Eclipse Vermelho
Capítulo 2
Eiji estava sentando em uma rocha perto de casa,
aproveitando o sol da manhã enquanto esculpia um pedaço de madeira na forma de
um lobo. Era um presente para a irmã mais nova que faria dez anos dentro de
alguns dias e adorava os animais em miniatura que ele costumava fazer para ela.
Já
estava ali há quase duas horas, o trabalho quase pronto, quando os sons das
vozes dos homens que vinham do campo chamaram sua atenção. A princípio, as
vozes soaram baixas, trazidas pelo vento sem que palavras pudessem ser
distinguidas, mas não muito tempo se passou até que as silhuetas do grupo de
agricultores, trazendo consigo as ferramentas, surgissem
por entre as árvores discutindo claramente o que fariam se as sementes
continuassem se recusando a brotar como vinha acontecendo.
Um
calafrio percorreu o corpo de Eiji. Se as plantações
não começassem a crescer logo, não estariam suficientemente
desenvolvidas para a colheita e depois o inverno viria e tudo estaria perdido.
A aldeia vivia daqueles produtos, sem eles não teriam comida nem outra maneira
com a qual se sustentar e os homens teriam que partir para longe, em busca de
trabalho nos grandes reinos. Seu pai seria um desses homens.
-
Bom dia! - Eiji gritou, acenando para o grupo.
Os
homens acenaram de volta, desanimados demais para responderem em voz alta.
Passaram direto pela estrada na direção da aldeia e o garoto espantou as
preocupações, resolvendo que não valeria a pena preocupar-se com aquilo no
momento. Ainda havia tempo. Ukemochi não esqueceria
deles.
Com
o coração mais leve, retomou o pedaço de madeira e pôs-se a trabalhar no
focinho do lobo. Essa era a parte mais difícil, os dois lados tinham que ser
talhados nas mesmas proporções e para isso teria que usar a ponta da faca
devagar, era um trabalho que exigia paciência.
Estava
concentrado demais nos detalhes, por isso não viu o vulto que se aproximava de dentro da floresta, as vestes escuras
esvoaçando com o vento. Aproximou-se lentamente, o rosto branco como o de uma
aparição, e, quando estava há menos de dois metros de distância da rocha, Eiji ouviu o som que os passos faziam sobre o cascalho e
levantou a cabeça, pensando que talvez fosse mais um dos homens que voltavam do
campo. Quando viu quem era na verdade, assustou-se tanto que atrapalhou-se
com as mãos e acabou por cortar um pedaço de madeira grande demais do focinho
do lobo, estragando a pequena escultura.
-
Droga...! - olhou para o outro rapaz com a intenção de reclamar pelo que ele
causara, mas desistiu antes mesmo de abrir a boca. O que fitava era uma
expressão de tamanha agonia que teve medo de mexer-se dali, pensando que talvez
não fosse um conhecido que via, mas um espírito que tomara sua forma apenas
para se aproximar dele e atacá-lo, como nas antigas histórias que seu pai
contava à noite, quanto estavam todos esperando o jantar ao redor da fogueira.
-
Eiji...
O
nome dele pronunciado com a voz conhecida foi como um balde
de água fria trazendo-o de volta a razão. Deixou a madeira, agora inútil, sobre
a rocha, prendeu a faca a cintura e desceu para ir de encontro ao amigo.
-
Miroku, o que aconteceu? Parece que viu um
fantasma... “Não,
ele é o próprio fantasma”, pensou.
O
jovem monge tentou sorrir, mas estava abalado demais para tanto, então apenas
esticou levemente os lábios para imediatamente cobrir a boca com as mãos e
balançar a cabeça, ainda sem acreditar no que tinha visto.
-
Miroku...
-
Kikyou... - ele agarrou o gi
que o amigo vestia com os olhos muito abertos, parecendo fora de si. - Eu a vi
na floresta, naquela cabana perto da clareira...
-
Miroku, quer se acalmar? - Eiji
quase gritou. Estava com medo. Conhecia Miroku desde
que crianças e a única vez em que o vira tão apavorado quanto estava agora foi
no dia em que chegara para viver com a velha Kaede.
Ouvira boatos que seus pais tinham sido mortos por um youkai,
mas nunca soubera se de fato isso tinha acontecido. O amigo jamais tocara no
assunto.
