Reencontro
Dedicado à Juliane.chan
Feliz Aniversário um pouco atrasado, Juli. Eu queria escrever algo para você, mas sabe como sou ruim com fanfics de SS. É um Kurama/Botan, mas espero que goste. ^_^
A
noite caiu sobre a cidade, trajando o manto cinza do inverno. Os sons das
pessoas, apressadas com seus afazeres diários, foi logo substituído pelo canto
estridente dos grilos. A rua estava completamente deserta quando a fileira de
luzes amarelas no alto dos postes começou a acender-se, uma a uma. Um cachorro
de rua passou cambaleando na calçada, o apito de uma sirene de polícia ao longe
soou para logo desaparecer, então foi a vez dela. A figura
da jovem flutuando sobre um remo surgiu por entre as nuvens e pousou bem no meio
do cenário, passando a segurar o incomum meio de transporte com um olhar que
refletia decisão mesclada a uma ponta de tristeza.
Ela
deu dois passos para frente antes que suas mãos estivessem livres, o objeto que
carregava tendo desaparecido como se jamais tivesse existido. Olhou em volta,
para as casas iluminadas de onde partiam fragmentos incompreensíveis de
conversas em todos os tons. Aquele seria o seu mundo agora.
Com
um sorriso suave nos lábios, Botan começou a andar mais depressa.
-o-o-o-o-o-
Kurama
despertou repentinamente de mais um daqueles sonhos. Tinha sido tão real dessa
vez. Ela estava caindo lentamente, os cabelos soltos espalhando-se pelo ar
enquanto se aproximava de seus braços estendidos. Ele teve um vislumbre de
quando tivera o mesmo sonho outras vezes, dela desfazendo-se em pétalas de
rosas antes que pudesse tocá-la. Dessa vez, porém, tinha sido diferente. Ao
invés de simplesmente esperar, ele tinha saltado na direção dela e a segurado
antes que qualquer coisa pudesse acontecer. Depois, ao abaixar os olhos, ela
ainda estava lá, tão real quanto sempre fora.
O
rapaz levantou-se da cama e foi até a janela. Tinha adormecido enquanto lia e
agora já era noite. A rua estava vazia e silenciosa, mas podia ouvir o barulho
da televisão no andar de baixo. Os pais e o irmão deviam estar vendo o programa
de auditório de todas as noites. Olhou para o relógio na parede sem intenção de
descer. Sete horas. Passou as mãos pelas roupas amarrotadas e depois pelos
cabelos. Olhou-se no espelho e, achando-se decente, saltou pela janela
agilmente até se encontrar no jardim.
Caminhar
à noite por aquela parte da cidade era um de seus passatempos favoritos. O
silêncio costumava predominar, dando voz a seus pensamentos. Olhou em volta,
vendo o quanto a paisagem havia mudado naqueles quatro anos, desde que iniciara
o hábito de fazer aquele percurso a mesma hora todas as noites. Havia mais
casas e menos árvores e não tantos conhecidos quanto antigamente. A rotina de
visitar Yusuke ou Kuwabara pelo caminho também não fazia mais sentido, uma vez
que ambos tinham seguido suas vidas longe dali. A única coisa que ainda fazia,
quase inconscientemente, era olhar para os galhos das árvores remanescentes,
esperando ver Hiei adormecido ou encarando-o curiosamente. O amigo agora devia
estar feliz em algum lugar do Makai, vivendo a vida
que sempre desejara, em um mundo onde a paz nunca seria completa.
Kurama
suspirou, aumentando o ritmo dos passos. Não demorou para que o bairro ficasse
para trás e ele começasse a se aproximar do centro. Logo passaria pelo seu
antigo colégio e estaria no parque próximo, o lugar preferido dos estudantes
para encontrar-se com os respectivos grupos depois das aulas.
Apesar
das mudanças sutis, o caminho ainda era o mesmo e era inevitável começar a se
lembrar o porquê de estar ali, de como tudo começara quatro anos atrás.
-
Você não vai dizer nada?
Eles
estavam sentados embaixo da árvore, um de costas para o outro. Nos últimos
minutos Kurama tinha feito um grande esforço para contar a ela sobre seus
sentimentos. Ele podia se considerar uma nova pessoa agora, desde que decidira
que deixaria seu passado como Youko Kurama para trás, mas as lembranças do
ladrão lendário ainda o assombravam e, por mais que desejasse ser mais humano,
sua máscara de frieza e indiferença jamais poderia ser abandonada por completo.
-
Você me ama? – Botan perguntou, finalmente. Pela primeira vez desde que se
conheciam usava de um tom de voz completamente sério.
-
Eu estou apaixonado por você – ele respondeu, chutando-se mentalmente por
pronunciar aquilo como se estivesse falando uma banalidade qualquer.
-
E qual é a diferença?
Ele
pensou um instante, mas não sabia o que dizer além de que nunca estivera
apaixonado por ninguém antes de modo a ter oportunidade de pensar sobre aquilo.
