Os gatos sonolentos do Cairo abriram seus olhos verdes
e, bocejando, espreguiçaram-se com toda sua graça
felina, estirando suas patas felpudas. Caía o dia,
e com o crepúsculo começavam as atividades
da sua espécie: as miadelas amistosas, a busca
de alimentos, a caça de ratos, brigas e amorosas
conquistas. Com a chegada do crepúsculo, começou
também a atividade mais estranha da minha existência,
embora fosse vivida em silêncio.
Estava decidido a passar a noite inteira dentro da Grande
Pirâmide e permanecer doze horas na Câmara
do Rei, desperto e alerta, quando as sombras estivessem
atravessando com seu passo o continente africano. Finalmente
ali estava eu, instalado no recinto mais raro e mais estranho
que jamais fora construído na terra.
Não me foi fácil chegar aquele momento
tão desejado. Descobri que, embora acessível
ao público, a Grande Pirâmide não
era de propriedade pública; pertence ao governo
egípcio, e não se podia entrar no seu interior
e passar uma noite no melhor dos seus sentidos, como não
se pode entrar numa casa alheia e passar a noite no melhor
dos seus dormitórios, sem mais nem menos.
Para visitar a Pirâmide tem que se pedir licença
ao Ministério de Antiguidades e pagar cinco piastras
pela entrada. Fui, pois, ao Ministério e com todo
o otimismo solicitei a licença de passar uma noite
na Pirâmide. Se eu tivesse pedido licença
para viajar à lua, a fisionomia do funcionário
que me atendeu não teria demonstrado maior espanto.
Dei-lhe então uma breve explicação
para justificar meu pedido. A surpresa cedeu lugar à
mofa; o homem sorriu. Compreendi que ele me considerava
um candidato pronto a ingressar numa certa instituição
da qual poucos queriam ser hóspedes. Finalmente
disse:
"É a primeira vez que se me faz semelhante
pedido; não creio ter qualificações
para lhe dar a autorização que solicita."
Mandou-me a um outro funcionário de maior hierarquia
do mesmo Departamento, em cuja entrevista se repetiu a
cômica cena anterior. Meu otimismo começava
a esvanecer-se. "Impossível!" exclamou
esse segundo funcionário, com toda amabilidade
mas categoricamente, pensando ter diante de si um louco
inofensivo. Sinto muito - acrescentou - "mas não
é costume..." Encolheu os ombros sem terminar
a frase.
Levantou-se para me despedir, e ver-me longe dali.
Então, minha experiência de jornalista,
adormecida durante tantos anos mas não extinta,
entrou buliçosamente em ação. Comecei
a discutir e de modos diferentes repetir meu pedido com
insistência, resistindo em abandonar a sala. O homem,
finalmente, conseguiu livrar-se da minha presença,
dizendo que o assunto não competia à jurisdição
do Departamento de Antiguidades.
Perguntei então a quem competia dar-me a permissão.
Não estava bem seguro o funcionário; contudo,
aconselhou a dirigir-me à polícia.
Julguei que meu pedido era, no melhor dos casos, excêntrico
e, no pior, suficiente para me classificar de maluco.
Mas não podia desistir. A decisão de levar
a cabo meu propósito se converteu numa verdadeira
obsessão.
Na Delegacia de Polícia descobri uma Seção
de Licenças. Pela terceira vez implorei que me
permitissem passar a noite na Pirâmide. O oficial
que me atendeu, não sabendo o que fazer comigo,
optou por mandar-me falar com seu chefe. Este me pediu
que aguardasse para resolver o assunto. Quando, no dia
seguinte, voltei esperançoso, anunciou ter encaminhado
meu pedido ao Ministério de Antiguidades!
Regressei ao domicílio, desesperado por não
haver conseguido meu intento.
Todavia, "as dificuldades são feitas para
ser vencidas", diz o adágio, cuja singelesa
não diminui sua inegável verdade. Minha
deliberação seguinte foi pedir uma entrevista
ao comandante em chefe da polícia do Cairo, o atencioso
El Lewa Russel Pachá. Saí da entrevista
com uma ordem escrita em que o chefe me recomendava ao
comissário da zona onde se acha a Pirâmide,
para que me fosse facilitada toda ajuda necessária
ao meu intento.
E assim, numa tarde, apresentei-me ao comissário
da polícia divisional de Mena, o major Mackersey.
Assinei meu nome num livro que me indicaram, com o que
a polícia se fazia responsável por minha
segurança até o dia seguinte. Um agente
recebeu o encargo de me acompanhar à Pirâmide
e ordenar ao guarda armado, de sentinela diante do monumento,
que ficasse ali durante a noite.
"Corremos um grande risco deixando o senhor só
dentro da Pirâmide toda a noite - bramiu com certo
humor o major Mackersey, ao nos despedirmos. O senhor
não vai explodi-la, vai?
- Prometo-lhe não somente isso, porém que
não me deixarei levar pelos ares com ela!
"Temos que zelar pelo senhor. E como sempre fechamos
à chave a grade de ferro da entrada, ao anoitecer,
o senhor terá que ficar nosso prisioneiro durante
doze horas!"
- Formidável! Neste momento prefiro essa prisão
a qualquer outra residência!
.:.
O caminho que leva à Pirâmide é ladeado
de árvores copadas de LEBBECK; de quando em quando,
nas clareiras aparece uma casa à beira da estrada,
que no seu trecho final vai subindo, gradativamente, acabando
numa íngreme encosta do planalto onde se encontram
as Pirâmides. Enquanto percorria aquele trecho,
ia pensando se já aconteceu no decorrer dos séculos
a algum dos numerosos viajantes seguirem aquele mesmo
caminho para missão tão estranha quanto
a minha.
Subi a pequena colina do lado ocidental do Nilo, onde
a Grande Pirâmide e sua fiel amiga a Esfinge montam
guarda silenciosamente sobre a África do Norte.
O gigantesco monumento aumentava diante de mim, à
proporção que me aproximava andando pelas
areias e pedras. Contemplei mais uma vez os flancos triangulares
e inclinados daquela obra arquitetônica, a mais
antiga que se conhece atualmente no mundo, segui com o
olhar esses enormes blocos, da base ao ápice, cuja
perspectiva reduz o tamanho à medida que se vai
distanciando. A perfeita simplicidade da sua construção,
a ausência total de qualquer adorno, a exclusividade
da linha reta, são detalhes que não desmerecem
de forma alguma a majestosa grandeza da sua criação.
