Tudo Pela Herança
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Capítulo 2 - Os Herdeiros
“Ótimo, maravilhoso, não poderia estar mais perfeito”.
- Tudo bem com você, Kagome? – perguntou Sango. – Você está
com uma cara esquisita...
Kagome fitou Sango com o rosto vermelho. Aquela era a pergunta mais idiota
que poderia ouvir naquele momento. Estava há mais de quatro horas
esperando na sala fria de uma delegacia e Sango ainda tinha coragem de perguntar
se ela estava bem.
- Eu estou bem, estou ótima! – respondeu irritada. – MELHOR QUE SE
ESTIVESSE EM UMA PRAIA NO CARIBE!!
- Kagome, não precisa ficar assim. – Sango sorriu. – Não é
como se estivéssemos sendo acusadas.
- Sango! – Kagome fitou a amiga como se ela tivesse ficado louca. – Nós
estamos esperando aqui há horas!! Não sabemos o que eles querem
de nós, não sabemos se estamos com problemas, não sabemos
de nada! Como é que você consegue ficar tão calma??
- Eu não matei a senhora Kaede, ninguém matou, ela apenas engasgou
com um dos canapés. Estávamos só cumprindo a nossa obrigação,
não é? Veja pelo lado bom, pelo menos não estamos trabalhando.
Kagome respirou fundo e afundou na cadeira. Nunca iria entender Sango. Elas
estavam em uma sala fria de delegacia, sentadas em cadeiras desconfortáveis,
sem receber nenhuma informação sobre se estavam ou não
com problemas já há mais de quatro horas e a amiga agia como
se estivessem realmente descansando em cadeiras de praia à beira mar.
Se não a conhecesse desde que eram crianças, desconfiaria que
ela realmente tinha ficado louca com a visão daquela senhora morta
no meio da sala. Ah, mas uma coisa era certa: ela não ficaria ali
a noite inteira, mas de jeito nenhum.
Levantou-se rapidamente com a intenção de gritar por alguém
quando um homem usando o fardamento policial apareceu.
- Eu sinto muito por fazer com que esperassem tanto, senhoritas. – disse
ele com o tom de voz de alguém que estava apenas cumprindo uma obrigação
enfadonha. – Nós estávamos interrogando as pessoas presentes
na festa.
- Claro, primeiro os ricos esnobes, não é? – explodiu Kagome
e Sango teve que segura-la para que não avançasse no policial.
O homem ignorou o gesto da garota e continuou:
- Não há dúvidas que tudo foi um infeliz incidente.
A velha engasgou e morreu, mas parece que alguma daquelas senhoras histéricas
gritou que a comida estava envenenada e acabou causando pânico na festa.
- Sim. – concordou Sango sorrindo, ainda segurando os braços de Kagome.
– Mas espero que tudo tenha sido resolvido satisfatoriamente.
- Sim, sim... vocês podem ir agora.
- Obrigada. – Sango agradeceu e empurrou Kagome para fora da delegacia. A
garota ainda estava muito irritada, seus olhos pareciam exalar faíscas
na direção do policial. – Vamos embora, Kagome, você
viu que já está tudo bem.
- Tudo bem??? Você viu o descaso com que ele nos tratou???
- É melhor irmos para casa, já passa das onze e a sua mãe
deve estar preocupada.
- Onze???
Kagome olhou para o relógio de pulso e dessa vez foi ela a puxar Sango
e começar a correr em direção a parada de ônibus
mais próxima.
Com os olhos semicerrados e a mão trêmula de cansaço,
Miroku vasculhou o bolso em busca das chaves para em seguida tatear a fechadura
até finalmente conseguir abrir a porta. O apartamento – se é
que aquele cômodo pequeno e desarrumado podia ser chamado assim – estava
completamente iluminado e com uma garrafa de cerveja na mão, rodopiando
na frente do televisor, estava Inuyasha.
- Venha, Miroku. – o jovem de cabelos compridos puxou o irmão pelo
braço para que dançasse com ele. – Hoje é um dia especial,
nós temos mais é que comemorar.
Miroku piscou três vezes antes de soltar-se e recuar de volta para
a porta. Esfregou os olhos com força até sentir-se mais ou
menos desperto e olhou para o outro com desconfiança e um certo receio.
- Você está louco, Inuyasha?? – perguntou mantendo a expressão
confusa. Talvez finalmente os anos de sedentarismo tinham lhe subido a cabeça.
Em resposta recebeu apenas uma gargalhada animada.
- Eu sabia que não devia te deixar aqui tanto tempo vendo televisão
e bebendo. – Miroku arrancou a garrafa de cerveja das mãos de Inuyasha
rapidamente. – É melhor me dar um ótimo motivo para eu não
te levar direto para um psiquiatra.
- Ouça Miroku. – Inuyasha o empurrou pelos ombros até que se
sentasse na única poltrona do lugar e começou a explicar-se.
– Eu estava dormindo, é verdade. Você sabe que eu sempre adormeço
depois da terceira cerveja...
- Terceira garrafa?
- Talvez tenham sido três caixas... mas caixas pequenas! Bom,
isso não vem ao caso. O que eu quero dizer é que acordei com
o jornal da manhã. Você sabe o que eu penso desses noticiários,
uma perda de tempo. Nunca se vê nenhuma notícia boa, mas hoje...
