil, que Táfel vai se
preparando pra cobrar... que sufoco, Décio!..."

"Ô, Gerson, esse drible que o Giusto deu no Táfel, antigamente chamado
drible da vaca, o Pelé deu um, muito parecido, no Mazurkiewski, grande
goleiro uruguaio, na Copa de 70... vocês estão revendo o lance aí no
vídeo opcional... só que a bola também não entrou, mas foi muito
bonita a jogada..."

"Pelé era demais!... obrigado, Décio... mas o jogo continua... olha o
contra-ataque brasileiro... os italianos ainda estão tontos com o gol
perdido... BRANCO DEU UMA ENFIADA PELA ESQUERDA... A POSIÇÃO É
LEGAL... OLHA O GOL!!!!!..... É
GOL!!!....GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOLLLLLLLLLLLL!!!!!!!!! É DO
BRASIIIIIIIIIIIIIILLLLLLLLLLLLL!!!!!!....DIDA!!!!....CAMIIIIIISAAAA
NÚMERO 10...DIDA!... num magnifico passe de Leandro, aproveitando a
bobeada da defesa italiana, enfiou entre as pernas do goleirão
Perti!!!... A torcida brasileira vai ao delírio aqui em Asti!... aos
38 minutos do segundo tempo... o placar holográfico mostra: Brasil
1... Itália 0!... falta muito pouco para sermos novamente campeões do
mundo!... Os brasileiros fazem um carnaval nas arquibancadas... Branco
passa para Mozer... dali para Andrade... os italianos estão tontos...
Danilo atrasa para Táfel... é isso aí!.... vamos segurar a bola que o
jogo tá ganho... o Brasil vai ser campeão do mundo cem anos depois da
histórica conquista do tricampeonato e da taça Jules Rimet!... mas a
Itália não está morta não!..."



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A confusão é total no vestiário do Brasil.

Benício se livra de uns vinte estereoperadores e de mais uns cinqüenta
repórteres agarrados nele e consegue entrar, fechando a porta com
dificuldade,

Lá dentro estava silencioso e quase frio.

Meio esquecido entre as toalhas, o ZPV-17 arrumava santinhos e patuás.

"Nós conseguimos, Xispe!!... Conseguimos!!..."

"Graças aos Orixás!... Pai Joaquim falou: nada de erros... tecnologia
baiana... muito boa!..."

"Tecnologia baiana coisa nenhuma!... Massa cinzenta!... Jeitinho
Brasileiro!... Já ouviu falar?"

"Jeitinho Brasileiro?... Nunca... é candomblé também?"

"Não, Xispe, é malandragem... Eles queriam nos passar pra trás.
Puseram no Giusto o cérebro do Pelé."

"Do Pelé?... Aquele dos vídeos?... o dos mil gols?"

"Ele mesmo. Pode?... nosso maior jogador contra nós?... é muita
sujeira!... mas eles não esperavam o que eu armei para  a Itália...
Sabe o que aconteceu, Xispe?... Você viu o gol que o Giusto perdeu
pouco antes do nosso?"

"Vi, uma beleza!... ainda bem que não entrou!..."

"Pois é, o mesmo gol, igualzinho, o Pelé perdeu contra o Uruguai no
século passado..."

"É... o Décio mostrou durante o jogo... no vídeo opcional."

"Então... nós fizemos o seguinte... repetimos o máximo possível as
jogadas daquela partida para fixar na mente pré-condicionada do
Pelé-Giusto... além disso, o Júnior deu uma ajudazinha... chegou perto
dele e falou: lembra daquele golaço que o Pelé perdeu contra o
Uruguai?... e descreveu o lance... pena que não entrou!... Isso é o
jeitinho brasileiro, Xispe..."

"Não entendi nada."

"Nem podia, filho, você ainda não é totalmente  um de nós. Mas, eu vou
tentar explicar: Pelé, como todo o gênio, era vaidoso... então,
Giusto, com o cérebro dele, com certeza ia tentar outra vez a mesma
jogada... e errar de novo... na confusão que se seguiu, com todo
mundo, até os jogadores italianos tontos com o lance do gol que não
entrou... a gente aproveitou pra fazer um contra-ataque... e ganhamos
o jogo!... tudo como a gente previu!... elementar, meu caro Xispe...
jeitinho brasileiro... pegamos eles no assombro!..."

"Eu acho que entendi mais ou menos seu plano, Beni... mas, meus
circuitos ainda não apreenderam totalmente a situação. Vejo alto risco
nesse seu esquema. Pelé-Giusto é grande jogador... e se a bola
entrasse?..."

"Aí, não quero nem pensar... a vida é um jogo, Xispe. E, além do mais,
seria o gol mais lindo da história do futebol... e do nosso maior
jogador... dava Brasil na cabeça do mesmo jeito... é ou não é?..."

Xispe coçou a testa reluzente de metal.

Candomblé, tudo bem. Mas jeitinho brasileiro!...era demais para o seu
pobre cérebro psicotrônico de nova geração.





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