Sonhos que sonhei



Era uma vez,
 uma menina que sonhava ser a Primeira Bailarina do Teatro Municipal do Rio de Janeiro.

Ia às aulas com alegria e excitação juvenis,
na certeza que estava
construindo seu sonho.

Pobre menina pobre!
Nem sequer pode saber se era qualificada para sê-lo
porque teve que abandonar os estudos,
já que seus pais não podiam pagar curso tão caro.

Rica em sua capacidade de criar sonhos,
decidiu ser advogada criminalista
e defender os pobres injustiçados pela injusta sociedade.
Estudou com afinco, leu tudo que lhe chegava às mãos,
observou grandes advogados atuando,
procurou apreender deles o que era visto, ouvido, sentido.

Cresceu, casou, formou-se em Direito
e se viu diante de uma difícil decisão, ser advogada,
ou permanecer à sombra de seu amado marido adorado.
Optou por ser mulher e mãe.

Repetia-se a renúncia, repetia-se a sua vontade de sonhar.
O apaixonado marido a mimava
e ela passou a ser sua advogada de bolso,
aquela que pesquisava, revisava  textos, argüía, replicava,
sinalizava quando ele discursava , seu "ponto ".
E sentiu-se muito feliz por fazer seu amor crescer pessoal e profissionalmente com sua eficaz e discreta ajuda.
Bastava que ele soubesse
o quanto ela era importante e a amasse por isso.

Mãe, atingiu o céu! Viu seus filhos crescerem, alimentou-os, orientou-os, falou de realidades e sonhos, principalmente amou-os mais que a tudo e todos.

Aquela pobre menina pobre sentia-se Rainha
por ser esposa e mãe amada e amante.

Ela nem se deu conta que tinha uma identidade,
e perdê-la passou desapercebido.
Adorava ser a mulher do Dr. Amado e a mãe de cada um dos seus filhos queridos...
Tinha identidade indireta.

O tempo passou mais rápido porque ela estava feliz
e se sentia útil, quase insubstituível.

O amor de sua vida conheceu o sucesso profissional,
os filhos cresceram e ela foi ficando no canto,
tal qual um brinquedo que já não faz rir
os meninos que se tornam adultos.
Para o profissional de renome, ela era ultrapassada,
não tinha nada mais a oferecer.

E agora, menina rica?
O que fazer se você não tem identidade,
vida própria e não é mais útil?
Como criar sonhos do nada?

A pobre menina rica se fez ausência,
mecanicamente cumpria seu papel de menina rica,
mulher do Dr. Sucesso, Mãe do Ano e chorava sem verter lágrimas, pois sabia que ninguém estava interessado em ouvir seus sonhos e a dor de sua frustração.

Foram penosos os anos que precisou para reconstruir seu perfil, recriar sua identidade, tornar-se capaz de sonhar sonhos seus.

Quase insuportável a culpa que sentia por se ocupar de si mesma.
Dolorosíssima a sensação de não ter com quem dividir seus desejos e
cúmplices para fazê-los realidade.

Teimosa menina, hoje mulher madura, escreve seu sentir, descreve suas verdades, revela suas fantasias.
Desnuda-se e se descobre fêmea, feminina, garra e doçura.

Dr. Sucesso e os filhos amados não a reconhecem.
Reagem, sabotam, preferem a Borralheira disponível.
Rejeitam a Princesa Mulher.

Eis que surge um jovem Príncipe
e ela o vê como a possibilidade de uma parceria
baseada em troca e igualdade.
Repetitiva, o apoia, acaricia, insufla sua auto estima,
orienta-o como caminhar a trilha do sucesso.
Conta a ele seus sonhos e se desaponta,
porque o Pequeno Príncipe já se sente tão superior
e a olha com olhos de quero mais só prá mim.

Guerreira mulher madura, fecha-se em si mesma,
chora em silêncio, grita mudamente sua carência,
insiste em seu sonho, se faz solidão.

Eu a conheço e sei ver a estrada que está prestes a percorrer.
Ela ruma a um lugar distante e bem perto daqui,
cujo nome é Esperança, lá ela espera encontrar a si mesma criança, resgatar a fé, o sonho e a dança, cantar (ainda que desafinando), recitar poesias, declamar alegria, ter fé no outro,
no amor, em si mesma e na vida.
Sabe que vai ser difícil, mas vai lutar por um tempo, advogando em causa própria, recuperando seu direito de existir.
Se nada disso conseguir, sei que vai definhar de desejo, morrer lembrando cada beijo, fazer calar o coração
 - cuja metade já deixou de existir porque ela
a cada um que amou deu um pedaço -,
contando belas histórias que o farão parar de bater
sem nem dor sentir.

Eu amo esta pessoa bonita, conheço bem seu interior, será lembrada com carinho, e seus amados então se darão conta que perderam o ninho, chorarão por saber que a mataram por não terem tido a sabedoria egoística  de com ela sonhar seus sonhos de amor.

Adeus querida,
eu sonhei junto com você,
pena ser só seu coração e não ter poder
para  realizar o pouco que pedia.

Eu juro, morrerei com você!



Magda  Almodóvar
01 de setembro de 2000

 


foto by Uly Riber

 

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