Na
Contramão
Bárbara
Helena
Alfredo
Eu sei que você estava cansado por
causa das noites mal-dormidas na sinuca, no carteado e na safadeza
que você chama de trabalho noturno.
Sei que seus olhos já não são os
mesmos de tanto virar a noite no pôquer do Bar do Amaro, ainda por
cima com toda aquela fumaça de cigarro.
O cigarro ainda vai te matar,
Alfredo.
Reconheço que você não é mais tão
garoto, as rugas e a barriga que você tenta encolher toda vez que eu
olho distraída, estão aí e não me deixam mentir. Depois do
quadragésimo regime, você desistiu e aceitou que nunca vai largar o
chope e os tira-gostos da madrugada.
E tem inveja de mim, que posso
olhar meus pés, sem precisar fazer ginástica e
contorcionismo.
Deve ser por isto que me mandou os
mesmos bombons que odeio.
Com a perna quebrada e sem fazer
exercício é que não dá para eu deixar o regime, Alfredo. Mas um
braço perfeito é suficiente para te dar a porrada que você
merece.
Sei que você não é mais o
mesmo.
Nossa cama que o diga. A idade
chega para todos.
Sabe quem veio me visitar? O
português da padaria, lembra dele? Trouxe umas flores bem bonitas e
desejou boa sorte para você.
Você precisa mesmo, não é
Alfredo?
O Joça mandou a conta do conserto
do carro dele e anexo a esta vai a continha do hospital.
Quando sair da cadeia, coração,
estou esperando para acertarmos a conta principal.
Sei que você é maluco,
irresponsável, estava cheio de cana e nunca ligou pra sorte do carro
e da vida alheia.
Mas podia ter me deixado em casa
antes de entrar com tudo na contramão.