Parada em Marte
Acordo e olho para cima. Em vez das esperadas folhas da floresta amazônica, um teto liso, iluminado por uma luz esbranquiçada.
Por um momento fui tomado pela sensação angustiante de perda de identidade. Durante alguns segundos não soube quem era, onde estava, perdido numa bruma que foi, aos poucos, se diluindo, à medida que voltava a memória dos fatos recentes.
Não estava em minha casa em New New York com seus holo painéis amazônicos. Não há holopainéis aqui e isto é lógico. Apenas paredes e teto branco, um leito macio e a impessoalidade dos locais de passagem.
Jogo fora o cobertor climatizado e sento na cama. Também não há falsas janelas para criar a ilusão de estar ainda em solo firme. Nada aqui sugere as comodidades psicológicas da Terra. É como tem que ser, consideradas as circunstâncias.
A luz se acende sobre a porta e uma voz suave acaba de me despertar:
“ Seu café da manhã, senhor.”
Praguejei mentalmente. Porque solicitei refeições ao toque? Agora, cada vez que colocar os pés na prancha metálica do “room-service” ao lado da cama, terei que pagar por coisas que não consumirei. Na verdade, descobri, espantado, que estava com fome. Dormira algum tempo ( consultei o mini-comp de pulso ) exatamente oito horas, desde a chegada à nave e meu estômago, pela primeira vez nos últimos dias, dava sinais de vida.
“Entre.” Destravei a porta.
Um jovem negro de excepcional beleza, com toda a certeza um andróide de última geração, entrou com a bandeja e colocou na mesa da saleta ao lado. Estava vestido como um oriental, quer dizer, a interpretação que a Companhia faz dos antigos trajes japoneses, com uma túnica dourada e preta, brilhante, algo soturna na combinação.
Estranha idéia eles têm sobre indumentária, decoração e serviços numa viagem destas... Enfim, nunca passara pela experiência antes, mas sabia que as coisas não iam ser fáceis, com qualquer moldura.
O escravo núbio cibernético me olhava com o olhar parado dos andróides de serviço. Esperava algum movimento de minha parte.
Levantei-me, sentei meu traseiro magro na cadeira confortável ( sobre este item não havia o que reclamar – conforto era detalhe primordial nesta viagem ) em frente à mesa.
Ele começou a virar as xícaras, retirar os acompanhamentos, colocou o leite, o café, passou manteiga e mel nas torradas, tudo na quantidade certa ( para isto serviam, também, os intermináveis questionários pessoais que preenchera antes da viagem e que faziam parte do pacote da Companhia ). Depois se inclinou à moda oriental e dirigiu-se para a porta.
Dar gorjetas a um andróide de serviço seria uma gafe e uma descortesia imperdoável. Minha mão, que já se dirigia imperceptivelmente a um bolso inexistente, parou no meio do caminho. Anos de convivência com os garçons humanos dos luxuosos drogars de New New York haviam me condicionado de tal maneira que me senti desconfortável, enquanto o elegante negro transpunha a porta do quarto.
Para meu espanto, a comida era excelente. As torradas exatamente como gosto, biscoitos, brioches, um pedaço de bolo de aipim ( não esqueceram nada , os danados ), o café e o leite na temperatura ideal.
Senti falta da música. Mas por pouco tempo. Logo os primeiros acordes da Sinfonia em Ré Menor de César Frank inundaram o quarto. Mal tive tempo de me recuperar da emoção, quando a mesma voz suave me advertiu, enquanto um holograma ia se formando com as palavras sobre um estrado em frente a mim:
“ Cerimônias religiosas –
Culto católico - Capela 1, plataforma S, setor Laranja
Cultos anglicanos e derivados - Capelas 2 a 10, plataforma S, setor Laranja
Cultos israelitas - Capela 11, plataforma S, setor Verde...”
A voz continuava a repetir intermináveis anúncios de cerimônias para todos os cultos colocados nos questionários pelos participantes. Tinha que admitir: a coisa toda era de uma eficiência e um detalhismo oriental.
Não entendi muito bem porque me informavam os horários de todos os outros cultos, uma vez que já me catalogara como católico apostólico romano, ainda que bem mais romano do que apostólico na vida que levava ultimamente. Talvez se preparassem para a hipótese de uma conversão tardia a um outro credo ou para a necessidade de se proteger em todas as frentes. Quanto mais deuses vindo em nosso auxílio melhor. Era uma colocação pragmática.
O minicomp informa, com minha voz eletrônica, de que são 20 para ás 9, horário da Pegasus. Resolvo ir à Missa Espacial. Não tenho mais nada para fazer mesmo. Será uma experiência, no mínimo, única.
