música de fundo:

Fortuna Plango Vulnerata, Carmina Burana, de Carl Orff

 

 

 

 

 

Capítulo II do livro

 

 

"A Lei da Vontade:

 

Tudo o que você queria saber sobre Thélema,

 

mas não tinha a quem perguntar"

 

 

 

© Dalva Agne Lynch

 

 

 

 

fig: Aiwaz - massa corrida, pastel e óleo sobre tela

© Dalva Agne Lynch, Outubro de 2002

 

E O QUE É THÉLEMA, AFINAL?

 

            Thélema (Qelhma) é uma palavra grega que significa Vontade. Segundo dizem, pode-se colocar seu surgimento precisamente entre os dias 8 e 10 de abril de 1904 e.v., quando a entidade Aiwass (ou Aiwaz), mensageiro da entidade egípcia Hoor Paar Kraat, um dos diversos nomes do deus Horus, teria entregado a Aleister Crowley o Livro da Lei – Liber AL vel Legis – na cidade do Cairo, Egito. Esse livro está escrito inteiramente em linguagem simbólica e hermética, aparentemente compreendida apenas pelos Iniciados que estudam as suas diversas correlações qabalísticas, astrológicas e esotéricas – e nem mesmo eles o entendem completamente, já que as correlações são infinitas. Vai daí, como veremos mais adiante, qualquer interpretação superficial seria inútil. Ao mesmo tempo, essa linguagem simbólica se utiliza de passagens da Bíblia, do Novo Testamento, do Alcorão e de outras obras, muitas vezes trocando uma palavra ou a ordem de uma sentença, dando-lhe um novo sentido.

Segundo Crowley, o surgimento do Livro da Lei deu início a uma Nova Era, chamada de Éon de Hórus.

Éon vem a ser um período de tempo com a duração de mais ou menos dois mil anos, no qual a adoração humana se volta para entidades com características determinadas. Segundo Crowley, os principais Éons foram:

 

  1. Éon de Isis, ou o Éon da Grande Mãe, quando a religião era essencialmente matriarcal, com uma adoração à Natureza.
  2. Éon de Osíris, no qual a deidade é patriarcal e a crença vigente é de que o homem precisa ser redimido através do sofrimento vicário de um Salvador, como acontece no culto de Osíris ou de Jesus Cristo.
  3. O Éon de Hórus, por sua vez, é a Era da Criança Coroada, conquistadora, livre – o Éon do homem guerreiro e vitorioso, que toma em suas mãos as rédeas do próprio destino através de sua vontade – Qelema - Thélema.

 

Thélema abrange o estudo do Homem (Microcosmo) e do Universo (Macrocosmo) e toda a gama de relações entre ambos, no intuito de se chegar à Vontade Superior individual, ou seja, qual o seu papel, como indivíduo separado e solitário, dentro do quadro do Infinito. Esta é a Grande Obra do Iniciado, e pode levar toda uma vida – ou muitas vidas – para ser realizada. Sempre na solidão de seu próprio íntimo.

Sabendo qual deve ser sua Vontade, o homem poderá fluir como o proverbial pássaro, deslizando de asas abertas no vento que o carrega, sem esforço e sem conflito. Parece simples, não é mesmo? Pois não é. Conhecimento, especialmente conhecimento interior, exige um longo e árduo processo, e Thélema não é exceção. Ao mesmo tempo, a recompensa é o poder que o conhecimento proporciona a quem dele se assenhoreia. E todo poder é uma arma, que pode ser apontada tanto para fora quanto para dentro de si próprio.

Como vimos acima, toda interpretação dos preceitos da Lei de Thélema é individual. A minha visão e o meu entendimento serão necessariamente diferentes da visão e do entendimento de alguém mais, e a descoberta do significado recôndito de cada postulado deve ser feita pela própria pessoa. O crescimento em Thélema é um processo inteiramente solitário.

