O Espreitador do Universo
Maria Helena Bandeira
Ficção Científica
[Nota do Autor - Tudo que sabemos é que não sabemos nada. Estamos,
talvez, sozinhos no espaço a espera de uma palavra que nos console.
Meu conto é sobre essa possibilidade.]
O Espreitador do Universo
O verbo captou exatamente 7.843 vocábulos nos trinta minutos em que o AKG 4379-2 esteve no comando da operação. Passou as palavras ao Cérebro e ele as dividiu nos dois grandes grupos iniciais : Novas e Conhecidas.
A seguir, o Computador separou as Conhecidas entre as várias categorias possíveis, de acordo com o programa pré-estabelecido. As Novas foram enviadas ao Departamento de Pesquisa, onde os decifradores iam estudá-las através do sistema de ensaio e erro.
As luzes do Laboratório se apagaram e o Cérebro piscou três vezes até se desligar completamente.
O AKG acendeu suas próprias luzes, logo acima das células fotoelétricas colocadas horizontalmente na parte superior de seu corpo metálico. Quando saiu do seu departamento, vários outros trabalhadores também deixavam suas unidades, respondendo ao horário de desligamento, que fora instituído para poupar energia.
As reservas hídricas e minerais do planeta não eram inesgotáveis. Novas pesquisas precisavam ser feitas nesse campo. A concentração dos trabalhos em torno do Verbo, durante milhares de anos, demonstrara ser um erro de cálculo. Mas, ainda havia tempo para consertar a situação.
Lá fora estava escuro e úmido, detectaram seus sensores.
Dirigiu-se para o Galpão do Setor Noturno. Os outros formaram fila atrás dele e seguiram todos, cada um para o seu núcleo de desativação. O AKG entrou na cápsula reforçada, puxou a tampa, ativou a fechadura e desligou os sensores.
O silêncio caiu sobre a unidade 5 do Sistema Integrado de Pesquisa Sonora Espacial.
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O JMN 3743-25 recebeu as 2000 palavras novas que o Verbo captou, naquela jornada, do segmento temporal correspondente, em relação a eles, ao ano de 1999. Há muitos séculos atrás, numa época que se perdia no espaço, esse fragmento de tempo fora escolhido pela Pesquisa para o recolhimento e a decodificação de seus sons. O JMN não sabia explicar o porque dessa escolha, assim como nenhum dos trabalhadores e também não se importava.
Tinha uma tarefa específica. E procurava executá-la da melhor maneira possível.
Estudou as Novas que haviam chegado. Algumas de três, quatro letras, seu cérebro treinado colocava na categoria de possíveis marcas comerciais. Ia cruzá-las com outras que designavam produtos de consumo. Na maioria das vezes acertava. Outras palavras eram, possivelmente, nomes próprios: vocábulos usados para seres vivos específicos ( não genéricos ) e a decodificação ficava um pouco mais complicada. Alguns sobravam e iam se alinhar no arquivo das Inexplicadas, até surgir um fato novo que permitisse sua decifração.
O JMN debruçou-se sobre os ideogramas que identificavam os sons e, a medida que os reconhecia, devolvia ao Verbo, nas suas respectivas categorias.
Todo um sistema de vida já se delineava através do Programa.
O TXL 3489-3 conferiu o ser sobre a prancha metálica. De acordo com as informações do Cérebro, fabricaram a figura com duas extremidades longas na parte superior que se bifurcavam em cinco tentáculos relativamente independentes, capazes de se flexionar, apertar e executar diversas tarefas sofisticadas. Assemelhavam-se às suas manoplas, mas com uma estrutura mais delicada. Segundo o Verbo, eram designados por Braços e Mãos.
Tinha também duas outras extremidades alongadas na parte inferior que terminavam em tentáculos menores e mais rudimentares que serviam para a locomoção e eram chamados Pernas e Pés e uma protuberância na anterior denominada Pênis, cercada por dois recipientes ovalados, os Testículos. Essas protuberâncias formavam um conjunto com finalidade de reprodução: os indivíduos do fragmento temporal 1999 multiplicavam-se pela combinação de células vivas, localizadas nos aparelhos reprodutores dos seres femininos e masculinos. Como não fôra possível fabricar essas células, a confecção do feminino foi julgada desnecessária.