A esteira do corredor me leva até a plataforma S, Setor Laranja e, finalmente, após um labirinto de corredores brancos, ornados com uma fosforescente linha alaranjada, sou deixado em frente à porta da Capela F, esculpida com motivos católicos. Um Cristo entalhado em madeira me olha com piedade. Ao menos assim me pareceu.
Um arrepio percorre meu corpo, empurro a porta e entro.
A capela está bem cheia. Aqui há um holopainel no teto que se estende até o meio da parede, simulando um céu estrelado. O efeito é bastante convincente e uma tranqüilidade se apodera de mim, mesmo contra a vontade. Talvez seja também efeito da música, do coral beneditino ( onde diabos – perdão meu Deus - arranjaram um coral beneditino?), do cheiro de incenso e do imenso altar de mármore branco sobre o qual um padre com paramentos roxos inicia o ofício da Santa Missa.
Ajoelho-me, rezo e as lágrimas começam a correr em minhas faces, pela primeira vez em muitos anos.
O efeito desejado deve ser este mesmo.
O resto da cerimônia transcorria de forma tranqüila e algo tediosa. Impaciente, comecei a observar as pessoas ao meu redor. Todos vestiam as roupas dadas pela Companhia para a viagem - o macacão negro com enfeites violeta - que nos fazia parecer membros de uma tripulação soturna com destino ignorado.
Minha atenção foi despertada pela luz brilhando sobre os cabelos louros de uma jovem sentada quase em frente a mim. Ela se virou ligeiramente e vi que já a conhecia da chegada à nave. Quando fizemos a checagem das roupas e objetos pessoais que seriam devolvidos no fim da viagem. Naquela ocasião ela pareceu extremamente nervosa, destacando-se da massa apática e triste dos outros passageiros.
Senti curiosidade pelo objetivo dela, coisa que não me acontecera com os outros companheiros de jornada. Não apenas porque era bonita – e era - num estilo severo, a pele clara como um modelo da antiguidade renascentista, os olhos sombreados por cílios tão espessos que não havia como definir sua cor. Em todos estes detalhes eu reparara no check-in, por isto a reconhecera tão facilmente. Ela me intrigava porque era diferente de nós. Sua postura, seus gestos nervosos, um ligeiro tique nas sobrancelhas, os dedos que tamborilavam no balcão.
Alguns outros também olharam para ela naquela ocasião, mas pareceram desagradados com sua atitude. Há um acordo tácito entre os passageiros e a tripulação no sentido de virarmos sombras. No sentido de escapar à tentação da individualidade. E aquela moça, com seu aparente desespero, nos incomodava, trazia de volta, com o eu desperto, um sentimento amortecido.
Desviei o olhar dos cabelos que balançavam suavemente. Pareceu-me ouvir soluços quase imperceptíveis e isto me irritou. Concentrei-me na voz suave e algo monótona do padre na homilia. Tudo que dizia eram banalidades, mas era o que precisávamos por enquanto.
Quando a missa acabou, num impulso que eu mesmo não sei explicar, dirijo-me à jovem que acaba de cruzar a porta entalhada:
“Não sei se estou quebrando alguma etiqueta marciana, mas gostaria de conversar com você.”
Ela me olhou, espantada, como se voltasse de uma viagem a algum lugar longínquo e, com dificuldade, focalizou em mim um olhar atordoado:
“Pois não?”
Sua voz era gentil, com a gentileza indiferente das pessoas treinadas em lidar com o público.
“Gostaria de conversar com você... quer dizer... estou me sentindo meio sozinho... esta viagem, tudo que nos cerca... os motivos, os métodos, sei lá... acho que senti necessidade de falar com alguém. Desculpe... não sei se foi uma boa idéia... não quero atrapalhar... “
Fiquei ali parado, como um idiota, dividido entre a tentação de ficar, mesmo enfrentando a frieza de uma recusa e a vontade de fugir, correr para o meu quarto onde me sentiria outra vez explicado.
Mas ela sorriu, clareando o saguão sombrio com aquele simples gesto quase mecânico.
“Também me sinto só. É estranho tudo aqui. É minha primeira vez...”
Eu já suspeitava e respondi, também sorrindo:
“A minha também. A primeira vez é mais difícil.”
Pessoas passavam por nós e pareciam nos olhar com desconfiança e censura, mas não me importava. Depois de muitos meses, neste momento tinha consciência de mim, ou melhor, consciência de ser alguém separado da dor e do desespero.
Caminhamos para o salão comunitário do andar. Como eu previa, estava vazio e poderia, talvez, fazer algo que já me parecia tão distante de mim que nem sabia se ainda seria capaz de realizar – conversar com outro ser humano, especialmente uma mulher.
