O Especialista
Maria Helena Cordeiro de Souza Bandeira
Nota da Autora: Esse foi meu primerio e único conto policial ( antes do CACAUS, claro ). É bastante diferente do anterior que coloquei na lista: O Ôvo porque gosto de experimentar. E também de ver as reações. É uma história sobre o poder e nossa relação com ele.
1o Ato
O escritor elaborou o anúncio pela décima vez e digitou-o no terminal.
O símbolo inconfundível da UNIC apareceu na tela:
"BOSTON - 2015 - Elizabeth Tellmark pela CLOUD para pasta dental EXCLUSIVE - março a julho - Amerikan Net Esterovision"
Soltou o milésimo palavrão. Tinha vontade de esmurrar o computador.
Com um movimento brusco, retirou o pequeno cachimbo eletrônico preso a um dos lados do terminal e aspirou a fumaça antipoluente e anticancerígena.
Uma cortesia do Departamento de Pesquisa em Biofeedback da UNIC.
O calor e um ligeiro relaxante acrescentado ao fumo diminuíram sua irritação em alguns pontos percentuais. A pequena luz vermelha do cachimbo foi se tornando alaranjada até se estabilizar no amarelo.
Continuou, então, a quebrar a cabeça com as combinações possíveis.
Na vigésima-quinta tentativa, finalmente, o maldito símbolo não apareceu.
E a máquina emitiu as alegres notas da Aleluia de Haendel, que ele acompanhou em falsete.
Pequena contribuição humorística acrescentada, por sua conta, ao programa.
Agora, só faltava testar os estereovídeos prontos e a trilha sonora. Às vezes, depois do produto acabado, era preciso recomeçar por causa de um pequeno detalhe.
A UNIC ( Universal Idea Company ) tornara-se o terror de todos os criadores. Uma simples firma de patentes que o gênio de seu dono transformara no poderoso complexo mundial de hoje que englobava todas as firmas sobre absolutamente tudo que era produzido no planeta. De frases a imagens e músicas, de máquinas a sabonetes.
Com a rendosa indústria dos processos por plágio, a preocupação dos criadores tornou-se paranóica, principalmente na área de publicidade. Quase todos trabalhavam com terminais da UNIC.
Os outros simplesmente não existiam para o mundo do consumo.
"Rio de Janeiro - 2021 - Marcos Cordeiro pela DPZ para sutiãs Desire - três semanas em maio - Revistas na Web e jornais."
O escritor jogou a cadeira longe. O cachimbo não estava sendo suficiente.
Foi até o banheiro , pressionou a tecla que adicionava modificadores comportamentais à água da torneira e tomou um copo-medida.
No espelho em frente seu rosto estava tenso e os cabelos cada vez mais grisalhos indicando o início da Síndrome de Retroatividade Verbal que acometia os profissionais da sua área.
Os cabelos ficavam precocemente embranquecidos e o vocabulário, eternamente policiado, ia se reduzindo a slogans para cada operação do cotidiano, até que a comunicação em sociedade se tornava impossível.
Eram, então, internados no SEPROC ( Sanatório Especial dos Profissionais de Criação ) onde permaneciam, em estado catatônico, os olhos brilhantes, emitindo sílabas incompreensíveis.
Uma parte das diárias de hospitalização saia de seus polpudos salários. A outra era, generosamente, doada pela UNIC.
Quando o modificador começou a fazer efeito, o Escritor voltou a se sentar diante do terminal.
Finalmente, os anúncios ficaram prontos. Tinham, todos os dois, exatamente 15 segundos. Mas levaram 8 dias e seis horas para serem aceitos pelo computador.
2o Ato
Chovia fino quando o porteiro introduziu os primeiros membros do Clube dos Tomadores de Café no saguão iluminado.
Uma entidade que tinha como única finalidade aparente reunir, em torno da negra infusão, uma série de apreciadores para discutir sobre inutilidades.
Todas as quartas-feiras, pontualmente, às nove horas da noite, no imponente edifício-sede da Empresa ATZ de Publicidade.
Quando o número de participantes se completou, o Escritor, que presidia as sessões, mandou que as portas de aço fossem fechadas.
Ninguém mais poderia entrar ou sair da reunião.
Nesse momento, uma radical transformação se processou entre os pacato Tomadores de Café:
Três deles, munidos de rastreadores eletrônicos, rapidamente vasculharam o recinto à procura de câmeras e microfones.
Um telão de estereovídeo apareceu atrás da mesa do conferencista e, por uma porta até então invisível, o Desconhecido entrou e se sentou ao lado do presidente.
O Escritor foi direto ao assunto:
"Este é aquele que nós chamamos o Especialista..."
Todos os olhos se voltaram para o estranho. Um homem alto e moreno, de pele clara e rosto sensível.
Não parecia um matador.
"Na verdade é o andróide Número Um da série Alpha. Um clone. Uma reprodução absolutamente fiel, física e mentalmente, de seu original humano, o Dr. Jason Lannor, cientista brilhante e meu amigo. Ele trabalhou nesse projeto durante quinze anos, num laboratório secreto nas montanhas, com uma equipe cujos membros, por motivo de segurança, nem eu mesmo conheço integralmente. O Dr. Lannor morreu há dois meses atrás..."