A criatura estava quase pronta no seu aspecto exterior. Mas lhe faltava o principal: sobre a parte superior do corpo e separada dele por um cilindro fino, ficava a Cabeça e nela ia ser colocado o delicado sistema que era a coroação do trabalho de tantos anos. Por trás da camêra escura dos olhos, na cavidade designada Crânio: o microcomputador com as milhares de informações captadas nos vocábulos, em silenciosas e infatigáveis pesquisas do Verbo na sonoridade do espaço, já devidamente relacionadas em suas estruturas de frases e idéias.
O TXL observou a parte Rosto do indivíduo, com seus dois pedaços de cristal meio opaco, a pequena protuberância furada em dois orifícios quase circulares e a abertura cercada de uma parte carnuda grossa que podia se contrair e esticar.
Verificou os pequenos retângulos de marfim inseridos na arcada óssea superior e inferior, dentro da abertura. Serviam para triturar os alimentos. Esses seres precisavam da transformação química de determinadas substâncias sólidas e líquidas ingeridas diariamente para manter seu organismo em atividade.
Todo esse complicado sistema funcionava pela inalação de determinados gases, através dos orifícios superiores que, por uma série de transformações químicas, movimentavam uma espécie de bomba muscular e faziam circular, dentro de uma ramificação de tubos, um líquido de cor vermelho forte, que distribuía os nutrientes por todo o sistema, mantendo o organismo em funcionamento. O desequilíbrio de qualquer dessas partes levava à pane ou ao colapso total daquela unidade.
O TXL 3489-3 que funcionava apenas com algumas gotas de óleo por semana e era, praticamente, indestrutível, considerava o indivíduo com perplexidade.
Uma nova palavra que aprendera com os humanos de 1999.
O AKG 4379-2 reuniu todos os dados e considerou o Programa viável. Pronto ele nunca ficaria. Não nos próximos milhares de anos à sua frente. Mas, com as palavras disponíveis já era possível reconstruir todo o sistema lógico de pensamento verbal daqueles seres do fragmento de tempo designado. E com ele programar o cérebro do indivíduo construído de acordo com o padrão masculino daquele período.
A parte mais importante da tarefa estava próxima de ser concluída.
Os TXL do Departamento de Fabricação Robótica tinham pronta a complexa estrutura psicotrônica da criatura. Com os dados do Cérebro, coletados pelo Verbo, dentro de mais 15 jornadas de trabalho seria possível considerá-la pronta.
De acordo com os costumes daquela época remota, designaram uma palavra para denominá-lo: Homem.
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O Homem abriu os olhos e encarou seus criadores. Os delicados sensores observaram o ambiente e ele falou com voz lenta e grossa:
"Vocês são robôs."
Se o AKG 4379-2 fosse capaz de experimentar emoções, sentiria orgulho do trabalho que supervisionara. O seu aparelho fonador, desenvolvido através de todos aqueles anos de captação e pesquisa de sons, era sofisticado, podendo atingir uma gama bem ampla. Mas o da criatura, construído de acordo com as informações colhidas de 1999 parecia tão primitivo e frágil... e ali estava ele emitindo uma frase lógica, com sua voz suavemente grave.
Respondeu, também de forma pausada, para que os circuitos recém despertos captassem com facilidade:
"Sim, de uma certa forma, nós somos o que, em 1999 seria designado pelo vocábulo robô."
O homem parecia ligeiramente atordoado, como se o seu funcionamento ainda não estivesse totalmente ativado. Observava o ambiente e procurava palavras para designá-lo:
"Laboratório... mesa... computadores...luz..."
Franziu os pelos acima dos olhos:
"Isto?..."
"É um criptógrafo. O aparelho que nos ajuda a decodificar os sons."
