Maria Helena Bandeira

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Sacola da Escolha


“Deus te salve Lua Nova
Lua que Deus acrescenta
Quando fores, que vieres
Trazei-me desta semente”
( cantiga popular )


Luz na água


“No princípio era a escuridão.

Caruçacaiba e seu filho Rairu estavam solitários. Não havia amor entre pai e filho naqueles tempos. Então Caru fez o céu, o sol, a lua e as estrelas para lhes fazer companhia e iluminar o caminho das caçadas.

A floresta ainda dormia quando Rairu saiu atrás do bicho. Um vento frio descia das folhas verdes, no alto das grandes árvores. Não se ouvia um som, mas o rapaz sentia o cheiro se aproximando. Prendendo a respiração, escondeu-se atrás do tucumãzeiro e aguardou. Os arbustos da taquara se agitaram ligeiramente quando o aguardado apareceu, o casco ainda pouco visível, quase uma ilusão, no verde escuro da mata. Rairú deu um salto sobre ele, tão rápido quanto desce o gavião, ao avistar a presa. O tatu embicou para dentro de um buraco na terra, mas ele conseguiu pegar seu rabo e cantou vitória:

- Te peguei, filhote de tatu, agora vais pra panela de meu pai, que não acredita na minha força...

Quando tentou tirar o bicho viu que sua mão estava pregada, colada por um visgo tal que era impossível mexer os dedos. Para seu desespero, foi o danado que começou a puxá-lo para dentro da terra escura. Rairú firmou os pés com força, criando um sulco no solo macio, mas não adiantou. O animal devia ter parte com Anhangá, pois sua força era maior que a de Jurupari. Pouco a pouco foi sendo arrastado para o buraco, até que apenas seus pés podiam ser vistos pela floresta indiferente. Depois, nem isto.

Carú estava feliz. Livrara-se do herdeiro incômodo que ameaçava seu reinado sobre o mundo. Riu da ingenuidade de Rairu em achar que podia medir forças com um encantado, enfeitiçado pelo Pai de todas as coisas.

Mas no exato momento em que pensava isto, a terra se abriu numa explosão poeirenta e o filho surgiu, glorioso, com o tatu nos braços. Antes que tivesse tempo de levantar o pau de timbira para derrubá-lo, seus olhos foram ofuscados pelo espetáculo de milhares de figuras saindo do buraco atrás do filho. Gente bonita, gente feia, corajosos e covardes, toda uma multidão para povoar o mundo que ele, Caru, criara sozinho. Enfurecido, agarrou alguns mais lentos e foi transformado em porcos, galinhas, bois e vacas para serví-lo. Mas não parava de sair gente de todo o tipo daquele buraco maldito. E Rairú ria, ria. Tanto que se distraiu com a alegria e não viu Caruçacaiba resvalar para trás dele com o tacape encantado dos deuses, preparando-se para feri-lo. Foi quando um índio alto, que vinha emergindo justo naquela hora, gritou com força tal, alertando o guerreiro, que Carú hesitou o suficiente para que Rairu levantasse o braço impedindo o golpe mortal e derrubando o tacape para longe do pai. Depois, milhares de outros índios, ao comando do primeiro, cercaram o Criador e o imobilizaram com uma corda de timbira, benta por Rairú, vencedor dos encantados, novo rei das coisas da mata e do mundo.

Quando viu que seu pai estava bem amarrado, ele voltou-se para o primeiro guerreiro e lhe falou agradecido:

- Ruirá tem sido enganado por seu paI Carú desde que o céu e as estrelas foram criados. Nem o poder do fogo ou a força da mata puderam ajuda-lo. Foi a união dos homens que o venceu. Rairú tem o coração agradecido e sela aqui uma aliança com teus guerreiros através de ti.

Assim falando, o novo Pai das Coisas apanhou umas folhas de taquara ,amassou na mão e elas se transformaram numa bela pedra verde no formato de um animal, meio humano.

- Este é o Muiraquitã. Ele será seu amuleto, o símbolo da nossa aliança. Guarde-o com cuidado e o entregue a seus descendentes, pois todo aquele que o possuir será um amigo de Ruirá e estará sobre a proteção dos encantados.... “

A voz do índio foi ficando baixa e sua cabeça pendeu no sono da velhice.

Caribanha tinha um jeito estranho de falar, como branco educado e isto era uma coisa que Turuaçú não conseguia entender. Ele também falava como caraíba, mas fora educado na universidade de Manaus, era caboclo viajado, estivera por muitas partes deste Brasil de tanta terra. O velho nunca saíra da margem do Grande Rio, onde seus ancestrais fizeram morada. Estas e muitas outras coisas, ele não entendia sobre o avô.

Turuaçú ficou olhando o fogo, cuja luz tirava fagulhas brilhantes do verde da pedra em sua mão. Muiraquitã... Era o único que ainda escutava as histórias dele, o único preocupado com as origens do seu povo.

Levantou-se com cuidado, para que o outro não percebesse que fôra espectador daquela fraqueza de velho, e saiu pisando leve, herança jamais perdida dos tempos esquecidos.

A vila estava mergulhada no sono. Um sono profundo que vinha da decadência, da pobreza e do álcool. Turuaçú foi caminhando pelas ruelas enlameadas, cheirando à urina humana e à cachaça. Pela porta entreaberta do bar, viu os amigos jogando sinuca, a fumaça do cigarro embaçando o ambiente. Desviando da continuação do casario pobre , desceu a pequena colina em direção ao rio que corria silencioso na escuridão.

