[Titulo – O tempo do Cristal]
[Autor – Maria Helena Cordeiro de Souza Bandeira]
[Gênero:Ficção Científica]
O Tempo do Cristal
Olhou para o alto.
As escadas entrelaçavam-se num desenho infinito que se perdia nas profundezas acima dela. As vezes pensava sobre o que haveria além dos outros estágios. Mas era uma questão fútil. Não havia como descobrir. Não para ela ou seus iguais.
Voltou a atenção para Logod. Também admirava o brilho metálico das escadas e sorria.
Ficaram assim, mudos, durante um momento, até que a sirene soou.
Ele se desprendeu dos seus braços.
“Temos que ir. É o sinal.”
Safir concordou, desapontada. Debruçou-se ainda alguns minutos, olhando seu reflexo na íris azul.
Depois, rapidamente, tomou a escada mais próxima em direção ao abismo lá em baixo.
Descia distraída, o olhar perdido, através dos sucessivos patamares, os degraus diminuindo gradativamente, até sumir do ângulo da visão.
Quando chegou ao seu setor, pulou agilmente da escada rolante e seguiu pelo Ramal Violeta.
Logod subiu até o 734.
Saltou e foi deslizando pela esteira, distribuída como uma ponte sobre o abismo entre as escadas.
Nas pirâmides sextavadas abandonou a esteira e apoiou o dedo sobre o painel. As portas se abriram e ele entrou.
Um enorme cansaço o envolvia.
Mas o tempo era curto para ele.
Sentou-se diante do cristal refletor e com o agudo Letteri de ponta brilhante fez um corte diagonal no rosto, da órbita do olho esquerdo até o pescoço.
Com um gesto seco, retirou a pele daquele lado.
Depois, repetiu a operação na face direita.
Colocou os globos oculares dentro do recipiente de cristal e guardou-os, assim como os dentes e os cabelos.
Os pedaços de pele foram se juntando no reprocessador.
Era pena estragar um corpo tão perfeito, mas não havia outra maneira. A carne não se conservava bem por muito tempo.
Quando terminou a operação, contemplou sua verdadeira imagem sem nenhum sentimento especial.
Caminhou até o meio do aposento.
Ao seu toque, o chão se abriu, revelando um nicho, pouco maior do que um homem adulto, onde se deitou. Então, apagou as luzes.
As portas do alçapão deslizaram suavemente sobre ele.
Tudo ficou outra vez vazio e silencioso.
Safir continuou pelo Ramal Violeta.
Estava sempre preocupada com o que havia além das plataformas conhecidas. Há muitos anos atrás, ninguém sabia bem quando, o mecanismo que regulava os rolantes, acima dos 3005 positivos e abaixo dos 1643 negativos, se quebrou. Expedições foram organizadas, durante épocas sucessivas, mas os exploradores nada conseguiram além de subir ou descer intermináveis degraus. Outros nunca mais voltaram dessa jornada ao desconhecido.
Então, todos desistiram.
Admirou a luz violeta que se refletia nas estruturas metálicas através da descida vertiginosa abaixo dela, até ficar ligeiramente tonta. Precisou se apoiar no corrimão da plataforma. Mas não havia perigo. Seus sapatos magnéticos ficavam firmemente colados na prancha, no momento em que pressionava os trechos imantados. Quando a esteira parava, a polaridade se rompia automaticamente e ela podia caminhar livremente outra vez.
Ao chegar aos Edifícios, enormes construções de metal e vidro que atingiam vários estágios, a esteira parou e Safir saltou, agilmente. Passou pelas hortas hidropônicas, dispostas simetricamente como jardins suspensos e, mais adiante, pelos próprios jardins que formavam quadros fauvistas sobre o abismo.
As luzes começavam a se apagar.
Desde que os ersatzs surgiram, nos estágios inferiores, o portão principal era mantido trancado.
Ela não temia esses seres desconhecidos, embora seu corpo jovem e bonito fosse uma mercadoria bastante apreciada entre eles.
