Maria Helena Bandeira

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Os Retratos



Prometera enviar uma foto.

Já se correspondiam há algum tempo na Internet, meio desconfiados no princípio, depois ousados, revelando uma intensidade da parte dela que o deixava excitado e ao mesmo tempo arredio. Fôra cativado pelo humor, a inteligência e esta paixão que revelara em algumas madrugadas insones.

Mas que invólucro conteria esta pessoa? Não havia como imaginar, por suas descrições sumárias: morena, olhos verdes ( adorava olhos verdes ) nem gorda, nem magra ( gordinha, com certeza ) baixinha ( Meu Deus, será anã? ). Isto presumindo que todas estas informações fossem verdadeiras.

Então, começou com as inevitáveis cobranças: fotos, telefone, endereço. Ela se esquivou das últimas, mas o retrato prometera para a próxima segunda-feira.

Nervoso, logo ao abrir o computador, procurou a mensagem, entre curioso e assustado – medo de uma decepção com a musa das madrugadas. Mas a realidade se mostrou melhor do que a ficção: a mulher que o olhava no retrato era bem jovem, longos cabelos castanhos e luminosos olhos verdes (excelente fotógrafo ). Além de um corpo escultural.

Não acreditava na sua sorte ou não acreditava no retrato. Seria ela mesmo? A duvida se insinuava no interesse. Preferiu aceitar. O dia inteiro imaginou tê-la nos braços em noites de paixão. Queria pegar um avião e ir direto a São Paulo só para se perder naqueles olhos de oceano. Uma incerteza o conteve.

A semana transcorreu ardente. Noites virtuais se transformaram em orgias a dois, cada um no seu planeta solitário, mãos nervosas agarrando mouses, dedos trêmulos maltratando teclados, até consumarem uma relação estranha, vício solitário em que o objeto do desejo consente e participa. Nos seus delírios, via-se percorrendo com os lábios o corpo perfeito dela, mordendo os seios entrevistos na blusa generosa, perdendo-se na floresta de pelos imaginados. Mas na outra segunda-feira, para sua surpresa, havia outra mensagem com o assunto Foto.

Abriu ansioso, esperando que contivesse alguma parte inesperada do corpo da amante, mas teve uma surpresa – era ela, sem dúvida nenhuma – os mesmos cabelos castanhos agora cortados na altura dos ombros, os mesmos olhos verdes intensos, só que não mais tão jovem.

Uma esplendorosa mulher de seus trinta anos, o olhar já machucado pela vida, a boca começando a exibir os vincos de expressão, rugas perceptíveis ao redor dos olhos apaixonados e sorria para ele com uma sofreguidão que a outra não tinha.

Amou-a mais ainda.

Não via a virgem ansiosa, a jovem inexperiente a quem imaginara ensinar os prazeres da carne, mas uma mulher mais velha, em plena exuberância da maturidade recém conquistada.

E a semana foi ainda mais ardente, as relações virtuais mais intensas, o teclado mais maltratado, os gemidos mais fortes. Sonhava com ela todos os dias, distraia-se no trabalho, os colegas percebiam e ironizavam sua condição de apaixonado – “ cuidado... este negócio de fotografia é roubada... vai ver a mulher é um jaburú de 220 quilos, mandando foto da amiga...” – mas ele sabia que não. Do fundo do coração apaixonado tinha certeza de que eram mesmo os olhos verdes dela que estavam lá, do outro lado da cadeia de bites, em São Paulo, recebendo seu carinho.

Viveu em estado de paixão até a próxima segunda-feira.

Foto – dizia outra vez o assunto da mensagem.

Meio desconfiado, abriu o arquivo e teve nova surpresa: era ela, agora uma mulher de uns quarenta anos, bela sem dúvida nenhuma, a pele queimada de sol, os dentes muito brancos num sorriso lascivo que não tinha aos trinta, pequena camada de gordura já esbatendo a linha angulosa do queixo. Dois vincos leves desciam ao lado do nariz perfeito. Também o corpo parecia mais cheio, o busto crescera, os quadris se acentuaram. O cabelo agora era curto, na altura do queixo e toda ela respirava uma eficiência e plenitude ao lado de uma sensualidade mais explícita nos maravilhosos olhos verdes de volúpia.

Ficou um longo tempo parado, contemplando a foto.

Que mulher era aquela que o atraíra com um retrato antigo, para ir , aos poucos, se revelando, na feminilidade amadurecida, em imagens reveladores de uma fome de viver sempre mais intensa, o sorriso largo, os olhos mais febris?

A paixão se acentuou.

Desejou, então, mulher madura como não desejara as outras. Cada vez mais enlouquecido, não conseguia dormir, preso ao delírio que o consumia, que consumia os dois, varando madrugadas nos embates amorosos, perdendo encontros, chegando atrasado ao trabalho para divertimento dos colegas e caras pouco amigáveis do chefe da seção. Como conseguia fazer seu serviço naqueles dias é coisa que só os deuses do amor podiam explicar. Era movido à paixão que lia relatórios e exercia, no corpo de outro, uma vida apenas maquinal.

A verdadeira vida experimentava em outras esferas, preso àqueles olhos de luxuria e àquele sorriso de pecado.

Resolveu que precisava ir a São Paulo.

Tinha que consumar em carne verdadeira o desejo que o devastava.

