Já se foram os últimos turistas, premidos
pela fome; o último dos guias embuçados
de negro pela milésima vez repetiu seu discurso
e erudição superficial, destinado aos estrangeiros
que visitam seu velho país; os burricos, cansados,
e o camelos, blaterando, empreenderam pressurosos o caminho
de regresso, levando os últimos dirigentes da caravana.
A descida da noite sobre a campina egípcia é
um espetáculo de inesquecível beleza sobrenatural.
Todas as coisas mudam de cor e vivíssimos contrastes
se estendem entre o céu e a terra.
Fiquei só, sentado na morna areia amarelada; diante
de mim a Esfinge se destacava em sua pose majestosa, estirando-se
com imponência. Meus olhos contemplavam fascinados
o fantástico jogo de cores sutis, em todos os matizes;
aproveitando os últimos lampejos agonizantes que
retiravam do Egito seu manto de glória dourada,
o sol aparecia e desaparecia em rápida sucessão.
Quem pode receber a sagrada mensagem transmitida pelo
belo e misterioso resplendor de um crepúsculo africano
e não se sentir transportado a um paraíso?
Enquanto os homens não estiverem completamente
embrutecidos, espiritualmente mortos, continuarão
amando ao Genitor da Vida, o sol, que torna possível
esses prodígios com a arte de sua magia incomparável.
Não eram tolos aqueles homens de antanho quando
veneravam Aa, a grande luz, e o albergavam em seus corações
como a um deus.
O sol se deteve no horizonte, incendiando o céu
com os magníficos lampejos de um vermelho ferrugíneo,
de carvão em braza. O colorido foi diminuindo gradativamente
e um delicado rubor coralino se estendeu pelo firmamento,
até ficar reduzido a meia dúzia de cores
diversas, desde o rosáceo até o verde e
o dourado, formando um arco-íris diluído
que se agitava em reticente adeus à vida. Por último,
quando o crepúsculo rapidamente começou
a invadir a paisagem, tudo se cobriu de uma opalescência
cinzenta. As cativantes cores desapareceram com o grande
disco do astro agonizante.
Sobre aquele fundo opalino vi a Esfinge revestir-se da
sua roupagem noturna, velando as feições
indeterminadas com o vivo reflexo dos últimos raios
avermelhados.
Surgida das areias onipresentes, com sua cabeça
gigantesca e o corpo reclinado, inspira tanto medo aos
beduínos superticiosos que a denominaram a "Mãe
do Terror", quando aos viajantes céticos,
em todas as épocas, sua colossal figura impõe
perguntas intricadas. O mistério dessa monstruosa
combinação, corpo de leão e cabeça
humana, exerceu um influxo impreciso e atraiu, no decorrer
de muitos milênios, visitantes em procissão
interminável.
A Esfinge é tanto um enigma para os próprios
egípcios como um arcano inexplicável para
o resto do mundo. Ninguém sabe quem a esculpiu,
nem quando; os egiptólogos mais competentes só
podem conjeturar, às cegas, seu significado e sua
história.