Naquele ponto nem dava para ver a outra margem. À noite as águas tinham ares de mar aberto e um vento suave formava pequenas marolas. As estrelas pesavam solenes sobre ele, ali, parado, contemplando a escuridão do Amazonas na lua nova. Atrás, à direita, a mata restante vigiava. Turuaçú já estava se preparando para ir embora quando sua atenção foi atraída para uma luz no meio do rio, como se um grande peixe iluminado estivesse passando por ali. O brilho era tamanho que as águas se tornavam de um verde fosforescente, lembrando o Muiraquitã. A coisa ia se movendo de forma continuada sob o rio, lenta mas progressivamente, da direita para a esquerda, com um movimento algo ondulatório. O rapaz ficou estático, procurando uma explicação racional. Não há peixes iluminados nesta região, muito menos próximo da superfície. De repente, da escuridão acima do objeto, surgiram duas estrelas, emitindo uma luz dourada e cegante, como um flash de fotógrafo. Turuaçú fechou os olhos protegendo a vista. Quando abriu, não havia mais nada. Nem estrelas, nem peixe fosforescente. Apenas o rio, correndo silencioso na escuridão. “ Dei pra ver visagens agora... esta histórias do Caribanha tão me deixando maluco... e nem provei a cachaça batizada do Rufino...” Mas sentia uma sensação esquisita, um desconforto, como se alguma coisa estivesse prestes a acontecer, alguma coisa definitiva. Turuaçú era de uma nobre família de tuxauas e pajés, tinha o feitiço no sangue, mas não acreditava em venenos de sapos curadores, beberagens ou fumigações. Estudara na capital, fizera faculdade de agronomia, no programa da ONG, Civilizare. E tudo isto pra que? Voltar pra a aldeia Kranaakore apenas para assistir aos irmãos sendo destruídos pelo vício do branco. Com muita dificuldade, implantara algumas hortas coletivas, amenizando a fome, ensinando métodos modernos de plantio. Só que não havia verbas nem disposição.

“Bem que eu gostaria de ter a ajuda dos encantados” Mas eles estavam quietos no seu encantamento, nem um pouco preocupados com a sorte dos antigos e orgulhosos guerreiros.

Subiu a colina lentamente. Os outros continuavam no bar, ouvia as risadas e a voz longínqua de uma TV ligada em alguma casa insone. Amanhã - algo dizia dentro dele - amanhã. Mas não pretendia escutar.


Acordou com o tumulto na sua porta. Abriu a janela e viu o Timbira, o Jagunço e o Pintado conversando nervosos, as faces vermelhas de excitação.

- Oi, pessoal! “ Cês não podiam coonversar mais baixo não? Hoje é sábado, dia de descanso...

- Ce num ta sabeno, não? O pintadoo avistou a Boiúna ontem di noite....

- Ai, meu saco, lá vem vocês com aa Boiúna outra vez.. o Pintado deve ter tomado todas, ontem, no Rufino, que eu bem vi o jeito dele lá no bar....

Boiúna...Carraspuna...cê quer dizer...

- Não... Turú, eu vi com estes olhhos qui a terra há de comê... ontem di noite, lá no rio... a bicha começou aparecendo debaixo d’água...só aquele reflecho verdão...

Turuaçú ficou alerta. Lembrou da noite anterior.

- Reflexo e daí?

> - Daí ela sartou fora d’água e me oiou com aqueles olho di cobra tudo iluminado, pareceno duas estrela e eu vi o lombo dela corcoveano como o cavalo do capeta!!! Ela tentou me arrastar com o visgo dos óio, mas eu gritei: Nossa Senhora, valê-me!!! e corri pra longe daquela coisa...

- Foi só isso?

- E ce acha pouco? Encontrar a cobbra-grande é morte certa...os óio dela enfeitiça os caboclo tudo e puxa pra dentro da morada dela no fundo do rio. Eu só escapei porque tenho a medáia milagrosa que minha mãe me deu...

Puxando a medalha, começou a beijar agradecido.

O que estaria acontecendo por aqui? Turuaçú não acreditava em Boiúna, mas sabia que o cabra falava a verdade.

- Nós vamo hoje à noite organizá uum grupo pra vê a Cobra-Grande.

- Ta maluco Timbira? Eu é que não vorto naquele rio di noite nem que me arrastem.

- Pois eu tou quereno vê a bicha. Quem sabe a gente não pesca uma boiúna pro armoço de amanhã?

Jagunço tinha fama de valente, não tinha medo de onça, nem de mulher bonita. Era um caboclo alto, olhos verdes, que sabia arrancar da viola os sons certos pra encantar um coração feminino.

- Pois eu vou com vocês.

>
Jagunço não acreditou.

- Ué, Turuaçú, tu não bota fé nos encantado, muito menos em Boiúna...

- É, mas desta vez fiquei curioso.... quero ver que marmota é esta do Pintado...

O caboclo se benzeu, horrorizado - “tão tudo maluco... enfrentar a cobra-grande na casa dela!... “ Mas ficou calado - “ deixa eles vê o que é bom pro susto.. “


Reino do feminino



“A lua girou, girou
Traçou no céu um compasso
Eu também quero fazer
Um travesseiro dos teus braços “
( Cantiga popular )

A noite estava escura. Noite de Boitatá, de Iaras e Iacamiabas. Noite boa para os encantados da floresta.

Mesmo assim, os três amigos e Tuchurrã - que também estava fisgado pra ver a cobra-grande - saíram do bar do Rufino, sem medo. E com algumas talagadas de cachaça no estômago para esquentar do frio da madrugada. Passava das duas da manhã de domingo.