Outra vez percebi que, finalmente, conseguira pensar nesta palavra sem sofrer.
Olhei para o distintivo brilhante que identificava os passageiros no peito dela. Estava escrito: LARA ( TERTIA NONUS – ALEXANDRÓPOLIS ) Uma cria de Alexandrópolis! Que incrível coincidência! Fúlvia também fôra clonada lá. Eu não pertencia à linhagem dos clones, era um humano absoluto, meus pais biológicos preferiram a sorte. Foi minha herança por ter nascido de dois artistas famosos da cena holográfica de New New York. Excentricidade permitida às celebridades do “showbiz”. Não sei precisar até que ponto isto me tornou singular. Nunca me senti menos capaz do que os outros e, profissionalmente, minha diferença me ajudou a ser o mais criativo publicitário da UNIC. Estou aqui com meus próprios recursos, o que não parece ser o caso da maioria. Quase todos são sócios do PASEM ( Para Sempre Marte ) plano pago pelos empresários como forma de ter funcionários presos a si pelo resto da vida.
Lara me olhou espantada, pois eu estava quase rindo – uma heresia, consideradas as circunstâncias.
Desembarco em Marte com Lara, atravessando os túneis envidraçados que permitiam ver o que cinquenta anos de colonização terrestre tinham feito pelo planeta vermelho. Havia uma vegetação luxuriante sob a semi-esfera, que quase não era percebida na claridade artificial da manhã. Nada da aridez desoladora que ainda existia em grande parte do planeta. Tudo parecia claro, perfeito, como um quadro campestre. Um funcionário nos indicou o Hotel na Semi-esfera 3 onde éramos aguardados nos aposentos selecionados previamente pela Companhia Marciana.
Seguimos de mãos dadas, com a intimidade que partilhávamos desde a nave. Amar Lara havia sido fácil ali, como seria em New New York. Éramos ambos romanos. Não havia porque fingir preconceitos. Silenciosamente agradeci a meus pais por ter nascido patrício e não servo. A vida dos clones de serviço era bem pior que a dos andróides. E ainda havia toda aquela questão da castidade que estava sendo discutida no Parlamento – clones de serviço podem ter vida sexual ativa? Tudo bobagens. Foram criados para servir e não reclamavam, porque esta demagogia em torno do assunto? É só uma questão de angariar mais votos para o Conselho. Eles mesmos não estão nem aí para os políticos. São dóceis e meigos como cordeiros. Como cordeiros... um arrepio me percorreu a espinha, justamente quando o andróide de serviço na portaria conferia na máquina nossas credenciais. Não era negro, mas de aparência oriental. Sorria protocolarmente e nos passou o cartão do quarto duplo que encomendamos.
Haveria uma certa ironia naquele sorriso?
Acho que não. Andróides não costumam ter sutilezas. A ironia é própria dos patrícios e dos clones superiores. Na verdade, nunca se sabe o que pensam os andróides. Novamente um arrepio me percorreu.
O hotel era luxuoso, mesmo para os padrões terrestres, embora austero, mantendo o dourado e o violeta da nave. Eu só queria entrar, tomar um banho aromatizado de vapor e amar Lara pela primeira vez em solo marciano. Ela olhou para mim e parecia estranha, distante. Eu também estava distante, eu também me sentia estranho. Mas não queria pensar no que nos aguardava.
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Lara me acorda antes da voz artificial:
“ Querido... “
Gostava de ouvi-la me chamar assim. Parecia tão anacrônico e tão longe da realidade que nos cercava...
“ ...Está na hora.”
A realidade voltou, brutal, diante de mim. Levanto-me num pulo, evitando tocar na maldita prancha metálica. Não quero pagar por um café que nenhum de nós pretende tomar. Olho meu rosto no cristal reprodutor e amplio minha imagem até mostrar a menor imperfeição a ser corrigida pelo laser cosmético. Apesar de tudo, minha aparência é razoável. Programara rosto sem barba para toda a viagem e não precisava me preocupar com este aspecto mesquinho que os andróides adoram cultivar. Não sei porquê, apreciam o ato de fazer a barba. Penso que o renascimento cotidiano dos pelos lhes dá uma ilusão de humanidade. Sei lá o que se passa por estas cabeças estranhas.
Lara sai do banheiro radiosa como sempre, um produto perfeito da engenharia genética.
Estou me sentindo amargo. É compreensível. Ela também parece triste e defendida. Abracei-a quase maquinalmente e entrei no banheiro para terminar de me arrumar.
Quando a voz inundou o quarto, já estávamos prontos para descer. Tomamos a esteira rolante e nos dirigimos ao saguão. Havia muita gente lá, todos em um silêncio quase assustador, organizados em fila, nos trajes preto e violeta da Companhia Marciana. Fomos identificados e nos dirigimos a nossos lugares no grupo.