Miroku soltou-se de Eiji e
agachou-se no chão, respirando desesperadamente como se alguém tivesse tentado
sufocá-lo. Os dois ficaram ali parados, lado a lado, sem dizer nada, até que
ele se acalmou e disse, dessa vez coerentemente:
-
Kikyou saiu de casa hoje cedo e foi para a floresta,
não quis me dizer por quê. Eu estava curioso, não pensei que houvesse problema,
então a segui... - Miroku olhou direto nos olhos
assustados de Eiji quando continuou: - Ela estava na
cabana e havia alguém com ela. Eu pensei que fosse um rapaz... Seria estranho,
porque Kikyou é uma sacerdotisa e não pode se
encontrar com homens assim...
-
Não diga bobagens Miroku, sua irmã realmente tem a
vocação, ela não faria nada que pudesse comprometer isso. - Eiji
riu nervosamente e calou-se, balançando a cabeça para que Miroku
continuasse.
-
Eu sei. E foi por isso que me aproximei mais até olhar pelo espaço semi-aberto
da porta. Ela estava de costas, fazendo alguma coisa em cima da lareira, acho
que arrumando aquele ungüento que deixa lá para o caso de algum trabalhador do
campo se ferir. Eu o vi depois porque ele estava escorado na parede, na sombra.
Vi a gaze cobrindo a barriga dele e entendi que ele estava ferido, então...
-
O que você viu?
-
Eiji! - lágrimas apareceram nos olhos de Miroku e ele agarrou o braço do outro rapaz. - Ele não era
humano, não podia ser. Tinha garras e orelhas estranhas, como as de um cão
selvagem...
-
Não... era humano? - Eiji
repetiu, soando quase idiota. Aquilo parecia uma grande brincadeira e ele quase
esperou que Miroku desfizesse a expressão assustada e
risse na cara dele. Quando isso não aconteceu, relaxou o corpo contra a base da
rocha e perguntou, ainda cético: - Se não era humano,
o que era?
-
Youkai.
-
Sua irmã não pode estar se encontrando com um youkai,
ela... não faria isso.
-
Ele tinha garras, Eiji! Quantas pessoas você conhece
que possuem garras? E havia as orelhas, aquele cabelo longo e prateado, apesar
dele parecer jovem e... e os olhos dele... Os olhos
dele eram dourados, não eram olhos de um ser humano!
Os
dois silenciaram. Se Miroku tinha tanta certeza do
que tinha dito, que argumentos faltavam?
-
O que você vai fazer? - Eiji perguntou.
-
Nada.
-
Como assim nada?
-
O que espera que eu faça? Vá até lá e mate o youkai?
-
Com um grupo de homens, talvez...
-
Não! - Miroku puxou o outro pelo gi,
dessa vez com violência. Seus olhos não estavam mais embaçados pelo choque, mas
pareciam mais acordados do que nunca. - Eu falarei com Kikyou
e enquanto isso você não vai dizer nada a ninguém! Sabe o que os homens da
aldeia farão se descobrirem?
-
Eles não vão gostar...
-
Eles não podem matar o youkai, seu idiota, vão
descontar na minha irmã!
Eiji abaixou a cabeça, resignado. Lembrou que seu pai
sempre dizia que youkais com traços humanos eram os
mais perigosos e que o homem que matasse um deles, seria massacrado por seus
semelhantes. Matar uma daquelas criaturas era condenar a si mesmo a um destino
terrível.
-
Você não vai dizer nada, não é? - implorou Miroku, a
essa altura arrependido de ter sido fraco e contado
tudo a Eiji. Ali estava um bom amigo, mas também fiel
demais ao pai e aos outros homens da aldeia para guardar um segredo tão
importante. - Pelo menos me deixe falar com Kikyou.
Eiji pensou por um instante e então respondeu:
-
Se ela der um motivo convincente, fica entre nós.
-
Você promete?
-
Eu prometo.
-o-o-o-o-o-
Buyo deu o máximo de si enquanto se afastava do campo de
batalha com Kagome firmemente agarrada na sela. Por muito tempo ela ainda pode
ouvir os sons de luta: o brandir das espadas e os gritos daqueles que caiam,
mas não tinha certeza se eles realmente ecoavam pelas árvores ou pela sua
imaginação. A imagem do rosto sorridente de Houjo
também se recusava a abandoná-la. Ele arriscara a vida pelo Reino, impedindo
que os rebeldes a ferissem. Só esperava que tivesse escapado com vida.
Quando,
depois de muito tempo, ela acomodou-se melhor na sela e olhou para os lados, só
viu árvores altas em volta de uma trilha apenas larga o suficiente para que um
cavalo pudesse percorrê-la. À frente, o caminho seguia até onde a vista
alcançava, em linha reta assim como Houjo lhe
instruíra seguir. Pela altura do sol em comparação ao que vira no norte,
deveria estar cavalgando há horas, mas não o suficiente para estar perto da
clareira. Pensou em parar para descansar, mas acabou desistindo. O youkai com quem se encontraria não era o único a andar em
meio aquelas árvores e por melhor que tivesse se saído em seu treinamento de
batalha, não tinha grande afeição pela idéia de ter que lutar com um deles.