Qualquer discussão a respeito do assunto seria estéril, já que não há duas realidades exatamente iguais, nem duas mentes exatamente iguais. Talvez eu consiga impor meu modo de pensar e de interpretar sobre você, mas isto não significaria que tenho razão – apenas que tenho mais poder de persuasão, ou talvez mais eloqüência. Talvez seja interessante trocar idéias, mas deve-se sempre ter em mente que a conversa seria apenas isto: uma troca de pareceres individuais, e que qualquer tentativa de convencer o interlocutor seria uma invasão de sua órbita e uma intromissão em seu curso. Mesmo este livro é apenas a exposição de meu ponto de vista sobre o assunto – o de outra pessoa poderá ser totalmente diferente do meu – sem que necessariamente um ou outro esteja errado.

Thélema não pode ser explicada, categorizada, catalogada. Não é uma religião, porque não possui nenhum sistema de fé ou dogma coletivo, nem tampouco um código moral. Não há deuses para os quais se deva rezar e implorar; não se prega a existência de milagres ou de quaisquer fenômenos que desafiem a razão do homem. Talvez poderíamos chamá-la de filosofia, ou processo filosófico, ou mesmo uma filosofia de vida, porque a busca pela sua Vontade Superior toma conta de cada segmento da existência.

A pergunta parece se resumir, então, ao que vem a ser esta Vontade.

 

Somente o homem livre é dono de sua vontade. Somente o homem livre possui uma vontade livre. Quer dizer, a pergunta agora se tornou: o que é um homem livre, capaz de saber qual a sua vontade e realizá-la?

O homem livre é aquele sobre quem nada e ninguém tem domínio. O que quer dizer que ele dominou tudo – começando consigo mesmo, seus anseios, suas angústias e os desejos que guerreiam em seu íntimo. O homem livre é, primeiramente, livre de si mesmo.

Resumindo, temos, então, que a Lei da Vontade é a Lei do homem livre, e o homem livre, a quem esta Lei pertence, é o homem que tem domínio não apenas sobre o universo que o cerca, mas, acima de tudo, sobre si mesmo.

O homem que domina a si mesmo não se deixa levar por caprichos do momento, que poderiam causar sua destruição. Ele faz escolhas baseando-se em uma escala de valores que está acima da temporal e momentânea satisfação. E por que isto?

Porque o homem livre se guia não pelo relógio do tempo ou do espaço, mas pelo movimento das esferas celestiais. Ao mesmo tempo, todo Homem e toda Mulher é uma Estrela, diz a Lei de Thélema – mas, até descobrir-se como tal, ele não é capaz de reger o próprio curso. É apenas mais um pedaço de barro levado pelas circunstâncias. Um servo.

O homem livre busca, portanto, conhecer as regras do jogo infinito, estudar o curso dos astros e dos homens. Somente visto sob este prisma é que se pode ler Liber Oz, o texto que abre este livro, e aceitá-lo como filosofia de vida. Somente penetrando nos mistérios e segredos do Universo o homem pode verdadeiramente guiar a Merkavah (o Carro, em hebraico) de seu destino.

Por isto a Lei de Thélema é a Lei do mais forte. O que então nos leva à pergunta: e quem é o mais forte? O homem que tem poder sobre si mesmo e sobre outros – ou o homem que abre mão de todo e qualquer poder, até de si mesmo, para buscar algo que está além de toda a realidade de si e do ínfimo Universo que o cerca (microcosmo e macrocosmo) – rumo à Luz estonteante do Eterno?

Por isto digo que, além de qualquer poder que pode o homem atingir, seja com seu corpo ou com sua mente, está a Força transcendente e imanente da qual ele é parte, e que representa sua verdadeira grandeza – a Luz que é YHVH.

E o que vem a ser YHVH – as Letras do Nome Inexprimível?

EU SOU.

O que nos leva à conclusão de que o maior poder que o homem pode atingir é nada ter e nada ser, além da poeira cósmica que realmente somos: Estrelas inexoravelmente separadas e interligadas, em uma Teia sem princípio nem fim, atemporal e onipresente: EU SOU.

        Mas esta é a minha interpretação... a sua poderá ser outra, inteiramente diferente.

 

 

 

 

 

 

 

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