Desceram a colina rindo e conversando. Só Turuaçú estava calado. A voz dentro dele repetia... é agora... é agora.

O rio estava pesado, espesso, sem marolas. Não havia estrelas no céu e um calor quase sufocante se abatia sobre eles. Tuchurrã tirou a camisa e sentou na areia dura da margem, olhando para a água. Os outros dois permaneceram de pé, vigiando. Minutos, horas, quanto tempo se passou? Turuaçú não saberia dizer. Via apenas as pontas dos cigarros que se sucediam, atiradas na água por mãos nervosas. De repente, como na noite anterior, surgiu um reflexo esverdeado no meio do rio.

- Cê viu, Turú?

Timbira agarrou nervoso o braço dele.

Mais rápido do que o caboclo lembrava, a zona iluminada foi se ampliando, percorrendo rapidamente a direção oposta à cidade, até que a fulguração na água estava tão forte que era quase impossível manter os olhos abertos. Fascinados, pregados no chão, eles contemplavam o espetáculo daquela luminosidade inexplicável sem conseguir dizer uma palavra.

E a Boiúna fez sua aparição!...

Corcoveando como um cavalo bravo, saltou da água alguns metros, uma espécie de cobra enorme, de mais de vinte metros de comprimento por três de diâmetro fosforescente, de um verde como não havia neste mundo, aproximando-se da cor do Muiraquitã, mas muito mais intenso e brilhante. Gotas de água saltavam de sua pele lisa e brilhavam peroladas sobre a superfície escura do rio.

Jagunço, esquecido da fama construída com tanto empenho, e Timbira que nada tinha a defender senão a vida, desabalaram a correr, subindo a colina. Apenas Tuchurrã permaneceu ao lado de Turuaçú, espreitando a bicha. Como se aborrecida pela insolência dos forasteiros que não demonstravam medo diante do seu espetáculo particular, a Boiúna virou meio de lado a cabeça enorme e flechou neles seus olhos de estrela.

Turuaçú não soube o que aconteceu ao amigo. Mas, olhando para aquelas íris douradas, teve uma vertigem. O mundo começou a rodopiar em torno dele e uma névoa âmbar o envolveu. Percebeu que estava sendo tragado para o meio daqueles olhos encantados e nada podia ou queria fazer para impedir. Uma estranha lassidão o invadia, um bem-estar amarelo, que o fazia permanecer boiando como num líquido ancestral, até ser sugado para baixo, cada vez mais para dentro do reino iluminado da Cobra-Grande.

Lá no fundo estava a Noite, escondida. A noite que fora guardada pela Boiúna no caroço de Tucumã e que sua filha libertara por amor a um humano. O amor faz nascer a Noite, mas não conseguiu libertar o dia, pensou Turuaçú confusamente. E uma voz na sua cabeça respondeu: “São os homens que fazem a noite e libertam o dia. Há muita coisa que você não sabe sobre sua própria gente..”

Voz de Boiúna, uma voz antiga, com milhares de anos de sabedoria.

Antes que tivesse tempo de pensar sobre tudo que estava acontecendo, a mesma névoa âmbar o envolveu e Turuaçú foi deixado sobre uma praia, cercada de rochedos. Quando a névoa se dissipou totalmente, percebeu que havia mulheres sentadas neles. Mulheres belíssimas, brancas como Jaci no céu, com os cabelos dourados feito o milho nos campos, enfeitados com flores de muraré, e fios longos, desembaraçados por elas com pente de cristal. Elas cantavam, uma canção tão macia e dolente que dava vontade de morrer ouvindo.

“Iaras” - pensou assustado. De nada tinha mais pavor, quando era curumim, que destas feiticeiras, capazes de atrair os homens para o fundo do rio, com seu canto, ao qual nem o mais valente guerreiro era capaz de resistir. Por algum motivo, tinha mais medo da beleza maligna destas mulheres que das histórias terríveis de Anhangá, Jurupari ou Caipora. Era o reino do feminino que o assustava. Reino que não podia compreender, quanto mais lutar contra ele.

Mas não conseguia desviar o olhar da beleza luminosa e alva de seus corpos, daquelas formas perfeitas de cunhatã, quase meninas , nem esquecer a música deliciosa que elas cantavam para atraí-lo. Lentamente foi se aproximando do rochedo mais próximo, perdendo o medo nos olhos glaucos da sereia. Sentiu um calor incômodo no peito, uma queimação - era o muiraquitã que brilhava e estava quente como fogo, deixando uma marca vermelha na sua pele morena. A encantada desviou o olhar dele e com uma voz que nunca mais Turuaçú iria esquecer, nem que vivesse mil anos, perguntou “ - você me quer, caboclo?” E riu com os dentes perfeitos da perdição. Turuaçú queria dizer: “Quero!” mil vezes, mas não conseguiu. O calor da pedra se espalhava pelo pescoço travando sua garganta. “ Então me dá a pedra bonita...” E apontava para o Muiraquitã, os olhos belíssimos da cor dos rios de verão, perdidos nos olhos dele, implorando, a voz macia acariciando seus ouvidos, enquanto suas irmãs cantavam docemente ao redor. Num gesto brusco, Turuaçú arrancou o muiraquitã do pescoço, quase esfolando a carne com seu fogo e, queimando a mão na brasa da pedra, entregou-a à Iara-menina. Ela sorriu tão vagarosa e lindamente de prazer que Turuaçú pensou morrer ali mesmo de tanto amor.

