A ESTUPIDEZ DO GNOMO
Bárbara
Helena
Apareceu outro gnomo no
jardim.
Estão vindo mais cedo este
ano. Nem esperaram o início da primavera. As flores ainda não
despertaram de suas camas coloridas.
Ele está encarapitado no
pontal da varanda e seu olhar me interroga.
Que posso responder? É claro
que está tudo bem. Porque não estaria?
Não acredita em mim e seu
sorriso sardônico me aborrece.
Porque os gnomos são tão
sarcásticos?
Estou dizendo que sou feliz e
tenho certeza. Porque mentiria aos pequenos?
O marido se foi, é bem
verdade, mas de que me servia um beberrão, um pobre fracassado que
só fazia dormir e não sabia cantar uma canção mais doce?
É bem melhor sem
ele.
O maldito não acredita. Deve
estar pensando nos meninos.
Mas se os filhos se foram, não
tenho motivo para reclamar. O caminho da vida é este mesmo. Queria
que guardasse meus filhos debaixo das saias como uma ostra egoísta
impedindo seu vôo? As asas estão abertas longe de mim, mas ouço seu
rufar macio nas noites silenciosas. E estou feliz por
eles.
O gnomo gargalhou.
Está pensando no tempo que me
arrebata? Tudo tem seu momento. Não posso ter mais a beleza antiga.
Estas rugas são vida e o cabelo tão ralo já nem me aborrece mais.
Encontrei uma paz neste outono tranqüilo.
Ele me olhou
malicioso.
Quer saber do que mais? O
tempo que passou levou muito de mim, mas me deixou inteira. Estou
aqui ainda, no mesmo lugar.
Parei estarrecida.
O gnomo caiu, saltou, deu
piruetas e se encarapitou de novo no banquinho cantarolando com a
voz anasalada:
“No mesmo lugar... no mesmo
lugar...”
Matei mais um gnomo, devo
confessar.
Eu sei que sou
feliz.
Gnomos são
estúpidos.
Mas é melhor não deixar mais
nenhum pra encarar.