PEDRA
MENTIROSA Bárbara Helena
- Alfredo,
Você fica perguntando porque estou tão
estranha.
Se eu contar você não vai acreditar. Vai dizer que é
bobagem, que eu me perco em chiricas e não gosto de ver o
principal.
O principal é que tu não prestas, Alfredo, eu sempre
soube disto mas sou muito covarde pra te deixar. Pra perder os teus
braços de aconchego no meu contorno. Ah, meu pedaço, se eu te disser a
verdade, vai parecer brincadeira:
Sabe aquela mulher que a
gente conheceu em Paquetá, a bruxa que lia a sorte nos cristais
coloridos e previu tudo sobre o nosso futuro, inclusive os onze filhos
pra fazer o time de futebol que tu sonhavas? Ela disse que o nosso
amor era rocha pra sempre e tu ficaste todo prosa e me jogaste na cara
durante uma semana a minha falta de confiança em ti.
Pois eu
estive em Paquetá outra vez, coração. Fui com a Solange, da Dona
Neuza, ela queria saber o paradeiro do namorado que sumiu em Bangu,
dizendo que voltava já.
Fomos as duas enfrentando o mar, todo
cinzento e encrespado, a Solange enjoando ( aquela ali passa mal até
com a rotação da Terra ) e a barca jogando como eu nunca
vi.
Era o anúncio da tempestade que se seguiu. A mulher nos
recebeu de cara amarrada. Acho que a gente atrapalhou o almoço da
coroa, sei lá, tinha um rapaz de cuecas sentado na mesa da cozinha e,
pelo jeito, filho dela não era.
Não sei se isto influenciou
alguma coisa. Só sei que ela jogou as pedras com força e uma até caiu
da mesa, rolando pelo chão. A pobre da Solange tentou pegar, levou uma
bronca, ameaçou chorar e eu quase fui embora abandonando os cristais
mal-humorados. Mas queria tanto ouvir a confirmação da firmeza do
nosso amor que resisti aos destemperos da bruxa.
Pois as
desgraçadas das pedras desmentiram tudinho que disseram antes. A
mulher afirmou que tu não prestavas, que eu estava perdendo meu tempo
e meu dinheiro e que havia um português no meu futuro!
Juro por
Deus! não estou inventando nada, pode perguntar a Solange. Aliás,
esta, coitada, caiu no berreiro quando a megera confirmou que o
namorado estava perdido pra sempre, arranchado com uma coroa rica lá
pras bandas da Zona Sul.
Saímos trocando as pernas e, se a
barca jogou no retorno, a gente nem percebeu, tal era a tempestade
dentro do nosso coração.
Agora, não sei se a velha estava a fim
de nos castigar pela interrupção da sua festinha particular ou se a
primeira pedra que afirmou o nosso amor era tão falsa quanto aquela
dos anéis iguaizinhos que destes pra mim e pra Laurinda no dia dos
namorados.
Meu consolo é que a idiota da outra pensa que é tudo
de verdade.
Eu sou covarde demais pra te deixar mas, pelo
menos, sei reconhecer uma pedra fajuta e uma bruxa
mentirosa.
Nosso amor pode não ser verdadeiro, coração, mas eu
sei usá-lo com tanta beleza que passa pelo mais puro diamante, como a
pedra linda e falsa do anel que tu me deste.
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