Nasci no dia 01/11/1981. Este dia foi complicado, pois na verdade minha mãe me aguardava há apenas cinco meses e meio e então eu provavelmente não sobreviveria. Só que eu não quis mais esperar e a obriguei a dar entrada na maternidade. Depois de um monte de tratamentos que não sei especificar exatamente, eu vim ao mundo. Frágil e pequeno, inspirava sérios cuidados e minha prematuridade preocupava a todos. Passei por uma bateria de exames até ser diagnosticado que meus pulmões estavam incompletos, o que me fez ficar longos meses respirando via óxigênio artificial na encubadoura. Enquanto isso, "papai" e mamãe se desesperavam na angustiante espera de uma morte quase certa, os médicos não acreditavam que eu conseguisse sobreviver naquelas condições. Aí o tempo foi passando, meus pulmões foram se formando e eu consegui me livrar da encubadoura. Só que o excesso de óxigênio acabou queimando minha retina, o que me deixou completamente cego. Para os médicos que afirmavam que eu teria deficiência física, mental e visual era uma vitória, afinal eu estava cego, mas não apresentava qualquer sinal de outras complicações.
Chegara a hora de deixar o hospital. "Papai" e mamãe saíram radiantes comigo nos braços, eu era um guerreiro nato, consegui algo que os médicos julgavam ser impossível. Daí em diante começou uma longa jornada e dias difíceis, principalmente para minha querida mãe que estava sempre comigo e me dava tudo que eu precisava e não precisava, eu estava literalmente coberto de amor e atenção. Meus avós e tios maternos me davam muito carinho, vovó então nem se fala. Me criou junto com minha mãe e como não poderia deixar de ser me deu todo o mimo que só uma avó de verdade sabe dar. Meus amados tios, Gina e Martinho, sempre me cercaram de carinho e são como pais pra mim. Tio Martinho nunca me deixou sentir falta de um pai de verdade. Se não fosse ele a figura paterna seria algo muito distante de minha realidade, uma vez que meu "pai" e sua família sempre foram distantes, aliás meu "pai" começou a se tornar outra pessoa no momento em que eu comecei a querer andar sozinho, ele não entendia que eu na condição de cego poderia cair ou me machucar, queria que eu ficasse sentado, jogado num canto quieto. Ele e mamãe então começaram a discutir muito; ele já não era o pai que muito chorou quando me viu quase morto no berçario de auto risco, se transformou num "pai" seco e sem a mínima paciência. Mamãe também mudou, deixou de ser uma mãe ótima e se tornou uma mãe maravilhosa, me cercava de carinho e amor e minha infância foi tranquila apesar do jeito ríspido de meu "pai" que tanto me magoava. Ah! um detalhe: sabe qual foi a primeira palavra que eu disse? Não, não foi papai nem mamãe, foi cancan. Pois agora, o que será cancan? Não sei, só sei que mamãe descobriu depois de algum tempo que era carro, eu já nasci amando os automóveis. Mas como eu tava dizendo minha infância foi tranquila. Nunca gostei de estudar, mas tive a sorte de ser matriculado num dos melhores colégios da cidade: o Coração de Jesus. Fui uma criança feliz, graças a Deus, a minha amada mãe e a família dela, porque meu "pai" era cada vez mais ríspido e arredio comigo. Lembro-me uma vez que meu "pai" disse pra minha mãe uma frase chocante; eu escutei, mas só bem mais tarde fui entender o que significava, afinal eu era criança. A frase que ele disse foi: "Tu e tua mãe dão amor demais pra este rapaz; ele vai é virar boióla!" Coitado do "papai", chego a ter pena dele. Hoje em dia ele certamente lembra disso, afinal eu sou homem com H, mas tem um familiar bem próximo dele que � assim... assim, sabe, amiga? Aaaai boba!hahahahahahahahaha e não é implicância minha não, o guri desmunheca mesmo.hehehehehe mas enfim. Voltando a mim que é o que interessa... eu tinha muitos amigos, era uma criança tagarela e conviver comigo era fácil. Praticamente todos os finais de semana eu ía com meus pais para Laguna, onde moravam meus amados avós maternos que hoje estão ao lado do Patrão Celestial. Eu adorava aquele lugar, tinha o espaço que precisava pra brincar e me sentir uma criança