Entrei na silenciosa Pirâmide pela abertura que
havia sido descoberta pelo Califa Al Mamum, e comecei
minha investigação da estrutura titânica,
não pela primeira vez, sem dúvida, mas,
sim, pela primeira vez com intenção tão
estranha quanto a que me havia arrastado para o Egito,
pela segunda vez. Após avançar um trecho,
cheguei ao final da brecha horizontal feita pelos homens
do Califa, e passei pelo corredor da entrada original.
Com a tocha na mão, a cabeça quase tocando
os joelhos, iniciei minha descida pela passagem estreita,
baixa, resvaladiça e comprida, a continuação
do primeiro corredor. Minha estranha posição
era sumamente incômoda e o declive do chão
de pedra obrigava a acelerar a velocidade da descida.
Querendo fica mais tempo na Câmara do Rei, comecei
por fazer um exame minucioso da lúgubre zona subterrânea,
cujo acesso havia sido interceptado nos últimos
tempos por uma comporta de ferro, para evitar, provavelmente,
que o público a visitasse e saísse dali
semi-asfixiado.
Veio-me à memória um velho adágio
latino: "Facilis descensus averni" (A descida
para o inferno é fácil - N. da T.), porém,
desta vez havia nessas palavras humor sarcástico.
A luz amarelada da tocha deixava-me ver apenas pedras
envolvendo-me por todos os lados. Ao fim de um certo tempo,
percebi um pequeno patamar à minha direita, que
oferecia possibilidade de repouso, e deitei-me para descançar
da minha posição incômoda. Descobri
que aquela saliência não era mais do que
a terminação daquela cova chamada Fossa,
que descia desde a encruzilhada da passagem ascendente
com a Grande Galeria. O nome de Fossa se conservou e,
durante dois mil anos, se acreditava que no fundo dela
havia água. Quando Caviglia mandou limpá-la
dos escombros milenares, descobriu-se que o fundo estava
completamente seco.
Essa passagem era ainda mis estreita do que a outra.
Toscamente cavada na sólida rocha, era tão
baixa que chegava a roçar minha cabeça;
havia nela pequenas cavidades, paralelas que serviam de
apoio na relativamente perigosa subida.
Leva através desigual, tortuosa e longa extensão,
e desemboca num recinto cavado na pedra em forma de uma
abóbada, conhecido agora sob o nome de Gruta, que
marca o nível do planalto rochoso no qual foi levantada
a Pirâmide. A Gruta, parcialmente feita por alargamento
natural da brecha existente na rocha, parecia ter sido
cavada na alvenaria e não construída como
todas as demais passagens subterrâneas. Essa parte
onde estava a Fossa diminuía de largura, dificultando
mais ainda a subida.
Finalmente consegui atravessar, e saí pela escabrosa
e irregular abertura da boca da Fossa, que liga o extremo
nordeste à Grande Galeria.
Por que foi aberto aquela Fossa no corpo maciço
da Pirâmide? A pergunta surgiu automaticamente e,
quando ela girava no meu cérebro, de súbito
me veio a resposta. Os antigos egípcios que encerraram
a história da Pirâmide, ao retirar-se, taparam
com três monstruosos tampões de granito a
entrada da Grande Galeria e das Câmaras, idealizando
uma via de escape para que eles próprios não
ficassem presos, sem possibilidade de saída.
Eu sabia por minhas próprias investigações
que a fossa e a Gruta haviam sido escavadas na época
da construção da Pirâmide, quando
a Fossa não descia tanto quanto a Gruta naquele
tempo. Durante milhares de anos não havia nenhuma
comunicação direta entre as passagens superiores
e subterrâneas.
Quando a Grande Pirâmide cumpriu seu misterioso
propósito, aqueles que eram os responsáveis
fecharam-na. O fechamento havia sido previsto pelos construtores
que deixaram preparados os elementos necessários
e até fizeram uma construção especial,
no extremo inferior da passagem ascendente, para guardar
tres tampões de granito.
Os últimos ocupantes da Pirâmide mandaram
os pedreiros escavar a seção baixa da Fossa
para se assegurarem uma saída. Concluída
a tarefa, n retirada não tiveram mais que bloquear
a saída recém-cavada da Fossa onde se une
com a passagem descendente, e subir os noventa e dois
metros até a entrada original do monumento. Assim,
a chamada Fossa que havia sido construída originalmente
para chegar à Gruta, por fim tornou-se um meio
para deixar a bloqueada Pirâmide.
Retomei pelo acesso mais fácil ao longo do túnel
em declive, que liga as entranhas da Pirâmide ao
mundo exterior, para recomeçar minha descida nas
profundezas do rochoso planalto de Giseh. Então,
cruzou-se comigo um vulto imenso; de súbito, voltei-me
assustado e vi que era minha própria sombra! Nesse
lugar fantasmagórico podia-se esperar qualquer
coisa, e nada era demasiado estranho para acontecer. Engatinhando
e arrastando-me, venci a distância relativamente
curta que faltava para descer à passagem em declive
e, com grande alívio, respirei, chegando enfim
ao terreno horizontal; estava dentro de uma nova passagem,
menor ainda do que a anterior. Avancei arrastando-me uns
dez metros e parei diante da entrada do recinto mais estranho
que jamais tinha visto, a chamada Cova. Tinha quinze metros
de largura de parede a parede.
Aquela cova sombria ficava exatamente abaixo do nível,
no centro da Pirâmide; dava a impressão de
ter sido apressadamente abandonada; de uma escavação
que tivesse sido interrompida repentinamente. O teto estava
bem lavrado, mas o chão subia e baixava como o
de uma trincheira bombardeada. Os antigos pedreiros egípcios
costumavam construir as abóbadas escavando na rocha
de cima para baixo e deixando o chão para o fim.
Por que razão não haviam terminado aquele
chão, quando dedicaram mais que uma vida de labor
para construir a superestrutura que se levanta na base
rochosa, é um enigma arqueológico que ninguém
pôde desvendar. Aliás, como toda Pirâmide,
é uma incógnita indecifrável.