Na mirada final que a luz agonizante me concedeu, meus
olhos pousaram nos olhos de pedra da Esfinge, fixos e
serenos, que viram chegar milhares de pessoas, as quais,
uma a uma, miravam interrogativamente a inescrutável
face e retiravam-se perplexas; o olhar imóvel da
Esfinge - que viu os atlantes, homens de tez morena, de
um mundo perdido, desaparecerem sob milhões de
toneladas de água; olhar que, semi-sorridente,
presenciou a façanha de Menés, o primeiro
dos Faraós, que desviou o curso do Nilo, esse bem-amado
rio do Egito, obrigando-o a correr em novo leito; olhar
que, com silencioso pesar, viu o grave e taciturno rosto
de Moisés inclinar-se em sua última saudação;
olhar que, melancólico e magoado, testemunhou os
sofrimentos do seu país, saqueado e devastado na
invasão dos persas conduzidos pelo cruel Cambises;
olhar que, belo e desdenhoso, viu a arrogante Cleópatra,
a das tranças sedosas, desembarcar de uma galera
dourada na proa, de velas de púrpura e remos de
prata; olhar que, jubiloso, deu as boas-vindas ao jovem
Jesus, o peregrino errante, quando, em busca de sabedoria
oriental, se preparava para a hora assinalada de sua missão
pública, com a mensagem de amor e de piedade recebida
do Pai: olhar que, intimamente cheio de complacência,
deu a bênção ao jovem e nobre Salatino,
o guerreiro valente, generoso e instruído, ao vê-lo
levantar a lança com a meia lua cravada no verde
pendão e tornar-se o soberano do Egito; olhar severo
de admoestador, a saudar Napoleão como instrumento
do destino europeu, esse destino que levara ao ápice
o nome do corso, eclipsando todos os demais, para em seguida
obrigá-lo a pisar as lisas tábuas do Belerofonte;
olhar que, com certa tristeza, viu convergir sobre sua
pátria a atenção de todo o mundo,
ao ser aberto o túmulo de um soberbo Faraó,
para retirar seu cadáver mumificado e seus reais
ornamentos, e entregá-lo à voraz curiosidade
moderna.
Aqueles olhos de pedra da Esfinge viram tudo isso e muito
mais ainda; agora, desdenhando os homens que se consomem
em atividades triviais e transitórias, indiferente
à interminável cavalgada do prazer e da
dor humana que atravessa o vale egípcio, sabendo
que os grandes acontecimentos temporais estão predestinados
e são iniludíveis, suas enormes órbitas
fixam a eternidade. Dão a nítida idéia
de que eles mesmos, imutáveis, perscrutam através
do tempo e se afundam nas trevas do desconhecido, na origem
mesma do universo.
A Esfinge se tingiu de negro; o céu perdeu sua
opalescência prateada, e as trevas completas, absorventes,
conquistaram o deserto.
E eu continuava sob o poder fascinante da Esfinge, fortemente
prêsa minha atenção ao seu poderosos
magnetismo, pressentindo que, ao chegar a noite, ela voltava
à sua própria existência. O fundo
de sombras era seu ambiente apropriado e no misticismo
da noite africana encontrava a atmosfera adequada para
ela. Ra e Horus, Ísis e Osíris, todos os
deuses egípcios desaparecidos, também voltaram
furtivamente à noite. Resolvi, portanto, aguardar
que a lua e as estrelas aparecessem para revelar mais
uma vez a verdadeira face da Esfinge. Fiquei só
e, não obstante, a despeito da profunda desolação
do deserto, não me sentia solitário.
.:.
As noites do Egito são inteiramente diferentes
das noites européias; elas vêm suavemente
e sombras matizadas de um azul anivioláceo, e exercem
um efeito mágico sobre as mentes sensíveis;
enquanto que as noites da Europa são soturnas,
terrivelmente categóricas e definidamente negras.
Apreciava pela centésima vez essa diferença,
quando apareceu jubilosa a primeira estrela da noite,
cintilando tão perto e com tanto brilho como nunca
as vemos na Europa; a lua revelou sua presença
e, como uma verdadeira sedutora, apoderou-se do céu
transformando-o num docel de terciopelo azul.
Comecei a ver então a Esfinge como raramente a
vêem os turistas; primeiro foi uma silhueta de tamanho
colossal, talhada na rocha, escura e alta como um edifício
londrino de quatro andares, elevando-se dignamente numa
concavidade do deserto; depois, conforme os raios luminosos
iam aclarando os detalhes, apareceram o rosto prateado
e as patas estendidas da figura familiar da Esfinge. Vi
então nela o impressionante simbolismo daquele
Egito cuja origem misteriosa remonta à antiguidade
imemorial da pré-história. Estava ali deitada
como um cão solitário, guardiã eterna
dos segredos milenários, meditando sobre os povos
do continente atlante cujos nomes esqueceu a memória
frágil da humanidade; a colossal criação
de pedra sobreviveu a todas as civilização
engendradas até agora pela raça humana e
segue conservando intacta sua vida interior. O rosto grave
e majestoso não revela nada; seus mudos lábios
de pedra comprem o compromisso eterno de guardar silêncio;
se a Esfinge oculta alguma mensagem secreta para o homem,
ela a transmitiu através dos séculos aos
poucos privilegiados que souberam ouvi-la, apenas num
sussuro, como o fazem os maçons num supro ao ouvido
do candidato à "Palavra do Mestre". Não
é de estranhar que o romano Plínio haja
dito da Esfinge que "é a maravilhosa obra
de arte ante a qual se observa o rito do silêncio,
e é considerada como divindade".