Comprou a passagem, arrumou a mala.

Mas uma estranha hesitação travava o impulso.

E se não gostasse da sua aparência? Tudo bem, mandara retratos, ela também o conhecia, mas a presença física é diferente. E se aquela coisa de pele, cheiro - a química - não combinasse?

Impossível – não podia, não queria acreditar.

Mas perdeu a hora e o avião.

Só ficou a passagem, aguardando a certeza de um momento exato que talvez nunca chegasse.

Segunda feira foi direto à mensagem dela - Foto. Inconscientemente, sempre soubera que estaria lá.

Cinqüenta anos, ainda esplendorosa, o mesmo sorriso aberto, a lascívia, mais contida pela experiência, o olhar febril que rugas meio fundas circundavam. Ao lado do nariz, um pouco menos fino talvez, sulcos maiores de mulher madura, A curva aguda do queixo, agora arredondada. Gordura se depositara em vários pontos do rosto e do corpo dela. Adquirira um ar amatronado, ancas mais do que generosas, cintura mais grossa. As pernas continuavam morenas e lindas, assim como os olhos verdes luminosos e o sorriso de volúpia.

Tudo isto ele avaliara em um minuto, mas seu amor não arrefeceu.

Havia uma feminilidade tão intensa naquela mulher mais velha que o desejo se tornou ainda mais forte. Amou aqueles quadris generosos, as pernas morenas, que haviam vivido mais do que ele, os olhos que continuavam acesos para o amor.

As noites virtuais continuaram quentes. Nada perguntavam. Apenas se amavam como convivas refinados que, já conhecendo todo o cardápio, saboreavam agora o detalhe.

E ele cada vez mais preso ao vício da madrugada, insone, apaixonado, desvairado, faltando algumas vezes ao trabalho, cambaleante, envelhecido, cansado.

Na semana seguinte a foto trouxe a sexagenária. Bela mulher, no início da velhice, os cabelos castanhos bem grisalhos, contrastando com a morenice do rosto. Emagrecera bastante. A curva da face voltara, imperceptivelmente à forma antiga e agora mais rugas e vincos apareciam ao redor dos olhos e do nariz, se espalhando pelo pescoço que não tinha mais o frescor de antes. As ancas estavam menos cheias, os seios pareciam flácidos. Só o olhar continuava luminoso, sugando a energia ambiente com uma vontade de viver que a tudo contagiava e os dentes, lindos, com o mesmo sorriso branco apaixonado.

Ficou horas perdidas contemplando a foto.

Que importavam as rugas, os vincos, a flacidez? Era ela na sua vitalidade animal, o olhar felino, o sorriso de luxuria. Amava uma mulher que, para ele, envelhecera uma vida em poucas semanas e este amor se tornara seu vício secreto, sua perversão.

Qualquer problema que afetasse o computador o deixava em desespero, telefonava para o técnico a todo momento, já não ia ao trabalho, arrumara uma licença. Na verdade adoecera um pouco, não conseguia dormir, comer, gastava os dias esperando a hora de se encontrar com ela e viver aquela paixão cada vez mais absorvente.

Na semana seguinte – setenta anos e grande mudança no aspecto geral - uma senhora simpática, de cabelos brancos, corpo desabando.

. Mas ele não via nada disto. Só os olhos, luminosos, varando as lentes dos óculos, que não conseguiam conter sua força incomparável. E o mesmo sorriso de pecado, o mesmo ar atrevido e insaciável, contrastando com a velha que a continha.

Nesta mensagem anunciava, em palavras breves, que na próxima segunda-feira viria ao Rio para conhecê-lo.

Sentiu um misto de alegria louca e terror profundo.

Toda aquela vida condensada que viveram juntos ia, finalmente, se expandir em realidade talvez amarga.

Tinha medo deste encontro. Medo e volúpia. Medo e tesão. Desejo e incerteza se misturavam. Sonhava com a jovem inocente, a mulher de trinta anos, a avó lasciva, todas elas num turbilhão em que reinavam, sobranceiros, os olhos verdes intensos e o sorriso de amante insaciável.

No dia marcado, ela chegou. Anunciou por e-mail que estava no Rio. Chegaria às oito horas na sua casa.

Nervoso, tentou se arrumar – comprara uma camisa e calças novas. Suas roupas estavam tão largas que já não serviam nele, emagrecera bastante. Fios de cabelo ficavam no pente aos novelos, tinha que pentear com cuidado, estava ficando careca.

E tinha só vinte e sete anos .

As mãos trêmulas seguravam com força as fotos que imprimira - presente de última hora.

Quando a campainha soou, levantou-se trôpego, nervoso, arquejante, quase não conseguiu alcançar a porta, o ar faltava, as pernas não obedeciam.

A campainha insistia, febril, como o sorriso dela nos retratos, lascivo, cruel talvez, os olhos agora parecendo ligeiramente malévolos na sua ânsia de vida.

Arrastou-se penosamente até à cômoda, a campainha torturando seus ouvidos, aguda como os olhos verdes dela, verdes como o oceano, as coisas se misturando em sua cabeça, a visão turva, apoiou-se no móvel, aspirou penosamente o ar, com esforço chegou até à porta... abriu.

E caiu pesadamente no chão. Morto.

As fotos resvalaram de sua mão e se espalharam pelo chão empoeirado.

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