Prossegui, com a luz de minha tocha focalizando através
da densa escuridão as desigualdades do solo, e
detive-me diante de um profundo precipício, mudo
testemunho das escavações dos buscadores
de tesouros, que o haviam aberto laboriosa e infrutiferamente,
um legado dos seus vãos esforços. Um morcego
voou sibilando por cima de minha cabeça, fazendo-me
sentir o desagradável contato de suas asas, voluteando
na atmosfera rarefeita do ambiente. Notei que a luz da
tocha havia despertado outros tres morcegos que dormiam
no fundo da cova, cabeça para baixo, nas rugosidades
da rocha. Afastei-me, despertando mais dois que dormiam
presos ao teto; alarmados e atordoados pela luz com a
qual os persegui impiedosamente, com ruído surdo
voaram de um lado para outro até que desapareceram
na escuridão da boca da entrada.
Subindo e descendo, cheguei ao outro extremo do recinto
onde percebi uma pequena abertura suficientemente ampla
para que o meu corpo passasse, mas tão baixa que
só se podia entrar de rojo, o rosto tocando o chão
coberto de grossa camada de pó acumulado durante
alguns milhares de anos. A tarefa não era nada
agradável, mas passei, ansioso por conhecer aonde
levava o túnel. Após ter-me arrastado uns
vinte metros, o túnel acabou bruscamente. Ali também
dava a impressão de não ter sido acabado.
Meio asfixiado, retrocedi, às escuras, da sufocante
cova; lancei um olhar ao redor do recinto e iniciei minha
caminhada de regresso à partes superiores da Pirâmide.
Cheguei à passagem em aclive, seguindo em linha
reta cento e sei metros cavados na rocha maciça,
antes de continuar minha exploração do corredor
construído em alvenaria. SEntei-me no chão
e pela abertura pus-me a observar o céu escuro,
como através de um gigantesco telescópio,
sem lentes. Ali estava a Estrela Polar, ponto prateado
bem visível no azul-escuro da noite. Verifiquei
a direção com a minha bússola-pulseira:
assinalava exatamente o Norte. Aqueles construtores primitivos
não somente haviam idealizado uma obra maciça,
mas também precisa.
Voltei, arrastando-me pela passagem íngreme e
cheguei finalmente ao estreito corredor horizontal que
leva à Câmara da Rainha. Mais alguns passos,
e estava sob a abóbada de vigas convergentes. Examinei
os condutos de ar que subiam as paredes na direção
norte-sul. Eram uma prova evidente de que a sala não
estava destinada a ser um túmulo, mas um recinto
de uso para pessoas vivas. Quando no ano 1872 foram descobertos
os condutos, estavam encaixados uns doze centímetros
dentro das paredes. Esta descoberta desconcertou muitos
investigadores, porque nesse caso não eram canais
de ventilação, mas deviam ter servido para
qualquer outro uso desconhecido. A melhor explicação
desse fato é que em determinado momento e uma vez
alcançado seu objetivo, os orifícios e os
tubos foram tapados com blocos especiais de pedra, como
o fizeram com as passagens superiores da Pirâmide.
Os tubos de ar foram encontrados casualmente por Waynman
Dixon, engenheiro civil que estava realizando alguns trabalhos
nos arredores da Pirâmide. Examinando, por mera
curiosidade, as paredes da Câmara da Rainha, avistou
que, em certo lugar, uma delas parecia ser ôca e
ligeiramente danificada. Fêz quebrar a parede naquele
ponto, e a doze centímetros de profundidade descobriu
um pequeno conduto; pelo mesmo processo, então,
encontrou um outro tubo na parede oposta. Ambos os condutos
atravessavam todo o corpo da pirâmide, fato que
verificou mais tarde mediante sondas de ferro, numa extensão
maior que sessenta metros.
Voltei à passagem horizontal e caminhei até
o ponto de encontro com a Grande Galeria. Subi lentamente
quarenta e cinco metros daquele corredor íngreme,
ladeado de morcegos. Enquanto subia, senti-me ligeiramente
indisposto pela fome, consequência do meu jejum
de três dias. Descansei alguns minutos num degrau
de um metro de altura, que marcava o fim da Galeria, o
ponto exato por onde passava o eixo vertical da Pirâmide.
Dei mais alguns passos para atravessar a Antecâmara,
agachei-me para passar por baixo do bloco de granito que
barra horizontalmente a entrada, e cheguei à sala
mais importante da Pirâmide, a famosa Câmara
do Rei.
.:.
Aqui também a presença de tubos, cada um
com cerca de cinquenta centímetros quadrados, destruía
a teoria do túmulo. As bocas não estavam
fechadas como as da Câmara da Rainha, mas apenas
obstruídas com pedras soltas, que o coronel Vyse
teve de tirar para averiguar a natureza dos condutos.
É mais que provável que a obstrução
tivesse sido feita ao mesmo tempo que as demais operações,
quando os últimos ocupantes da Pirâmide quiseram
ocultar a disposição interna de sua parte
superior.
Projetei a luz da minha tocha sobre as paredes desnudas
e o teto plano, admirando mais uma vez a extraordinária
perícia com que os uniam os enormes blocos de granito
polido, cuidadosamente observando as paredes, examinando
uma por uma todas as pedras em redor. Os blocos rosados
da longínqua Siene foram quebrados aqui e acolá
por interessados nos tesouros, deixando enormes fissuras
na sua superfície lisa. O chão também
testemunhava a busca febril e vã da avidez humana.
No lado leste do solo faltava um pedaço de pedra
que havia sido substituído por terra socada e no
nordeste um profundo orifício retangular ficou
sem ser emendado. Um grande bloco de pedra rugosa que
havia ocupado aquele espaço estava ao lado apoiado
contra a parede, por sorte, deixado pelos primeiros árabes.
Paralelo ao bloco, a poucos centímetros de distância,
estava o sarcófago, um caixão de granito
vermelho, polido, sem tampa. Era o único objeto,
saldo o bloco, que se podia ver naquela sala de mobília
tão escassa. Estava colocada exatamente na direção
do Norte ao Sul.
O bloco deslocado do chão oferecia possível
assento. Sentei-me de pernas cruzadas, disposto a passar
ali o resto da noite.