Então ela deu a mão a ele e mergulharam juntos nas águas claras. Outra vez Turuaçú foi arrastado para o fundo, mas desta vez sentiu um medo intenso percorrer seu corpo ao perceber que a linda jovem ia aos poucos se transformando num ser maligno, uma matrona de seios avantajados e quadris descomunais. Quando chegou à morada das encantadas, nada havia dos belos sonhos ou lindos olhos, mas apenas a megera enorme e voraz que haveria de manter Turuaçú escravo e infeliz por muito tempo.

Foi servo da matrona dos rios por muitos anos, incontáveis... já não conseguia distinguir quem era, apenas trabalho, prazer jamais, um caboclo sem rosto nas mãos da mulher- boca voraz que o consumia em fogo e misérias. Dele só o sumo da valentia ainda restava, latente, esperando... e assim teria ficado para sempre perdido, não fosse a chegada das iacamiabas. Estas guerreiras amazônicas eram inimigas mortais das sereias. Desprezavam sua vaidade desmedida, seu desejo pelo amor aprisionado dos caboclos, sua vida de penteados e cantorias. As iacamiabas usavam os homens para seu prazer e reprodução, mas tinham orgulho da liberdade que conquistaram. Sua vida era cavalgar pelo selvagem, lutando por territórios e caça, derrubando no leito aqueles que desejavam mas libertando o infeliz após depená-lo de posses e seiva masculina. A ninguém possuíam, nem tinham senhor algum.

Turuaçú estava sentado no rochedo, penteando os cabelos da megera, vigiando o Muiraquitã que ela trazia pendurado entre os seis redondos e flácidos. Esperava o momento em que a bruxa se distrairia, só que ela nunca dormia ou se entregava. Os dias eram sempre iguais, mas aquele foi totalmente diferente. Olhava desanimado a mata escura, quando viu um redemoinho entre as árvores e as sereias se agitando, derrubando espelhos, embaraçando os longos cabelos, mergulhando na água para reaparecer em grupos cada vez maiores. Do vento vieram as guerreiras. Cabelos curtos de homem, belos rostos enérgicos, corpos musculosas e magros, montando em pelo sobre magníficos cavalos brancos. Tinham lanças nas mãos e gritavam como índios na hora do combate, avançando sobre as sereias que num alvoroço de escamas e cabelos, tentavam se defender com unhadas e mordidas.

Foi uma batalha desigual. As iaras nada mais tinham do que vaidade e poder de sedução e seu canto não era capaz de enfeitiçar as mulheres guerreiras. Em pouco tempo, todos os caboclos tinham sido libertados, em troca da volta delas ao lar no fundo dos rios. Emissárias foram mandadas para trazer os homens, alguns tão longe do seu passado que nem conheciam mais a terra onde nasceram. Entre eles estava Tuchurrã. Envelhecido, alquebrado, nem parecia o guerreiro vigoroso de antes. Turuaçú ficou triste pelo seu amigo, mas não teve tempo de pensar muito nisto, pois a megera que o aprisionara, jazia a seu lado, atordoada pelo medo. Aproveitando a submissão da Iara, tentou pegar o Muiraquitã do seu peito. Ela gritou, iniciou o canto, mas foi calada por um tapão da iacamiaba mais próxima que colocou a pedra no bolso de sua veste de pele. O caboclo quis protestar, mas foi levado, como um saco, no lombo do cavalo, antes que tivesse tempo de se defender... suprema humilhação. Neste momento odiava ainda mais a guerreira do que a sereia. Numa nuvem de poeira e gritos, saíram todas, afastando-se da beira do rio, levando os homens capturados das encantadas.


Amar uma iacamiaba era cavalgar o vento. Por forte e prazeroso que fosse, nada havia a que se agarrar, sempre torvelinho e frustração. Servo e objeto de prazer, Turuaçú vigiava o muiraquitã, agora pendurado, com corda de mamaurana, no pescoço da iacamiaba-líder.

E tinha um plano. Na noite da sétima lua plena, haveria o ritual de acasalamento do solstício de verão. Pelo que ouvira contar, dos outros prisioneiros, as mulheres se embriagavam com o cauim e havia orgias coletivas ao pé das fogueiras acesas, para que Tupã abençoasse o ventre delas e o enchesse com a semente boa de novas guerreiras. Os meninos machos eram afogados logo ao nascer. As meninas criadas para a liberdade da floresta, cavalos e lutas. Depois disto, os homens que quisessem podiam seguir seu caminho de volta pra casa. Por estranho que parecesse, poucos abandonavam aquela vida. Amar o vento tem seu encanto selvagem e livre. Mas Turuaçú odiava as iacamiabas, mesmo tendo sido por elas libertado da escravidão do tédio.

Aguardava o momento certo para feri-las.

Acordara cedo na sétima luada e preparava a bebida no grande caldeirão de ferro, enquanto Tuchurrã amassava o milho para fazer beijus e pamonhas para a festa.

- Hoje é o dia, Tuchurrã. Preciso da sua ajuda.

O caboclo olhou desconfiado para ele.

- Temos que aproveitar a embriagueez das danadas pra fugir daqui.

- Mas fugí, pra quê? Num somo prissionêro. Depois da luada, quem quisé pode ir embora.

- E meu muiraquitã? Acha que vão mme devolver?

- Acho qui não. A diaba loura tem amor grande pela pedra.

- É por isto que temos que fugir. Roubar meu amuleto e largar esta vida de servidão. Tuchurrã não respondeu. Desviou o olhar. Estava amarrado pelo vento da paixão.