Agarrou-se
a sela e fechou os olhos, pensando no pai e se ele já estava sabendo o que
acontecera. Devia estar furioso, uma vez que tinham saído mais cedo exatamente
para evitar que sofressem uma emboscada. Mas o mais importante é que ela tinha
escapado e completaria a missão como tinha que ser. Se corresse talvez
conseguisse realizar a tarefa que lhe seria submetida no dia seguinte mesmo e
estaria livre para voltar para casa. O que o youkai
lhe pediria para fazer?
As
possibilidades dançavam em sua cabeça enquanto ela seguia pela trilha em
direção a seu destino. Veloz, mas não o suficiente para que um lobo cinzento,
completamente oculto pela vegetação próxima, não a seguisse de perto com passos
silenciosos.
-o-o-o-o-o-
Gyokuran entrou na sala já sabendo o que o esperar. O rei
mandara um mensageiro chamá-lo há poucos minutos e, pela expressão amedrontada
do rapaz, não deveria estar de muito bom humor.
Encontrou
Higurashi sentado no peitoril da janela, observando o
movimento dos soldados que treinavam formações no pátio. O velho parlamentar
soltou um grunhido de reprovação diante daquela postura, mas nada disse.
Esperou até que o rei o encarasse para fazer uma reverência e postar-se com sua
costumeira altivez, esperando que algo fosse dito.
Para
sua surpresa, quando Higurashi falou, as palavras
saíram calmas e não com a fúria que ele esperava:
-
Estou olhando para eles, praticando formações para uma guerra que eles sequer
começaram a imaginar. – o rei desceu da janela e ficou de pé, de frente para o
homem que mandara chamar. – Pode ser a última vez que farão
isso durante muito tempo, o senhor faz idéia? Logo eles estarão se preparando
para partir, para defender nosso reino de ambos os lados do muro.
-
Majestade...
-
Eu não terminei!
Higurashi gritou,
seus olhos adquirindo um brilho de fúria que durou apenas o suficiente para que
fosse notado. Gyokuran silenciou-se, mas não se
mostrou perturbado.
-
O que aconteceu com a princesa não foi um fato isolado. Souta
e aqueles que o apóiam estão promovendo campanhas pelos lados mais afastados do
reino e logo eles terão um exército de camponeses furiosos que acham que uma
mulher no trono é mais do que podem aceitar. – ele olhou para o senhor ali
parado como se o desafiasse a contestar o que dizia antes de continuar: - Se
isso não bastasse, os rumores sobre homens atacando vilarejos no Sul estão
ficando cada vez mais fortes. Aldeias são saqueadas, seus
habitantes mortos e ninguém sabe quem são os responsáveis. Diante da
violência dos ataques, os pequenos reinos do Sul estão começando a se
preocupar. O que acha que isso significa, Gyokuran?
O
velho franziu a testa e respondeu tranqüilamente:
-
Se tratando de saqueadores, nada com que devamos nos preocupar, mas há sempre a
possibilidade de um dos reinos maiores estar
promovendo uma campanha para conquistar os reinos menores, nesse caso seria
quase certo uma guerra em curto prazo.
-
Uma guerra civil nos enfraquecerá e se um dos reinos fortes do Sul conseguir se
fortalecer o suficiente com a guerra para nos atacar,
estaremos vulneráveis.
Os
dois ficaram em silêncio, Gyokuran pensando no que
ele mesmo acabara de dizer, Higurashi imaginando onde
Kagome estaria e se estaria bem. Só esperava que ela pudesse completar sua
missão o mais rápido possível e voltar e também que Kouga
fosse capaz de protegê-la até que estivesse de volta sã e salva.
Foi
o velho parlamentar quem falou primeiro:
-
O que podemos fazer é enviar espiões para descobrir os esconderijos e planos
dos rebeldes e atacá-los discretamente. Enquanto Lady Higurashi
não for reconhecida como sua legítima herdeira, estaremos mais vulneráveis aos
caprichos de seu... aos caprichos de Souta.
O
rei acenou com a cabeça, resignado. Os fatos eram claros. Tinham que evitar uma
guerra civil anunciada a qualquer custo. Quando Kagome voltasse, talvez os
camponeses que não a apoiavam começassem a respeitá-la por ter completado a
missão ou pelo menos a causa de seu filho ilegítimo enfraquecesse. A única
coisa a ser feita era evitar que aquela situação se tornasse incontrolável até
lá, então decidiriam o que fazer.