A noite destaca mais a Esfinge; atrás e dos lados
estendia-se a chamada "Cidade dos Mortos", região
literalmente repleta de túmulos. Em torno da base
rochosa da qual sobressai da areia a Esfinge, a Oeste
e a Norte, todos os túmulos, um após outro,
foram escavados para se extrairem deles sarcófagos
com os corpos mumificados de príncipes, aristocratas
e dignitários eclesiásticos.
Durante seis anos os próprios egípcios,
seguindo o exemplo dos pioneiros ocidentais, empreenderam
um grande esforço, sistemático e integral,
em exumar toda a seção central da vasta
necrópole. Retiraram milhares de toneladas de areia
das gigantescas dunas que cobriam aquela zona, pondo a
descoberto as estritas passagens abertas na rocha como
trincheiras que vão de túmulo em túmulo,
cruzando-se entre si, caminhos pavimentados que unem as
pirâmides aos seus respectivos templos.
Percorri toda essa região de um lado a outro e
visitei as câmaras de inumação, os
sepulcros peculiares, as salas dos sacerdotes e as capelas
mortuárias que a circulam e a fazem parecer um
favo de abelhas. Merece realmente o nome de "Cidade
dos Mortos" porque, separada por vários metros
no espaço e quase três mil anos no tempo,
há, dentro dos seus limites, dois grandes cemitérios
superpostos. Os antigos egípcios cavavam fundo
quando queriam esconder seus mortos; há uma câmara
que possui nada menos de cinquenta metros abaixo do nível
da famosa calçada. Estive em salas sepulcrais da
IV dinastia, onde as efígies de pedra, de cinco
mil anos de antiguidade, perfeitas reproduções
dos defuntos, continuam de pé, com suas feições
claras e identificáveis; quanto aos presumíveis
serviços que prestaram aos espíritos, são
mais discutíveis.
Todavia, quase não há um túmulo
em que a pesada tampa do sarcófago não tenha
sido removida e de cujo interior não hajam desaparecido
todas as jóias e objetos de valor, ficando apenas
as urnas como foram encontradas por escavadores. Os antigos
egípcios também tiveram seus saqueadores
de túmulos, e quando o povo se lançou-se
à procura dos despojos invadindo o vasto cemitério
onde as altas personalidades gozavam da honra de ser postas
a descansar ao lado das múmias dos reis a quem
serviram em vida.
As poucas múmias que escaparam aos primeiros saqueadores
da sua própria raça, repousaram algum tempo
em paz, até serem violadas sucessivamente pelos
gregos, romanos e árabes. As que foram poupadas
a essa prova se beneficiaram de um novo repouso que se
prolongou até os princípios do século
passado, quando os arqueólogos modernos começaram
a peneirar o subsolo egípcio para recolher o que
haviam deixado passar os ladrões. Apiedemo-nos
dos Faraós e dos pobres príncipes embalsamados,
cujos túmulos são profanados, e saqueados
seus tesouros, pois ainda quando as múmias não
tenham sido ultrajadas por ladrões em busca de
jóias, o destino parece não lhes ter reservado
melhor repouso que o das salas dos museus, para aí
serem observadas e discutidas pelo público curioso.