A lua brilhava gorda, imensa e vermelha, sobre a clareira onde iacamiabas e caboclos, agora apenas homens e mulheres, travavam o mais antigo combate. Corpos rolavam entre as folhas e o reflexo de ancas morenas cavalgando mares de seios e bocas iluminava a mata adormecida. Entre gritos, gemidos, sussurros, salivas, as antes valentes guerreiras, desfaleciam nos braços dos morenos, perdidas de sua agudeza, reencontradas em maciez de fêmea nos mistérios da luada.

As cacimbas do cauim já estavam quase vazias. Restos da refeição se misturavam na umidade do solo, onde a bebida vazara na pressa da paixão.

Laíla, a mais novinha das iacamiabas, se enrabichara com Tuchurrã e se afastara da troca de parceiros, procurando a beira do rio, onde entregou a ele a flor da sua donzelice de menina. O caboclo enlaçava com gentileza o corpo nu, brincando com os mamilos crespos, beijando a curva morena dos seios ,descendo pela pele macia até encontrar o tufo do mistério. Quando a viu morrendo nos seus braços, lá plantou sua semente de guerreiro, fincou a seu tacape de homem, marcou seu território de apaixonado, ouvindo os gritos da mulher-menina descobrindo a hora. Desde este momento, até Jaci, gorda e antiga de desejos, lá no céu, sabia que estavam condenados.

Mas Turuaçú não agia com paixão. Sabia dominar sua borduna, maneja-la com destreza, sem perder a alma. A alma ficava de longe, assistindo, enquanto ele cavalgava a diaba loura que o escolhera pra singular, caído nas graças dela desde que o resgatara da megera dos rios. Via seu corpo esguio e suado, curvar-se no arco da paixão, e ele mesmo empinado e violento, cravando espora e ferrão no lombo da danada, se esvaindo em seiva masculina, enquanto a guerreira incansável, arquejando, gemendo, unhando suas costas seu peito, seu braços, gritava na agonia do êxtase que chegava, mais, sempre mais, até o definitivo ai. Então, desfaleceu nos seus braços, vencida, apenas mulher, fêmea como a primeira de sua espécie a conhecer o encontro.

Por toda a parte, homens e mulheres combatiam o mesmo combate primitivo, fertilizando ventres, regando a terra, preparando o tempo da colheita, sob a lua vermelha do verão. O encanto do solstício se repetia e a natureza inteira se preparava para receber o novo, o de sempre renascido, a semente.

É o Boto, sinhá


“Quem te ensinou , marinheiro
Quem te ensinou a nadar?
Foi, foi, foi, marinheiro
Foi o balanço do mar”
( Cantiga popular )

As fogueiras brilhavam quase extintas. Iacamiabas e homens dormiam o sono do álcool e da paixão satisfeita, sob a lua vermelha e sangrenta.

Apenas Turuaçú vigiava.

Não tomara o cauim preparado, fingira o desvario da luada, era caboclo forte e cheio de virilidade. Agora estava cansado, mas desperto. A diaba líder cabeceava de sono junto da fogo que tirava clarões faiscantes do muiraquitã pendurado no pescoço moreno.

O rapaz foi se aproximando feito cobra, lentamente, os pés mal pisando as folhas, até ficar em frente à danada adormecida. Parecia ferrada num sono satisfeito, o peito levantando ritmadamente, numa respiração de sono profundo. Turuaçú pegou com muita leveza a corda de mamaurana fina e foi levantando com cuidado, até conseguir tirar o muiraquitã, resvalando nos cabelos louros e curtos da iacamiaba.

Já cantava vitória no coração, quando um braço musculoso agarrou no ar o seu que segurava a pedra. Começou a travar uma luta silenciosa com a guerreira pelo amuleto, sabendo que disto dependia sua vida, agora sem valor algum por ter desafiado a bicha.

Com a força do desespero, conseguiu libertar o braço e já fugia com o muiraquitã, quando ela deu um grito de guerra que gelou seu sangue e despertou em alvoroço iacamiabas e caboclos adormecidos. O que se seguiu foi uma luta confusa e desarmada de homens contra mulheres em que socos, rasteiras e pontapés não perdoavam rostos, estômagos ou canelas femininas.

Melhor treinadas e alimentadas, as iacamiabas estavam levando a melhor e Turuaçú já estava preso cercado de guerreiras furiosas, ainda defendendo desesperadamente o amuleto em sua mão, quando aquela risada gostosa e potente ecoou pela floresta.

As guerreiras pararam imediatamente fascinadas.

Um rapaz alto, de andar malemolente e chapéu desabado na cabeça, apareceu vindo da direção do grande rio. Quem nunca viu o Boto, não pode dizer que conheceu homem bonito e sedutor. Seus olhos tem o poder das águas que correm cintilantes para o mar, seu sorriso é o astro-rei na manhã lavada, seus dentes tem o brilho de Jaci em noites encantadas da paixão.

Nenhuma mulher resiste ao Boto, rei dos leitos amazônico, senhor de todas as ximbicas em brasa, deflorador de donzelas, emprenhador de moças bonitas, caçador de corações.

Quando sorri para uma cabocla, ela está perdida para sempre. Nunca mais achará prazer no leito conjugal, nunca mais um amante como ele, o inesquecível rei das madrugadas brancas da paixão.

As iacamiabas ficaram como estátuas e os homens também pararam, enquanto o Boto, sempre rindo, veio se chegando para junto delas. Parou diante da diaba loura e sem dizer palavra, acariciou seu cabelo curto de guerreira. Ela baixou a cabeça, uma lascívia imensa se apoderando do corpo e gemeu, para espanto dos caboclos e temor das outras mulheres. O Boto segredou coisas no seu ouvido, ela riu e enquanto ele enlaçava sua cintura, ordenou em voz febril que soltassem os homens e deixassem Turuaçú levar o muiraquitã.

