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"A DIVINA INSPIRA��O DE SUAS
M�SICAS..."



O coral

N�o resta d�vida de que, no esp�rito de Johann Sebastian, o mais humilde dos organistas de aldeia tinha mais dignidade que o mais sofisticado dos m�sicos de corte. Acontece que Bach n�o escreveu sua m�sica religiosa como se estivesse escrevendo uma m�sica qualquer. Nela, a f� se exprime de maneira viva e direta.

Um, de seus alunos, Gottlieb Ziegler, comentava: "Quanto � maneira de tocar o coral meu professor, o mestre de capela Bach, ensinou-me de tal forma que n�o me limito a tocar os corais simplesmente seguindo a m�sica, mas inspirado no senti-mento que indicam as palavras:" Ouvir um coral sem compreender-lhe a mensa-gem � perder uma parte de sua for�a e de sua beleza: n�o se pode deixar de, pelo menos, saber disso.

O coral est� no cerne da obra de Bach porque est� no cerne do of�cio luterano. Tradicionalmente, o organista devia acompanhar a multid�o dos fi�is, mas tam-b�m preludiar. A literatura alem� para �rg�o anterior a Bach � de uma infinita riqueza nesse dom�nio e chegou a seu ponto culminante com os cerca de duzentos corais para esse instrumento escritos pelo Kantor de Leipzig.

A cantata que Bach compunha semanalmente para o of�cio lit�rgico do do-mingo era, ela tamb�m, constru�da sobre o tema de um coral. � este que serve de fundamento ao grande coro inicial e, n�o raro, a uma parte das �rias para solistas que se seguem. Para apreciar a m�sica religiosa de Bach � preciso compreender que o coral era m�sica popular na Alemanha luterana do s�culo XVII. Estava ligado a uma �poca, a uma festa, a um sentimento particular: Natal, P�scoa, a Quaresma, o Advento, a festa da Reforma, a a��o de gra�as, a penit�ncia, a alegria, a morte. A evoca��o da melodia de um coral fazia vir as palavras � mem�ria dos fi�is. Era um g�nero vivo e simples.

O g�nio de Bach baseou a expressividade de sua mensagem musical no princ�-pio popular de Lutero, dele utilizando tudo o que lhe permitia sua "gram�tica" musical. O resultado � prodigioso. Bach dispunha como que de um novo registro de "chaves"; imediatamente intelig�vel para todo luterano de seu tempo, gra�as ao imenso repert�rio de corais. Alguns exemplos bastar�o para fazer sentir que di-mens�o e que atualidade Bach podia dar ao que se deve chamar de sua medita��o musical.

A Cantata BWV 127 foi composta para um domingo especial, em que se lia uma passagem do Evangelho que conta a hist�ria do cego de nascen�a. Jesus ia passan-do, o cego exclamou: "Filho de Davi, tem piedade de mim:" Bach escolheu como tema do coro inicial de sua cantata o coral Herr Jesu Christ, wahr Mensch und Gott [Senhor Jesus Cristo, verdadeiro homem e verdadeiro Deus], o que � uma glosa, um coment�rio � afirma��o do cego.

A curta frase circula em toda a extens�o desse longo coro, como uma afirma��o incessantemente repetida. De repente, Bach en-xerta nesse tema, por um sofisticado contraponto, um segundo motivo que qual-quer fiel reconhece na mesma hora: o coral O Lamm Gottes, Erbarm ilich unser [Cordeiro de Deus, tende piedade de n�s] � o coment�rio � segunda parte da frase do cego; e os dois temas v�o mesclar-se um ao outro durante todo o restante do coro.

E, como se esse simbolismo j� n�o fosse suficientemente claro, eis que apa-rece um terceiro motivo, o do coral da Matth�uspassion [Paix�o segundo S�o Mateus], sugerindo que esse Cordeiro de Deus, verdadeiro homem e verdadeiro Deus, � aquele que morre na cruz. No in�cio da Matth�uspassion, o imenso coro de abertura p�e em cena, como o coro de uma trag�dia grega, a lamenta��o das filhas de Sion, num grande di�logo pat�tico - Kommt, ihr T�chter... Sehet... Den Br�utigam ("Venham, vejam o noi-vo") - Wie? ("Como?") - e eis que aparece o motivo do coral O Lamm Gottes: "Alswie ein Lamm" ("Como um cordeiro").

Assim, o coral permite que Bach d� a qualquer m�sica o valor de uma prece, e de uma prece familiar. Ele se vale disso para conseguir efeitos de extraordin�ria efic�cia. Na Matth�uspassion, Jesus afirma "um de v�s me trair�": Coro dram�tico dos ap�stolos, repetido onze vezes (eles s�o onze, porque Judas se cala): Herr, bin ich's? ("Senhor, sou eu?").

A um acorde interrogativo, segue-se o sil�ncio - e logo, em vez da resposta esperada, o coro entoa o coral Ich bin's, ich sollte b�ssen ("Sou eu"). De um momento para outro, cada assistente presente na igreja sente-se pessoal-mente respons�vel pela morte de Cristo... S� depois disso � que o relato prossegue: Bin ich's, Rabbi? - Du sagest's ("Tu o disseste").


Maestro Jean  Joluvier
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