É nesse lúgubre lugar, repleto dos cadáveres
de antiquíssima sepultura, que se ergue a Esfinge
solitária; testemunhas dos ultrajes e saques da
"Cidade dos Mortos", primeiro pelos egípcios
rebeldes, e logo após pelos árabes invasores.
Não é de estranhar que Willis Budge, o afamado
conservador da coleção do Museu Britânico,
haja chegado finalmente à conclusão de que
"a Esfinge foi erigida para afugentar os maus espíritos
dos túmulos, que invadem o lugar". Não
é de se admirar que o Rei Tutmés IV, há
três mil e quatrocentos anos, erigisse sobre o peito
da Esfinge uma lápide de pedra de quatro metros
de altura e fizesse gravar nela as seguintes palavras:
"Nestas zonas reinou um mistério mágico
desde a alvorada dos tempos, porque a figura da Esfinge
é o emblema do Khepera (deus da imortalidade),
o maior dos egípcios, o ser venerável que
repousa neste lugar. Ó habitantes de Mênfis
e de todo o distrito circundante, levantem suas mãos
e orem ante sua imagem!"
Não é de admirar que os beduínos
da cidade vizinha de Gizeh possuam copiosa quantidade
de lendas tradicionais que dizem respeito aos egípcios
e fantasmas que voltejam, à noite, sobre a área
onde está erigida a Esfinge, pois, segundo eles,
é esse o lugar onde mais pululam os fantasmas.
Porquanto um cemitério antigo como este não
é comparável a nenhum cemitério moderno,
e os egípcios, ao embalsamarem os corpos de seus
grandes vultos, o fizeram deliberadamente para que se
prolongasse o contato dos espíritos com o mundo,
durante um número incalculável de anos.
A noite, sem dúvida, é o momento mais apropriado
para se contemplar a Esfinge e, quando as sombras reinantes
dão contornos fantasmagóricos às
rígidas formas do mundo material circundante, o
mais insensível dos homens crê estar perto
do mundo dos espíritos, tornando-se-lhe a mente
mais receptiva às sensações agudas.
O céu noturno cobriu-se de um tom índigo-purpurino,
tom místico, que se harmonizava admiravelmente
com o meu intuito.
.:.
As estrelas foram aumentando até formar-se uma
cúpula luminosa sobre a escura imensidão
da terra. A lua contribuía com seu esplendor para
iluminar a silenciosa paisagem espectral que me rodeava.
O possante corpo de leão sobressaía da
oblonga plataforma de rocha e, com maior nitidez, deixava
contemplar sua enigmática cabeça. Adiante
e atrás de mim, o pequeno planalto perdia-se confundindo-se
com o deserto que se estendia até desaparecer absorvido
pelas trevas.
Contemplei as abas graciosas da enorme coifa de pedra,
semelhante a uma touca, principiando por distinguir seu
feitio. A coifa real confere à Esfinge majestade
e distinção, qualidades realçadas
pela régia serpente que, pousada sobre a fronte,
ergue sua cabeça, o símbolo "URAEUS"
(1) da soberania, emblema da supremacia divina e humana,
de poder temporal e espiritual. A figura da Esfinge aparece
com frequencia na escrita hieroglífica, representando
o Senhor da Terra, o poderoso Faraó, e um antiga
tradição afirma que dentro da estátua
há um túmulo do monarca chamado Armais.
O arqueólogo francês Mariette, diretor do
Museu Egípcio do Cairo, tomou tão a sério
essa tradição que decidiu explorar a base
rochosa da Esfinge.
"Não é impossível" - declarou
numa reunião científica - "que dentro
da esfinge, em alguma parte do corpo do monstro, exista
uma cripta, uma caverna ou uma capela subterrânea
que seja um túmulo." Porém, pouco tempo
depois de ter anunciado seu projeto, a morte bateu à
sua porta e lhe tocou a vez de ser sepultado numa cova.
