OS OLHOS VERDES DO
CIÚME
Bárbara Helena
O mar
entra pelos olhos de Marina com uma intimidade de
parentesco.
Olhos
que trouxeram o verão para minha alma tempestuosa e que no tempo da
ira ficavam quase negros como oceanos de chuva.
Eu me
afoguei naqueles olhos muito antes do final dos tempos. Quando perdi
o paraíso em todos os sentidos possíveis.
Por
causa deles, joguei biriba com seus parentes durante vários sábados
perdidos e enfrentaria todos os finais de semana tediosos só para
estar de novo ao abrigo de suas ondas.
A
família de Marina era crente. Crente de que tinha a salvação no
bolso do colete e de que o mundo se dividia entre eleitos e
perdidos. Eu sempre fora um perdido convicto, mas me tornei um
eleito por causa dela. E vivia feliz na inconsciência de meu
estreito paraíso, definido pelas paredes do seu apartamento, onde
nos encontrávamos como namorados antiquados, sob o olhar vigilante
dos cães de guarda paternos.
Só
que, distante daquela cena, no segredo dos seus olhos marinhos,
Marina era uma labareda que tudo consumia no desejo implacável de
arder em combustão. E quando finalmente foi ao meu leito estreito de
solteiro, todas as previsões se confirmaram e o verdadeiro paraíso
se abriu para mim em promessas cumpridas. Ela era fogosa como seu
olhar incandescente e eu vivia prisioneiro daquele encanto selvagem
de tal maneira, que era capaz de passar a eternidade inteira jogando
biriba a seco, só para ter, um segundo, em meus braços, a dona
daqueles olhos de mar agreste.
Mas (a
felicidade tem sempre um “mas” espreitando perverso) apareceu
Estevão, a serpente que iria me expulsar do paraíso.
Estevão era modesto e religioso. Capaz de recitar a Bíblia em
todos os seus versículos com uma perfeição que mataria o próprio
Satanás de tédio. O demônio não prevaleceria sobre ele porque a
monotonia lhe tiraria as forças antes de começar a empreitada. Ele
era tão chato que nem o próprio tentador se habilitaria a levá-lo
para suas hostes. O Inferno não seria o mesmo depois da sua
chegada.
Nem o
meu Paraíso.
Encantados ao vislumbrar partido tão promissor (Estevão
cortejava Marina com um descaramento proporcional à hipocrisia com
que me cumprimentava com a mão suada e mole, os olhos míopes
encarando os meus por trás das lentes grossas com uma piedade vaga e
premonitória) os pais de Marina encorajavam o sedutor, enquanto
fingiam me agradar com palavras mansas.
Enquanto crescia o entusiasmo dos parentes pelo outro, Marina
ia se tornando estranha, esquiva, fugidia. Já não me encarava com
aqueles olhos de esmeralda líquida. E o mar se fechava, tempestuoso,
diante de meus tímidos argumentos de rejeitado. Ela se enfurecia, a
voz meiga percorria a escala em vários tons para reclamar do meu
ciúme absurdo. Logo de quem? Do pobre Estevão, um rapaz
corretíssimo, religioso, um amigo desinteressado, cuja única
intenção era colocar nós todos juntos o mais rápido possível no
caminho do seu Paraíso sem-graça em que ficaríamos eternamente a
jogar um biriba interminável. Ela se aborrecia com minhas ironias e
ia embora zangada comigo.
Contra
os fatos, não há argumentos.
É
verdade que não existia nada que eu pudesse dizer concretamente do
comportamento de Estevão. A mão que segurava a dela, não demorava um
segundo a mais do que o estritamente exigido pelo meu olhar
vigilante. Nunca uma palavra de duplo sentido, apenas aqueles olhos
de cobra, vigiando, esperando a hora, deixando-se escorregar sobre o
corpo esguio e sobre os olhos verdes de Marina.
E a
minha vida virou um inferno.
Seguia
Marina pelos cantos da casa e da vida. Ligava milhares de vezes para
seu celular, esperando ouvir a voz masculina sussurrando do outro
lado, enquanto angustiado, o ouvido colado ao fone, investigava os
sons que circundavam a voz amada.
Não
conseguia mais trabalhar ou estudar. Não conseguia mais
dormir.
E ela
cada vez mais fria, mais distante. Os olhos quase sempre gelados. E
a eles eu também espreitava, aguardando sinais que não desejava ver.
Ou, quem sabe, esperando descobrir neles uma resposta positiva ao
meu ciúme para acabar com o tormento que me consumia. Queria saber
Marina devassa e mentirosa, adúltera como a imaginava, nos braços
falsos de Estevão, gemendo em lúbricos desmaios, me excluindo.
Expulso do Paraíso, mas justificado. Explicado. Digno. Não um
miserável espião de seus menores suspiros.
Finalmente, Marina me deu razão. Com olhar cinzento de adeus,
se despediu do meu ciúme e das minhas desconfianças, com o desprezo
de quem já tem garantia de felicidade comprada em lote
alheio.
Eu me
humilhei é claro, rastejei, pedi perdão de joelhos, me cortei,
rezei, fiz promessas e vergonhas inacreditáveis, joguei cinzas nos
cabelos, comecei uma greve de fome, mas não adiantou.
Marina
se casa hoje com Estevão.
Neste
momento decisivo do meu destino, não sei se dou um tiro na cabeça ou
faço um curso intensivo de biriba emocional para aprender a dar
melhor as cartas, interpretar o jogo com sabedoria e,
principalmente, para aprender o jeito certo de bater descartando o
morto. E ainda deixando que ele pense que está vivo.
Como
se fosse possível, longe daqueles olhos de oceano.