Duas cartas femininas:
Alfredo,
Eu poderia dizer o
quanto tudo mudou depois que você partiu. Poderia contar que a Lady
Di não late mais desesperadamente para a porta, porque sabe que não
existe mais sua chegada. Que nossa Cat anda pelos cantos distraída,
sem encontrar o apetite perdido. Que o Tigrinho dorme sem parar na
caminha que você fez pra ele no Natal. Como fez aquela árvore linda,
com o galho que achamos em Friburgo, no verão em que a gente se
amava tanto que até doía. Lembra?
E como a gente ria.
Como tudo era tão especial.
Eu poderia falar das
nossas viagens inesquecíveis, das fotos dormindo estranhas nos
álbuns inúteis. E daquelas outras que fizemos no nosso quarto,
ouvindo a chuva na vidraça, pensando que o amor nunca se
quebraria.
Eu queria dizer que
estou inteira a sua espera. E que o vento ainda canta na varanda a
música de nós dois. Que os CDs dormem apagados, sem razão, depois
que você partiu.
E que as roupas no
armário da memória pesam tanto que não cabem no meu coração. Poderia
falar das lágrimas guardadas. Da imensa dor que me atordoa. Dos mil
pequenos nadas que vivemos. Dos mil imensos tudos que
perdemos.
Mas para bom
entendedor, meia palavra basta:
Vol!
Alfredo,
Se você pensa que estou
sofrendo depois que você partiu, pode tirar seu cavalinho da chuva.
As olheiras são por causa do cachorro que não me deixa dormir,
latindo desesperadamente para a porta, a espera da sua chegada da
farra costumeira. Emagreci dez quilos porque não preciso mais fazer
aquela comida gordurosa que você adorava e posso experimentar essas
saladas deliciosas, nunca antes permitidas aqui em casa.
Estou usando de novo a
mini-saia indecente e o biquíni cavado que escondi no armário,
mentindo ter jogado no lixo. Lembra do português que me entregava o
pão de graça e seu ciúme me fazia devolver depois, morta de culpa?
Precisa ver como me segue na padaria. E os outros então? Em frente
ao botequim da esquina já nem passo mais para preservar minhas
pernas e a minha bunda da intensidade com que me devoram aqueles
olhares masculinos.
Adoro esta cama vazia onde
me espalho, sem seu ronco me acordando às cinco da manhã e deixando
cansada o dia todo. Acabaram, misteriosamente, os telefonemas na
madrugada, o respirar feminino do outro lado e o mentiroso dizendo
sempre que era engano. Eu, tonta, fingindo acreditar porque era mais
fácil e porque amava tanto.
Lembra da pia que você
quebrou no dia do meu aniversário, quando não quis chamar o bombeiro
“porque essas coisas eu mesmo resolvo “ e que ficou tão torta que
nunca conseguia segurar o sabonete? Era nossa “pia de Pisa” você
gostava de brincar. Depois trouxe flores e uma caixa de bombons que
dei pro gato porque estava de regime há dois meses e o “ eterno
romântico” esqueceu.
Você sempre estragava os
melhores momentos.
Como quando acertou no
milhar do avestruz, gastando todo o dinheiro pra me comprar um colar
que eu nunca pude usar. E aquela sonsa da Luzia ganhou um igualzinho
de um “namorado misterioso”... .
Pois consertei a pia, vendi
o colar e dei entrada naquele Fiat de segunda mão do seu Antero que
a gente sempre namorava na garagem.
Agora vem chorar que está
arrependido e quer voltar. Pede perdão e tudo, diz que a sem-graça
da Laurinda nem me chega aos pés.
O Alibabá me trouxe seu
recado, pedindo resposta urgente.
Estou respondendo,
coração:
Pra bom entendedor, meia
palavra basta:
Fod!