Desde então, ninguém se atreveu a perfurar
a plataforma circundante da Esfinge, nem a base rochosa
onde descansa. Quando, falando com o professor Selim Hassan,
a quem as autoridades egípcias haviam confiado
a direção das escavações na
"Cidade dos Mortos", abordei o tema e o interroguei
a respeito da possibilidade de existirem, sob a Esfinge,
câmaras funerárias ignoradas, meu interlocutor
desviou a pergunta com uma réplica enfática
e categórica: - "A Esfinge foi trabalhada
em rocha maciça. Debaixo não pode haver
nada mais do que rocha maciça!"
Eu o ouvi com todo o respeito que o professor merecia,
mas não me convenci, não aceitando nem rejeitando
essa afirmação. Optei por deixar em suspenso
a dúvida. O nome de Armais lembra muito o de Harmakis,
o deus-sol que, segundo outra lenda, personifica a Esfinge.
É bem possível que debaixo dela não
haja nenhuma câmara mortuária e que as tradições
se tenham confundido com o lento perpassar do tempo. Por
outro lado, porém, podem existir recintos abertos
na rocha, com outros propósitos que não
sejam especialmente funerários, e que os egípcios
os usassem, como o provam as outras criptas subterrâneas,
a fim de realizar serviços religiosos secretos,
que foram sempre bem guardados. Antigas tradições
de fontes caldaicas, gregas, romanas e até árabes
falam insistentemente de certa passagem a uma câmara
subterrânea, que os sacerdotes usavam para se transladarem
da Grande Pirâmide à Esfinge. Essas tradições,
na grande maioria, carecem de fundamento, mas não
há fumaça sem fogo. Tão destros eram
os egípcios antigos em abrir passagens na pedra
e dissimular as entradas, que nenhum egípcio contemporâneo
poderá garantir que o solo onde pisa nunca tenha
sido perfurado por engenho humano. Na lápide que
Tutmés fez instalar entre as patas dianteiras da
Esfinge, os artistas da época esculpiram a figura
dela, representando-a num bloco de forma cúbica,
onde há todo um edifício com sua grande
entrada central e respectivas decorações
em baixo-relevo. Ter-se-iam baseado em alguma lenda ancestral,
perdida na atualidade? Existiria mesmo um templo em forma
de bloco, sepulto na colina rochosa, com a Esfinge descansando
no seu teto imenso, como um gigante? Algum dia o saberemos.
O que intriga é o fato de a Esfinge não
estar esculpida totalmente na rocha. Os escultores deviam
ter reconhecido que um bloco de rocha viva não
comportava a dimensão requerida para a enorme obra
encomendada, e viram-se obrigados a construir parte do
arredondado das ancas e das patas, de quinze metros de
comprimento, com tijolos especialmente cozidos e com pedras
lavradas, a fim de completar seu tremendo empenho. No
entanto, esse conjunto cedeu em parte pelos embates do
tempo e da selvajeria dos homens; desconjuntaram-se tijolos
e desapareceram outras tantas pedras.
Há cerca de cem anos ali esteve o coronel Howard
Vyse, que, licenciado do serviço ativo, regressava
da Índia à sua pátria. Em Suez deixou
o navio e tornou a diligência postal, mantida pela
antiga Companhia das Índias Orientais, para conduzir
seus oficiais ao Cairo e dali ao Mediterrâneo, onde
tomavam a embarcação. O coronel permaneceu
algum tempo no Cairo, atraído pelas pirâmides
e pela Esfinge, que visitou repetidas vezes. Ao inteirar-se
das antigas lendas que circulavam sobre a Esfinge, empenhou-se
em comprovar a veracidade e averiguar se o corpo era oco
ou não; nesse intuito mandou perfurar os ombros
da Esfinge com enormes ferros providos de cinzéis
nas pontas. O resultado foi desolador. As furadeiras,
após terem penetrado numa profundidade de oito
metros, encontraram sempre a rocha maciça, deixando
apenas as marcas das perfurações em sinal
do esforço empreendido. Na época do Vyse,
porém, por infelicidade só se via a cabeça
da Esfinge, estando o corpo sepulto sob a enorme massa
de areia; os trabalhos do coronel deixavam, portanto,
como estavam, as tres quartas partes sob o monte de areia,
e nem sequer se aproximaram da base.