Depois seguiram, o encantado, a guerreira e os caboclos, em direção ao rio, enquanto as outras permaneciam estáticas, sem ação, diante do poder masculino daquele rei da conversa fiada.

Nem todos os homens quiseram fugir. Muitos permaneceram, enfeitiçados por suas companheiras fogosas. Tuchurrã foi um deles.

Turuaçú não insistiu. Sabia que o pássaro do amor, enquanto morar no coração, não há como ganhar o céu da liberdade.

Deu um abraço no amigo e foi atrás do Boto em direção ao rio. A Iacamiaba ia perdida, nada via além da fala mansa do encantado.

Ao chegar a beira do Amazonas, Turuaçú se despediu do Boto, agradecido. Ele levantou a camisa, tirou da cinta um facão afiado e entregou ao caboclo sem dizer palavra. Soltou, mais uma vez, sua risada de porteira aberta, fazendo estremecer de volúpia a diaba loira nos seus braços e tocou de leve o Muiraquitã.

- Cuida bem dele, tuxaua...
<
Depois deu uma volta, com o mesmo gingado com que chegara, e mergulhando de um salto no rio, sumiu nas águas escuras com a mulher.

Quem tem amigos, tem tudo


“Tô preso, compadre, to preso
To preso por um cordão
Me solte, compadre, me solte
Me prenda no coração”
( Cantiga popular )


Turuaçú ficou olhando o redemoinho que se formou e percebeu que estava com fome. Comera quase nada durante a luada, alimentado de excitação e promessa da liberdade próxima.

Despediu-se dos homens. Iam para diferentes tribos distantes, ao longo do Amazonas, apenas um era kranaakore como ele - Karan, um jovem guerreiro capturado pelas iacamiabas há muito pouco tempo, que se mostrara valente na luta e decidido na escolha.

Turuaçú e Karan seguiram na direção de sua tribo, mas precisavam caçar alguma coisa, pois o estomago não sabe hora nem lugar pra reclamar recarga.

Como não tinham arco nem flecha, apenas a faca do Boto, arrumaram uma corda improvisada de cipó trançado e saíram em busca de caça.

Talvez pela fome, quem sabe pelo cansaço, ia pensando na vida, enquanto seguia calado, atrás da trilha de um veado grande, ou mesmo de uma paca ou tatu.

Quantas iaras e iacamiabas tivera na vida, desde que pela primeira vez usara seu bordão de macho para satisfazer uma mulher? O mistério do feminino deixava Turuaçú embaraçado e ansioso. Queria uma companheira, mas nunca para virar passarinho de gaiola. Não queria ser servo de matrona, ou escravo de guerreira.

A voz antiga da Boiúna ressoava em sua cabeça:

“São os homens que fazem a noite e libertam o dia. Há muita coisa que você não sabe sobre sua própria gente..”

Por que estava acontecendo tudo aquilo com ele? O que a Cobra Grande queria lhe dizer? Era mais fácil apreender o total do ensinado pelos brancos que a estranha língua enviesada dos encantados...

Ia falar, mas Karan cortou sua intenção com um gesto enérgico, colocando a mão na boca.

Era cheiro de paca.

Karan subiu na árvore. Turuaçú se escondeu entre as folhagens, segurando a faca.. Logo depois surgiu o animal, sozinho em direção ao rio. Com uma agilidade felina o caboclo saltou da árvore sobre a paca que espantada, corcoveou e quase o derrubou. Mas ele fincou os pés em volta do seu lombo.Turuaçú já viera em seu auxílio, segurando a bicha pelas patas traseiras, amarrando a corda em torno delas.

Quando a paca estava toda imobilizada, ficaram matutando de que maneira iam matar e cortar a bicha para comer. Mas nem tiveram tempo de refletir pois um silvo agudo percorreu a mata, eriçando as folhas e uma figura horrenda apareceu, montada num porco do mato, o corpo todo coberto de pelos verdes voltado para eles, a tenebrosa cabeça virada para trás, com os cabelos vermelhos agitados pelo vento.

- Caipora!...

Berrou Karan, dando meia volta para fugir

Mas o monstro cortou seu caminho, rindo com os dentes esverdeados, o nariz achatado como o porco que montava.

“ Na minha mata ninguém caça” - silvou o Curupira, entre os dentes, cheio de raiva.

- Mas seu Caipora - começou Turuaççú humilde, sentindo-se ridículo.

- Não tem Seu Caipora aqui. Sou Cuurupira, protetor da floresta. Quem tenta matar bicho das minhas terras, não volta pra contar a história.

O encantado arreganhou os dentes verdes e eriçou aquele cabelo vermelho de demônio.

Karan começou a suar e Turuaçú tentou argumentar:

- Veja, seu Curupira, nós não estaamos caçando como os brancos, apenas por esporte.

A gente está com fome... Curupira gargalhou:

- E eu com isto? Meus animais tambbém passam fome na seca e nunca vi ninguém da sua tribo vir aqui pra ajudar. É fácil falar do próprio sofrimento...

- Tudo bem, eu entendo seu ponto dde vista, mas os bichos também matam pra comer...

O encantado se irritou:

- Quer comparar os safados dos hummanos com o povo da floresta? Eles não tem ninguém por eles, não tem flecha ou tacape, não tem pau de fogo nem lâmina. Só Curupira pra defender.

