Maria Helena Bandeira

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Neste Lugar



Agora estou sozinho.

Na verdade, não tão sozinho, porque tenho as máquinas.

Procuro conversar com elas, mas seu potencial é limitado. Por mais assuntos que se coloque na sua memória, é aborrecido discutir com alguém cujas opiniões são sempre as mesmas.

Hoje foi o xadrez com Krist - ganhei todas as partidas. Só valeu porque, durante o jogo, passei 25 horas ocupado. Sem pensar naqueles acontecimentos desagradáveis.

Quando me lembro do Dr. Gautério ainda sinto raiva. É um sentimento perturbador, mas é melhor que o tédio.

E tédio é o que eu mais sinto neste lugar.

No fundo, ele é o culpado de tudo. Ou foi. De uma certa forma, era divertido naquele tempo. Mas eu não estou arrependido. Acho que faria as mesmas coisas outra vez. Sinto pena por causa da Dra. Linn, mas não havia outra solução.

A ferida na perna está quase boa.

Se não fosse o olho que ainda me incomoda um pouco, do ponto de vista físico já estou praticamente curado. Em breve ficarei novamente perfeito.

Como no dia em que o Dr. Gautério me escolheu para o seu projeto.

Desde o princípio soube que seria eu.

Não apenas por esta aparência e vigor, mas pela minha capacidade intelectual.

Ele precisava do melhor.

Fazia frio naquela manhã, quando ele entrou, acompanhado da Dra. Linn. No primeiro momento, nem reparei nela.

Era o cientista que me interessava.

Apesar de estar certo de que seria o escolhido, usei todo meu charme e sedução. Eu precisava muito ser querido e não podia perder aquele projeto de maneira nenhuma.

Como esperava, fui bem sucedido. Os dois se encantaram comigo. Acho que foi ali mesmo que começou o nosso caso. Mas, na época, nenhum de nós seria capaz de prever o que aconteceria.

E assim nos envolvemos, o Dr. Gautério, a Dra. Linn e eu.

Krist e Mênfix insistem em não respeitar as regras. Atravessam as dunas em horários impróprios e, muitas vezes, tenho que tirá-los dos buracos.

Não gosto quando me interrompem.

É bem verdade que todas as coisas, agora, não parecem tão importantes quanto era nossa missão.

Nossa missão.

Foi assim que o Dr. Gautério falou, no dia em que fui escolhido para acompanhá-los. E como era importante executá-la bem, ao chegarmos aqui.

Eu não gostava deste lugar.

Jamais me acostumei a este céu que parece pesado sobre a nossa cabeça e à solidão da savana turquesa. Ou às Gnandes, esta vegetação carnívora e nojenta, com seus tentáculos azulados e suas enormes bocas vermelhas e úmidas.

Desde o princípio, preferi as máquinas.

São frias e limpas. Não confundem as coisas, como acontecia com o Dr. Gautério e a Dra. Linn. As crises desses dois sempre atrapalharam o trabalho. As vezes imagino que poderia ter feito tudo sozinho desde o início, com a ajuda dos robôs. A médica eu teria permitido que ficasse, porque seus cuidados podiam ser necessários. Mas o cientista era perfeitamente dispensável.

Chegamos aqui numa quarta-feira, pelo calendário da Terra, vinte e oito de março de 2193.

Só que o tempo neste lugar é bastante diferente:

Não há dias ou noites. A grande esfera vermelha surge no céu engolindo tudo, em períodos alternados, que correspondem a meses no outro planeta..

Agora a época é do azul.

O ar, as plantas, o chão, as elevações e as crateras...

Esta cor nauseante que me persegue mesmo em sonhos e vai do cobalto desmaiado das Gnandes até o verde azulado e escuro dos paredões do Centro-Oeste.

Só nos período escarlates a minha mente consegue descansar.

Quando o tom vermelho alterava as imagens, quem se irritava eram os dois chefes da missão. Eles temiam a luz alaranjada de Eshteres e passavam a maior parte desse período enfiados no laboratório climatizado, sem aparecer na superfície.

Eu não.

Gosto até dos amarelos. E o púrpura e o vinho são meus amigos.

Era mais uma, entre as muitas diferenças entre nós.

As vezes, a Dra. Linn desejava sair.

Influenciada por mim, ela pretendia deixar a segurança das entranhas para viver uma aventura escarlate.

E o Dr. Gautério sempre queria impedir esses passeios sob a ridícula alegação da segurança.

Ele controlava nossas conversas.

Desde o princípio suspeitei que tinha ciúmes de sua colega de trabalho.

Ela era uma mulher muito inteligente e compreendeu que seria preciso auscultar o coração deste lugar para que a nossa missão tivesse êxito. Não se pode violentar uma terra estranha, sem conhecer e obedecer às suas razões.