completamente normal, andava por tudo e queria sempre estar dentro dos carros dos vizinhos. A maioria das pessoas da redondeza me tinha carinho e admiração apesar de eu ser uma criança chata e serelepe, eu era objeto de comentários em Laguna, cidade do interior, principalmente pela incrível facilidade que tinha de lidar com carros e motos. Eu cada vez gostava menos de estudar, achava aquilo um saco, queria mesmo era estar dentro de carros diferentes, isso sim me deixava feliz. Posso dizer com orgulho que tive muito mimo e atenção da parte da maioria do pessoal lá de Laguna. Bom, mas o fato é que minha paixão por carros cada vez aumentava mais e um dia, quando eu tinha 8 anos de idade, minha tia me levou pra passear em seu Fusca 68 Azul. Ao chegarmos na praia de Laguna ela simplesmente disse: - Pega, leva o carro. - Eu fiquei em choque, não imaginava que ela fosse louca a ponto de entregar seu carro nas mãos de uma criança cega, mas foi. Eu que já tinha noções de volante, apanhei um pouco mas logo peguei as manhas do Fuscão e saí com ele enquanto tia Kakai guiava o volante sentada no banco do carona. Eu não cabia em mim de tanta felicidade, tia Kakai me provou que mesmo cego posso fazer tudo que eu quiser, tudo mesmo, porque a única coisa que até então eu não fazia era dirigir e nem tinha pensado na revolta que isso me causaria no futuro, mas ela não deixou eu sentir isso e é responsável por um dos acontecimentos mais marcantes da minha vida. Quando voltamos pra casa e tia Kakai relatou o fato a família, muitos a recriminaram, a julgaram uma louca, afinal como um cego poderia dirigir? Mamãe e vovó se mantiveram em posição de neutralidade, no fundo não concordaram no primeiro momento mas vibraram com minha felicidade, pude sentir. Resumindo: daquele dia em diante todos os finais de semana eu fazia alguém de minha família me levar pra dirigir um carro diferente na praia de Laguna, era inacreditável mas real. "Papai", inclusive, me levou várias vezes pra dirigir na praia. Eu estava empolgado com o fato de saber dirigir bem apesar da pouca idade e sismei de querer andar de moto também. Nós tínhamos uma garele, lembra da garele, aquela motinho com motor dois tempos sem marchas? "Papai" usava ela pra passearmos na praia de Laguna, isso era moda no final da década de 80 e início da década de 90 e com 11 anos eu resolvi começar a andar com ela. Como tudo que queria eu conseguia, me peguei andando de garele por toda a quadra da casa de minha avó e me sentia livre como um pássaro. Claro, antes eu treinei muito bem o espaço e me guiava através de uma parede alta, eu só parava quando não sentia mais o muro, era o espaço certinho pra sentir o vento bater no rosto. Eu andava de bicicleta desde criança, por tanto equilíbrio não me faltava, eu só não imaginava que com 11 anos de idade eu estivesse andando de garele. Quer saber da melhor? Não faltou gente pra ir na minha garupa. Meus primos subiam na garele sem o menor medo e as crianças da vizinhança também, até mamãe já andou na minha garupa. Todos tinham uma confiança enorme em mim. Ah! não posso deixar de comentar que durante toda minha infância, mamãe, vovó e vovô saíam comigo pra me mostrar os carros na rua. "Papai" também fez isso, mas que eu lembre foram apenas três vezes em toda a minha infância, ele não entendia minha paixão por carros. Eu andava tateando os automóveis e conhecia todos os carros fabricados na época. Tinha gente até que duvidava que eu realmente não enxergava nada pelo fato de só tocar no carro e dizer a marca, o modelo e em muitos casos o ano, eu era detalhista demais e bastava mudar um friso no farol ou no para-choque que eu já assimilava. Muitas vezes isso acontecia no supermercado; "papai" ficava encarregado de comprar tudo do bom e do melhor enquanto mamãe ficava comigo no estacionamento me mostrando os carros. Que infância gratificante que eu tive, só tenho a agradecer a Deus e a minha família por isso.
Isso foi um resumo da minha infância com cara de adolescência. Muitos motores roncando e aventuras doidas, mas fui seguramente uma criança pra lá de feliz.