À minha direita coloquei o chapéu, casaco
e sapatos; à esquerda deixei a tocha, ainda acesa,
uma garrafa térmica com chá quente, garrafa
de água gelada, um caderno de notas e uma caneta
Parker. Olhei em redor da sala, detive o olhar no sarcófago,
que estava em frente de mim, e apaguei a luz.
Ao alcance da minha mão estava, pronta a funcionar,
em caso de necessidade, uma possante lâmpada elétrica.
A súbita imersão no escuro trouxe consigo
a incerteza do que poderia ocorrer no transcurso da noite.
A única coisa que podia fazer nessa estranha situação,
era aguardar... esperar...
Os minutos passavam lentamente, enquanto ia me relaxando
aos poucos e "sentindo" a atmosfera carregada,
própria do ambiente, que só se podia denominar
"psíquica". Consenti que a minha mente
se tornasse receptiva, a sensibilidade passiva, e negativa
a minha atitude, desse modo tornando-me um verdadeiro
registro de qualquer manifestação supra-física
que viesse a produzir-se. Não queria que nenhum
preconceito pessoal ou receio entravasse a percepção
que me afluísse de alguma fonte inacessível
aos cinco sentidos.
Gradualmente foi diminuindo o fluxo do meu pensamento,
até que minha mente entrou em estado de semivacuidade.
O silêncio que envolvia meu cérebro me fez
agudamente cônscio da quietude que se apoderava
de mim. A vida com seu bulício, mexericos e problemas,
era algo mui distante, direi até quase inexistente.
Das trevas circundantes não saía nenhum
ruído nem um murmúrio. O silêncio,
o verdadeiro soberano, reinava no império da Pirâmide;
silêncio que se iniciou na pré-história
e que os turistas com seu falatório não
puderam quebrar - o silêncio profundo que todas
as noites se reintegrava no seu reino, dominou, envolvendo
todo o meu ser.
Senti a vibração poderosa do ambiente.
É uma sensação mui sutil, a mesma
que sentem as pessoas sensíveis na atmosfera das
casas antigas. À medida que o tempo passava, ia
se intensificando a impressão da incomensurável
antiguidade que me rodeava; o século XX parecia
distanciar-se, diluir-se e deslizar da minha memória.
No entanto, de acordo com minha própria decisão,
que me havia imposto, longe de resistir a essa sensação,
deixei-a robustecer-se.
Começou a se manifestar a estranha impressão
de que não me achava só. Senti insidiosamente
sob a capa de trevas absolutas a existência de algo
vivo; a sensação, embora vaga, era real
e, com a crescente convicção de retroceder
ao passado, aumentava-me a certeza de uma presença
"psíquica".
Apesar dessa impressão de que uma vida sutil palpitava
nas sombras, não se manifestava nada de concreto.
Corriam as horas e, ao contrário de tudo que esperava,
ao passo que avançava a noite, aumentava o frio.
Os efeitos de tres dias de jejum que deliberadamente observei
para afiar minha sensibilidade, manifestaram-se em forma
de calafrios, cada vez mais intensos. O ar fresco que
vinha pelos tubos de ventilação atravessava
meu leve agasalho. O corpo tremia sob a camisa; assim,
tive que me levantar e por o casaco que poucas horas antes
havia deixado por não aguentar o intenso calor.
É comuníssimo no Oriente em certas épocas
do ano: calor tropical durante o dia e forte baixa de
temperatura durante a noite.
Até agora ninguém descobriu as bocas dos
tubos de ar do exterior da Pirâmide, embora se conheça
aproximadamente sua posição. Alguns egiptólogos
duvidaram até que os canais tivessem uma ligação
com o exterior, porém o total esfriamento do ar
que verifiquei aquela noite, deixa definitivamente claro
esse pormenor.
Retomei meu assento no bloco de pedra e entreguei-me
ao aterrorizador silêncio de morte que reinava na
Câmara do Rei e às dominantes trevas que
a envolviam. Com o espírito dócil prossegui
na minha expectativa. Sem razão aparente recordei
que ali, ao Este, o Canal de Suez seguia seu curso em
linha reta entre as areias e pântanos, e o majestoso
Nilo formava a coluna vertebral do país.
A profunda quietude sepulcral do aposento, o sarcófago
vazio a meu lado, de certo, não contribuíram
para serenar-me os nervos, quando além do mais,
minha sensação continuava a acusar a presença
viva, embora invisível, de seres que me rodeavam,
convertendo-se numa certeza. Sim, havia algo que palpitava
no meu lado, vivo, embora não visse absolutamente
nada. Até perceber de súbito a imprudência
em que me colocara, compreendi minha situação.
Estava só, envolto numa escuridão impenetrável,
prisioneiro numa temível edificação
lendária a centenas de quilômetros, a construção
mais antiga do mundo e ladeada por um dantesco e revolvido
cemitério de uma velha metrópole que se
alçava no limiar de um deserto.
Não havia mais dúvida para mim, que havia
aprofundado os mistérios de ocultismo, a magia
e feitiçaria do Oriente, o lado psíquico
do ser, de que a sala da Câmara do Rei se povoava
de seres invisíveis, espíritos que guardavam
a Pirâmide. Esperava ouvir em qualquer momento um
voz espectral! que saísse daquele silêncio
avassalador. Dava graças aos construtores por haverem
instalado aqueles tubos que proviam de ar fresco, reduzido
porém constante, que percorria uns noventa metros
na Pirâmide antes de chegar aquele recinto, mas
de qualquer modo bem-vindo. Sou um homem acostumado à
solidão, na qual sempre me deleitei, mas s solidão
daquela sala tinha algo de temerário e pavoroso.
As trevas envolventes começaram a oprimir-me a
cabeça, qual um elmo de ferro. A sombra do medo
indizível fez estremecer todo meu ser; afugentei-a
imediatamente. Para permanecer no coração
daquele monumento do deserto, necessita-se não
somente coragem mas também uma certa fortaleza
moral. Não havia serpentes saindo dos buracos ou
fendas, nem malandros desabrigados trepando pelas faces
íngremes da Pirâmide para entrar calmamente
à noite. Os únicos sinais de vida animal
que encontrei, foram os de um rato no corredor horizontal,
tentando inutilmente encontrar um refúgio nas pedras
lisas de granito; dos lagartos verde-amarelados, incrivelmente
velhos, colados ao teto na estreita passagem da Câmara
da Rainha e, finalmente, dos morcegos da cova subterrânea.
