Pernicioso Condicionamento

Segundo os padrões usuais, o vício é uma espécie de condicionamento que prende o indivíduo a determinada prática nociva. Para o fumante, por exemplo, o cigarro é uma necessidade tão premente quanto o dormir ou comer, porquanto os elementos constituintes do fumo, principalmente o alcatrão e a nicotina, gerando reações orgânicas condicionadas, provocam mal-estar, sempre que desaparecem da circulação sanguínea.
A iniciação no vício é quase sempre um problema de auto-afirmação. Para o adolescente, tirar o cigarro da carteira, levá-lo aos lábios, riscar o fósforo e expelir a primeira baforada, é um ritual que lhe dá segurança e o faz sentir-se "gente", principalmente quando está sozinho em lugar público.
Por isso, suporta corajosamente o gosto amargo e a tentação de tossir. Depois, acostuma-se e chega até a sentir algum prazer. Mas logo vem o condicionamento e o fumo torna-se indispensável. Sem o cigarro, sente-se inquieto, nervoso. Completa-se o ciclo, que começou no desejo de auto-afirmação e terminou na necessidade.
Acresça-se que o vício é também um problema de compensação psicológica, em que o indivíduo procura, mergulhando no domínio das sensações, atender sua fome íntima de paz. Todavia, este é o pior caminho, pois, o vício é um deus insaciável, que exige plena submissão dos "fiéis", transformando-os em autênticos escravos.
Todo viciado é um "suicida inconsciente" e ao desencarnar, enfrentará problemas difíceis de adaptação, pois, além do condicionamento físico há o condicionamento espiritual. O Espírito do viciado experimenta crises angustiantes, atormentado pela necessidade de álcool, fumo, psicotrópico, tóxico ou qualquer outra viciação cultivada na Terra. Não raro, acabará perseguindo companheiros de infortúnio, ainda encarnados, a fim de que, por um processo de associação psíquica, experimente as sensações desejadas...
O viciado sempre renascerá com limitações físicas. O alcoólatra terá problemas gástricos, fígado debilitado... O fumante terá propensão às moléstias do peito: bronquite, asma, enfisema... O toxicômano ressurgirá com limitações da inteligência e fragilidade nervosa...
Um único "vício" nos é lícito e proveitoso cultivar: o "vício" de praticar o Bem, que começa quando procuramos esquecer um pouco de nós mesmos e se consolida quando aprendemos a servir...
Então superemos, em definitivo, a tendência humana de procurar nos vícios da Terra a ilusória satisfação de nossos anseios de paz e conforto, sempre sucedida de inquietações e desequilíbrios.


(extraído de "Temas de Hoje, Problemas de Sempre", de Richard Simonetti, págs. 179-181)

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