A criatura não fora programada com nenhuma informação da época atual. Uma opção deliberada para mantê-la estritamente no padrão do seu fragmento temporal, conforme a Tarefa. Permitia, também, medir sua capacidade de aprendizagem e sua memória recente.
Ele continuava percorrendo o ambiente, agora distinguindo cores:
"Branco... prata... aço... vidro..."
Confundia materiais mais avançados pela aparência superficial, mas, seu percentual de acerto era bastante grande.
Dirigiu-se para o portal que separava o Departamento de Fabricação Robótica do mundo exterior. Quando seus sensores distinguiram o que o compunha, ele parou:
"Estou com medo."
O TXL explicou que a criatura fôra dotada de um sistema nervoso rudimentar que lhe permitia sentir as emoções humanas de seu tempo, principalmente porque associadas a vocábulos específicos correspondentes.
O AKG segurou a extremidade superior do homem e o impeliu a cruzar o portal.
"Não... Tenho medo."
A criatura repetiu, hesitante.
" floresta... escuro... animais grandes... muito medo..."
AKG considerou com seus sensores as enormes formações vegetais ao seu
redor e os gigantescos répteis que se alimentavam tranqüilamente, com suas monstruosas cabeças uns cinco a seis metros acima deles.
"Preste atenção, criatura Homem, você foi construído a partir de um projeto aproximado dos seres masculinos de 1999. Mas há uma diferença fundamental: não é um ser vivo. É um robô, como todos nós e, portanto, indestrutível. Qualquer dano em sua matéria pode ser reparado pelos TXL deste Departamento. Os homens têm medo porque podem ser destruídos, desaparecer completamente, morrer..." repetiu pausadamente "você não pode morrer. Não há razão para a categoria medo."
A criatura deu dois passos em direção ao ambiente externo, ainda hesitante.
"Floresta... árvores muito grandes... escuro... dinossauro... tiranossauro... continuo com medo..."
O AKG virou-se para o TXL 3489-3:
"Há alguma coisa errada na memória recente dele. Não está conseguindo gravar explicações objetivas."
"Não é nada com seu cérebro. Os protótipos homens não obedecem apenas às leis da lógica. São extremamente influenciados pelo sistema nervoso."
"Eliminaremos, então, os vocábulos referentes às sensações..."
"Não é tão simples assim. Além disso, o Projeto é claro: construir a criatura no padrão mais aproximado possível do real. Todos os problemas serão resolvidos a medida que aparecerem. "
"O que devo fazer, então? Não posso forçá-lo a sair porque poderia danificá-lo. Sua estrutura é bem menos resistente que a nossa."
"Temos alguns estudos sobres respostas, baseadas nas captações do Verbo. As reações de medo, eventualmente, podem ser controladas com a utilização de estímulos opostos ou contraditórios: raiva, amor..."
O AKG ligou-se ao Verbo e recebeu frases padrão. Dirigiu-se à Criatura:
"Seu covarde. Trate de sair logo daqui seu idiota. Não suporto mais olhar pra essa sua cara de palerma."
Embora ditas sem a menor inflexão emocional, as palavras ativaram as reações do Homem de alguma forma. Assustado, dividido entre a inesperada violência verbal do robô e a natureza hostil lá fora, deu dois passos para a frente e parou de novo. Seus olhos arregalados dirigiam-se, da imensa cauda do réptil que, num movimento circular levantara milhares de folhas em redemoinho, ao seu prateado interlocutor que se mantinha inflexível diante da porta, impedindo a fuga para a segurança do Laboratório.
Por sorte, o Dinossauro acabou de se alimentar com as frutas das árvores e foi se afastando do local com passadas barulhentas e pesadas que faziam tremer o solo e vibrar seus delicados sensores auditivos. Atrás dele seguiu o Tiranossauro que ainda arreganhou os enormes dentes para ele numa espécie de sorriso.
A Criatura, então, desatou a correr pelo caminho que ia dar nos outros Departamentos, com o AKG e o TXL atrás. Embarafustou pelo Galpão do Setor de Desativação e estacou, surpreso.