Minha adolescência começou muito bem, mas foi se complicando com o tempo. Quando eu tinha 13 anos mamãe que até então tinha um Gol CL 1.6 90 Branco resolveu pegar um Mille EP Vermelho Perolizado zero. Quando o carro chegou eu sismei de querer colocar um som pesado nele, eu adorava som automotivo e queria colocar um pancadão na criança. Meu "pai" ficou louco, não admitia que mamãe concordasse em eu colocar um som daquele no carro. Ele tinha um Escort GL 1.8 94 Prata, mas neste eu nem mexia, já sabia que não teria chance nenhuma de fazer o que eu queria. Mamãe resolveu bater de frente com ele e no final do ano de 1995 encostou o Mille numa loja de acessórios e mandou instalar um baita som. Tinha do bom e do melhor, até cd magazine que era objeto de luxo mamãe mandou instalar. Foram quatro falantes Selêniun de 12 no porta-malas do Uno que ficou inutilizado, mais o amplificador, a bateria auxiliar e o magazine, tudo ajudou a fechar a traseira dele de som. É claro que se algum dia meu "pai" ler isso, o que é muito improvável pois não se interessa por nada que venha de mim, ficará muito brabo pois foi ele quem pagou o som e pra ele é isso que importa. Realmente foi ele quem pagou, mas eu preferia que não tivesse pago um centavo, mas que não tivesse falado tanto, criticado tanto eu e minha mãe por causa do som. Mas enfim. Nosso carro ficou conhecido em Laguna, todos os dias nós parávamos em um lugar diferente com o porta-malas aberto mandando brasa na sonzeira. Geralmente fazíamos isso eu, mamãe e meus primos, meu "pai" quase sempre não participava e ainda ficava mal-humorado conosco. Bom, só pra resumir o som do Mille foi o fim do casamento de meus pais, meu "pai" passou a detestar mamãe depois que ela colocou o som no carro. Eu não entendia porque ele agia daquele jeito, o som era no carro dela, não no dele, mas o sujeito era implicante, tá louco! O casamento dos dois se arrastou mais alguns meses e em meados de 96 meu "pai" resolveu pedir as contas e dar no pé, deixando mamãe e eu completamente perdidos. Eu que já não gostava de estudar larguei de vez as aulas e passei a ficar em casa pensando besteira e revoltado com a vida enquanto mamãe dava murro em ponta de faca pra tentar me dar o padrão de vida que eu tinha quando meu "pai" tava em casa. Meus pais casaram pobres e eu passei os primeiros anos de minha vida na COHAB Bela Vista 2, eu era pequeno mas lembro bem daquele lugar. Mas moramos só alguns anos lá, logo nos mudamos para um apartamento de cobertura e nosso padrão de vida subiu consideravelmente. Meus pais trabalhavam bastante, mas nossa vida tinha do bom e do melhor, desde o necessário até o supérfulo, nunca nos faltou nada. Quando meu "pai" foi embora o padrão de todos baixou, tanto o dele como o nosso. Mamãe, com muito suor e trabalho digno, conseguiu recuperar 100% do que tínhamos. Hoje em dia eu só tenho a agradecer a Deus, tenho tudo que quero, nada de bom e de melhor me falta. Meu "pai" também se estabilizou e hoje tem um padrão de vida bem mais alto do que tinha junto conosco. O padrão financeiro de vida dele é alto, mas o amoroso acho que nem existe. Tomara que eu esteja errado, tomara mesmo, mas as atitudes de meu "pai" o revelam uma pessoa muito infeliz. Por falar nele ele construiu outra família e só porque eu disse que ele tinha haver comigo e não sua nova família, meu "pai" resolveu me mandar as favas também, me deu um gelo incrível e me deixou praticamente órfão de pai. Me via uma vez por semana, mas seu jeito sempre mal-humorado me fazia pensar que ele só saía comigo por obrigação. Ele não falava em outra coisa senão no meu desgosto por estudos, vivia me tocando isso na cara e frases do tipo "Tu não vais dar nada na vida" ou "Se não estudares não contas comigo pra nada" eram ditas com frequência por meu "pai". Eu ficava ainda mais revoltado e triste, não entendia porque ele fazia aquilo comigo. Mas como um dia é da caça e outro do caçador, mamãe e eu ressurgimos das cinzas e descobrimos que meu "pai" nos fez um bem enorme indo embora, simplesmente porque nos deixou livres pra fazermos o que realmente gostamos, com ele era uma tortura, tinha prazer de estragar tudo que nos fazia bem, que coisa! Como não tinha mais meu "pai" pra incomodar, em 97 eu reestilizei todo o som do Mille. Troquei os auto-falantes