Novamente arreganhou os dentes enormes, sambando com aqueles pés ao contrário, como um moleque.

- Desculpe, seu Curupira, mas o seenhor está sendo radical. Fome é fome.. Deus fez a cadeia alimentar...

O outro perdeu a paciência de vez. Agarrou Turuaçú pelos cabelos e soprou nele aquela catinga de encantamento. Na mesma hora, ele ficou parado, como uma estátua de madeira e seus braços e pernas foram se alongando, criando raízes pra dentro da terra. Karan tentou correr, mas o Caipora foi mais rápido.





Aimbê vinha contente, margeando o rio, segurando a peneira do Saci com cuidado. Levara muitos dias vigiando o moleque, esperando a hora certa pra roubar sua carapuça. Agora, levava a preciosidade dentro da blusa. Com ela, o diabinha seria seu escravo, ia fazer tudo que mandasse. E deixar de talhar o leite, assustar os bichos, roubar a roupa da corda, fazer gorar os ovos.

Quando entrou na floresta, todos os seus pelos se eriçaram e o coração disparou. Sentiu a catinga da Caipora. Nem Saci podia com ela. Escondendo-se atrás dos arbustos, foi se aproximando devagar e viu aquela coisa horrível: um caboclo já quase transformado em árvore e outro se debatendo nas mãos da diaba que ria, ria prolongando a agonia. Aimbê começou a tremer, apavorada. Caipora já levantara o nariz de porco, cheirava o ar, sentindo o odor de carne humana.

Foi quando o Saci falou ,com aquela vozinha aflautada, lá de dentro da peneira: “ Se você me deixar sair, eu afasto o Curupira e ainda liberto os caboclos que ele prendeu na mata”

Ela sussurrou de volta:

“ E você lá pode com Caipora, moleque? “

“ Saci pode com qualquer um. Não existe força contra a esperteza...”

“ Estou vendo sua esperteza...”

“ Ah, mas você me pegou desprevenido, roubou meu barrete, sem ele não posso fazer minhas traquinagens. Só ajudo se me soltar e devolver o que é meu”

Aimbê ficou na dúvida, mas o Caipora já encantara o outro caboclo, se aproximava de onde eles estavam e a opção era nenhuma. Virando a peneira soltou o Saci e devolveu a carapuça.

“ Vê lá o que vai aprontar, seu coisa-ruim...” sussurrou.

O monstro já estava bem diante deles arreganhando os dentes.

- Dia bom este meu hoje... três huumanos e ainda um Saci...

O Saci olhou pro alto, viu o pássaro negro se preparando para abrir o bico. Então, segurou com força o barrete e respondeu:

- Melhor o meu que peguei um Uirappuru...

Neste momento um canto maravilhoso inundou a floresta. Tudo ficou estático, a natureza inteira parou pra escutar. O Saci segurava o barrete, de vez em quando olhava pra dentro, colocava no ouvido, fingindo uma trompa. O Caipora ficou intrigado. Quando o canto cessou, ele estendeu a mão peluda:

- Deixa eu ver.

Tentou puxar o barrete, mas o Saci foi mais rápido.

- De jeito nenhum. Fui eu que peguuei. Além do mais, é encantado. Só canta pra quem é seu dono...

O Caipora era duro de idéias como qualquer radical e acreditou.

- E o que você quer em troca destee Uirapuru?

O Saci pensou, pensou... tirou o cachimbo... pitou um pouco... Curupira já estava Impaciente e Aimbê querendo estrangulá-lo, quando, finalmente, fazendo ar de pouco caso, respondeu:

- Você disse que tem uns humanos aaí...

- Tenho - falou o Caipora, sentinddo que ia fazer negócio - dois caboclos fortes O Saci coçou a cabeça:

- Quero ver estes caboclos.
<
- É que estão virados em árvore. <

- E eu lá quero árvore pra que? Deesvira eles que a gente conversa.

O bobo do Curupira desvirou Turuaçú e Karan que apareceram assustados, diante da jovem índia e do moleque.

- Não falei?

- É... até que são bem fortes pro trabalho... - o Saci fingiu avaliar os dois - vou juntar com esta aqui, que peguei ainda agorinha, logo depois do Uirapurú. Negócio fechado. Abre a mão.

Curupira estendeu a mão peluda.

Com cuidado, o Saci fingiu depositar alguma coisa na mão do bicho.

- Estranho, moleque, não estou senntindo nada... - desconfiou o outro.

- Mas claro, não é? você acha que Uirapuru é pássaro igual aos outros? - O Saci fingiu se aborrecer - dá aqui de volta minha prenda que você não serve pra ser dono dela. Curupira escondeu a mão fechada atrás das costas.

- Agora já fechamos negócio.

O moleque deu um muxoxo, pareceu se conformar.

- Mas, olha, não tenta espiar ele,, que o danado desaparece. Segura bem seguro até cair a noitinha. Aí, ele fica com sono, dorme, e você pode olhar pra ele e guardar na gaiola.

O encantado subiu no porco do mato, segurando com cuidado a mão fechada. Depois esporeando com a outra o lombo do bicho, sumiu numa nuvem de poeira, com medo que o Saci desistisse da troca.

O negrinho ficou rindo, rindo, pulando com sua única perna e os dois caboclos e a indiazinha também tiveram que rir da esperteza do Saci.

Mas Aimbê não estava se sentindo segura:

- Vamos embora daqui, antes que o danado descubra que foi enganado.

Agradeceu ao Saci que, colocando a carapuça na cabeça, sumiu num redemoinho de folhas e poeira.