O Escritor fez uma pausa. Os outros permaneceram em silêncio.
"Desde então, o especialista tem se mantido oculto, com a minha ajuda, até esse momento. Quando chegou a hora dele realizar sua primeira tarefa para nós: eliminar o nefando Sing Lo, presidente da UNIC..."
O silêncio se tornou mais espesso.
"O Especialista é praticamente um homem comum. Suas necessidades são as mesmas de um indivíduo normal de seu tamanho e idade aparente. Pode sentir dor, fome e frio e não é dotado de super força ou velocidade, nem tem qualquer tipo de poder desconhecido. Mas foi projetado com uma qualidade essencial para o sucesso dessa operação: um cérebro privilegiado e a ausência total de qualquer emoção humana..."
Pela primeira vez, um ligeiro tremor percorreu a assistência.
"Nem ódio, nem medo, atrapalhando sua caminhada. Nem ambição, nem amor impedindo-o de ver claramente seus limites..."
O desconhecido permanecia impassível, ouvindo com atenção concentrada e registrando todos os detalhes ao seu redor.
"Agora, ele vai nos mostrar num programa simulação, exatamente como a coisa deve acontecer..."
Com seu jeito distante e tranqüilo, o Especialista inseriu o programa. Imagens perfeitas dele e do presidente da UNIC apareceram no telão no ambiente escolhido.
Os espectadores prenderam, visivelmente, a respiração quando o espírito do Sing Lo virtual foi ao encontro de seus antepassados, através da mão certeira do Especialista.
Então a tela escureceu novamente e todos respiraram aliviados.
O Escritor decretou com voz fria:
"Será amanhã, às 17 horas. Os que estiverem de acordo levantem a mão direita."
Uma a uma, as mãos se levantaram lentamente.
A tela e o Especialista desapareceram pela porta secreta e os Tomadores de Café voltaram a conversar sobre amenidades.
3o Ato
O Honorável Sing Lo ultrapassou os portões da Universal Idea Company cercado por sete seguranças orientais.
Quando se aproximou do jatinho executivo preto que o levaria à sua residência, exatamente às dezessete horas, uma rajada de metralhadora laser, de fabricação iraquiana, separou seu corpo em duas metades.
Sua honorável cabeça rolou até o meio-fio e ficou oscilando até cair na sarjeta em meio à uma poça de sangue.
Essa imagem, projetada um milhão de vezes, percorreu o mundo em todas as estereovisões do planeta, apenas alguns segundos após o estrondo final.
Elas mostravam, também, um homem sendo preso rapidamente pelos seguranças, colocado no aerocar da Polícia Volante que desaparecia no céu contra o sol poente.
Um visual plástico e forte, pelo qual o editor da Transeuropean recebeu elogios do diretor e o cinegrafista foi cumprimentado com tapinhas insinceros pelos colegas.
Enquanto o mundo assistia, estarrecido, ao desenrolar das notícias e às imagens do Departamento de Pesquisa sobre a vida e a obra do Honorável Sing Lo, o Especialista era levado para a Prisão de Segurança Máxima nas montanhas de Thor e entregue ao Serviço de Informações.
4o Ato
Situada nos contrafortes das montanhas geladas de Thor, a Prisão de Segurança Máxima é uma edificação escura e pesada, que se confunde com as rochas ao seu redor.
A muitos quilômetros de qualquer cidade e cercada por poderosos rastreadores espaciais é praticamente inacessível tanto por terra como pelo ar.
Só aerocars e aeróbus policiais descem no seu aeroporto e as visitas são proibidas.
Sua divisa poderia ser:
"Deixai toda a esperança ó vós que entrais."
Para os que lá chegam como prisioneiros, a Prisão de Segurança Máxima de Thor é o próprio Inferno.
Muitos metros abaixo do solo, nos Laboratórios de Interrogação Científica, os guardas colocaram o Especialista numa cadeira de aço e prenderam suas pernas e um dos braços por garras de metal. O braço livre repousava sobre um anteparo brilhante que terminava numa prancha onde lhe indicaram que deixasse a mão. Ela foi, então, coberta por um artefato de metal, a uma distância de aproximadamente 10 centímetros, que emitia uma luminosidade violeta.
Apesar de manietado, a posição não era totalmente inconfortável e o Especialista passou a observar com calma as paredes claras, as máquinas e os cientistas ao seu redor.
"Qual é o nome dele?"
"Não conseguimos identificação até o momento. O computador rejeitou as impressões digitais como desconhecidas. A aparência externa é do Doutor Jason Lannor, físico do Projeto Experimental de Manipulação Genética."
O outro levantou as sobrancelhas, surpreso:
"Identidade falsa. O Dr. Lannor morreu há dois meses. Deve ter sofrido uma plástica de alta sofisticação. Até as impressões foram alteradas... de qualquer maneira, fizemos coleta do material celular, vamos aguardar o exame de DNA e a resposta do Laboratório de Análises. Ele se recusa a colaborar, claro."
