Maria Helena Bandeira

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Pais Contagiosos




               
                Quando minha filha chegou à adolescência, descobri que pais podem ser uma doença contagiosa. Os jovens fogem de nós como o diabo da cruz. Identificar-se como pai ou mãe é delito grave, punido com olhares furibundos e respostas atravessadas, principalmente se for diante de amigos também adolescentes.

                Levá-los de carro às discotecas é obrigação submetida a regras rígidas: jamais ultrapassar os duzentos metros mínimos da entrada, no embarque ou no desembarque da galera. Passar de carro lentamente em frente à porta para assegurar-se do sucesso da operação é proibido e acenar afetuosamente nem pensar.

                Os quartos são sempre trancados e deles sai uma música muitos decibéis acima do permitido ao ouvido humano suportar, que nossa doença contagiosa impede de tentar compreender. Insinuar que também gostamos de rock e que a nossa geração curtiu os Beatles e os Rolling Stones provocará sorrisos piedosos.

                Os telefonemas em linguagem cifrada e quase inaudível e as inúmeras horas diante do computador também são um sintoma de nossa doença de exclusão. Sentimo-nos afastados, expulsos do paraíso da convivência com nossos filhos que antes nos julgavam super-homens dotados de todo o saber e agora nos colocam como algo intermediário entre a debilidade mental e o ridículo.

                Mas essa doença, apesar de parecer interminável, tem um remédio poderoso para a maioria absoluta dos casos: o tempo.

                Jogar a infância fora, livrar-se dela exige um determinado estágio, um ritual tribal que passa pela exclusão dos mais velhos, especialmente os pais. Afirmar-se em direção à vida adulta é uma tarefa difícil e pede companhias do mesmo barco, roupas, músicas e coreografias próprias.

                É preciso paciência para compreender que estão ainda navegando ás cegas, viajando em direção a um amanhã que para nós é ontem e não adianta  lhes oferecer os nossos mapas ultrapassados.

                Cada percurso é diferente e individual. A única coisa que podemos fazer é esperar.

                Um dia, quando chegarem ao porto da vida adulta, vão encontrar-nos lá, de braços abertos, a esperá-los. Se tivermos sido pacientes, esse encontro será tão prazeroso quanto foi difícil superar a angústia em nossa doença da exclusão.




Anexo -



             Pais impacientes que se dispõem a levar essa doença às últimas conseqüências e a afastar seus filhos definitivamente de sua presença podem utilizar o método abaixo, cuidadosamente pesquisado in loco e baseado em depoimentos dos próprios sujeitos pesquisados.



Como enlouquecer um adolescente:



1-     Mãe, ao levá-lo de carro à discoteca, pare bem em frente à entrada para que desembarque no meio de outros adolescentes que estão ali especialmente para vê-lo pagar esse mico. De preferência, beije-o com efusão e continue dando adeusinhos entusiásticos até que olhe furibundos para trás e aí se torne mais entusiástica ainda.

2-     ( se tiverem mais de treze anos) Leve-os de carro á discoteca.

3-     Entre no quarto dele inesperadamente, quando estiver com os amigos e comece a comentar as músicas que estão ouvindo, ignorando seu desespero e o olhar entediado dos amigos dele e inicie um discurso sobre como sua geração amava os Beatles e os Rolling Stones.

4-     Mãe, apareça na porta do colégio, de preferência toda arrumada, com aquela roupa tipo "cheguei, vamos começar a festinha". Brincos enormes, visual perua e faça questão de demonstrar quem é seu filho no meio dos colegas onde tentou inutilmente se esconder. O método funciona melhor ainda com as adolescentes do sexo feminino.

5-     Faça absoluta questão de contar aos outros adultos, na frente dele, todas as gracinhas que cometeu desde que era bebê. Não se esqueça de elogiar sua beleza, inteligência, etc e de passar a mão na sua cabeça. Babuja-lo de beijos é opcional mas bastante eficiente.

6-     Pegue aquele álbum enorme de retratos e leve para mostrar á namorada (o ) dele (a ) no meio de uma conversa animada no quarto. Dê especial destaque à foto da festa junina em que ele (a ) aparece com cara de pateta.

7-     Vá busca-lo na escola quando estiver chovendo ( um pouco ) levando agasalhos e guarda-chuva. Deixe que os amigos dele percebam o quanto você se preocupa com ele. Este método serve para todos, mas é especialmente eficiente com o sexo masculino.

8-      Quando seu filho (a) se atrasar 15 minutos, ligue para todos os amigos, especialmente a garota ou o garoto por quem ele ou ela estiverem interessados e demonstre sua preocupação, fazendo um inquérito sobre seu itinerário, pedindo endereços de outros amigos, etc. Não esqueça de ressaltar que chegando em casa ficará de castigo.

9-     Pai, vá buscar seu filho naquela festinha especial e, quando estiver todo empolgado ensaiando a azaração, apareça inesperadamente. É fundamental chegar antes da hora marcada e fazer tudo na frente dos amigos. É totalmente eficiente para rapazes no início da adolescência, mas serve para meninas também.

10-   Se sua filha demorar mais do que cinco minutos além da hora marcada para deixar a discoteca, adentre o recinto com ar de mãe procurando. Não conseguindo acha-la ( ela vai se esconder eficientemente ) peça ao DJ para avisa-la pelo alto-falante que sua mãe está esperando na saída. Faça com que ele repita o nome e o sobrenome dela várias vezes. Serve para os meninos também, mas é excessivamente perigoso



                Se você sobreviver a todos esses procedimentos, parabéns, seu filho, definitivamente, não é um adolescente.



( Bàrbara Helena )

               



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