...Tô acostumado desde menino a ver ela assim, inteira, sem faltar pedaço. Meu pai também e meu avô, que eu conheci velhinho, no final da vida, morador da Penha. Vai ser muito esquisito moço, levantar todo dia cedinho, abrir a janela e dar de cara com aquela buraqueira nos costados dela, tudo revirado, coisa de encher os olhos d´água, aquela dorzinha que começa lá no fundo e vai tomando conta do inteiro da gente. A santa lá em cima na capelinha branca chorando seu filho Nosso Senhor e nós aqui embaixo chorando a falta de um pedaço da gente. E a bicharada que mora em derredor, os passarinhos, o arvoredo de todo tamanho, a água nascente que mata a sede da gente que mora mais abaixo, cumé que fica? Preço de progresso vão falar, mas assuntando aqui comigo, e depois, será que vale a pena? Quem vai pagar a desgracêra, quem vai colocar de volta no lugar, nos conformes, aquela vista que a gente gosta de ver todo santo dia. Nunca mais... Só vai ficar aquele buraco, enchendo o ôco da cabeça da gente, remorso sem fim. Mas a gente pode mudar esta coisa antes do mal assuceder, tá em tempo de acudir, se mineração remove montanha, a fé move muito mais. Isto num pode acontecer aqui não, na nossa Serra, não!  

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