Havia também, é certo, os grilos, que me
receberam com prolongado chirrio quando cheguei na Grande
Galeria, mas não demoraram a calar-se. Tudo isso
estava para trás, e nesse momento só havia
o silêncio invencível que me mantinha preso
ao seu mudo cativeiro. Não havia nada de natureza
física que pudesse me fazer algum dano, e não
obstante, voltou a assaltar-me, pela segunda vez, essa
vaga inquietude causada por olhos invisíveis que
me fitavam. Neste lugar havia fantástico mistério,
uma irrealidade espectral...
.:.
Há vibrações de força, som
e luz que estão além de nosso alcance normal
de captação. Os ouvintes radiofônicos
ouvem canções alegres e discursos sérios
que, num relâmpago, atravessam o espaço e
lhes vêm pelo éter, e que sem seus aparelhos
devidamente sintonizados, nunca poderiam captar. Saindo
de simples espera receptiva, passei à concentração
mental, focalizando toda a minha atenção
num esforço para atravessar o negro silêncio
que me rodeava. Se minha faculdade de percepção
fosse temporariamente elevada acima do normal, quem sabe
não me seria possível perceber a presença
das forças invisíveis?
Sei que, no momento em que me "sintonizei"
pela introversão, cujo método aprendi muito
antes da minha segunda vinda ao Egito, a Câmara
do Rei foi invadida por forças hostis. Senti no
ambiente algo de maléfico e perigoso, que me provocou
arrepios. Mal meu coração sossegava, tornava
a agitar-se; um temor insistente começou a dominar-me.
Tornei a intensificar minha concentração,
fixa num só ponto, e a sensação,
seguindo seu treino usual, transformou-se em visão.
Sombras começaram a surgir de todos os lados e
gradualmente foram tomando formas mais definidas; de súbito
apareceram rostos hediondos, tão próximos
que quase tocaram meu próprio rosto. Imagens sinistras
me surgiam com toda nitidez ante os olhos da minha mente.
Uma aparição tenebrosa avançou até
perto de mim, e olhou-me fixamente com olhos vesgos e
sinistros, levantando as mãos num gesto de ameaça,
querendo aterrorizar-me. Espíritos macróbios
pareciam sair da vizinha necrópole, necrópole
tão velha como as múmias pulverizadas dentro
dos seus sarcófagos de pedra. Fantasmas que estavam
presos aos seus túmulos, viveram, provocantes,
expulsar-me do meu lugar de vigília. Todas as lendas
de assombrações malígnas, relatadas
pelos árabes de uma aldeia vizinha, voltaram-se
à memória com os mesmos pormenores desagradáveis.
Quando comuniquei a um jovem árabe, amigo meu,
morador daquela aldeia, minha intenção de
passar a noite na velha Pirâmide, fez tudo para
me dissuadir.
"Cada pedaço de terra está mal-assombrada"
- advertiu - "dentro da Pirâmide há
todo um exército de fantasmas, repleta que está
de espectros e gênios".
Agora via que sua advertência não havia
sido em vão. Figuras espectrais continuavam a chegar,
rodeando o recinto escuro. A inquietação
indefinível e o mal-estar, que me haviam dominado
há pouco, foram plenamente justificados. No centro
daquele corpo que era meu, o coração batia
às marteladas. Medo, espanto, horror, persistentemente
me mostravam suas faces perversas; sem querer fechei os
punhos com força. Mas eu estava decidido a prosseguir,
e embora as formas sepulcrais que transitavam pelo recinto
e haviam começado por despertar-me o sentimento
de alarma, acabaram por me provocar o incitamento de todas
as minhas reservas preciosas de coragem combativa.
Embora tivesse os olhos fechados, aquelas formas cinzentas
vaporosas, viscosas, penetravam na minha visão
interior sempre com o mesmo antagonismo implacável
numa sinistra determinação de impedir-me
o cumprimento do meu intuito.
O círculo de seres antagônicos estreitava.
Querendo, podia acabar com essa visão facilmente;
bastava acender a luz de minha lâmpada, saltar do
meu assento e correr algumas centenas de metros até
a entrada onde a sentinela armada me proporcionaria um
alívio imediato. A prova era dura e me impunha
a tortura em sua forma mais sutil; atormentava-me a alma
deixando o corpo intacto. Algo no meu interior me intimava
com igual inflexibilidade, a ficar firme no meu intento.
Chegou o momento culminante. Cercaram-me mais criações
elementais, malígnos, horrores do submundo, figuras
de aspecto grotesco, insano e diabólico, cercaram-me,
provocaram-me repulsa intolerável. Vivi alguns
instantes que jamais esquecerei. Aquela cena incrível
me ficou vivamente gravada na memória, e seus momentos
nunca desejarei repetir - jamais voltarei a pernoitar
na Grande Pirâmide.
O fim chegou de repente. Com uma celeridade alarmante,
os perniciosos invasores desapareceram nas trevas das
quais haviam surgido e voltaram ao reino sombrio dos defuntos
e das baixas esferas, levando consigo sua comitiva de
horrores diabólicos. Meus nervos ressentidos tiveram
um grande alívio, semelhante ao do soldado, quando
bruscamente cessa o bombardeio.
Não sei quanto tempo se passou antes de eu sentir
uma nova presença de alguém que, benévolo
e amistoso, veio à Câmara do Rei, olhando-me
com afabilidade. Á sua chegada o ambiente tornou-se
leve, o ar da pureza parecia envolvê-lo. Minha excitada
sensibilidade sob o efeito desse novo elemento, como se
tivesse ingerido um sedativo, acalmou-se. O recém-chegado
aproximou-se do meu assento de pedra e vi então
que o acompanhava uma outra figura. Ambas se detiveram
ao meu lado e fixaram-me com ar grave, olhar carregado
de profético significado. Pressenti que os momentos
cruciais da minha existência estavam em suas mãos.
Na minha visão, aqueles dois seres formavam um
quadro inesquecível. Quando escrevo, tudo volta
aos olhos da minha mente: suas túnicas brancas,
os pés calçados de sandálias e o
aspecto venerável das suas figuras. Levavam as
inconfundíveis insígnias dos seus cargos;
eram os Sumos-Sacerdotes do antigo culto egípcio.
