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Algumas sugestões e dicas de como
lidar com pessoas portadoras de deficiência.
Relatarei a seguir algumas situações de
discriminação vivenciadas por mim mesmo com o intuito de
explicitar o que a falta de informação pode fazer com as
pessoas:
A situação mais recente aconteceu na loja de
carros do meu pai onde eu trabalhava. Liguei para uma senhora avisando
que o documento do seu Corsinha já estava em mãos, pronto
para lhe ser entregue. Ela perguntou meu nome e desligou. Horas depois o
pessoal me liga avisando que um casal está vindo at? mim, eu logo
imaginei ser a tal senhora e seu marido. Pois bem, quando ela entrou na
sala e deu de cara com um cego, seu primeiro impulso foi pedir o
documento para a garota que sentava a minha frente, ou seja, duvidou da
minha capacidade pelo fato de eu não enxergar.
Lembre-se que
um cego só não enxerga; os outros sentidos bem como o
cérebro, principalmente, funcionam muito bem obrigado.
Outra
boa aconteceu quando minha ex namorada e eu caminhávamos no
calçadão, estava muito calor e saímos um pouco para
tomar um ar. No caminho, aproximou-se de nós um cachorro enorme e
como eu e ela somos loucos por bichos, não pensamos duas vezes e
pedimos para a sua dona deixar nós brincarmos um pouco com ele. A
senhora prontamente atendeu nosso pedido e enquanto nós
brincávamos com o animal ela não parava de me olhar.
Até que num determinado momento ela olha pra minha ex namorada,
cria coragem e solta a seguinte pérola: - Ele fala??? - Bah, foi
inevitável a gargalhada; o que tem haver cegueira com mudez? A
senhora percebeu a gafe, desculpou-se e saiu levando o cachorrão.
Novamente: cego é cego, não é surdo, nem mudo,
nem louco, nem debiloide, nem nada, pare de uma vez por todas de achar
que cego é ET.
Minha última namorada e eu
costumávamos dormir muitas vezes por semana juntos no apartamento
onde ela morava. Pois bem, um dia quando eu não estava lá
uma vizinha dela aproximou-se e perguntou: - Há quanto tempo tu
cuidas daquele mocinho que de vez enquando tá na tua casa? - Ela
sorriu e disse: - Eu não cuido dele, senhora, aquele mocinho
é meu namorado. - Bah! A mulher não sabia onde colocava a
cara.
Sabe o porquê da pergunta imbecil da referida senhora?
porque ainda é inconcebível pra muitas pessoas tontas um
cara deficiente namorar uma garota não deficiente e vice-versa.
Coitados, esbanjam estultice.
Fui com o Wagner, meu irmão de coração, a uma
lanchonete badalada e ambos pedimos x. Os meus lanches sempre são
sem salada e ali não foi diferente. Quando o garçon veio
servir os pedidos, voltou-se para o Wagner e perguntou: - É o
dele que é sem salada? - O Wagner prontamente respondeu: -
Não sei, pergunta pra ele. -
A atitude do garçon foi
totalmente errada. Quando precisar de alguma informação
referente a uma pessoa portadora de deficiência visual, dirija-se
diretamente a ela, não a seu acompanhante. Entretanto, é
interessante você usar artifícios para que o cego
saiba que você está se dirigindo a ele, uma vez que
não consegue identificar em qual direção seu olhar
se encontra. Caso não saiba o nome da pessoa cega, uma
boa sugestão é um leve toque no ombro pra fazê-la
perceber que você está se referindo a ela, mas jamais use
terceiros para estabelecer um contato com uma pessoa portadora de
deficiência visual.
Outro caso parecido aconteceu em uma
pizzaria: estâvamos minha ex noiva e eu comendo quando o
garçon passou com pizza de calabresa. Depois que minha ex noiva
negou um pedaço ele perguntou pra ela: - E ele, aceita? - Ela
respondeu: - Eu não quero, ele eu não sei. - O cara ficou
sem jeito, largou um pedaço de pizza no meu prato, saiu correndo
e não serviu mais nossa mesa.hehehehehe coitado, né? Bah!
Novamente o caso da pessoa não saber como se dirigir a um
cego. Quando tiver dúvidas acerca disso, pense sempre
que a cegueira está nos olhos, não nos ouvidos, por tanto
um cego pode responder qualquer pergunta que você o
faça.
