NO MEIO DA ALEGRIA
Bárbara
Helena
"Vivo na tristeza desta vida
miserável, mas nasci no meio da alegria.”
O café ficou esquecido na
mesa. A costura esfriou na máquina. O dedo parou no ar, lembrando a
história tantas vezes repetida.
“Nasci num Baile da Caveira,
no Encantado. Caveira no Encantado tem tudo a ver, não é?”
A mesma gasta piada. O mesmo
sorriso esperado.
“Minha mãe estava grávida de
oito meses, mas era uma morena bonita demais! Mesmo com toda a
barriga, colocava uma mini-saia e ainda era capaz de desbancar muita
magrela daquela época. E o Baile do Caveira era ideal para esconder
gravidez. Tinha fantasia de bruxa, duende, caveira, tudo com aquele
batão que cobria parcialmente uma sainha mais curta. Minha mãe tinha
umas pernas lindas, você quer ver?”
O retrato aparece entre os
moldes no sofá puído.
Lábios grossos, sorriso
desatado e pernas fortes de cabocla.
“Ela foi Miss Taquara,
representou o Taquara Social Clube no concurso de Miss
Pernão.”
Será que existiu mesmo esse
concurso? Ela me olha séria, esperando a exclamação
admirativa:
“Realmente... Muito
bonita!...”
“Pois é. Conheceu meu pai numa
dança no Centro. Naquele tempo havia umas gafieiras por ali, bem
legais. Ele tocava pandeiro no conjunto, acho que era bonito, mas
sua participação no meu nascimento se limitou a uma agarração com
mamãe atrás de uns tapumes e uma sessão no Motel Gota Dourada, onde
ela perdeu o cabaço e a cabeça...”
Riu, outra vez, da própria
piada, mostrando os dentes parcialmente estragados.
“...depois ele sumiu nesse
mundão de meu Deus e ela ficou sozinha com a sua barriga, sua raiva
e sua vergonha. Que minha mãe era moça direita até conhecer meu pai
e se perder na vida. Meu avô ajudou a me criar, era um bom
marceneiro, muito considerado (este armário foi ele quem fez). E
mamãe sempre trabalhou, coragem nunca faltou na nossa família. Mas
eu estava falando do meu nascimento...”
“.... pois é, minha mãe foi
vestida de bruxa, com uma saia pelo joelho, uma bata cobrindo a
barriga, aquele chapéu pontudo, muita maquiagem e umas unhas enormes
emprestadas pela Branquela, outra manicura amiga dela. Minha mãe foi
manicura uma época, já contei pra você? Fazia uma meia-lua como
ninguém!... Isso foi antes de cair na vida...Bom, mas lá foi ela de
salto sete e meio e eu dentro da barriga naquele calor e naquele
barulho infernal, em plena terça-feira de Carnaval. E quando digo
que nasci no meio da alegria, é no meio da alegria mesmo, porque
quando resolvi aparecer, minha mãe se enganchara com um fuzileiro
naval, segundo ela me disse depois, um pedaço de mal caminho, de
olhos verdes feito água e o susto que ele tomou não deve ter sido
brincadeira!... estavam no maior amasso ao som de mamãe eu quero...
mamãe eu quero ... veja você!”
Ela ria, segurando os seios,
apertados no vestido justo.
“Mamãe nunca mais pôde escutar
essa música. Quando pintaram meus sinais, não deu nem tempo de
arrumar uma curiosa pra ajudar. Ela gritou, o pessoal fez aquela
clareira, um diabo gente boa tirou sua capa e forrou o chão pra me
receber. Nasci ali mesmo. No meio do baile, sobre aquela capa de
cetim vermelho. O cordão foi cortado com a faca de uma das mesas,
não sei como não morri de infecção... mas pobre não tem frescura.
Cresci forte como um touro e se hoje estou comida pela doença foi
por causa da bebida, do maldito cigarro e da orgia, minha
companheira esses anos todos. Vivi na rua muito tempo... você não
acredita me vendo hoje, não é?”
Ela mostra com orgulho o
quartinho modesto, a máquina velha, o sofá florido, o Sagrado
Coração iluminado e enfeitado com flores de plástico
baratas.
“...Consegui me reerguer,
arrumei umas freguesas de costura... modéstia à parte, sempre fui
boa no trabalho... e estou aqui...”
Cortou a linha com os dentes e
enfiou a agulha.
“... Mas se não fosse a
doença... eu continuava naquela vida que para ela ainda tenho gosto,
sim senhora... é meu destino, o que se há de fazer? Nasci em pleno
baile de Carnaval, numa capa vermelha do coisa-ruim, como é que eu
podia resistir?... Concorda?”
Concordei.