O lugar abrigava uma quantidade de sarcófagos prateados, colocados em pé, num círculo, como cadeiras num anfiteatro, com a abertura frontal voltada para a porta de entrada.
"Múmias?..."
Os dois robôs se aproximaram dele:
"Não são múmias, são cápsulas do Núcleo de Desativação."
O AKG ligou a fechadura e abriu a tampa. O Homem olhou para o PBQ colocado como um boneco dentro da caixa de metal.
"É um robô?"
"Sim, está desligado. Poupando energia. Você, também, será desativado, inicialmente, em períodos pré-determinados embora seu corpo possa funcionar só com oxigênio e nutrientes."
O Homem se assustou e tentou reiniciar a fuga. O TXL barrou seu caminho.
"Calma, somos amigos. Amigo, categoria que implica em confiança."
Ele continuou desconfiado:
"Amigos?..."
O AKG explicou:
"O que eu disse há pouco foi apenas para fazê-lo perder o medo. Nada pode lhe fazer mal. Agora preste atenção e coloque isso na sua memória recente: você foi construído por nós."
A Criatura recusou-se a acreditar:
"Os homens nascem, não são construídos. Nascem da união de indivíduos de sexos diferentes."
O AKG olhou para o TXL
"Eu acho que ele deveria ter recebido informações mais recentes. Ao menos, sobre sua condição."
"Ele é perfeitamente capaz de aprendizagem. Só que há uma complicação com os humanos: para se decidirem a fazer alguma coisa tem que desejar."
"Desejar?"
"É, ter sua vontade motivada por uma razão ou outra."
O AKG e o TXL ficaram parados um minuto, renovando seus circuitos psicotrônicos.
A segunda parte da Tarefa era bem mais difícil do que imaginavam.
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A Criatura finalmente fôra desativada e descansava na cápsula como um manequim de olhos vítreos.
O TXL 3489-3 consultava o Cérebro, enquanto o AKG 4379-2 pesquisava no Verbo as palavras referentes à emoção Medo.
"Temos um pequeno problema... o ambiente do planeta em nosso fragmento temporal é bastante hostil para os padrões de 1999. Florestas selvagens, árvores de tamanho superior à 4 ou 5 vezes à altura média dos humanos... enormes répteis e anfíbios... tudo que é de grande dimensões em relação a eles provoca respostas do tipo receio e até pânico. Também estímulos desconhecidos são percebidos como perigosos."
"Não consideramos essa possibilidade. Embora fabricado como um robô, ele raciocina e sente através de códigos humanos, com sentimentos e reações imprevisíveis."
"Nosso trabalho atual será treiná-lo para se adaptar a este determinado período de tempo e espaço"
O AKG ficou de pé
"O Cérebro confirma: a Criatura é perfeitamente capaz de aprendizagem. Além disso, seus circuitos psicotrônicos são do mais alto padrão. Nenhuma série AKG, TXL, JMN ou PBQ pode superá-lo na capacidade de estabelecer relações lógicas com variáveis arbitrárias."
"O primeiro passo será ensiná-lo a controlar as emoções. E quando estiver pronto... então, está parte do projeto fechará seu ciclo."
O TXL colocou o homem na prancha metálica e religou seus circuitos vitais. Ele estava mais calmo e seus sensores-olhos observavam os dois robôs com curiosidade. Os três dirigiram-se juntos para a porta, sem que a Criatura opusesse a menor reação.
No ambiente exterior o Homem considerou a névoa que encobria parcialmente as gigantescas árvores e os cipós entrelaçados. Não sentia medo. O caminho continuava por entre os troncos retorcidos e o ar era espesso e úmido. Chegaram à região mais baixa, um pântano, onde a bruma estava ainda mais cerrada.
Seus sensores avistaram uma cabeça cortando o líquido pegajoso. Como uma imensa serpente de corpo liso e viscoso, o pescoço do animal elevou-se diante deles e, finalmente, o corpo monstruoso apareceu, ainda coberto de algas e liquens das profundezas.