pelo último modelo da Pioneer que na época era, se não me engano, o TSW302F, que dava um grave federal. O FIAT quase se desmanchava com a pancada e eu e mamãe vivíamos andando por aí com o som "no talo". Quem via não acreditava, uma coroa andando com uma sonzeira daquela no carro... era muito legal! No final de 97 pegamos um Corsa Hatch GL 1.6 duas portas Preto, uma graça, aí neste nós fizemos o "diabo". Na época em que a película não era liberada nós mandamos fechar o Corsinha, colocamos alguns acessórios além de mais som, aí eram dois amplificadores. O carro era apontado na rua, todos o admiravam e admiravam ainda mais minha mãe por gostar de carro incrementado daquele jeito. Aquele Corsinha era velho de guerra, até um campeonato de som automotivo nós ganhamos com ele. Mamãe sempre comigo; a proximidade nossa que já era grande se tornou imensa desde que meu "pai" foi embora e nós somos verdadeiros amigos e confidentes. Vivemos em paz; eu, graças a Deus, estou conseguindo fazer tudo que quero. Já fiz curso de Mecânica Automotiva, já ganhei troféus em torneios de som automotivo com o Corsa além de, claro, continuar dirigindo variados carros sempre. Não posso sair pela rua dirigindo só, mas com alguém do lado eu posso e já fiz isso várias vezes. Louco? Pode ser, mas muito feliz. Ah! com 19 anos eu comprei uma Honda CG 125 pra dar umas empinadas lá em Laguna. Tá ela aí:
Voltando um pouqco no tempo, eu passei no vestibular de Direito em 2003 mas resolvi trancar a matrícula logo na primeira fase, estava muito cansado, precisava descansar um pouco...risos... Como você já deve ter percebido eu continuo não gostando de estudar, o que me fascina mesmo é lidar com carros e som automotivo, é meu sonho montar meu próprio negócio no ramo. No entanto, vivo numa cidade na qual as pessoas acham que cego tem que vender cartão telefônico e/ou bilhetes de loteria, por isso eu sou tachado de louco pela maioria delas quando falo sobre meu sonho. A associação de cegos daqui cuja função é integrar o deficiente visual na sociedade faz exatamente o contrário, é um absurdo! Ah! Preciso dizer uma coisa: eu nunca me senti tão valorizado por meu "pai" quanto no dia que meu nome saiu na lista dos aprovados da UNIVALI, ele só faltou me pegar no colo, pela primeira vez eu ouvi ele dizer que se orgulhava de mim. No entanto, o transporte de São José pra Biguaçú tinha um monte de burocracia, a Sprinter por ser registrada em Florianópolis não podia entrar em São José pra me pegar, enfim, um monte de coisinha chata que começou a me desanimar. Meu "pai" me levou alguns dias, mas sua cara de poucos amigos era notada por todos, nem pra faculdade ele me levava com prazer, tá louco! Não sei o que eu fiz pra ele me rejeitar dessa forma, depois que tranquei a matrícula mesmo ele passou a me tratar como se eu fosse um estranho. Como tudo na vida da gente tem um limite, o meu com o mau humor de meu "pai" se esgotou, cortei relações com ele, chega de levar patada, eu não preciso disso. Se eu lhe contar que minha vida é muito melhor sem as migalhas de amor dele você não vai acreditar, mas é verdade, as grosserias de meu "pai" não fazem falta nenhuma. Me machuca saber que não tenho uma relação legal com ele, mas seu jeito sempre rude me magoava demais. Depois de sete meses sem qualquer tipo de contato, voltamos a nos falar e "papai" me deu uma notícia que me fez dar pulos de alegria: ele estava montando uma loja de carros. Isso sempre foi meu sonho, desde criança eu quis trabalhar com carros e ele sempre me ignorou, agora finalmente resolveu abrir a loja. Pra eu não me alongar muito: trabalhei lá um ano e meio mais ou menos e não deu mais, tive que sair. Todos me discriminavam, ninguém me deixava fazer nada, saber de nada, lidar com nada; todos dignos de pena. Mas meu sonho tornou-se um pesadelo. Meu "pai" por incrível que possa parecer estragou meu relacionamento com todos e ainda no último dia de trabalho, ele e eu tivemos uma discussão horrível na frente de todos os funcionários e clientes, foi vergonhoso. Mas eu, cansado de ser humilhado por ele, admito que coloquei em pratos limpos tudo que pensava e penso sobre ele. O lugar ao certo não foi o mais adequado, mas não aguentei mais, fui obrigado a colocá-lo em seu devido lugar e, como já era de se esperar, meu emprego foi