-
Se o parlamento está de acordo, mande os espiões. Mas que nenhum ataque seja
deferido sem o meu conhecimento.
-
Como quiser, majestade.
Gyokuran fez uma reverência, aliviado pela reação racional do
rei diante do ataque a sua filha, àquela manhã. O que o incomodava é que
conhecia Higurashi desde criança, tempo suficiente
para saber que com ele a tranqüilidade andava de mãos dadas com o medo. Já
quase atravessava a porta quando ouviu uma última pergunta.
-
Gyokuran, o jovem Houjo
disse que ela estava bem, não é?
-
Sim, não há com que se preocupar. A essa altura Lady Higurashi
já deve ter chegado a seu destino.
-o-o-o-o-o-
Apesar
do desconforto que a cavalgada lhe causava, Kagome não parou um minuto sequer em
todo o trajeto. Mais de uma vez agarrou-se ao pescoço de Buyo
com todas as forças, achando que se soltasse um pouco que fosse o aperto,
acabaria caindo de cansaço e não queria nem pensar no que poderia acontecer com
ela sozinha e sem sentidos no meio da floresta. Se conhecia
bem os instintos de um cavalo, por mais fiel que o seu fosse, não ficaria a seu
lado para serem devorados juntos, no caso de alguma fera selvagem aparecesse.
“A
missão vem em primeiro lugar, a missão vem em primeiro
lugar, a missão vem em primeiro lugar...”
Não
sabia quantas vezes repetira a frase mentalmente desde que começara a sentir-se
incapaz de prosseguir. As lembranças do pai dizendo que tudo ficaria bem, da
batalha à sombra do muro, do rosto corajoso de Houjo
ordenando que ela seguisse antes que fosse tarde, dos rebeldes que espalhavam
que ela jamais seria uma boa rainha por ter nascido mulher eram o que lhe davam
forças para manter-se firme na sela. Sua mente não estava exatamente consciente
e as árvores em volta passavam rápido na forma de borrões disformes, como se
ela estivesse dentro de uma pintura mal-feita.
Sentia
sede e seu estômago doía um pouco, mas ignorou isso se concentrando apenas na
maciez do pelo do cavalo que corria rápido sempre
Foi
então que ela notou que o cavalo diminua a marcha. O vento não balançava mais a
capa com a violência de antes e o balanço do trote tinha diminuído de
intensidade até quase parar. Kagome entreabriu as pálpebras e olhou em volta,
percebendo pela primeira vez que não estava mais no caminho estreito de antes,
mas em um enorme espaço aberto. Tentou erguer a cabeça e olhar em volta, mas
estava pesada como se fosse ela a carregar Buyo nas costas, não o contrário. Limitou-se, então, a
ficar quieta, esperando que suas forças voltassem ou algo acontecesse, o que
viesse primeiro. Seus ouvidos eram o único sentido atento e não captavam mais que o som de pássaros e do vento que soprava
sobre a copa dos cedros.
Por
um espaço de tempo que mais tarde ela não saberia definir, ficou ali imóvel, de
olhos fechados, largada sobre o cavalo como um soldado ferido. Sentiria raiva
da própria fraqueza quando pensasse nisso, mas não naquele momento, estava
demasiado esgotada até mesmo para sentir raiva.
O
sono não demorou a abraçá-la e no instante em que adormeceu completamente, um
sonho tomou forma, levando-a de volta para o Reino do Norte.
Estava
voltando para casa vitoriosa, andando e puxando Buyo
pela correia da sela. Chegava ao lado do muro onde houvera a batalha contra os
rebeldes aquela tarde, mas estava tudo vazio, sem
sinal de guardas nem qualquer outro ser humano. De repente, sem que tivesse
atravessado o túnel, estava do outro lado, onde a floresta era mais aberta e as
estradas mais largas. Estava, agora, galopando o mais rápido que podia na
direção do palácio e mesmo ali já podia avistar seus altos muros que se erguiam
tão familiares. Uma enorme saudade tomou conta dela como se não os visse há
anos e começou a seguir ainda mais rápido.
O
sonho avançou novamente e ela estava no pátio do palácio. Tampouco havia alguém
ali e ela correu para dentro, prosseguindo pelos corredores igualmente vazios
na direção da sala do trono.