Botan, porém, continuou em silêncio, esperando uma resposta. E ele tinha
impressão de que o que dissesse ia fazer toda a diferença no que ela lhe
responderia.
-
Nenhuma – disse simplesmente, tentando passar segurança, mas ainda sem ter
certeza.
O
silêncio voltou a imperar entre os dois, quebrado apenas pelos sons de suas
respirações. Botan moveu-se como se estivesse desconfortável com alguma coisa,
então deu de ombros.
-
As pessoas se apaixonam o tempo todo. Por um objeto, por uma música, por um
trabalho... Por uma pessoa que chame atenção de alguma maneira. Quando você se
apaixonou por mim?
Foi
a vez de ele dar de ombros.
-
Não tenho certeza.
-
É assim que acontece. Em um instante você está apaixonado e não tem certeza de
como aconteceu, no outro você não está mais e também não sabe quando o
sentimento foi embora.
-
Botan, eu não estou brincando.
Ele
virou-se para ela e segurou-lhe o pulso fazendo-a voltar-se para ele. A
expressão dela estava quase impassível, a única exceção de uma pequena ruga na
testa.
-
Nós nunca conversamos muito...
-
Mas eu sempre prestei atenção em você.
-
Eu nunca percebi nenhum sinal disso.
-
Esse sou eu.
-
Kurama, você me ama? – ela perguntou novamente, dessa vez olhando-o nos olhos.
Apesar
de sentir-se capaz de dizer exatamente o que ela queria ouvir, ele decidiu ser
sincero.
-
Eu estou apaixonado por você.
O
parque não tinha mudado em nada, inclusive a árvore continuava lá. Toda vez que
a via sentia uma pontada de desprezo por si mesmo, imaginando o que teria
acontecido se tivesse dito simplesmente que sim. Tudo naquela época era uma
enorme confusão, mas agora ele tinha certeza de não seria mentira. Se fosse
apenas algo que desapareceria tão de repente quanto começara, não teria
continuado fazendo o caminho até ali quase todos os dias sem nem mesmo precisar
pensar.
As
nuvens acinzentadas estavam se dissipando agora e algumas estrelas já podiam
ser vistas. Ele gostava de contemplá-las, lembrando de quando era criança e sua
mãe dizia que as estrelas eram janelas para o céu. O que ela estaria fazendo agora? Seria tão
fácil apenas ir até lá... Mas não sem uma resposta. Não precisava de uma
segunda chance se fosse estragar tudo novamente.
Caminhou
até a árvore e deitou-se sobre a grama, debaixo dela. Fechou os olhos,
lembrando-se de seu último encontro com Botan.
-
Yusuke não é mais detetive sobrenatural, não precisa mais de mim como
assistente. Hoje é o meu último dia aqui com vocês.
Ela
falava isso com um sorriso, mas ele sabia que ela estava sofrendo. De todos os reigens que já tinha tido a oportunidade de conhecer, Botan
era a única que amava o Nigenkai como se fosse seu
próprio mundo. Ali ela não tinha que se preocupar com tantas formalidades ou em
ser aquela que guia os espíritos dos seres humanos para o julgamento. Ela era
apenas uma garota como tantas outras, vivendo.
-
Eu não quero que você vá.
-
Lá é a minha casa.
-
Sua casa é onde estão os que você ama.
Kurama
pensou em falar dele mesmo, de como não trocaria a vida que tinha agora para
retornar ao seu lugar de origem. Chegou a dar forma as
palavras, mas acabou percebendo que não precisava, devia ser exatamente naquilo
que ela estava pensando.
-
Você pensou no que eu disse?
Ela
hesitou, mas balançou a cabeça.
-
Eu tenho que ir me despedir dos outros agora.
Fez
menção de se afastar, mas Kurama a segurou pelo braço.
-
Não me deixe sem uma resposta, Botan. Vou esperar você aqui mesmo.
Ele
a soltou e a observou afastar-se até sair de vista. Sentou-se no mesmo lugar,
acompanhando sem muita atenção o movimento em volta enquanto não a via reaparecer.
Ela
nunca voltou. E ele continuou esperando.
Quatro
anos. Quanto tempo mais ele esperaria? Até o dia em que morresse e ela viesse
para conduzi-lo a presença de Koenma? Suspirou resignado. As estrelas tinham
desaparecido novamente e outra vez se via o acinzentado de nuvens que ameaçavam
um temporal. O vento tinha ficado um pouco mais forte e ele não precisava olhar
para o relógio para saber que já fazia mais de uma hora desde que saíra de
casa. Logo sua mãe iria até o quarto e, não o encontrando lá, começaria a se
preocupar.
Sentou-se
desajeitadamente, sem se importar em tirar a grama presa nos cabelos. Talvez já
fosse o momento de pensar em sair de casa, alugar um lugar ali perto, de onde
pudesse ver o parque e alimentar um pouco mais a sua pequena obsessão.