.:.
A noite deslisava furtivamente, silenciosa como uma pantera,
numa quietude apenas interrompida pelos uivantes gemidos
semi-humanos de algum chacal do deserto, que assinalava
o correr das horas. A Esfinge e eu sentados sob a luz
clara das estrelas africanas, reforçamos o laço
invisível que nos tinha unido, transformando a
relação em amizade, e quiçá,
também, aumentando nossa recíproca compreensão.
Quando pela primeira vez fui vê-la, há vários
anos atrás, a Esfinge tinha cravado seu olhar distante
com um tranquilo desdém. Era eu então para
ela um mortal a mais, um dos tantos peregrinos insignificantes,
um pigmeu imbuído de vã presunção,
desejos vaidosos e pensamentos frívolos. A Esfinge
parecia-me ser o emblema lobrego daquela Verdade que nunca
poderia encontrar ídolo gigantesco, dedicado ao
Incognoscível, ante o qual as preces cairiam sem
eco nas pálidas areias do deserto e todos os problemas
se fundiriam no esquecimento eterno. Fiquei mais cínico
e mais cético que dantes, enfastiado do mundo e
cheio de amarguras.
Os anos todavia não se passaram em vão;
o Mestre Invisível me havia ensinado umas tantas
coisas importantes, e eu soube qual era a verdadeira significação
da vida. Aprendi que o mundo não girava no espaço,
sem ter outra finalidade na sua existência.
Retornei a ver a Esfinge com melhor disposição.
Enquanto nos fazíamos companhia na escuridão,
ela recostada no seu pedestal, no limiar do deserto da
Líbia, eu sentado de pernas cruzadas, na areia,
voltei a meditar sobre o misterioso significado do Colosso.
Todos conhecem algumas fotografias da Esfinge e se lembram
de seu rosto mutilado, mas ninguém sabe quando
e por que foi esculpida em maciça pedra calcária,
emergindo da areia, nem quais foram as mãos que
transformaram a rocha solitária em uma estátua
de proporções gigantescas.
A arqueologia cala-se, baixando a cabeça com vergonha,
porque se vê obrigada a retirar suas conjeturas
disfarçadas em teorias que sustentava cheia de
confiança, até poucos anos atrás.
Agora, não se atreve a pronunciar um móvel
sequer, nem expor um fato concreto; já não
se aventura a atribuir a Esfinge ao Rei Khafra ou ao Rei
Khufu, porque chegou a compreender que as inscrições
descobertas só indicam a existência do Colosso
durante aqueles reinados.
Nos papiros que foram encontrados até agora não
há praticamente indícios além da
XVIII Dinastia, que digam respeito à Esfinge, e
além da IV nenhuma inscrição na pedra
a menciona. Nas escavações que se fizeram
em busca de antigos despojos, havia uma inscrição
em que se fala da Esfinge como de um monumento cuja origem
se perde na noite dos tempos, e que foi encontrada casualmente
depois de haver estado enterrada nas areias do deserto,
completamente esquecida e ignorada de todos. Essa inscrição
pertence ao período da IV Dinastia, cujos Faraós
viveram e reinaram no Egito há mais de seis mil
anos. E PARA ESSES ANTIQUÍSSIMOS REIS A ESFINGE
JÁ ERA INCALCULAVELMENTE VELHA.
.:.
A noite traz o sono; mas eu resolutamente o afastava
ao chegar a essa altura de minhas reflexões noturnas;
as pálpebras cansadas começavam a pesar
movidas por rebelião involuntária, e minha
mente a dormitar; duas forças disputavam a supremacia
- a primeira era um desejo ardente de passar a noite acordado
junto à Esfinge - a segunda, um crescente impulso
de entregar corpo e alma à suave e soporífera
carícia das trevas envolventes. Por fim, logrei
conciliar as duas coisas, firmando um tratado de paz em
virtude do qual eu manteria os olhos apenas entreabertos
numa vigilância renitente que não me permitiria
ver nada, e a mente apenas desperta deixaria deslisar
os pensamentos num devaneio colorido, em câmara
lenta.