– nesse ponto Inuyasha afastou-se com um grande sorriso, o que era muito
estranho vindo dele que estava sempre de péssimo humor. – Hoje foi
diferente! Você lembra da festa da velha Kaede? A de ontem à
noite na qual nós não estivemos?
- Bom, nós não estivemos lá, mas... sim, claro, eu me
lembro.
- No meio da festa. – ele mal podia conter o riso. – A velha Kaede conversava
com sua preciosa neta e seus convidados esnobes enquanto comia um abençoado
canapé...
- Isso saiu no noticiário matutino? – Miroku estava mais confuso ainda.
Inuyasha riu mais uma vez agora segurando o estômago para não
começar a gargalhar e interromper a explicação na metade.
- Espera, ainda não contei o melhor. – disse ele conseguindo a atenção
de Miroku. – A velha engasgou com o canapé e... morreu.
Miroku esbugalhou os olhos em uma expressão de completa surpresa.
- Está dizendo que tia Kaede...
- Bateu as botas, abotoou o paletó...
- Isso é terrível. – disse Miroku agora com o rosto entre as
mãos. – Nós não éramos muito íntimos,
mas ela era nossa tia. – ele fitou Inuyasha com um olhar de pura censura.
Kaede podia não ter sido a melhor tia do mundo, mas divertir-se com
a morte dela era algo inaceitável.
- Por que está me olhando desse jeito? – perguntou Inuyasha recuperando
o costumeiro mal humor. Esperava que Miroku ficasse tão satisfeito
quanto ele, mas pelo visto acontecia exatamente o contrário. – A velha
morreu e a Kikyou não é vista desde o dia da festa.
- A Kikyou desapareceu???
- Sim, foi o que disseram. – ele sorriu novamente. – Você sabe o que
isso significa?
Miroku manteve o ar de tristeza, mas agora um brilho de interesse tomava
conta de seus olhos.
- Nós somos os únicos parentes vivos?
- Nós somos os únicos parentes vivos!!!
- Como é que é???
Kagome apertou o telefone até o sangue fugir-lhe das pontas dos dedos.
Não podia ter ouvido bem, podia? Depois de todo o transtorno pelo
qual tiveram que passar durante e depois da festa, depois de todas àquelas
horas na delegacia, depois de tudo não seriam pagas??
- Sinto muito, Kagome, eu entendo que esteja chateada, também estou.
- disse Sango do outro lado da linha. – Com a morte daquela
senhora, todo o dinheiro dela foi deixado para a neta que ninguém
sabe onde está. Só podemos esperar que ela apareça logo
para resolver isso com a empresa... Está me ouvindo, Kagome?
- Estou... – Kagome respondeu friamente. Estava furiosa com a notícia,
mas não queria descontar em Sango.
- Se você precisa muito desse dinheiro, talvez eu possa te emprestar
um pouco...
- Não! Está tudo bem... eu só não fico muito
satisfeita com a idéia de trabalhar de graça.
- Claro. – Sango pareceu mais tranqüila. – Eu tive
medo que você quisesse fazer alguma bobagem levada pela raiva.
Fico feliz que esteja mais conformada.
“Conformada...”, Kagome pensou, “pois sim...”.
- E que tipo de bobagem você pensou que eu pudesse fazer?
- Ah, sei lá... – Sango riu. – Incomodar os parentes
daquela senhora por exemplo. Parece que ela tem dois sobrinhos que também
seriam herdeiros em potencial...
- É mesmo? – Kagome perguntou fingindo desinteresse. – E posso
perguntar como você sabe disso?
- Eu ouço muitas coisas no trabalho, ora... Quando fui à
sala do dono da empresa perguntar sobre o pagamento, ele disse que tinha
pensado em cobrar dos sobrinhos, mas acabou desistindo.
- Desistindo por quê?
- Não sei. Isso eu não perguntei.
Kagome ficou em silêncio pensando no que Sango acabara de falar.
Então a velha tinha dois sobrinhos? Provavelmente tão ricos
e esnobes quanto ela e a neta. Mas por que não quiseram cobrar
as despesas da festa dos dois?
- Kagome, você está ai?
- Sim... eu preciso desligar... prometi para a minha mãe que buscaria
Souta e Shippo na escola.
- Kagome...
Sem dar resposta, Kagome desligou o telefone e correu para pegar um dos
jornais do dia anterior que falavam sobre a morte de Kaede. Passou
os olhos rapidamente sobre a notícia, tinha certeza que citava qualquer
coisa a respeito doa parentes da falecida.
- Onde está... – ela passava as páginas nervosamente em busca
de alguma indicação de onde os tais sobrinhos viviam. O jornal
tinha feito uma matéria gigantesca sobre a vida da senhora Kaede e
seu patrimônio que agora pertencia à única neta, Kikyou.
Tinha que haver algo que a ajudasse... – Encontrei...!
O que ela procurava estava em uma nota breve onde falava dos parentes vivos
aspirantes a herdeiros. Além de Kikyou havia os tais dois sobrinhos
que, segundo o jornal, viviam em um bairro afastado do centro que Kagome
conhecia apenas de nome. Era estranho dois homens ricos viverem em um lugar
que tinha fama de antro de marginais, mas isso não a intimidou. Ela
precisava de dinheiro para voltar a estudar e ter uma chance de mudar de
vida e aquele pagamento ajudaria muito.
Sem pensar duas vezes, pegou o casaco pendurado perto da porta, algumas moedas
para o transporte e saiu sem nenhuma intenção de voltar de
mãos vazias.
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