Estava eu, no ano de 1998, caminhando em
direção ao ponto de ônibus quando resolvi pegar um
taxi. Passei pela Praça 15 de Novembro e peguei o primeiro carro
da fila, um Monza GLS 2.0 quatro portas. Abri a porta do carona, dobrei
a bengala e entrei no veículo, quando fui barrado pelo motorista,
um senhor de idade muito avançada que me disse: - Cai fora
garoto, isso aqui é taxi. - Eu fiquei pasmo com a
reação do senhor, mas resolvi não discutir por
causa de sua idade. Como antes de entrar no Monza eu havia tateado os
carros de trás, sorri e disse: - Tudo bem senhor, vou pegar o de
trás que é um Vectra, aliás o senhor deveria trocar
este Monza né? Estamos em 1998, faz dois anos que o Monza saiu de
linha, ele não é mais fabricado desde o segundo semestre
de 1996. - Me retirei do veículo, fechei a porta delicadamente e
peguei o Vectra que estava atrás. Quando entrei no mesmo, o cara
me pediu desculpas; disse que o motorista do Monza é dono da
frota e grosseiro assim mesmo. Seguimos rindo pelo caminho, não
tinha outra coisa pra fazer.
Lembre-se que cegueira
não é sinônimo de pobreza e que um cego tem
os mesmos direitos que você tem de frequentar bons restaurantes,
pegar taxi ou ir a lugares vip. Pra que fique claro: não tenho
nada contra o Monza, muito pelo contrário; o Monza, na minha
opinião é um marco na história da General Motors,
sou fã dele e só falei aquilo pra poder deixar o motorista
do taxi sem graça.
no final da década de 90 eu
namorava uma garota cega e nós resolvemos pegar um
ônibus executivo no centro de Florianópolis. Ao pararmos na
porta do Santa Mônica, o motorista nos disse: - Saiam, este carro
é executivo. - Eu então perguntei porque nós
deveríamos sair ao que ele me disse: - Eu não vou dar
carona pra ninguém. - Eu já um tanto indignado falei: -
Alguém pediu carona, guri? É bom deixares nós
entrarmos numa boa ou eu vou ligar pra empresa e exigir que te ponham no
olho da rua, desde que eu pague tenho direito de usar este transporte e
vou fazê-lo. - O cara resmungou e nós entramos. Quando
saímos eu agradeci a gentileza do motorista e dei uma nota de
R$50,00 pra ele. A passagem era R$0,75 e eu tinha R$1,50 pra pagar a
minha e de minha namorada separado em moedas, mas fiz ele me dar R$48,50
de troco pra deixar de ser bobo.
Novamente a mesma questão:
todo cego é pobre e não tem dinheiro nem pra
andar de ônibus executivo. Isso é completamente irreal, tem
cegos de várias classes sociais, igualmente aos
videntes.
No início dos anos 2000, eu e uma outra namorada,
também cega, resolvemos sair a procura de apartamento
pra alugar. Ao chegarmos na imobiliária Moreira aqui mesmo no
bairro onde moro, fomos acompanhados pelo porteiro do prédio
até o escritório. Quando nos viu, o senhor Moreira falou
ao porteiro: - Leva eles embora, diz que hoje não tem nada pra
dar. - Eu não contei tempo e falei: - O senhor quis dizer que
não tem apartamento de cobertura, seu Moreira? É isso que
estamos querendo, não queremos nem precisamos de esmola sua, pode
ficar tranquilo. - O homem não sabia onde enfiava a cara, pediu
desculpas e se calou, tomando consciência da atitude ignorante e
desrespeitosa que teve conosco. Eu e a gata saímos de lá e
fomos em outra imobiliária, jamais ficaríamos num lugar
onde fomos tratados como esmoleiros por sermos cegos.
Coitado do seu Moreira, esse é tão digno de pena que nem
merece comentários.
No ano de 1999 eu concluí o
primeiro curso de Mecânica Automotiva do meu currículo. Um
professor do curso, o Isaac, assinou seu atestado de ignorância
num dia em que estávamos em plena atividade quando eu resolvi
abrir a porta de um Siena 1.0 seis marchas que estava na oficina do
SENAI aqui de Floripa. Quando eu ía entrar no carro pra
conhecê-lo, o Isaac me chamou tentando distrair minha
atenção e quando eu saí do carro ele fechou e
chaveou a porta. Como a trava era elétrica, as outras portas
também foram trancadas. Eu perguntei por quê ele havia
feito aquilo, por quê não tinha dito que eu não
deveria entrar então. Ele me puchou pelo braço sem dizer
nada e me afastou do carro. Eu exigi que ele o abrice novamente e dei
minha palavra que não entraria denovo se essa era a
preocupação dele. Sabe qual foi sua resposta? - Eu
não posso abrir, perdi a chave. - Eu então falei: - Que
absurdo professor, o senhor não perdeu a chave coisa nenhuma, eu
percebi quando a colocou no bolso esquerdo da calça. - A oficina
ficou em silêncio e o Isaac não sabia o que fazer pra
disfarçar o mico que pagou.
Eu sinceramente não sei
como deram diploma de professor para um cara como o Isaac, mas tudo bem,
coisas de SC. Só é bom você saber que não
deve subestimar a capacidade de um cego, tratá-lo como
criança ou fazê-lo de bobo. Em alguns casos você pode
conseguir, mas na maioria deles os papéis se inverterão e
o bobo da história será você.