Abandonei-me um instante à serena languidez que
sobrevem quando a mente permanece em repouso. Não
sei quanto tempo havia passado nesse estado, quando num
dado momento sumiram da minha visão mental as cores,
e no seu lugar apareceu uma ampla e extensa paisagem,
iluminada pela luz fosforescente do plenilúnio.
Vi-me rodeado de uma multidão de figuras escuras
que se moviam apressadamente, indo de um lado para outro,
algumas levando cestas carregadas na cabeça, outras
subindo e descendo as frágeis estacas de um andaime
armado junto a uma enorme rocha. Havia entre elas os encarregados
da obra, que davam ordens aos operários e observavam
atentamente o trabalho dos homens, que armados de martelos
e cinzéis lavraram a pedra previamente marcada
com pontos, imprimindo uma forma ao desenho. O martelar
contínuo soava insistentemente no ar.
Aqueles homens tinham o rosto oval, a coloração
da pele castanho-avermelhada ou amarelo-acinzentada, o
lábio superior notavelmente saliente.
Concluindo seu labor, o escarpado promontório
rochoso se havia transformado numa cabeça humana
gigantesca, assentada num corpo de leão, formando
um conjunto monumental que se erguia no centro de um grande
bloco de granito. Na cabeça da estátua,
sobre uma curiosa espécie de touca de amplas pregas,
presas atrás das orelhas, havia um disco de ouro
maciço...
A ESFINGE!
A multidão desapareceu, deixando a paisagem tão
silenciosa como túmulo deserto. Vi então
à minha esquerda um mar extenso que cobria a terra
com suas águas tranquilas, a uma légua de
distância. Aquele silêncio continha algum
presságio que não pude compreender, quando
do coração mesmo do oceano veio um bramido
profundo e prolongado, a terra estremeceu sob meu corpo,
e com estrondo ensurdecedor alçou-se no ar uma
imensa parede de água que se lançou sobre
nós, a Esfinge e eu, e nos inundou a ambos.
O DILÚVIO!
Houve um intervalo, não sei se de um minuto ou
de mil anos, antes de ver-me de novo sentado ao pé
da grande estátua. Olhei em redor, não havia
mar nenhum. Em compensação, via-se uma extensa
planície pantanosa, ressequida pelo sol e salpicada
aqui e acolá de grandes manchas brancas, granulosas
e salgadas. O sol em brasa lançava, implacável,
seus raios escaldantes na areia deserta, até que
as manchas foram aumentando em tamanho e quantidade. Ao
desaparecer a última gota da umidade dos pântanos,
a campina e transformou numa superfície fofa, porosa,
seca e cáustica de cor amarelo-pálida.
O DESERTO!
A Esfinge continuava contemplando a paisagem; parecia
satisfeita com sua existência solitária.
Os lábios grossos, fortes, pareciam estar prontos
a desabrochar num sorriso. Que perfeita harmonia havia
aquela figura solitária e o solitário ambiente
que a rodeava! O espírito da solidão parecia
ter encontrado naquele Colosso impassível sua digna
encarnação.
Assim seguiu a Esfinge na imperturbável espectativa,
até o dia em que uma pequena flotilha de barcos
acostou à margem do rio; um grupo de homens desembarcou,
avançou lentamente e aproximou-se da Esfinge, prosternou-se
diante dela, levantando suas preces jubilosas.
Desde aquele dia o feitiço do silêncio rompeu-se;
nas planícies, nas terras adjacentes construíram-se
vivendas e os reis iam com seus sacerdotes fazer corte
à que era a rainha sem corte do deserto.
Com a chegada deles foram embora as minhas visões,
como se apaga a chama do candeeiro, quando acaba o combustível.
Fonte: O Egito Secreto, Paul Brunton, Editora Pensamento,
pp. 9-19.