Pais
Contagiosos
Quando minha filha chegou à adolescência, descobri que pais podem ser uma doença
contagiosa. Os jovens fogem de nós como o diabo da cruz. Identificar-se como pai
ou mãe é delito grave, punido com olhares furibundos e respostas atravessadas,
principalmente se for diante de amigos também
adolescentes.
Levá-los de carro às discotecas é obrigação submetida a regras rígidas: jamais
ultrapassar os duzentos metros mínimos da entrada, no embarque ou no desembarque
da galera. Passar de carro lentamente em frente à porta para assegurar-se do
sucesso da operação é proibido e acenar afetuosamente nem
pensar.
Os quartos são sempre trancados e deles sai uma música muitos decibéis acima do
permitido ao ouvido humano suportar, que nossa doença contagiosa impede de
tentar compreender. Insinuar que também gostamos de rock e que a nossa geração
curtiu os Beatles e os Rolling Stones provocará sorrisos
piedosos.
Os telefonemas em linguagem cifrada e quase inaudível e as inúmeras horas diante
do computador também são um sintoma de nossa doença de exclusão. Sentimo-nos
afastados, expulsos do paraíso da convivência com nossos filhos que antes nos
julgavam super-homens dotados de todo o saber e agora nos colocam como algo
intermediário entre a debilidade mental e o
ridículo.
Mas essa doença, apesar de parecer interminável, tem um remédio poderoso para a
maioria absoluta dos casos: o
tempo.
Jogar a infância fora, livrar-se dela exige um determinado estágio, um ritual
tribal que passa pela exclusão dos mais velhos, especialmente os pais.
Afirmar-se em direção à vida adulta é uma tarefa difícil e pede companhias do
mesmo barco, roupas, músicas e coreografias
próprias.
É preciso paciência para compreender que estão ainda navegando ás cegas,
viajando em direção a um amanhã que para nós é ontem e não adianta lhes
oferecer os nossos mapas ultrapassados.
Cada percurso é diferente e individual. A única coisa que podemos fazer é
esperar.
Um dia, quando chegarem ao porto da vida adulta, vão encontrar-nos lá, de braços
abertos, a esperá-los. Se tivermos sido pacientes, esse encontro será tão
prazeroso quanto foi difícil superar a angústia em nossa doença da
exclusão.
Anexo -
Pais impacientes que se dispõem a levar essa doença às últimas conseqüências e a
afastar seus filhos definitivamente de sua presença podem utilizar o método
abaixo, cuidadosamente pesquisado in loco e baseado em depoimentos dos próprios
sujeitos pesquisados.
Como enlouquecer um
adolescente:
1- Mãe, ao levá-lo de carro
à discoteca, pare bem em frente à entrada para que desembarque no meio de outros
adolescentes que estão ali especialmente para vê-lo pagar esse mico. De
preferência, beije-o com efusão e continue dando adeusinhos entusiásticos até
que olhe furibundos para trás e aí se torne mais entusiástica
ainda.
2- ( se tiverem mais de treze anos)
Leve-os de carro á discoteca.
3- Entre no quarto
dele inesperadamente, quando estiver com os amigos e comece a comentar as
músicas que estão ouvindo, ignorando seu desespero e o olhar entediado dos
amigos dele e inicie um discurso sobre como sua geração amava os Beatles e os
Rolling Stones.
4- Mãe, apareça na porta do
colégio, de preferência toda arrumada, com aquela roupa tipo "cheguei, vamos
começar a festinha". Brincos enormes, visual perua e faça questão de demonstrar
quem é seu filho no meio dos colegas onde tentou inutilmente se esconder. O
método funciona melhor ainda com as adolescentes do sexo
feminino.
5- Faça absoluta questão de contar aos
outros adultos, na frente dele, todas as gracinhas que cometeu desde que era
bebê. Não se esqueça de elogiar sua beleza, inteligência, etc e de passar a mão
na sua cabeça. Babuja-lo de beijos é opcional mas bastante
eficiente.
6- Pegue aquele álbum enorme de
retratos e leve para mostrar á namorada (o ) dele (a ) no meio de uma conversa
animada no quarto. Dê especial destaque à foto da festa junina em que ele (a )
aparece com cara de pateta.
7- Vá busca-lo na
escola quando estiver chovendo ( um pouco ) levando agasalhos e guarda-chuva.
Deixe que os amigos dele percebam o quanto você se preocupa com ele. Este método
serve para todos, mas é especialmente eficiente com o sexo
masculino.
8- Quando seu filho (a) se
atrasar 15 minutos, ligue para todos os amigos, especialmente a garota ou o
garoto por quem ele ou ela estiverem interessados e demonstre sua preocupação,
fazendo um inquérito sobre seu itinerário, pedindo endereços de outros amigos,
etc. Não esqueça de ressaltar que chegando em casa ficará de
castigo.
9- Pai, vá buscar seu filho naquela
festinha especial e, quando estiver todo empolgado ensaiando a azaração, apareça
inesperadamente. É fundamental chegar antes da hora marcada e fazer tudo na
frente dos amigos. É totalmente eficiente para rapazes no início da
adolescência, mas serve para meninas também.
10- Se sua filha
demorar mais do que cinco minutos além da hora marcada para deixar a discoteca,
adentre o recinto com ar de mãe procurando. Não conseguindo acha-la ( ela vai se
esconder eficientemente ) peça ao DJ para avisa-la pelo alto-falante que sua mãe
está esperando na saída. Faça com que ele repita o nome e o sobrenome dela
várias vezes. Serve para os meninos também, mas é excessivamente
perigoso
Se você sobreviver a todos esses procedimentos, parabéns, seu filho,
definitivamente, não é um adolescente.
( Bàrbara Helena
)
|