Turuaçú finalmente se sentiu suficientemente calmo para fitar a jovem que os salvara. Viu que tinha as formas belas e os cabelos longos das Iaras, mas o rosto enérgico e o jeito corajoso e decidido de uma iacamiaba.

- Nossa ! se você não aparecesse com o Saci, desta vez a gente estava perdido. Ficou sem jeito de perguntar o que fazia uma cunhã sozinha no meio da floresta. Aimbê também não parecia disposta a esclarecer qualquer dúvida. Rindo, de forma feiticeira, perguntou:

- Não sabem que é perigoso caçar eem terras do Caipora?

- Eu nem tinha idéia que estas eraam terras dele. Estamos indo pra nossa aldeia Kranaakore-açu.

Ao ouvir o nome da aldeia, Aimbê teve um movimento de espanto. O caboclo percebeu, mas novamente nada perguntou.

- Seu nome é Turuaçú ?

Ele fez que sim.

- Já ouvi falar muito no seu nome,, por meu avô Caribanha - Sou Aimbê.

- Aimbê!... - Turuaçú ficou pasmoo - minha prima. Sempre ouvi falar em você mas Caribanha nunca nos aproximou...

- Talvez tenha chegado a hora... Aimbê falava de forma arrastada e Turuaçú começou a sentir um sono irresistível. Mal podia ver os olhos negros dela fitando os seus com alguma coisa boiando dentro que não conseguia distinguir.




Fogo contra Fogo


Na sacola das escolhas
Cabe tudo que vier
Se for ruim mando pra longe
Se for bom, guardo com fé



Quando acordou, estava diante da paca já pronta para ser comida e Karan procurava gravetos para a fogueira.

Quis perguntar por Aimbê, mas desistiu. Tinha medo da resposta.

Karan pelejava, pelejava com os gravetos e nada do fogo aparecer.

Turuaçú olhava desanimado e faminto para os galhos ao redor, em busca de inspiração, quando viu, pousada num ingazeiro, logo acima de sua cabeça, uma gralha branca com um ramo seco de sapê no bico. Reconheceu na mesmo hora a danada, lembrando das histórias de Caribanha - era Fileto, que roubara o fogo do egoísta Minarã, enganando sua filha Iaravi. Transformado na gralha Xakxó, fora por ela levado para junto da lareira onde seu pai guardava as brasas escondidas. Foi no vôo de fuga dela que as fagulhas se espalharam pela floresta e os homens puderam se esquentar do frio e cozinhar a caça.

Xakxó percebeu que tinha sido reconhecida e planando graciosamente até perto de Karan, abriu o bico e jogou o galho seco na fogueira. Na mesma hora, uma chama linda cresceu em direção ao céu estrelado.

Então Turuaçú percebeu, dentro do seu coração, que aquele era um fogo diferente - o da sabedoria. E dentro da sua cabeça Xakkó falou, como a Boiúna:

“São os homens que fazem a noite e libertam o dia. Tudo cabe na sacola da escolha: sedução de iara e liberdade de iacamiaba, radicalismo de Curupira e esperteza de Saci, sabedoria velha de Boiúna e conversa mole de boto, amor jovem de Aimbê e amizade de Karan. Só sacudindo bem, se faz o fogo da sabedoria. Você, Turuaçú, agora é mais do que valente, aprendeu a ser mutante com os encantados. Vai e salva seu povo da ignorância e do medo. Carú tem que morrer, para Rairú reinar.”

Assim falou a gralha Xakxó, dentro da cabeça do guerreiro Turuaçú, futuro tuxaua.

E ele soube porque fora escolhido. A fome passara. Segurando com força o Muiraquitã, caminhou com o amigo para a beira do rio.

Logo o reflexo verde da Boiúna apareceu na água e seus olhos dourados tragaram os dois caboclos para o mundo âmbar da Cobra-Grande.

O amarelo doce foi se transformando num alaranjado cada vez mais forte, até se confundir com as chamas da fogueira.

Turuaçú olhou com olhos de velho para o guerreiro à sua frente. Ele era Caribanha e narrava as histórias de seu povo ao neto Turuaçú, com fala de branco para que aceitasse, porque o caboclo só dava importância ao que era dito em língua de caraíba.

Sentiu vergonha de si mesmo e toda a história do seu povo passou diante dele, nas chamas da fogueira. Viu os primeiros índios conquistando a terra que seria deles, a luta com os animais, as guerras com os encantados. Viu as iaras, iacamiabas, botos, curupiras, sacis e anhangás numa ciranda incessante entre danças e amores. Viu também o homem branco chegando com a doença, a cobiça e a morte.

Tudo isto ele viu, nas chamas de Caribanha e com os olhos antigos dele.

Então completou na língua dos caraíbas:

“ Este é o Muiraquitã. Ele será seu amuleto, o símbolo da nossa aliança. Guarde-o com cuidado e o entregue a seus descendentes, pois todo aquele que o possuir será um amigo de Ruirá e estará sobre a proteção dos encantados..”

E caiu num sono sem sonhos.

Turuaçú viu o velho pender a cabeça. Sabia que o avô se fora, para junto dos antepassados. Apanhando um pouco de terra, apagou a fogueira.

Chegara sua hora.

“São os homens que fazem a noite e libertam o dia. “

Desceu para o rio, os ombros ligeiramente curvados. Uma brisa leve subia da água escura.

Era outra vez apenas um homem e sua escolha. Nem sempre certa, nem sempre errada. Um homem e sua sacola de dúvidas, diante do céu indiferente.

O sol nascia, ao longe, amarelo como o olho da Boiúna.

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