Tratou
de se levantar, dessa vez livrando-se da grama em suas roupas. Não queria
despertar o interesse dos pais sobre aquele lugar. Não gostava de falar a
respeito. Era a única coisa desde que passara a ser apenas Shuuichi Minamino
que considerava unicamente sua. Virou-se para sair, dando uma última olhada em
volta e lamentando-se intimamente por mais uma noite de espera em vão quando a
viu. Botan estava parada ali, no pequeno playground, bem ao lado dos balanços.
Ela parecia um fantasma com a pele muito branca e os cabelos soltos encarando-o
com aquela mesma expressão quase impassível de tanto tempo atrás.
-
Você realmente falava sério quando disse que esperaria – ela falou enquanto se aproximava, um sorriso se formando nos lábios.
Uma
série de pensamentos assaltou Kurama, inclusive a lembrança do sonho com o qual
tinha despertado. Seu coração perdeu o ritmo por um instante, mas ele logo
recuperou o controle. Quatro anos depois, ali estava ela. Ainda bem que naquele
dia não teve o disparate de dizer que não ia demorar.
O
ruivo riu. Estava rindo audivelmente quando Botan chegou a seu lado.
-
Eu esperava que fosse gritar comigo.
-
Eu estava pensando que você demorou um pouco com a minha resposta.
-
Ainda está esperando por uma?
-
Sempre.
Os
dois se olharam sem ter muita certeza do que dizer. Botan parecia um pouco
desconfortável, como se esperasse que a qualquer momento Kurama começasse a
realmente gritar com ela.
-
Por que você voltou agora? – ele perguntou, olhando para o céu.
- Dizem que não tentar consertar um erro significa cometer
outro.
-
De qual erro está falando? – Kurama sentiu a esperança preenche-lo
involuntariamente.
-
Eu fugi de você. Devia ter dito alguma coisa – ela deu de ombros.
-
Pode dizer agora...
Os
dois caminharam até a árvore, ele observando como ela reagia às lembranças, ela
se perguntando como tinha conseguido abandonar aquele mundo. Sentira falta de
tudo nele: do vento soprando entre as árvores nos finais de tarde, das
estrelas, dos amigos queridos, dos risos, das conversas informais. Naquela
época ela não queria ter que dar uma resposta a Kurama, não quando tinha a
certeza de que tudo o que via nele era um bom amigo. Introspectivo, mas alguém
com quem sempre poderia contar. Julgou que indo embora sem dizer adeus, ele
esqueceria dela e ficaria tudo bem, mas não contava que ela mesma não fosse
capaz de esquecer.
-
Os dias no mundo espiritual passam ao mesmo tempo muito depressa e muito
devagar – disse Botan –, eu não queria deixá-lo esperando tanto tempo. – ela
girou, admirando cada detalhe da paisagem em volta. – As coisas mudaram por
aqui, não é mesmo?
-
Sim – Kurama respondeu, sabendo exatamente o que ela estava querendo saber. –
Yusuke e Kuwabara foram embora, ainda nos falamos de vez
- De certa forma eu já esperava por isso.
- Então não está surpresa? – perguntou Kurama. - Você veio...
- Eu vim para ficar – Botan o interrompeu. – Você tinha
razão, minha casa é onde estão aqueles que eu amo. Eu
deixei pessoas queridas no mundo espiritual, mas eu nunca fui tão feliz lá
quanto sou aqui... – ela apertou as mãos, uma contra a outra
nervosamente, sentindo que era hora de dizer tudo o que tinha vindo
preparada para fazê-lo escutar. – Eu levei tempo para pesar tudo, aceitar que
eu poderia viver como uma humana, desistir de uma vida infinitamente mais longa
em troca de um breve tempo onde poderia desfrutar tudo o que esse mundo tem
para oferecer. Tentei esquecer várias vezes, continuar como uma guia
espiritual, pensando em todos vocês como parte de uma missão, mas eu falhei.
Cada dia parecia mais longo e eu ficava me lembrando daquela nossa conversa,
quando você me falou dos seus sentimentos. Ficava imaginando se você ainda
pensava naquela pergunta que eu fiz e se na verdade todo o tempo não era eu
quem precisava de uma resposta.
Kurama se preparou para a pergunta que se seguiria.
- Você me ama?
- Eu estou apaixonado por você.
Botan pareceu decepcionada por um instante, mas não se deu
por vencida.
- E qual é a diferença?
O rapaz passou o braço pelos ombros da garota, guiando-a
na direção da rua em um convite para uma caminhada. Quatros anos. Não havia
nenhum jeito dele deixa-la escapar agora.
- No nosso caso, nenhuma. Eu só sei que eu esperaria por
você debaixo daquela árvore a minha vida inteira sem nenhum arrependimento –
respirou fundo. – Não importa que nome eu dê ao que eu sinto por você, Botan,
isso não vai acabar. Acha que a minha palavra é o bastante para que você
acredite?
Quando ela parou de andar e envolveu seu pescoço,
puxando-o para um beijo suave, mesclado a suspiros e sorrisos, ele soube que
seria.
A espera tinha finalmente chegado ao fim.
FIM