Maria A's Blog
Genealogia
-Período de Anarquia
Quanto aos nomes de judeus, têm sido objecto de brilhantes investigações por parte de eruditos hebraístas. Mas por enquanto só nos interessa a influência que tiveram no conjunto dos apelidos portugueses. Não há dúvida de que a conversão de judeus serviu para acentuar a anarquia existente. Muitos dos convertidos adoptavam os nomes das famílias mais ilustres do reino (43). Eram numerosos os que se baptizavam por obrigação mas continuavam a praticar ocultamente o judaísmo, como notou o abade de Baçal: adoptando então um nome oficial público, mas tendo na intimidade da seita um nome rabínico e este era o que adoptavam como legítimo quando no estrangeiro se viam livres de receios" (44).



Em 1644 foi representada à inquisição uma lista de cristãos-novos portugueses de Hamburgo, que haviam voltado a usar nomes hebraicos. Esta lista, da mão de um denunciante anónimo (45) apresenta a correspondência entre um cristão e o nome hebraico retomado, verificando-se que eram raros os que rejeitavam totalmente o nome cristão. Três casos se davam (46):



1. Conservaram o nome cristão, completo ou juntando um elemento hebraico



2. Adoptaram um nome hebraico acompanhado de um elemento português



3. Substituiram o nome português no todo ou em parte por um nome hebraico.



Aquilo que aconteceu com os judeus portugueses de Hamburgo repetiu-se em outras comunidades, espalhando-se deste modo os apelidos portugueses em muitos países (47).



É altura de fazer breves comentários sobre o conceito de apelido. Na acepção vulgar o apelido é qualquer nome usado em comum por toda a família. Mas como acabámos de ver, em grande parte das famílias portuguesas o apelido não era partilhado por todos os membros , o que nos força a rejeitar esta definição. Por outro lado, houve famílias que tiveram alcunhas transmitidas aos seus vários componentes, sem que tais alcunhas se transformassem em apelidos.



Nas habiliatações do Santo Ofício ( 48 ) há notícia de uma família a viver perto de Braga no princípio do séc. XVII, que tinha por alcunha "Os Grilos", o Pai chamava-se António Luís, o filho Domingos Gonçalves, o neto Domingos Borges, e os bisnetos também eram Borges. Enquanto o apelido variava, a alcunha manteve-se fixa, todos eles eram conhecidos por "o grilo" ou "a grila". E apesar de a família estar dividida em dois ramos que viviam em freguesias diferentes, todas as testemunhas disseram que os Grilos de uma freguesia eram parentes dos da outra.



Também nas habilitações do Santo Ofício (49) se dá notícia de uma família que viveu nos séculos XVII e XVIII no concelho de Loures, usando os apelidos Lopes e Duarte, mas tendo em comum a alcunha de "Os Carranças" pela qual todos eram conhecidos.

As testemunhas da habilitação dizem que a qualquer criança que nasça nessa família começam logo a chamá-la "O Carrança", mas esta alcunha nunca passou a apelido.



Não esqueçamos também que os apelidos tinham uma grafia bastante livre sobretudo quando podiam ser postos no feminino. Ninguém se admirava se uma mulher assinasse umas vezes Joana Brandão outras Joana Brandoa.







-7- (conclusão)
2007-01-14 17:03:19 GMT


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