Rodeava-lhes a cabeça um halo brilhante que, de
maneira estranha, iluminava uma parte do aposento. Na
verdade, pareciam mais do que homens, pela sua luminosa
presença, e a chama compenetrada dos seus rostos
assemelhava-se a semi-deuses.
Permaneceram imóveis como estátuas, de
mãos cruzadas sobre o peito, contemplando-me em
silêncio.
Estaria eu em alguma quarta dimensão, mergulhado
em longínqua época do passado, mantendo
minha mente alerta? Havia eu retrocedido minha noção
de tempo, à era primitiva do Egito? Não;
isso parecia não ser, pois, nitidamente percebia
que aqueles dois espíritos me viam e estavam prestes
a dirigir-me a palavra.
Suas altas figuras se inclinaram; uma delas aproximou
seu rosto do meu; no seu olhar luminoso brilhava ardor
espiritual e seus lábios pareciam mover-se; uma
vez ressoou nos meus ouvidos.
"Por que vieste a este lugar" - perguntou -
"procurando evocar poderes secretos; não te
bastam os caminhos dos mortais?"
Eu não ouvi essas palavras com meu ouvido físico;
nenhum vibração sonora perturbou o silêncio
da noite. Parecia ouvi-las como ouve um surdo pelo aparelho
artificial elétrico à guisa de tímpano,
porém com uma diferença: ressoavam na parte
INTERNA do tímpano. A voz que chegava a mim, para
dizer mais exatamente, era como se fosse uma voz mental,
porque a ouvia seguramente dentro de meu cérebro,
porém que poderia dar impressão errônea
de que fosse um simples pensamento. Não era isso,
não era um pensamento; era sim, uma VOZ.
- Não, não me bastam! - respondi.
"A agitação das multidões nas
cidades reconforta o coração tremulo do
homem" - disse - "Volta a reunir-te aos teus
semelhantes e não demorarás a esquecer o
frívolo anseio que te trouxe aqui".
- Não, não pode ser, - tornei a responder.
Ele fez uma nova tentativa:
"O caminho que escolheste te afastará dos
limites da razão; alguns os seguiram e voltaram
loucos. VAi-te agora, pois, ainda há tempo, e segue
o caminho traçado para os pés dos mortais!"
Abanei a cabeça e murmurei:
- Pois eu devo seguir este caminho; agora não
há outro para mim.
O sacerdote deu mais um passo adiante e inclinou-se perto
de mim. Vi seu rosto sulcado destacar-se nas trevas.
"Aquele que entra em contato conosco - sussurrou-me
no ouvido - perde seu vínculo com o mundo. Serás
tu capaz de andar só?"
- Não sei, respondi.
Da escuridão ouvi ressoar suas últimas
palavras:
"Assim seja. Escolheste. Pela tua própria
decisão não podes mais retroceder".
Desapareceu. Fiquei com o outro espírito que até
esse momento não havia desempenhado nenhum papel,
senão o de testemunho silencioso.
.:.
Aproximou-se e ficou à frente do sarcófago
de mármore. Seu rosto era de um verdadeiro macróbio.
Não me aventurei a conjeturar sua idade.
"Meu filho" - disse serenamente, virando-se
para mim - "os poderosos senhores das potências
secretas tomaram conta de ti. Esta noite serás
conduzido à Sala do Saber. Deita-te nesta pedra!
Antigamente, sendo um leito, teria sido revestido de folhas
de papiros". Indicou o sarcófago.
Não me ocorreu fazer outra coisa senão
obedecer o meu estanho visitante. Deitei-me de costas
sobre a fria pedra de mármore.
O que sucedeu logo depois, não o vejo com muita
clareza, pois foi como se inesperadamente me tivessem
dado uma dose de algum anestésico de ação
lenta; todos os meus músculos ficaram tensos e
uma paralisante letargia começou a invadir-me os
membros. O corpo ficou pesado e endurecido. A princípio,
meus pés começaram a esfriar-se lentamente;
o frio foi subindo, subindo imperceptivelmente, chegando
até os joelhos, e prosseguia seu avanço,
gelando-me. Era como se ao escalar uma montanha me tivesse
afundado até a cintura num montão de neve.
Meus membros inferiores estavam completamente paralizados.
Em seguida passei a um estado de semi-entormpecimento,
e na minha mente surgiu um vago pressentimento de que
meu fim estava próximo. Contudo, não me
perturbei; há muito tempo livrei-me do velho medo
da morte, e cheguei a aceitá-la filosoficamente
como sendo inevitável.
Enquanto a estanha sensação de frio continuava
a apoderar-se de mim, subindo pela coluna vertebral e
dominando todo o meu corpo, senti minha consciência
concentrar-se e fixar-se num só ponto do cérebro,
a respiração ficar cada vez mais dificultosa.
Subindo ao peito, paralisou totalmente o corpo, algo
semelhantes a um ataque cardíaco sobreveio, mas
não demorou; compreendi então que a crise
suprema não tardaria a chegar.
Se pudesse mover minhas mandíbulas enrrigecidas,
daria uma risada do pensamento que me ocorreu nesse instante;
pensei: amanhã acharão meu cadáver
deitado no sarcófago da Câmara do Rei, e
tudo terminará para mim.
Tinha certeza de que todas as minhas sensações
eram consequências da migração do
espírito de vida física às regiões
do Além-túmulo, e qualquer resistência
seria vã.
Por último, minha consciência concentrada
se confina apenas na cabeça, e houve no meu cérebro
um tremendo redemoinho final, tive a impressão
de que um tufão tropical me arrastava, lançando-me
em seu rodopio no ar. Um temor momentâneo apoderou-se
de mim. Senti-me lançado no espaço infinito,
voando para o desconhecido.
Estava LIVRE!
Nenhum outro termo poderia expressar o delicioso sentimento
de liberdade absoluta que me saturou. Transformei-me num
ser mental, num ente cujas sensações e pensamentos
estavam livres dos entraves do corpo de matéria
inerte em que estava fechado. Desprendido do meu invólucro
carnal, como um fantasma do seu sepulcro, sem, todavia,
nenhuma obnubilação de consciência;
pelo contrário, estava ciente de mim mesmo e essa
sensação era muito mais forte que dantes.
E, além do mais, depois de haver passado aquela
migração de um estado para outro, e de ter
ficado em quarta dimensão, proporcionou-me um sentimento
de felicidade; senti-me livre, terminantemente, bem-aventuradamente,
LIVRE.