Diziam que tinham muitos disfarces e era difícil identificá-los quando assumiam corpos de pessoas comuns ou mesmo nos seus corpos reprocessados.
Mas Safir não acreditava nisto. Confiava no seu instinto para reconhecer uma carne habitada quando cruzasse com ela.
Abriu a porta de casa e começou a perceber a tensão no corpo, que a presença de Logod disfarçara. Jogou-se sobre o espreguiçador que vibrava suavemente, relaxando os músculos doloridos.
Logod!... Ele tinha tudo que sempre sonhara num homem e mais alguma coisa. Sentiu a pulsação se acelerando, o sangue correndo quase perceptivelmente dentro das veias.
Logod!...
Um calor agradável, que ajudava a adormecer, com a ondulação suave do espreguiçador...
Mergulhou no sono sem sonhos do cansaço físico.
“... já perdi a conta dos corpos que habitei. Tantos sonhos, amores, medo e desilusão tomados de empréstimo. Vivi mil vidas e morri mil mortes. Gostaria de parar enfim, mergulhar minhas raízes num fundo poço sem fim... mas preciso ir embora por causa de Safir, porque, se eu não for, ele estará perdida... meu vício é alimentado por anos de compulsão!... se você soubesse, meu amor!... houve um tempo em que ser apenas consciência parecia a única saída para nossa inexorável degeneração. A mente pura. O racional brilhando acima de tudo. Os ersatzs aboliram a emoção junto com a carne. No início, guardávamos as mentes no cristal, nas esperança sincera de, um dia, devolver os corpos aos seus donos... mas isso jamais aconteceu... depois que você começa é uma volúpia tal que nada pode extinguir. Fui caindo, caindo e me encharcando em entranhas desconhecidas, sentindo o prazer das vísceras alheias, de fibras, músculos e sentidos... incomparavelmente sempre mais!... e mais!... vou partir por você, Safir, pela emoção que despertou nesse corpo reprocessado, contaminando a minha mente. Como explicar o inexprimível?... Sua carne é jovem e íntegra, conhecerá um outro corpo seu igual para viver essa pequena vida transitória que hoje invejo tanto!... a vertigem da fragilidade!... o supremo prazer da finitude!... Nada disto é para mim, meu amor inesquecível e mais querido.”
A mente ainda pulsava na memória das emoções do último reprocessado. Em algum tempo, elas iriam sumir no infinito linear do racional absoluto.
Isso tornava o prazer mais agudo, embora a dor mais funda.
O homem com o hábito tomou a escada rolante iluminada pelo brilho azulado que se refletia nos degraus, transformados numa esteira de luz àquela hora da madrugada.
Em volta, tudo era silêncio.
Não havia ninguém no complexo de plataformas que se entrelaçavam acima e abaixo dele.
Numa precaução inútil, aconchegou mais o capuz contra o rosto mascarado, onde as lentes escuras dos óculos refletiam e estilhaçavam os milhares de pontos dos feixes de iluminação. Suas mãos enluvadas seguravam com força o corrimão metálico, traindo uma tensão crescente à medida que descia, abandonando a segurança do setor azul e penetrando no violeta dos Seiscentos.
Abaixou a cabeça e se envolveu mais ainda na veste escura.
Ela estava lá.
Sempre soubera disso. Através de todos os séculos de luz e trevas, sabia que estaria esperando no momento exato da impossibilidade.
Aspirou o ar com dificuldade, os dedos se enterrando no metal frio, como se a sua vontade pudesse parar a escada que descia, interrompendo o fluxo dos minutos que o levavam para aquele encontro.
“Logod!...”
O homem com o hábito se virou devagar, enquanto a escada parava na plataforma.
Ela o aguardava, sozinha, os cabelos luzindo na escuridão.
Abandonou todos os pensamentos para se concentrar na intensidade daquele manto de fogo. Eles eram tão profundamente!...