A
porta estava aberta e ela entrou sem bater, como sempre fazia. Imaginou que
talvez encontrasse o lugar tão quieto e abandonado como todo o resto, mas, para
sua surpresa, seu pai estava sentado no trono, com o braço apoiado de lado e a
cabeça quase deitada, como era seu costume quando estava entediado. Kagome
sorriu, pensando que ao menos seu pai permanecia o mesmo que ela deixara no dia
em que partira
“Eu
estava esperando por você, Kagome”, ele disse. E sorriu em um gesto que mais
parecia o rosnar de um animal encurralado.
Mexeu-se
na cadeira e tomou uma postura ereta, olhando para ela com olhos sem vida,
cercados por orelhas fundas. Seus cabelos longos caiam pelos ombros e pareciam grisalhos, apesar do rosto dele quase não ter envelhecido.
“Você
precisa me perdoar, porque eu estava errado. Eu prometi que ia ficar tudo bem
conosco, mas foi uma promessa que não pude cumprir. Acha que um dia será capaz
de me perdoar, Kagome?”
Ela
queria perguntar porque ele estava dizendo aquelas
coisas, o que havia de errado, mas ao invés disso, caminhou lentamente até a
janela. A vista com a qual estivera acostumada toda a vida a recebeu, mas havia
algo de muito errado com ela. Podia ver o grande mercado que chegava quase até
as portas do palácio, os campos onde os pastores costumavam passar o dia a
vigiar os animais, as plantações mais além, o rio, a longa rua de residências
do povo mais simples que ia do final do mercado até onde a vista alcançava e
além. Tudo isso permanecia igual, mas não havia sinal do povo em lugar algum.
“Kagome...”
De
repente, o céu azul no horizonte ficou alaranjado como se já fosse pôr-do-sol,
e nos campos foram surgindo cavalos montados por homens em trajes de guerra.
Era um exército descomunal, como ela jamais antes vira
reunido.
Afastou-se
da janela e voltou-se para perguntar ao pai o que estava acontecendo, mas ele
não estava mais lá. Em seu lugar sentava-se um homem muito branco, de cabelos
negros que quase lhe chegavam à cintura, vestindo uma pele branca que ainda
conservava a cabeça empalhada do animal ao qual pertencera. Ele sorriu
debilmente e repetiu as palavras antes pronunciadas pelo rei:
“Eu
estava esperando por você, Lady Higurashi”
Kagome
quase caiu da sela ao acordar, tremendo pelo sonho e pelo vento forte que
soprava no lugar. Olhou pela primeira vez em volta para ver onde estava. Ainda
se sentia muito cansada, mas o sonho a enchera de tanto medo que conseguiu
forças para mover-se dali. Primeiro especulou quem poderia ser o homem do
sonho, mas logo decidiu que deveria ter sido apenas um pesadelo por tudo o que
passara no último dia.
“Você
precisa me perdoar, porque eu estava errado. Eu prometi que ia ficar tudo bem
conosco, mas eu não pude cumprir. Acha que um dia será capaz de me perdoar,
Kagome?”
As
palavras e a imagem do pai ao dizê-las trouxe uma nova
onda de perturbação e ela começou a afagar a cabeça de Buyo,
tentando controlar suas emoções. A sua volta, o dia
havia muito já se tornara noite, mas a lua e as estrelas produziam claridade
suficiente para que visse a silhueta das árvores em volta e também uma grande
rocha em meio à clareira de onde saía uma luz fraca, como se houvesse uma
fogueira do outro lado.
Lembrou-se
que devia encontrar o youkai ali, mas ninguém lhe
dissera como chamá-lo quando chegasse a hora. Talvez
fosse ele quem a esperava com uma fogueira. Deveria arriscar-se e ir até lá?
Conduziu
Buyo na direção da luz. O cavalo se mostrava irritado
pelas longas horas de caminhada, portanto não tinha muita opção. Andaram sem
pressa até lá e contornaram a rocha onde, realmente, havia uma fogueira como
ela imaginara. Kagome desceu da sela e olhou para os lados procurando sinal de
quem a tinha deixado ali, mas não viu ninguém, então desatou a bolsa que trazia
consigo e largou-a no chão, deixando Buyo livre para
encontrar água para ele como fora treinado para fazer. Esperava que não
encontrasse nenhum youkai pelo caminho, mas não podia
mantê-lo com ela quando a água que tinha não era suficiente para ambos.
Por
fim, tirou da bolsa um pouco de pão e um manto e acomodou-se, aquecida, perto
da fogueira. Antes mesmo de ter terminado de comer, tinha caído em sono
profundo, dessa vez misericordiosamente sem sonhos.