A princípio, vi-me estendido na mesma posição
horizontal do corpo que acabava de deixar, flutuando acima
do sarcófago. Depois, tive a impressão de
que mão invisível me fazia girar verticalmente
até pôr-me de pé. E, finalmente, experimentei
a curiosa sensação de estar simultaneamente
de pé e flutuando.
Olhei o corpo abandonado, de carne e osso, que jazia
prostrado e rígido na pedra. O rosto inexpressivo
estava voltado para cima, os olhos entreabertos cujo brilho
das pupilas indicava que as pálpebras não
estavam completamente fechadas; de mãos cruzadas
sobre o peito, postura que não me recordo ter adotado.
Alguém as havia cruzado sem que eu o percebesse?
As pernas e os pés esticados se tocavam. Aquele
era meu corpo, aparentemente morto, do qual me havia retirado.
Notei que eu, esse novo eu, desprendia um fio de suave
luz prateada que se projetava sobre o ser cataléptico
deitado dentro do sarcófago. A descoberta me surpreendeu,
porém maior foi minha surpresa quando descobri
que o misterioso cordão umbilical psíquico
contribuía para iluminar o canto da Câmara
do Rei onde eu pairava. Uma claridade suave, semelhante
a luz da lua, iluminava as paredes de pedra.
Eu não era mais do que um fantasma, um ser sem
corpo, flutuando no espaço. Compreendi porque os
sábio egípcios de outrora representavam
nos seus hieróglifos a alma em forma simbólica
de um pássaro. Senti incrível leveza, como
se tivesse um par de asas e voasse qual um pássaro
que levanta o vôo rodeando em volta de um ponto,
tão livre que estava flutuando no grande vácuo
que me cercava. Sim, o simbolismo do pássaro era
muito acertado.
Desprendida minha alma do seu invólucro mortal,
levantou vôo no espaço, abandonando o corpo
que lhe servia de habitat. Agora estava com o outro corpo,
etéreo e extremamente leve. Olhando o mármore
frio em que jazia meu corpo, surgiu na minha mente uma
singular idéia, ou melhor, foi uma compreensão
brusca que tomou forma nas seguintes palavras insonoras:
"Este é o estado da morte. Agra eu sei que
sou uma alma, que eu posso existir separado do corpo.
Sempre acreditarei nisso, porque o experimentei".
Essa noção se aferrou a mim tenazmente,
enquanto permanecia suspenso no ar, acima do meu próprio
corpo abandonado e sem vida. Comprovei a sobrevivência
da maneira mais satisfatória a meu ver, isto é,
pela experiência de morrer e ser vivo! Continuei
observando os restos mortais que havia deixado. De certo
modo me fascinavam. Era eu aqui, esse corpo sem vida que
durante tantos anos considerei como se fosse eu? Naquele
momento vi com toda clareza que era apenas a massa de
substância carnal desprovida de consciência
e de raciocínio. Contemplando os olhos sem visão,
insensíveis e vidrados, percebi a máxima
ironia da situação: Meu corpo terrestre
havia me aprisionado, retendo meu verdadeiro Ser, obrigado
a caminhar de um lado para outro na superfície
do globo, nascido num organismo que tanto tempo confundi
com meu verdadeiro Eu. Agora eu era livre.
A força da gravidade não atuava no ar,
e a entranha sensação de estar meio suspenso
e em pé persistia.
Ao meu lado, de súbito, apareceu o sacerdote macróbio;
grave e solene, levantou os olhos para o céu, deixando
perceber seu rosto mais enobrecido ainda, e com reverência,
lançou esta prece:
"Ó Amon, Ó Amon que estás no
céu! volta tua face para o corpo morto do teu filho,
e concede-lhe teu beneplácito no mundo espiritual.
Tudo consumado. E voltando-se para mim, disse: "Agora
aprendeste a grande lição. O HOMEM CUJA
ALMA NASCEU DO ETERNO, NÃO PODE MORRER. Proclama
esta verdade com palavras inteligíveis para os
homens. Alerta-te!"
Vi surgir do espaço o rosto já quase esquecido
de uma mulher, cujo sepultamento assisti há mais
de vinte anos. Depois apareceu o semblante familiar de
um homem que havia sido para mim mais que um amigo, o
qual vi pela última vez há doze anos, repousando
no seu ataúde e, finalmente, a doce imagem sorridente
de uma criança, morta num acidente. Os tres me
olhavam com uma expressão serena e suas vozes amigas
voltaram a ressoar. Mantive a mais breve das conversações
com os chamados mortos, que não tardaram a se desvanecer.
"Também eles vivem como vives tu, e como
vive esta Pirâmide que presenciou o morrer de milhões
de criaturas - disse o sumo-sacerdote - Sabe, filho meu,
que nesse antigo santuário se encontra a história
perdida das primeiras raças da humanidade e a Aliança
que fizeram com o Criador mediante o primeiro dos seus
profetas. Sabe também que, antigamente, a este
lugar eram trazidos homens escolhidos afim de mostrar-lhes
a Aliança, os quais, ao voltar aos seus semelhantes,
manteriam vivo o grande segredo. Leva contigo esta advertência:
quando os homens renegarem seu Criador e olharem com ódio
uns aos outros, como os príncipes da Atlântida,
em cuja época foi construída esta Pirâmide,
serão destruídos pela sua própria
iniquidade, como foi aniquilado o povo da Atlântida.
"Não foi o Criador quem fez submergir a Atlântida,
mas o egoísmo, a crueldade, a cegueira espiritual
dos habitantes dessas ilhas condenadas. O Criador ama
a todos indistintamente, porém a vida dos homens
está governada por leis invisíveis que Ele
impõe. Leva, pois, essa advertência contigo".
No meu íntimo nasceu um grande desejo de ver essa
misteriosa Aliança. O sacerdote devia ter lido
o meu pensamento, pois se apressou a dizer:
"Todas as coisas vem a seu devido tempo. Ainda não,
meu filho, ainda não".
Senti-me desapontado.
Fitou-me durante alguns instantes.
"A nenhum homem do teu povo foi permitido vê-la
ainda, mas porque és versado nestes assuntos e
vieste aqui com o coração aberto e compreensivo,
é justo que recebas alguma satisfação.