por água abaixo, não por eu ser mandado embora e sim por eu não ter mais ambiente para trabalharm em um lugar que, por incrível que pareça, é do meu "pai". Todos estavam certos, eu era sempre o único errado; todos sabiam, eu não sabia nada, não entendia nada e ainda era imaturo porque queria lutar pra ter um lugar na sociedade. É isso que meu "pai" pensava a meu respeito na loja, era assim que ele me tratava perante os funcionários. É claro que ele quer fazer uma média, afinal os dois sócios dele são o "genro" e o cara que é casado com a sobrinha dele, ou seja, tudo da família. Aí você deve estar pensando "mas tu és um familiar mais próximo ainda, és filho dele; sim, sou, mas pra ele isso pouco importa, ele adora me fazer passar por situações difíceis, me agredir com palavras, me fazer acreditar que eu não sou nada. Mas ele que vá "plantar batatas", eu nunca mais me abalarei com o espírito pobre dele. Cortamos relações depois disso, ele estava magoadíssimo comigo e eu mais ainda com ele e, definitivamente, depois de tudo que aconteceu é melhor eu pensar de uma vez por todas que jamais poderei contar com meu "pai". Alguns meses depois ele me ligou, dizendo que quer ser meu amigo, que quer me ajudar, que temos que parar de brigar, enfim; tudo bem, saímos juntos e selamos a paz, mas eu sinceramente não espero mais nada dele. é claro que eu queria que as coisas fossem diferentes, bah e como queria. Não me é nem um pouco confortável sentir que meu "pai" é praticamente um estranho na minha vida, mas têm coisas que só a espiritualidade explica, eu não vou mais perder meu tempo correndo atrás do amor dele, até porque isso eu encontrei no meu padrasto. Eu só lamento minha mãe não tê-lo conhecido antes pois, se isso tivesse acontecido, eu certamente me acostumaria a chamá-lo de pai, pois me sinto verdadeiramente filho dele. Por tanto, tenho meu pai de coração e o biológico, já que não me trata como filho, que viva feliz com a outra família. Vale ressaltar que ele não tem filhos com a segunda esposa, mas vê no "genro", marido da filha da senhora e sócio dele na loja de carros, o filho do coração que, aliás, nada tem haver comigo. O cara é metido a intelectual, devora livros e advoga desde os 22, 23 anos. Isso para o meu "pai" é o máximo, ele sorri sempre que menciona o nome do rapaz. Eu lamento muito pelos dois, acho que eles tinham que ser pai e filho de verdade. Da mesma forma eu lamento por meu padrasto não ser meu pai biológico. Como nem tudo na vida é como a gente quer, só nos resta aceitar o imutável, mas no final das contas o que vale mesmo é o que o coração sente. No entanto, sou um cara muito feliz, graças a Deus, pois aceito esta realidade e não fico tentando "tapar o Sol com a peneira". O espaço vazio que meu "pai" deixou na minha vida, foi preenchido com muita habilidade e convicção pelo amor do meu padrasto e da minha mãe. Sobre ela eu nem preciso falar mais nada, né? Ela é o que eu tenho de mais valioso na vida. Enfim, eu sigo minha vida em paz aliás, agradeço sempre ao grande Patrão Celestial pela vida maravilhosa que tenho. Mas, devo mencionar aqui uma perda irreparável que tive que deixou em mim sequelas irreversíveis: em fevereiro de 2008, meu amado avô materno deixou este mundo; em abril do mesmo ano, minha amada avó materna também seguiu para o plano espiritual. Bah! Minha vida nunca mais foi a mesma depois que meus amados velhinhos "foram embora"; eles eram meus segundos pais, fui criado na casa deles e saber que não poderei mais abraçá-los, que não terei mais a companhia, as palavras sábias deles, me deixa desnorteado. Eu não gosto de falar em pancadas da vida, até porque acho que a vida não nos dá pancadas mais fortes do que possamos suportar, mas a perda dos velhinhos foi um tapa que, confesso, me pegou de surpresa e me derrubou. Mas, como pra mim a morte não é o fim de coisa alguma, vivo com a certeza de que um dia eu os encontrarei novamente em algum lugar. Enquanto isso não acontece, vou tentando levantar e me refazer aos poucos do choque.
Bom... acho que era isso. Depois deste desabafo você deve estar morrendo de vontade de mandar um e-mail me xingando por ter lhe feito ler isso tudo, né?
Deixo um forte abraço a todos que leram e conheceram um pouco da minha vida e peço desculpas por ter escrito tanta coisa.