Vale ressaltar
que eu só consegui fazer esse curso de Mecânica
graças ao professor Francisco, um cara gente fina de
montão que se dispôz a me ensinar, porque os alunos e a
maioria dos funcionários do SENAI me tratavam como se eu fosse um
ET, só porque eu sou cego e gosto de carro, que coisa!
Relatarei, para finalizar, a situação mais
engraçada que já enfrentei por causa da cegueira: Estava
eu conversando com uma amiga - catarina, claro - sobre relacionamentos
amorosos. A conversa fluía naturalmente, até que a garota
resolveu me dizer: - Vitor, posso te perguntar algo? - Respondi
afirmativamente ao que ela continuou: - Tu não consegues fazer
sexo, né? Quer dizer que namoro pra ti é só
carinho? - Eu mantive o respeito e questionei por que ela achava isso.
Ela então soltou: - Sim né, só pode; como um cego
vai conseguir transar com uma mulher sem enxergar? - Eu então, em
tom de brincadeira séria, perguntei: - Escuta lindinha, tua...
(nome vulgar do órgão sexual feminino) enxerga?
Não, né? Pois é, meu... (nome vulgar do
órgão sexual masculino) também não, tira a
roupa que eu vou te mostrar como eles podem se encontrar rapidinho mesmo
sem um olhar pra cara do outro. - Ela me chamou dos piores
palavrões que você possa imaginar, mas no fim foi uma
gargalhada geral.
Você também pensa que cego
não faz sexo, é? Cuidado, hein?hehehehehe Pare de achar
que cego vive uma realidade diferente da sua. Como eu já disse
aqui, a cegueira não constitue nada além da falta de
visão. A pergunta da minha amiga foi extremamente ignorante, mas
eu adorei minha resposta, de vez enquando penso nisso e me mato
rindo.heheheheehe
Enfim, essas foram algumas situações
discriminatórias pelas quais passei, dentre outras que não
lembro agora, mas a medida que for lembrando irei atualizando esta
seção.
A título de informação
sobre maneiras e tratamentos adequados, segue abaixo um texto sobre
outras deficiências:
Muitas pessoas
não deficientes ficam confusas quando encontram uma pessoa com
deficiência. Isso é natural, todos nós podemos nos
sentir desconfortáveis diante do "diferente". Esse desconforto
diminui e tende a desaparecer quando existem oportunidades de
convivência entre pessoas deficientes e não deficientes.
Não faça de conta que a deficiência não
existe. Se você se relacionar com uma pessoa deficiente como se
ela não tivesse uma deficiência, você vai estar
ignorando uma característica muito importante dela. Dessa forma,
você não estará se relacionando com ela, mas com
outra pessoa, uma que você inventou e não é real.
Aceite a deficiência. Ela existe e você precisa
levá-la na sua devida consideração. Não
subestime as possibilidades, nem superestime as dificuldades e
vice-versa. As pessoas com deficiência têm o direito, podem
e querem tomar suas próprias decisões e assumir a
responsabilidade por suas escolhas. Ter uma deficiência não
faz com que uma pessoa seja melhor ou pior do que uma pessoa não
deficiente. Provavelmente, por causa da deficiência, essa pessoa
pode ter dificuldade para realizar algumas atividades e, por outro lado,
poderá ter extrema habilidade para fazer outras coisas.
Exatamente como todo mundo. A maioria das pessoas com deficiência
não se importa de responder a perguntas, principalmente aquelas
feitas por crianças, a respeito da sua deficiência e como
ela realiza algumas tarefas. Mas, se você não tem muita
intimidade com a pessoa, evite fazer perguntas muito íntimas.
Quando quiser alguma informação de uma pessoa deficiente,
dirija-se diretamente a ela e não a seus acompanhantes ou
intérpretes. Sempre que quiser ajudar, ofereça ajuda.
Sempre espere sua oferta ser aceita antes de ajudar. Sempre pergunte a
forma mais adequada para fazê-lo, mas não se ofenda se seu
oferecimento for recusado pois, nem sempre, as pessoas com
deficiência precisam de auxílio. As vezes, uma determinada
atividade pode ser mais bem desenvolvida sem assistência. Se
você não se sentir confortável ou seguro para fazer
alguma coisa solicitada por uma pessoa deficiente, sinta-se livre para
recusar. Neste caso, seria conveniente procurar outra pessoa que possa
ajudar. As pessoas com deficiência são pessoas como
você. Têm os mesmos direitos, os mesmos sentimentos, os
mesmos receios, os mesmos sonhos. Você não deve ter receio
de fazer ou dizer alguma coisa errada. Aja com naturalidade e tudo vai
dar certo. Se ocorrer alguma situação embaraçosa,
uma boa dose de delicadeza, sinceridade e bom humor nunca falham.