Labirinto
Bárbara Helena
Aquela
mulher olhava para mim com olhar marcado.
Sabia que a
conhecia de algum lugar distante nas brumas da memória.
Ficamos
paradas ali, uma diante da outra, sem palavras.
Ela esboçou
um gesto de surpresa, quis falar, mas percebi que não conseguiria.
Assim como eu permaneci calada, a garganta cerrada, os olhos
esquecidos.
O vestido,
conheço bem.
Muitas
vezes o usei outra vez, na lembrança daquele baile no
Labirinto.
Onde perdi
meu sossego e a identidade.
Com estas
rendas e sedas percorri atalhos, me quebrei em retas, me encontrei
em quinas, sem nunca achar o verdadeiro rumo.
Porque
aceitei o convite da mentira. Porque segui o conselho da
vaidade.
Ela me
olhou e as lágrimas correram.
Nossas
faces identicamente molhadas de passado.
O desenho
da renda era outra vez o caminho intrincado em que me perdi mil
vezes, sem saída.
Porque
compactuei com a beleza da trama. Porque aceitei a poesia do
bordado.
Os olhos
maquiados da outra permaneciam estranhamente brilhantes,
corretamente intactos, como as faces translúcidas de outrora, como a
boca vermelha da juventude eterna.
Sabia que
eu me reconheceria.
Eu também
sabia sobre mim.
Depois de
tanto tempo, enfim, o Labirinto me devolvia ao momento presente. O
Labirinto vomitava meu passado no agora.
Estava ali,
diante de mim.
Andara
muito. Procurara tanto.
E tudo
estava igual.
Era de novo
o baile, a música recomeçara, o vestido, a paixão... vou me perder
de novo.
Não há
saída deste Labirinto.
Ele sempre
começa onde você está