Vem comigo!"
Passou-se então algo estranho. Parecia-me cair
em estado comatoso, minha consciência se enevoou
momentaneamente e, quando a recuperei, percebi haver sito
transportado para outro lugar. Estava num longo corredor,
apenas iluminado, embora não se vissem lâmpadas
nem janelas. Supus que a fonte luminosa vinda do halo
que emanava do meu companheiro, junto com a irradiação
do cordão luminoso de éter vibrante que
se desprendia de mim. Compreendi, no entanto, que esses
focos ainda não explicavam a luz reinante. As paredes
eram revestidas com pedras refulgentes de cor terracota-rosada,
e tão unidas entre si que não se percebiam
as juntas. O chão tinha a mesma inclinação
da passagem da entrada da Pirâmide. Todos os arremates
estavam bem acabados. O corredor, embora baixo, não
chegava a ser incômodo. Não pude descobrir
a fonte dessa misteriosa iluminação; o interior
luzia como se ali estivesse uma lâmpada. (1)
O Grão-Sacerdote fez-me um gesto para segui-lo.
"Não olhes para trás - ordenou - não
voltes a cabeça!"
Caminhamos um trecho, descendo; chegamos ao fim do corredor
e paramos diante de uma entrada para a grande câmara
com o aspecto de um templo.
Sabia perfeitamente que me encontrava dentro ou embaixo,
da Pirâmide, porém não sabia onde
ficava essa passagem e aquela câmara; nunca as tinha
visto antes. Senti-me extremamente excitado por aquela
impressionante descoberta. Curiosidade invencível
se apoderou de mim para averiguar onde estava essa entrada.
Finalmente, como se fosse arrastado por um impulso imperioso,
voltei a cabeça e dei uma rápida espiada,
ansioso por ver uma porta oculta. Entrando, não
reparei por onde havia passado; contudo, no extremo oposto
da passagem onde devia haver uma abertura, não
vi nada senão os grandes blocos visivelmente cimentados.
Estava olhando uma parede! Nesse momento, uma força
irresistível me arrastava; a cena se enuviou e
encontrei-me de novo flutuando no espaço. Ouvi
as palavras, repetidas como um eco "ainda não,
ainda não..." e momentos depois vi meu corpo
inconsciente, estendido sobre a pedra. A voz do Sumo-Sacerdote
chegou-me em sussurro:
"Meu filho, não tem importância o descobrires
ou não a entrada. Busca em tua própria mente
a passagem secreta que te levará à câmara
oculta em tua lama, e encontrarás algo realmente
valioso. O mistério da Grande Pirâmide é
o mistério do teu próprio ser. As câmaras
em tua própria natureza. A Pirâmide ensina
que o homem deve voltar-se para si próprio, deve
aventurar-se a penetrar até o centro desconhecido
de seu ser, e ali encontrar sua alma, tal qual se aventura
a penetrar nos relicários desconhecidos deste templo,
para desvendar seu mais profundo segredo. Adeus".
Um turbilhão se apoderou de minha mente: arrebatado
por uma força que me puxava para baixo, rodopiei
vertiginosamente sempre para baixo. Preso de profundo
torpor, parecia-me voltar a fundir-me com meu corpo físico;
com todo esforço tentei mover meus músculos
endurecidos, mas não me foi possível e,
finalmente desmaiei...
Abri os olhos, sobressaltado; trevas espessas me rodeavam.
Quando passou o entorpecimento, apanhei a lâmpada
e acendi a luz. Estava de novo na Câmara do Rei.
Tremendamente excitado, pulei da pedra aos gritos; o eco
devolveu minha voz decrescendo. Ao saltar, em vez de pisar
o chão, senti que estava caindo num vácuo;
salvei-me por haver aberto os braços, ficando suspenso
nos bordas. Compreendi então o que se havia passado.
Ao levantar-me, corri para o outro extremo do recinto,
perdendo o sentido de direção. Minhas pernas
bamboleavam dentro da cova escavada no chão a nordeste
da Câmara. Alcei-me com toda força e pisei
de novo o solo firme.
Apontei a lâmpada para meu relógio. O vidro
estava quebrado em dois lugares ao bater a mão
contra a pedra quando saltei da cova; contudo, a máquina
funcionava continuando seu alegre tique-taque. Vi então
a hora e, a despeito da solenidade do lugar, quase dei
uma risada: era exatamente a hora melodramática
da meia-noite. Ambos os ponteiros assinalavam o número
doze!
.:.
Quando, logo depois do amanhecer, a sentinela armada
abriu a grade de ferro da entrada escura da Grande Pirâmide,
saiu dela, cambaleando, uma figura empoeirada, fatigada,
com olheiras profundamente marcadas. Começou a
andar pelos grandes blocos de pedra fitando pensativo
a plana paisagem familiar, iluminada pelo sol da manhã.
A primeira coisa que fez foi respirar profundamente, várias
vezes, para em seguida erguer instintivamente o rosto
para o Ra-sol, e agradecer-lhe em silêncio a bendita
e prodigiosa dádiva da luz que tão liberalmente
oferecia à humanidade.
(1) O doutor Abbate Pacha, Vice-Presidente do Instituto
Egípcio, passou uma noite no deserto junto às
Pirâmides, em companhia de William Groff, membro
do mesmo Instituto. Num boletim oficial que apresentaram
dizia o seguinte: "Ás oito horas da noite,
percebi uma luz em borneio, lentamente cercando a Terceira
Pirâmide, quase na altura do ápice; era como
uma pequena chama. A luz deu tres voltas e desapareceu.
Observei atentamente essa Pirâmide durante uma boa
parte da noite; às onze horas tornei a ver a mesma
luz, mas desta vez era de cor azulada; subiu lentamente,
quase em linha reta, chegou até certa altura, e
acima da cúspide do monumento desapareceu".
Prosseguindo seu inquérito entre os beduinos, Groff
descobriu que essa misteriosa luz havia sido observada
com bastante frequência por eles e, segundo a tradição
local, existia há muitos séculos. Os árabes
atribuíam a luz aos espíritos guardiães
da Pirâmide. Groff tentou achar uma explicação
natural para o fenômeno, porém sem o conseguir.
Fonte: O Egito Secreto, Paul Brunton, Editora Pensamento,
pp. 54-73.