O amor e a paixão
O amor e a paixão – farinha do mesmo pote: o coração. O amor toca o divino, a
paixão consome o humano.
O amor semeia, a paixão devora. O amor aglutina, a paixão dispersa. O
amor é seguro e confia. A paixão é intranqüila e delira.
O amor deseja, a paixão alucina. O amor é mar: flui e reflui, é sístole e
diástole. A paixão é fogueira: tem seu tempo e o consome.
O amor é produtivo, a paixão resseca. O amor dança, a paixão sapateia. O
amor quer dar, a paixão receber. O amor troca, a paixão toma. O amor é luz, a
paixão claro-escuro.
A paixão é relâmpago e o amor é céu, a paixão cometa, o amor estrela, o
amor tapete, a paixão, corda. O amor sapato, a paixão, brinco.
O amor é acolhedor, a paixão sôfrega. O amor abrange, a paixão
circunscreve. O amor é colheita, a paixão, pesca.
A paixão é furtiva, o amor constante. A paixão adoece, o amor cura. A
paixão enlouquece, o amor tranqüiliza. O amor é triste, a paixão crespa.
O amor beija, a paixão morde. O amor soluça, a paixão range os dentes.
O amor é doce, a paixão ácida. O amor se funde, a paixão se
mistura.
O amor é corte, a paixão, ferida. O amor é laço, a paixão, nó. O amor,
liso, a paixão, áspera. O amor é sólido, a paixão se rasga.
O amor é terra e a paixão poeira. O amor é brisa e a paixão vendaval.
O amor é carinhoso e a paixão também.
O amor é ferro, a paixão é lata. O amor canta, a paixão é rouca. O amor
cala, a paixão discursa.
O amor conhece o toque – a paixão o adivinha.
O amor intui, a paixão desconfia. O amor é fiel, a paixão obsessiva.
O amor acaricia, a paixão fere.
O amor adere, a paixão
dilacera.
O amor dói, a paixão mata.
Maria Helena
Bandeira
|