O que que eu faço com a lenha?


Fim de amor...
Fim de nós...
Fim de sonho...

Amor e Paixão se amavam com carinho e uma sintonia que quase se
podia chamar de melodia. Era musical este amor.

Começaram atraídos pelo som de um trumpete
e juntos vibraram com ao apresentação de Paulinho.

Ele comprou o CD com "aquela" música
que fez fundo musical para o amor que nascia.

Trocaram juras de amor, afetos, entrega, carinhos, sempre com música no ar.

Fizeram planos, viajaram, conversaram desnudando seus corações,
descobriram o prazer que seus corpos sentiam ao fazer amor...
e havia sempre uma música
marcando cada etapa deste relacionamento que virou casamento.

Não havia um documento que comprovasse esta união, existiam singelas
alianças de prata que só os dois sabiam o significado.. e música , claro.

Paixão estava em "estado de graça"!!! 
Amor era um homem seguro de si...
amava pela primeira vez na vida.

Saborearam cada momento, se fizeram "acorde",
iniciaram uma canção de amor eterno.

Um dia Amor sentindo-se sufocar
e vendo a vontade dos dois de estarem sempre juntos como prisão,
e supondo que existia alguém mais musical que Paixão,
rompeu com ela e foi buscar a novidade em outra mulher.

Paixão ficou triste, só, com frio e medo.
Desesperou-se com o vazio da ausência do seu amor.
Chorou, gritou surdamente sua dor, parou de comer,
chegou mesmo a ficar doente de saudade.

Enquanto isto Amor passeava com outro alguém,
visitava os lugares que antes freqüentava com Paixão,
orgulhoso, dizia para todos que Paixão já nada significava para ele
e que a mulher que o acompanhava seria seu amor definitivo.
Também para Paixão disse isto!!!

Paixão fechou seu coração,
desmanchou a casinha que ambos haviam escolhido com carinho,
chamou a si mesma a responsabilidade de construir uma
nova vida sozinha, como Amor friamente sugeriu.

Depois de 3 semanas de passeios, viagens, dedicação exclusiva e planos,
Amor percebeu que a novidade ficou velha,
que a Princesa era uma sapa...
sentiu falta de sua Paixão... pediu para voltar.

Paixão não ouviu aquela vozinha enjoada
que dizia incessantemente para não aceitá-lo de volta.
Sucumbiu no abraço do seu homem-amor.

É tão bonito ver o amor vencer!
É sublime exercer o perdão! É a vitória da ternura!

Tudo voltou a ser musical na vida de ambos.

Preocupado com o frio que Paixão sentia, 
Amor tratou de apanhar lenha para aquecê-la.

Quanta beleza e dedicação neste retorno.... mas...
Amor que teve 3 semanas de disponibilidade, jantares, danças e viagens para oferecer à outra, quase não tinha tempo para Amor.
No primeiro fim de semana-Lua de Mel dos amantes,
ele assumiu compromissos e não iam poder viajar como combinaram.
É, ele havia gasto todo o tempo e todo vigor com a "novidade"
e agora Paixão teria que se contentar com uma visita esporádica.

Estupefata ela timidamente perguntou:  - Não vamos viajar?
Ele respondeu: - Não posso tenho trabalho a fazer!

Paixão se sentiu tão só!
Percebeu que ele não sabia ainda o quanto a amava
e que amar precisa de dedicação e cuidados.
Entendeu que ele dava para
as novidades o que deveria dar para sua amada.

Insistiu na viagem. Nada, ele estava irredutível.

Paixão então resolveu fazer Lua de Mel consigo mesma.

Sabem o que aconteceu????

Amor ficou preocupadíssimo com algo que o incomodava...
a lenha que ocupava espaço em sua casa.

Simplesmente perguntou: - O que eu faço com a lenha?

Ah! Amor!
Pena você não ter entendido
a importância de uma outra espécie de lenha!
Aquela que aquece a alma, nos faz calma, preenche o coração,
nos faz poderosos, nos torna indestrutíveis, motiva canção.
Aquela que todos buscam, pois nela reside o prazer e a razão de viver...
a lenha chamada Amor, que faz labaredas de cumplicidade,
carinho, alegria, fé, força, paixão, lágrima e tesão.
A outra?
Joga na estrada, talvez numa encruzilhada,
aqueça a próxima namorada, ela é fraca em combustão.



   
Magda Almodóvar
         27 de Julho de 2000

 

 

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