Gata
Guerreira
Mulher
... Porta Voz dos Amantes
As relações são sempre algo novo?
Vivendo uma relação
com características de diferente e diferenciada,
percebo repetições... pequenas mesmices...
erros comuns em todas!!!
É, nada é novo.
Tudo se repete mudando o traje.
Devo ser eu.
Dedicação excessiva, zelo diário, carinho fluindo,
desejo de agradar, vontade de satisfazer...
e lá começa a sensação de esvaziamento,
as mesmices do dar e não receber
que destroem o sentimento que eu vivia...
Será que o feedback em amor não existe?
Serão os homens de uma mesma massa sem fermento?
Serei eu uma sonhadora
tentando encontrar quem veja no receber
um estímulo para dar?
Tempos modernos...
quanta solidão e quanto desejo de encontro!!!
Homens solitários, mulheres sozinhas,
todos querendo fazer par, amar, se dar,
mas falta um quê, um não sei o que, um jeito,
um gesto, um passo, um laço.
E assumem um ar de fracasso, uma amargura,
um olhar vazio e desconfiado.
O que terá acontecido?
O que mudou?
Quanta insatisfação nos tempos modernos!
Acabou o Romantismo - hoje isto é babaquice.
Findou a Sedução - hoje isto é dispensável.
Terminou o Namoro - hoje isto é pieguice.
Tempos modernos...
quanta objetividade e quanto desencanto!!!
Tenho gritado tanto que a voz já me escapou.
Tenho suplicado demais,
assim a súplica se fez frustrante dor de solidão.
Grito, súplicas, lágrimas,
desabafos... tudo sons de pedido de socorro.
Cri na sensibilidade alheia e na troca
...me perdi no vácuo.
Apostei mais no outro que em mim e minha intuição
...fracassei.
Hoje quem se faz presente
é a certeza que minha loucura é sábia lucidez.
Abandonei meus sonhos
e ajudei aos que amo a tornar seus sonhos realidade.
Quando quis deles ajuda para construir meus sonhos
...fiquei só.
Lembro-me agora de versos realistas:
"... Sonho que se sonha só é sonho.
Sonho que se sonha junto é realidade."
Quanta verdade nestas poucas palavras!
Os que amo tem sonhos realizados
porque sonhei seus sonhos também.
Eu nada tenho realizado porque sonhei só...
tive sonhos, hoje me debato em amargos pesadelos.
Esta a voz da Gata menina
faminta de afeto e cumplicidade.
Do outro lado do quarto alguém grita com veemência:
"Pare de se lamuriar, frágil fêmea!
Estou aqui para garantir que continue lutando por seu espaço,
sua capacidade de sonhar, suas realizações!
Este amor submisso e de espera
nunca deu resultado...
é amor melado e altruísta
que só cabe em romance trágico que termina em desamor!
Saia de cena, faça poema, grite, esbraveje,
revele-se sem pudor ou medo,
só assim os outros a perceberão!
I d e n t i d a d e, feminilidade, sensualidade, decisão,
conforto na solidão é que a farão existir!
Levanta, temos muito a construir."
Esta a voz da Guerreira imbatível.
Uma voz doce, persuasiva, envolvente,
pausadamente excitante, retrucou:
"Ah! Fêmeas e Guerreiras sozinhas, só fazem confusão!
Serei o elemento agrupador.
Quero vocês amalgamadas, não me façam compartimentada,
sou cada uma e ainda muito mais.
Sou fêmea meiga-menina, sou fome de fazer amor,
sou amiga e cúmplice, sou guerreira inflamada,
mas também sou moderada, sensual,
racional, amante, amada, sou a junção de nós todas,
sou intuição, força, ternura e coragem
...sou Mulher."
Que alívio! Agora me reconheço, sou fim, meio e começo,
choro e gargalhada, renúncia e batalha, coerência e
loucura,
sou mil e não mais que uma,
sou Magda Fêmea, Guerreira...
sou Magda Mulher.
Escrevo com minha alma nua e despudorada
umas poucas histórias do velho
tempo e muito do novo pedaço de mim.
Serei uma Porta Voz dos Amantes!
Magda Almodóvar
18 de Janeiro de 2001

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