Alguns iam para estágios inferiores. Eram os trabalhadores de categoria mais simples. Outros, a chamada classe média oriente-americana, ficaria nos estágios intermediários. Lara, como eu, fôra encaminhada ao nível superior. Espantei-me um pouco porque, embora romana e patrícia, não parecia pertencer à elite. E aquele era um luxo para poucos. Procurei disfarçar e nos dirigimos na esteira para o grande edifício da Partida, uma construção não muito alta e maciça. Bela e soturna como convinha. Não tinha os rebuscamentos de alguns exemplares da arquitetura marciana, apenas alguns vitrais coloridos, quebrando a monotonia dos cinzas.
O pavilhão destinado à elite tinha uma entrada separada, um arco perfeito de mármore negro onde a esteira mergulhava como na goela de um dragão.
Segurei a mão de Lara. Estava gelada. Eu também sentia um frio no estômago e suava como se não estivesse num ambiente perfeitamente climatizado.
Logo após o arco da entrada, entramos num grande corredor dourado, esculpido com motivos barrocos. Colonial, pensei. Lembrava ainda as aulas de Arquitetura da Antiguidade do Centro Integrado. Um período que me parecia tão longínquo como as próprias volutas das paredes. Um tanto opressivo, embora belíssimo. Não havia música neste trecho e agradeci por isto, nem sei bem porque. A esteira percorreu lentamente o corredor e o brilho dourado se refletia em nós. Tinha a sensação de fazer parte de um grupo de estátuas de bronze. Ninguém fazia o menor movimento, a tensão era palpável como uma névoa triste em torno de nós.
Finalmente, atingimos o salão principal, recoberto até o teto de uma espécie de veludo negro.
Olhei para os outros. Umas vinte pessoas, no máximo. Todos calados como peixes. Entramos e nos sentamos nas confortáveis poltronas, dispostas em semi-círculo, diante do estrado negro e violeta.
Havia cerimônias individuais, mais caras, mas não me achava em condições de agüentar uma dor solitária. Acompanhado, de alguma forma, a coisa parecia menos terrível. Pedira apenas, como um favor especial, que fosse o primeiro. Seria atendido, claro. Para isto serviam conhecimentos e parentescos.
Meus nervos estavam tensos a ponto de se rasgar. O coração bateu acelerado quando as luzes se apagaram e a música foi iniciada. Não reconheci aquela melodia, tristíssima, que lembrava as canções árabes de séculos atrás. Deve ter sido feita especialmente para a cerimônia. Do alto surgiu uma luz suave, branca, quase fantasmagórica, que iluminou o estrado, e dele foi subindo, de forma quase irreal, a figura delicada daquela que fôra o centro de meus pensamentos nos últimos anos.
Estava vestida com uma túnica branca, leve, apertada por um cinto de metal com pedras preciosas. Os cabelos escuros, presos por uma rede finíssima de perolas, brilhavam. Ela tinha a aparência luminosa de antes da doença, com os lindos olhos azuis abertos, porém vagos. Um meio sorriso entreabria seus lábios e o aspecto todo era de uma jovem mulher sonhadora. Parecia viva e não congelada como estava, além da parede de vidro, tão fina que era impossível ser detectada, que nos separava da câmara de criogenia. Um trabalho verdadeiramente profissional.
Esta encenação era necessária para que os parentes ricos, ou os funcionários das empresas, continuassem a pagar as prestações do dispendiosíssimo plano Para Sempre Marte, garantindo que seus amados permaneçam lá, congelados, no Planeta Vermelho, à espera de um possível despertar, quando a ciência tiver vencido as doenças e a morte
Todos os associados têm direito a, pelo menos, uma viagem para rever os entes queridos.
Começo a me sentir estranho. Os ouvidos zumbem. Mil abelhas furiosas disputam espaço dentro deles. Meu corpo parece estranhamente plácido, mas uma dor se insinua no centro do plexo solar e se irradia para o braço esquerdo, sorrateira, uma enguia gelada de agonia.
A música se torna mais intensa, triste, totalmente apropriada para o momento e, no meio da minha impossível dor, mais uma vez, tive que reconhecer a eficiência deles.
Isto pouco antes de cair, morto, no chão brilhante do Auditório Número Um.
Agora estão me preparando para o congelamento. Sei de tudo e, no entanto, não estou lá. Meu cérebro preservado permanece aqui, junto de Flávia, no sofisticado Laboratório Marciano.
Algum dia nos reencontraremos. Eu e o meu corpo. Não sei se será um bom dia.
Tudo é possível no futuro. Até a felicidade.
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