-o-o-o-o-o-
Kaede andava pelas plantações, salpicando pela terra o
conteúdo de uma pequena bacia que levava consigo.
Mais
atrás, os homens da aldeia a observavam e ela podia ver a esperança nos olhos
deles enquanto isso. Pobres diabos, achavam mesmo que
ela era capaz de fazer aquelas plantas crescerem com alguma espécie de poção.
Aquele fertilizante que fabricava fazia algum efeito em sua horta, mas lá havia
água e havia muita diferença entre aquelas grandes plantações e as ervas que
cultivava.
Andou
mais um pouco, mais devagar do que era sua vontade. Já não era mais tão jovem
para caminhar longas distâncias em tarefas como aquela, mas Kikyou
fora chamada para ajudar uma criança que se ferira na floresta e Miroku tinha desaparecido desde cedo, sem mencionar que ninguém
o respeitava como um futuro monge como ele gostava de pensar que seria. Seu
pequeno não tinha nenhuma vocação e mais cedo ou mais tarde acabaria
descobrindo isso por si mesmo.
Distante
com seus pensamentos, Kaede quase tropeçou em um
cesto cheio de pão e doces que alguém colocara no caminho. Estavam meio
estragados, o que os pássaros e formigas não levaram embora, e ela olhou para a
pequena oferenda sem simpatia. Os aldeões costumavam preparar oferendas a Ukemochi antes de plantar, mas aquela era recente, o que
significava que estavam temerosos que a deusa os
estivesse castigando. Se as sementes não começassem a crescer por aqueles dias,
logo as oferendas aumentariam e a aldeia acabaria com seu estoque limitado de
comida por nada.
Kaede suspirou. Ela era uma sacerdotisa, mas não
acreditava nos deuses do Sul. Nunca tivera nenhuma razão para acreditar. Suas
crenças pertenciam ao Norte tanto quanto ela mesma, antes de passar a viver
ali.
-
Senhora Kaede? – Ela se virou. Um dos homens que a
observavam se aproximava correndo. Parou atrás dela ofegando um pouco. – Os
outros estão querendo ir até o mosteiro da montanha, pedir conselhos sobre o
que devemos fazer quanto a colheita. A senhora acha
que pode ficar aqui sozinha?
-
Não confiam no meu remédio? – perguntou a sacerdotisa, quase rude. Ela não se
ofendia, apesar de achar que os monges sabiam tanto sobre colheitas quanto uma
criança. Provavelmente colocariam a culpa nos youkais
para não admitirem a ignorância.
O
rapaz corou.
-
Não é isso, senhora, nós só queremos ver todas as possibilidades. Se seu
remédio não resultar em nada, precisamos estar preparados.
Kaede assentiu.
-
Posso me cuidar sozinha.
Ela
ouviu os passos do rapaz ao se afastar correndo e continuou com o que fazia
antes da interrupção. Os homens da aldeia estavam começando a ficar
desesperados e o desespero era um sentimento perigoso. Tinha o pressentimento
de que aquilo não acabaria bem.
-o-o-o-o-o-
Kagome
abriu os olhos lentamente, acostumando-se com a luz da manhã. Esticou as pernas
e os braços doloridos da cavalgada do dia anterior antes de se levantar. A
fogueira tinha apagado por si mesma e agora apenas umas poucas brasas brilhavam
em meio às cinzas.
Buyo estava ali perto, comendo algo de dentro do que
parecia uma grande tigela redonda de madeira. Kagome olhou para si mesma e só
então percebeu que havia uma pele estendida por cima de sua manta e ao seu lado
havia comida e um jarro de água fria.
-
Coma tudo!
Disse
alguém de cima da rocha. Kagome levantou a cabeça e deparou-se com uma
garotinha fitando-a alegremente. Ao lado dela havia um ser estranho, verde,
parecido com um sapo, mas que estava de pé exatamente como um ser humano. Ele
não disse nada e a menina o olhou reprovadoramente.
-
Não vai dar bom dia para ela, senhor Jaken?
Ambas
esperaram, mas ele nada disse. A menina revirou os olhos e puxou-o, saltando da
rocha. Ela caiu de pé e sorriu, olhando para a criatura deitada no chão,
grunhindo, mas sem dizer qualquer palavra inteligível.
-
Oi – disse a menina. – Meu nome é Rin, qual o seu?
-
Kagome...
-
Higurashi, não é? O senhor Jaken
me disse que todos os que vem fazer o teste do senhor Sesshoumaru
se chamam Higurashi. – ela olhou para o pequeno youkai verde que, já de pé, tentava limpar com a mão a
terra das roupas simples que usava, a principio com a mesma reprovação de
antes, em seguida com afeto. – Não ligue para o senhor Jaken
– sorriu novamente. – Ele não é de falar muito, mas quando fala ninguém o
suporta.