O cientista, um homem de meia-idade com a aparência de um simpático avô meio cansado, dirigiu-se diretamente ao prisioneiro:
"Preste atenção... Responda apenas o que eu perguntar. Como é o seu nome?"
"Eles me chamam o Especialista."
"É só o que a gente consegue arrancar dele..."
"Muito bem. deixa ele comigo..."
Dirigiu-se outra vez, pacientemente, ao prisioneiro:
"Você conhece este aparelho?"
O Especialista observou atentamente a máquina:
"Parece um Detetor de Mentiras."
"Ele pode ser considerado um Detetor de Mentiras. Só que é muito mais sofisticado do que esses que existem por aí... É impossível enganá-lo. Veja bem, filho, você pode mentir para mim, mas este aparelho percebe qualquer vibração de seus dedos, por menor que seja, qualquer modificação na umidade da pele, a mais infinitesimal partícula de suor, a mais imperceptível diferença de temperatura. Então, é possível controlar todas as suas reações... saber o que se passa na sua mente... no seu sistema nervoso..."
O criador se entusiasmava com a criatura.
Mas o Especialista continuava absolutamente calmo, ouvindo, como sempre, com toda a sua atenção concentrada.
Aquela ausência de reação desapontou um pouco o cientista. Mas era questão de tempo.
"Quando aquela luz verde se acender, a máquina estará ligada. Certo?"
"Certo."
"Muito bem, Vamos começar...Qual é o seu nome verdadeiro?"
"Eles me chamam o Especialista."
Nenhuma reação - afirmava o computador. A tela permanecia parada. O aparelho zumbia suavemente.
"Eu perguntei seu nome verdadeiro. Aquele do registro civil. Diga, filho, qual é o seu nome?"
"Eles me chamam o Especialista."
Nenhuma reação.
O cientista começou a suar. Não estava dentro do padrão. O homem era uma pedra de gelo.
"Quem são eles?"
"Os que me chamam o Especialista."
Nenhuma reação outra vez.
"Quantos anos você tem?"
"Aparento 39 anos."
Não perguntei quanto aparenta!... Responda apenas o que for perguntado!.. Quantos anos você tem?... Responda!... Responda!..."
O cientista começava a perder a calma.
"Eles me chamam o Especialista. Aparento 29 anos."
"Quer bancar o engraçadinho, não é?... mas, se você não passar aqui vai direto para o Comportamental e lá eles não são simpáticos como eu, não... lá a barra é pesada... é sofrimento mesmo!... Ninguém resiste!... é melhor cantar aqui e você fica livre..."
Nenhuma reação - continuava o computador zumbindo suavemente, as linhas verdes correndo serenas como as águas de um rio preguiçoso de verão.
Quando a sessão terminou e os guardas entraram, o Especialista continuava absolutamente calmo. Nem um fio de seu cabelo se desarrumara. Ele observava concentradamente o ambiente, registrando cada pequeno detalhe. O cientista, vermelho e suado, bufava diante da máquina.
"Esse cara não é humano!... Rasgo meus diplomas se ele não for um andróide... pode apostar!... quero ver os exames..."
"Não é assunto seu, Doutor. Se não conseguiu nada aqui, a ordem é levá-lo para o pessoal da Comportamental."
"Besteira!... Estou dizendo a vocês que ele não é humano!... não tem emoções!... não reage!... Fica aí, sentado, feito uma pedra!... Nem uma mísera gota de suor!... isso não existe!..."
Estava a ponto de chorar de frustração.
O chefe da guarda balançou a cabeça e foi saindo com o prisioneiro.
"Esses cientistas são todos birutas..."
Deixassem com ele e os velhos métodos tradicionais e aquele pássaro ia cantar direitinho... Mas toda essa parafernália eletrônica de agora... porcaria!... não valia nada!..."
Como não era ele quem decidia, o Especialista foi levado para o segundo subsolo, onde funcionava a menina dos olhos da Polícia Científica: o Laboratório de Terapia Comportamental para os Desvios Patológicos do Crime.
Quando recuperou a consciência, estava imerso na escuridão.
Há uma escuridão com a qual a vista, pouco a pouco, se acostuma, distinguindo vultos e sombras.
Mas ali, o negrume era absoluto e total.
Não havia diferença entre abrir e fechar os olhos. Era apenas um ato mecânico, como flexionar as mãos.
Algo pegajoso o envolvia e impedia seus movimentos. Apalpou o lugar onde seu corpo estava deitado. Era mole e úmido e aquela coisa estava em volta dele a uma distância de poucos centímetros do seu rosto. Tentou levantar a cabeça e esbarrou num tecido esponjoso que parecia carne. Suas pernas também estavam presas como se estivesse numa espécie de casulo meio mole. Quando tentava se mover, todo o organismo que o cercava movia-se também de uma forma gelatinosa.
Calculou quanto ar ainda restaria no reduzido espaço entre seu corpo e a matéria ao redor dele e tentou se mover, levando com ele toda a estrutura. Percebeu que, forçando o corpo, conseguia rolar sobre si mesmo e, quem sabe, romper o que o prendia.
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