Ela se aproximou, inquieta, observando o vulto embuçado, escondido atrás das lentes invioláveis.
“Logod!... é você, não é? Porque você sumiu?... Procurei em todos os estágios conhecidos...” sua voz quebrou
Queria dizer alguma coisa. Negar. Como ela poderia ter certeza? Logod era uma determinada qualidade de pele, cor, volume e sentimentos...
Mas sabia que era inútil.
De alguma forma misteriosa, ela o reconhecera. Aquela porção indisfarçável que restara dele.
Por um momento ficaram frente a frente.
Safir, clara e luminosa contra o fundo escuro da plataforma.
O homem com o hábito prendeu, delicadamente, suas mãos entre os dedos enluvados. Depois, sem uma palavra, saltou para os degraus que corriam abaixo dele.Ela o viu ficar cada vez menor em meio à penumbra violácea do abismo, até sumir completamente da visão.
A verdade surgiu como uma lâmpada estourando num flash doloroso.
Logod era um ersatz.
Curvou-se sobre o próprio corpo com um gemido e foi desabando devagar no frio chão metálico da plataforma.
Escovou os cabelos até ficarem quase lisos, depois torcendo vigorosamente, enrolou-os atrás da cabeça e prendeu com uma travessa forte.
No cristal refletor, seu rosto, severizado pelo penteado austero, estava pálido. Olheiras apareciam sob a pele fina e os ossos pareciam querer rasgar a epiderme delicada das faces.
Emagrecera muito. Sua recuperação fôra difícil e longa. Mas, durante todas aquelas semanas de repouso e alimentação especial, um único propósito a mantivera firme e por ele readquirira a saúde e a vontade de viver.
Com passos decididos, ultrapassou o portão, abandonou as pirâmides e tomou a esteira em direção à plataforma do Setor Violeta.
Estava quase deserta àquela hora.
Cambaleou ligeiramente diante da esteira luminosa dos degraus que corriam sem parar.
Prendendo a respiração, começou a descer, distraindo-se com os diversos estágios que, como num filme muito rápido, passavam através das estruturas:
Edifícios de vidro ou metal, brilhando com reflexos que se tornaram rosados ao chegar aos Quatrocentos.
Pirâmides, cilindros, esferas, prismas facetados em seis, oito lados iguais, cujas estruturas se afundavam nas profundezas.
Continuou a descer e ultrapassou o verde dos Trezentos.
Seu coração falhou algumas batidas e sentiu as pernas trêmulas quando viu surgirem as luzes azuladas dos Duzentos.
Era o último estágio que já visitara. A maioria das pessoas de sua condição desconhecias os setores que se aproximavam do zero, geralmente povoados por figuras estranhas, comerciantes que perambulavam entre os vários andares, aventureiros e prostitutas.
Esses estágios passaram quase desapercebidos tal a sua agitação mental e o cansaço pela descida vertiginosa.
Foi com alívio que percebeu o brilho esbranquiçado da Plataforma Zero.
Lá havia bastante gente e as escadas que subiam e desciam estavam repletas. O ambiente era enfumaçado e Safir sentiu uma ligeira falta de ar, agravada pelo perfume excessivo que emanava daquela fauna desconhecida.
Figuras embuçadas como Logod, mulheres com penteados que pareciam chapéus coloridos assentados sobre faces pálidas, maquiadas com todos os tons do espectro. Homens altos e musculosos, completamente tatuados até o crânio liso de onde saiam enfeites de ferro e aço, outros metidos em casacos de couro ou pele, os olhos sem expressão.
Felizmente, ninguém parecia se preocupar com ela, apesar de sua aparência deslocada.
Um casal, unido por correntes tacheadas com pontas, tropeçou em direção à plataforma, as roupas cobertas com luzes coloridas de néon. As mesmas luzes faiscavam em cabelos, colares, pulseiras brincos e botas da maioria dos transeuntes, refletindo-se no chão metálico em milhares de pontos luminosos que atordoavam em contraste com a escuridão do resto do Setor.