Kagome
riu junto com a menina. Ela falava e parecia tão feliz que era impossível não
se sentir bem, por mais estranha que fosse a situação. O que uma garota humana,
que não parecia ter mais que oito anos, fazia acompanhada de youkais?
-
Esse Sesshoumaru é o youkai
que me espera? – ela perguntou, olhando confusa para Jaken.
-
Isso – respondeu Rin. - O senhor Sesshoumaru nos
mandou para fazer companhia enquanto ele não vem.
Ela
começou a saltar ao redor do youkai pequeno, que, com
um ar de cansaço e resignação, se sentou no chão, apoiando os cotovelos nas
pernas cruzadas e a cabeça nas palmas das mãos abertas. Kagome sorriu novamente
e todos os seus medos foram esquecidos. Se o tal Sesshoumaru
estava com aquela menina engraçada, não podia ser tão ruim.
Rin
parou de saltar de repente e olhou, desolada, para a comida intocada perto de
Kagome.
-
Não vai comer? Está muito bom e se você não comer agora, quem sabe quando
poderá? O senhor Jaken diz que o teste do senhor Sesshoumaru é muito difícil, principalmente agora que o senhor
Inuyasha não está mais conosco. – Jaken lançou um
olhar de aviso à menina que apertou as mãos sobre a boca antes de rir outra
vez. – Eu não devo falar sobre o teste. O senhor Jaken
diz que eu falo demais. Olha – apontou para um jarro maior, perto da bolsa de
Kagome – ali tem água, se quiser se banhar.
Rin
saiu correndo pela clareira e Kagome só a viu novamente cerca de meia hora
depois, quando já acabava de comer.
-
Você come rápido. O senhor Jaken sempre diz que as
princesas são as que mais demoram em tudo.
Ela
se sentou ali perto, parecendo finalmente querer descansar um pouco.
-
Parece que o senhor Jaken diz muitas coisas, não é? –
perguntou Kagome, com um pequeno sorriso.
-
Sim, muitas coisas – respondeu Rin. – O senhor Jaken
sabe quase tudo, só não sabe tanto quanto o senhor Sesshoumaru.
Disse
isso e ficou pensativa, olhando para as árvores como se esperasse que o outro youkai aparecesse a qualquer momento. Kagome ficou
imaginando como ele seria. Tinha visitado uma das tribos de youkais
lobos de seu reino uma vez. Não havia nada neles que denunciasse que não eram
humanos e quando dissera isso, seu pai respondera que eles ganhavam
características de lobos em batalha, mas ela não teve a chance de ver
exatamente do que ele falava. Na biblioteca do palácio havia livros com
gravuras de youkais, mas os mostravam como monstros
grotescos e seus mestres sempre riam e diziam que aquilo saíra da imaginação de
homens que os temiam sem nunca tê-los visto. Ela não devia confiar em gravuras
para imaginar como eram.
-
Por que está olhando assim para o senhor Jaken? –
perguntou Rin. E só então Kagome percebeu que estivera fazendo isso nos últimos
instantes.
-
Nunca tinha visto ninguém como ele antes. – respondeu sinceramente.
-
Quer dizer um youkai?
-
Isso mesmo.
-
Então vai gostar de conhecer o senhor Sesshoumaru,
ele é incrível! O senhor Inuyasha também é, mas eles são diferentes porque o
senhor Inuyasha é meio-humano... – ela cobriu a boca outra vez e Kagome riu. –
Eu estou sempre falando demais... O senhor Jaken não
gosta e eu prometi que ia tentar não falar tanto.
Abaixou
a cabeça, envergonhada, e Kagome passou a mão pelos cabelos dela, dizendo que
não tinha importância. Os cabelos de Rin eram compridos e bem cuidados e ela
também estava vestida com um kimono florido que
parecia novo. Talvez sua família vivesse em alguma aldeia por perto e ela
apenas tinha essa estranha amizade com os youkais.
Ia
perguntar sobre a família dela, mas, no mesmo instante, Rin ficou de pé e, com
um gritinho de triunfo, saiu correndo na direção em que olhava. Jaken também se levantou e Kagome estreitou os olhos para
ver o que estava acontecendo.
Rin
parou no meio do caminho e esperou, quase aos pulos,
até que uma figura saiu de entre as árvores vindo na direção deles.