O Homem parou diante daquela visão e começou a tremer violentamente. Foi então que o AKG iniciou seu treinamento: apanhando um instrumento cortante e ignorando o anfíbio a sua frente, deu um golpe seco sobre a extremidade braço da Criatura, separando-o de seus tentáculos da mão.
O Homem, horrorizado, viu o sangue escorrer, sem forças para reagir.
Calmamente, o AKG apanhou a parte mutilada e colocou-a outra vez no lugar. Com um aparelho portátil colou-a rapidamente e em cinco minutos não havia mais traço do ferimento. Se não fosse pelo sangue que tingia as folhas ao seu redor, tudo poderia ter sido apenas uma alucinação.
"Você não pode ser destruído. Compreendeu agora?"
O Homem olhou para o braço reconstituído e sorriu fracamente. Seus olhos voltaram-se para a monstruosa figura no pântano. Já não lhe provocava emoção alguma. Sentia-se calmo e superior. Continuaram a caminhar por dentro da selva escura. Algumas vezes um certo receio ameaçava tomá-lo, mas a lembrança da mão mutilada e da milagrosa restauração o acalmava.
O TXL e o AKG se ligaram ao Cérebro comunicando o sucesso da segunda etapa da Tarefa Homem.
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Ele se alimentava de vegetais e frutas, bebia água do grande rio próximo ao Departamento de Pesquisa Vocabular. Respirava e eliminava excrementos como qualquer animal do planeta. Mas, não era igual a eles.
Seu cérebro, de inteligência superior à media humana apreendera todas as nuances da situação. E não se conformava com essa ambivalência fundamental: pensar exatamente como um homem e não ser homem, comportar-se como um ser vivo e não ter vida.
Perguntara diversas vezes ao AKG 4379-2 e a outros robôs a razão porque fôra criado. Qual a finalidade de sua fabricação naquele fragmento temporal.
Nenhum deles soubera responder.
Em alguma época perdida no esquecimento, haviam sido programados para executar o que chamavam A Tarefa: captar incessantemente os sons de 1999 através do Verbo e construir, com esses dados, um andróide em tudo semelhante aos humanos daquele período.
A primeira parte estava completa: era ele, a Criatura-Homem. Assim que se adaptasse completamente ao planeta, todos os TXL e PBQ seriam desativados.
E quando o Cérebro considerasse terminada a captação, os outros robôs também se desligariam e iriam descansar para sempre dentro dos sarcófagos prateados no Galpão do Núcleo Noturno.
E o abandonariam completamente só.
Criatura híbrida, nem metal, nem carne verdadeira, único neste planeta e neste fragmento perdido no tempo.
Os TXL,AKG,PBQ e JMN só tinham certezas. Seus circuitos psicotrônicos não questionavam nada. Não os interessava a finalidade, mas a perfeita execução do projeto. Por mais sofisticados que parecessem, eram apenas máquinas realizando um programa quase interminável e sem razão.
Mas, em algum momento do passado estava a resposta. Uma inteligência criadora ordenara a Tarefa, especificara o ano, desejara sua fabricação.
Por que?
Olhava as nesgas do céu escuro, por entre as copas densas das árvores e interrogava as estrelas. Há milhares de anos atrás muitas delas já existiam. E no fragmento de l999 elas brilhavam, como agora, diante de outros seres semelhantes a ele.
Mas aqueles tinham vida.
À procura dela, a Criatura abandonou o Laboratório do Departamento de Fabricação Robótica e se dirigiu ao pântano. Seu pálido consolo era o contato com os grandes répteis e anfíbios que povoavam o planeta. Eles também não sabiam porque foram criados, mas viviam e se alimentavam e morriam e seus restos iam se transformar em pó que fecundaria as árvores e seria vida outra vez.
Pensando nessas coisas, cortava a névoa espessa e úmida, quando, no meio da bruma, surgiu uma cabeça gigantesca. O monstro abaixou seu longo e flexível pescoço e o Homem acariciou a pele lisa e fria:
"Bom dia, Gork, hoje não posso demorar. Meus circuitos estão quase estourando..."
Num sinal de compreensão, o animal encarou-o com os enormes olhos úmidos e voltou para o lodo