Tinha a impressão que a maioria estava drogada ou louca.
Mas não importava.
Saltou na plataforma de desembarque, tomou a esteira rolante e procurou um dos hotéis desse lugar cuja principal função era a hospedagem e o trânsito.
Abaixo dele, começavam os negativos.
Safir nunca teve uma lembrança muito clara da descida através dos estágios inferiores. A febre que começara no Setor Zero e o extremo cansaço físico e mental transformaram a experiência numa pasta confusa de brilhos que explodiam entre as diferentes plataformas, numa sucessão de degraus que escoavam, interminavelmente, para baixo, cada vez mais para baixo, dentro daquele abismo de sombras.
Quando soava a sirene que anunciava o fim da Hora Peregrina e o apagar das luzes, era como um autômato, treinado através de anos de hábito, que procurava um estágio onde se abrigar, um hotel qualquer no nevoeiro luminoso para descansar os membros doloridos.
Mas continuava a descer.
O passado... O pai morto na pira incandescente... Logod... Tudo era uma lembrança só, uma ferida viva e aberta.
O leve sacolejar da escada entrando na plataforma despertou sua mente entorpecida.
Percebeu a escuridão que a envolvia, acalmando seus olhos febris.
Já havia ultrapassado os últimos estágios luminosos, mas o mecanismo dos rolantes ainda funcionava e, abaixo dela, corriam os degraus mergulhando na treva absoluta.
No desembarque, o negrume era cortado por tochas que clareavam as paredes descascadas.
Ela cambaleou em direção à luz e foi amparada por uma figura envolta num hábito.
Outras surgiram, num movimento ordenado e silencioso. Carregaram seu corpo ardendo de febre para a escuridão desconhecida.
Antes de perder completamente a consciência, ainda pôde avistar os degraus rolando no vazio abaixo dela.
Ele era belo.
O cabelo caia liso até os ombros, como já tinha sido moda nos Seiscentos.
Quem seria o verdadeiro dono desse corpo?
Safir pensava, confusamente, enquanto caminhavam pelos corredores que desembocavam em pontes sobre o abismo e se transformavam em túneis de metal esculpido.
Um jovem comum, que gostava de música e Dancetrips nos fins de semana. Talvez tenha deixado uma namorada em algum lugar...
Sentiu uma raiva intensa crescer dentro dela contra o ersatz que seguia, entre a penumbra, com passos elásticos de bailarino.
Quando chegaram a uma grande edificação sem janelas, ele parou.
O portal tinha um tímpano com figuras trabalhadas em bronze e era cercado por colunas também esculpidas onde corpos musculosos se entrelaçavam numa espécie de dança-luta obscena e feroz. Todos os detalhes anatômicos tinham sido registrados com uma nitidez furiosa de amor à forma humana.
O efeito era magnífico e terrível.
Safir parou, entre o susto e a emoção, mas o rapaz, delicada e firmemente, levou-a para o interior.
Outra visão inacreditável.
Ainda mais sinistra e estranha que a do portal de entrada:
Uma vitrine de vidro translúcido protegia uma coleção de corpos jovens e estáticos como bonecos de cera, os olhos abertos sem expressão, brancos como mármore, envoltos numa névoa fina de gelo.
Homens e mulheres nus, de altura e compleição variadas, expostos como manequins numa loja.
Sem ligar para sua reação, o ersatz abriu uma espécie de caixão acolchoado, pouco maior que o seu tamanho e fez um gesto indicando que deveria deitar-se nele.
Safir tentou fugir, mas ele foi mais rápido e a segurou pelo braço, fazendo com que girasse violentamente, caindo de encontro ao seu corpo forte.
“Logod!...” ela murmurou aterrorizada.
O ersatz sorriu:
“Não se preocupe... você vai para o Cristal... e ele deve ficar com o seu corpo. Foi escolha dele e sua descoberta. E’ justo.”
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