Os que vivem na noite

 

Saem buscando companhia
Alguém para fazer rima
Par, dupla, parceria
Se escudam numa bebida
Pretendendo segurança
Prá convidar a moça prá dança
Depois quem sabe um jantar

Carentes de atenção
Precisando ouvir a própria voz
Que a solidão emudece
Estão à cata de carinho
Um teto que seja ninho
Um revival de paixão

Muitos os que assim se encontram
Enorme a população noturna
São filhos da Lua
Freqüentam a rua
Mas o que querem é ter um lar

Em geral todos trazem

uma bagagem de dor de amor
Muito medo e frustração
Querem amar de novo
Esqueceram como é ter alguém

 para dar bom dia
Que ligue no meio do dia para saber

se aquela dor de cabeça passou

Vão chegando alguns tímidos
Outros esbaforidos
Há também os sedutores
E os machões de carteirinha

Mulheres que chegam em bando
Algumas poucas sozinhas
Maquiagem cobrindo rugas
Meias escondendo varizes
Espartilho segurando barriga e seios
E nem se importam

se o homem que as olha é barrigudo
Tem mais 30 quilos do que deveria
Cheira a naftalina
É careca e tem pivô

Estes seres que buscam na noite

alguém para amar de dia
Alimentam a fantasia

 de um grande amor encontrar
Aceitam a dança, o jantar, a transa
Tecem sonhos que só duram uma noite,

dois ou três dias
Depois volta a agonia
E retornam para a noite
Os olhos mais tristes e cansados
Deram adeus a mais uma ilusão

Dizem-me eles

que querem amar e se entregar
Mas, aprofundando a conversa
Logo denunciam o medo de amar
A falta de vontade

de ao outro se dedicar
Vão assim

ficando uns dos outros conhecidos
Fazem dali seu abrigo
Num bar encontram um lar

 
Magda Almodóvar
Fevereiro/2000

 

 

 

 

 

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