Eu não gostava e não gosto daqui, no entanto, sempre soube disso.

Aquele Dr. Gautério, com sua indiferença orgulhosa, passava entre as Gnandes sem sequer olhar para elas. Seus tentáculos agitavam-se e os inúmeros cílios dos seus flagelos desfaziam-se em ondas como um oceano.

Chegavam a roçar seu rosto.

Ele não se perturbava. Julgava-se superior a tudo.

Só que tinha fraquezas como todo mundo:

Quando as coisas não saiam como pretendia, irritava-se, aumentava o volume da voz e chegou a me sacudir algumas vezes, o que não me agradou de maneira alguma.

Um homem com a missão de chefiar um projeto tão importante, não podia perder a calma com aquela facilidade.

Foi essa característica de sua personalidade que precipitou o desfecho da nossa história.

Eu nem gosto de me lembrar.

Principalmente quando as plantas me espiam com seu olhar azul, enquanto trituram os pobres zots com suas mandíbulas gotejantes.

AHHHHHHGGGGGGG!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Nunca pude suportar estes vegetais semi-humanos.

Por sua causa a perna ainda me incomoda.

Quando a nave aterrissou aqui, depois daquela viagem maravilhosa entre as estrelas, a primeira coisa que eu senti foi asco.

A gente se acostuma ao veludo negro lá em cima. Ao interior prateado da nave, com seus corredores circulares e silenciosos, a imensa teia clara da sala de navegação, as poltronas macias, a luz rosada e aconchegante e à companhia das máquinas eficientes.

Neste lugar tudo é viscoso e úmido e insuportavelmente azul.

Mas era aqui que o trabalho precisava ser realizado.

Entre estes monstruosos vegetais nojentos. Deles o Dr. Gautério retirava a substância do XRP. A droga que tornava a vida maravilhosa.

Pelo menos é o que acreditavam aqueles dois.

Eu não compreendo a necessidade de encharcar-se com elementos químicos estranhos ao organismo para suportar as circunstâncias exteriores.

Nunca sequer experimentei o XRP.

E isso não teve nada a ver com o caso.

Porque a Dra. Linn gostava do meu jeito assim mesmo. Ela apreciava a minha companhia e o Dr. Gautério não conseguia agüentar essa verdade.

Então, me perseguia daquela maneira mesquinha.

Tudo aconteceu durante o reinado de Eshteres, quando este mundo se incendeia de laranja e fogo e as plantas ardem no próprio calor.

Eu pedi a Krist para chamar a Dra. Linn.

Sentia falta dela naquela estação.

Quando eles se refugiavam nas entranhas, eu ficava muito solitário.

Como agora.

E mandei Krist chamar a Dra. Linn pelo intercomunicador.

O Dr. Gautério tentou impedir, mas ela veio.

Uniu-se a mim no exterior e passeamos de mãos dadas sob o céu cor de vinho.

Era belo o Escarlate e a Dra. Linn também sentia isso.

Foi quando o idiota se encheu de XRP e fez todas aquelas bobagens.

Deixando seu buraco seguro, vestiu o uniforme espacial e me atacou.

Estava enciumado e furioso.

Ele me chamou de inútil e aberração. Disse que o meu trabalho não valia nada e qualquer das máquinas era bem mais eficiente do que eu.

Jogou-me contra aquela planta nojenta e seus tentáculos me despedaçaram a perna direita. O líquido corrosivo de sua baba viscosa me atingiu o olho e fiquei cego por alguns momentos.

Então eu, eu arrebentei o abraço da Gnande, levantei-o no ar e o abati.

Ai, aconteceu o pior.

Eu não queria magoar a Dra. Linn.

Pensei que ela fosse me agradecer por livrá-la daquela tirania.

Mas ela começou a gritar... e o vermelho não combina com essas vibrações sonoras. O ar se enche de violetas visíveis e roxos insuportáveis.

Eu não podia permitir.

Envolvi seu pescoço com minhas mãos e esmaguei aqueles sons horríveis na sua garganta.

Eu a amava. Sempre a amei.

Se não fosse o Dr. Gautério se meter entre nós, tudo poderia ser diferente. Mas ela preferiu ficar do lado dele. A Dra. Linn se voltou contra seu melhor amigo. Aquele que mais confiava nela.

Não tinha o direito de me chamar de robô psicopata.

Eu que sou o andróide mais perfeito de toda a série que o Dr. Gautério fabricou no Departamento de Informática do Equador Sul.

Quanto a vocês, meus caros astronautas, é uma pena que tenham pousado aqui. Os humanos não podem descobrir o XRP. Vivo sozinho com minhas máquinas e assim pretendo continuar.

Agora, com licença. Vou avisar a Krist que as Gnandes vão ter hoje uma suculenta refeição.

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