Aquela
era uma visão que Kagome sabia jamais poder esquecer. Ao longe, ele parecia
apenas um homem vestido como um nobre, mas na medida em que se aproximava, ela
foi percebendo os detalhes que o diferenciavam de qualquer ser humano que já
conhecera: a pele pálida, pintada com listas azuis e uma lua crescente na
testa, o cabelo prateado que quase lhe chegava aos joelhos, as
orelhas compridas e pontudas, as enormes unhas semelhantes às de um animal
selvagem, por último os olhos dourados, profundamente concentrados e sérios, os
olhos mais bonitos que ela já vira.
O
youkai chamado Sesshoumaru
tinha uma postura imponente, que o fazia parecer mais alto e brilhante do que
realmente era. O tipo de presença que intimidava sem que palavras precisassem
sem ditas. A atitude só era acentuada pela expressão impassível do rosto e
pelas duas espadas que ele trazia presas à cintura, protegida por uma espécie
de armadura, mas Kagome não tinha certeza do que realmente era. Nunca tinha
visto nada igual.
-
Viu, senhora Kagome, eu disse que o senhor Sesshoumaru não ia demorar.
Rin
sentou ao lado dela outra vez e suas palavras quebraram o transe. A menina
olhava para aquele que era o grande youkai do Sul com
adoração, mas não parecia nem um pouco intimidada pela presença dele. Jaken, pelo contrário, avançara timidamente para seu mestre
e ficou ali parado, sem chegar perto demais, esperando receber ordens.
-
Jaken? – Sesshoumaru
pronunciou o nome do servo e olhou para ele como se uma longa pergunta tivesse
sido feita. A voz dele era grave, não alta, mas ecoou pela clareira como o som
de sinos em uma catedral.
O
servo apenas acenou com a cabeça sem nada dizer e Kagome se perguntou se ele
falava mesmo todas aquelas coisas que Rin afirmava que ele falava ou ela apenas
imaginava.
Sesshoumaru se aproximou e Kagome levantou-se,
quase como se suas pernas se movessem sozinhas.
-
Você é a herdeira de Higurashi do Norte. Sabe quem
sou eu?
Kagome
respirou fundo, querendo dizer que ele era o grande youkai
do Sul, aquele que tem poder sobre todos os da sua espécie, mas quando falou,
disse apenas um quase inaudível “sim”. Teve raiva de si mesma por estar tão
intimidada quando Rin, que era apenas uma criança, parecia melhor do que nunca,
mas não pode evitar.
-
Para suceder o trono de seu pai sem o nosso impedimento, você precisa realizar
o teste que eu ordenar. Sabe disso também, não é?
-
Sim.
Sua
voz soou mais firme e ela ergueu o queixo, assumindo a postura que cabia a uma
princesa. Pode jurar que tinha vista Sesshoumaru
erguer uma sobrancelha, mas se o fez, realizou o gesto tão rápido que ela não
pode ter certeza.
-
A cerca de onze milhas ao sul, há uma aldeia de agricultores. Meu meio-irmão
Inuyasha está lá. Você deve ir e trazê-lo de volta. Isso é tudo.
Sesshoumaru acenou para Jaken,
se virou e começou a andar na mesma direção por onde tinha vindo.
-
Senhor Sesshoumaru, temos mesmo que ir tão cedo? –
Rin protestou.
Um
grupo de pássaros saiu de entre as árvores fazendo barulho e Kagome balançou a
cabeça, incrédula.
-
Isso é tudo? – perguntou. – Se eu for até essa aldeia e trouxer o seu irmão,
vai me aprovar como herdeira do Reino do Norte e eu poderei voltar?
Sesshoumaru parou, mas não se virou.
-
Continue em linha reta e traga-o de volta como eu disse, então falaremos
novamente.
Rin
e Jaken correram na direção do youkai, a menina sorrindo, aparentemente refeita da
decepção de ter que sair dali tão cedo.
-
Até logo, Kagome – ela acenou alegremente. – Nos veremos quando você trouxer o
senhor Inuyasha de volta.
Os
três continuaram andando até adentrarem a floresta e saírem de vista. Onze
milhas em linha reta... Isso dava... Ah, o que importava? Ela teria que trazer
esse tal de Inuyasha de volta e completar a missão. Mas o que mesmo Rin dissera
sobre ele? Qualquer coisa sobre ser meio humano?
Kagome
olhou para Buyo que parecia bem descansado,
satisfeita. Quanto mais cedo partisse, mais rápido completaria a tarefa e
voltaria para casa. Sem mais demora, começou a recolher suas coisas e
colocá-las novamente na bolsa. Era agora que sua viagem realmente começaria.
CONTINUA