Os Incas na Argentina e os mistérios
de Las Marías
- Pirâmides no norte da Argentina. Peddras que
desaparecem em pleno ar ou que voltam a se juntar depois
de quebradas. Luzes assassinas que desorientam os viajantes.
Entidades fantasmais que defendem os animais dos caçadores.
Este são alguns dos mistérios existentes
na província de Catamarca. -
Texto e fotos de Pablo Villarrubia Mauso
[...]
Pouco se sabe sobre a chegada dos incas ao norte da Argentina.
As primeiras invasões aos territórios onde
habitavam os Calchaquíes e Diguitas ocorreram a
partir de 1470. Um dos poucos vestígios de sua
presença em Catamarca é a magnífica
cidade de El Shincal, a mais importante no extremo sul
do grande império, e o único local na Argentina
em que se encontram pirâmides.
Essa cidade reproduzia, em menor escala, o plano da cidade
de Cuzco, a capital do império inca, o "umbigo
do mundo". Além de uma fortaleza, era um centro
administrativo, militar, de comunicações,
de reabastecimento e de controle regional.
Os incas impuseram seu idioma, o quíchua, mas
ainda hoje existem famílias que falam algumas palavras
e expressões do icioma anterior, o cacán,
com seus três dialetos. O Shincal foi concebido,
planejado e teve sua construção ordenada
pelo rei Topa Inca Yupanki a partir de 1471, e lá
eles estiveram até 1536, com a queda do império
inca.
Segundo o grande estudioso Raúl Algerich, há
uma lenda - praticamente desconhecida - segunda a qual
em El Shincal viveu exilada Coyllur (Estrela Caída
do Céu), uma das filhas do último inca.
Seu pecado foi o de se apaixonar por Ollantay, personagem
mítico semelhante a Hércules. Antes do exílio,
Coyllur e seu amado Ollantay fugiram e viveram alguns
anos nas montanhas, onde tiveram um filho. Esse relato,
com toques de tragédia grega, terminou com Ollantay
sendo assassinado pela guarda inca. Apesar de seus poderes
físicos, o herói era mortal.
Saí de San José del Valle de Catamarca,
a bonita capital da província, rumo a Londres,
que não é a famosa cidade da neblina, mas
um povoado agradável e monótono a cerca
de três horas de San José, situado entre
os vales catamarquenhos, onde a chuva é rara. Com
meus amigos Eduardo Solá, sua filha Natasha e Cristian
Aguero, fomos até o museu arqueológico do
povoado, e ali encontramos o arqueólogo Dario Iturriza.
Enquanto seguíamos para Shincal, Iturriza nos
dizia que "o cérebro arqueológico Ddán
Quiroga foi o primeiro a registrar oficialmente a existência
da cidade, numa nota enviada ao Instituto Geográfico
Argentino, e ela ficou esquecida por muitos anos. Ao que
parecef, não deram muita atenção,
pois podiam ter interpretado a descoberta como um simples
curral (tambo), como se chamavam os postos de descanso
e abastecimento de grãos que existiam a cada 30
quilômetros ao longo do caminho inca".
"Mas viajantes posteriores prceberam que asr ruínas
ocupavam uma grande extensão, formada por montículos
e muros que surgiam entre a vegetação. Contudo,
as investigações e escavações
arqueológicas para reconstruir a cidade só
começaram em 1992, e recuperou-se quase uma centena
de edifícios construídos com pedras".
[...]
O centro de Shincal é formado por 12 edifícios
públicos, entre eles uma Praça de Armas,
ou Aukaipata, de grandes dimensões: 200 por 200
metros. Ela era cortada por um aqueduto de pedra com cerca
de 3km, que se abastecia a partir do rio Quimivíl.
Uns vinte depósitos circulares e várias
residências nos subúrbios compunham a esplêndida
cidade.
Na zona sul, encontram-se colinas aterradas sobre as
quais existem construções, talvez sentinelas,
destinadas à vigilância. Quando chegamos
à cidade, somente a 6km de Londres - não
a grande cidade da inglaterra, mas um povoado local -
sentimos o ar seco e um ambiente desolado no qual cresciam
arbustos e vegetação rasteira. Era difícil
imaginar que os incas se estabeleceram ali, numa região
tão difícil.
A muito custo, subimos um caminho que nos levou até
o cume aplainado de uma pequena colina piramidal, de onde
observamos o que fora o majestoso Shincal. Diante de nossas
vistas, no fundo do vale cercado de altas montanhas, estava
o conjunto pétreo mais bem conservado, o núcleo
cerimonial e cívico, onde sobressaía outra
pirâmide de terra e com escadas. Abaixo, a seus
pés, a Aukaipata, situada entre as duas colinas
piramidais de 25 metros de altura, quase gêmeas.
"Seus cumes foram artificialmente aplainados",
nos disse Iturriza, "e os lados murados com pedras
com cerca de dois metros de altura. Ambas as colinas foram
providas de acessos por escadas de pedras. É provável
que uma delas estivesse vinculada a atividades religiosas
ligadas ao culto solar inca".
Um dos edifícios que vimos do alto é o
Kallanka, uma construção de pedra de 50
por 10 metros, com 1,5m de altura e com quatro aberturas
trapezoidais laterais e duas frontais.
Outra construção importante é o
Ushnu, uma plataforma levemente piramidal, com 16 metros
de largura e 2 de altura, com uma escada de acesso com
nove degraus em direção ao poente. Tem muros
duplos, com enchimento interior de barro. Mas o maior
mistério de Ushnu está em sua função
astronômica.
Encontramos a chave num texto anônimo de um jesuíta,
de 1594, que diz: "[...] para saber a posição
do Sol... tinham outro pilar no meio da praça...
num local assinalado de propósito, que nomearam
Osno (Ushnu) e a partir dali localizavam o Sol... e estando
combinado, era o tempo geral de semear... á lua
de setembro chamavam Cituaquilla. Neste mês se juntavam
em Cuzco todos os índios de toda a comarca, e se
juntavam todos na praça principal chamada Haocaypata
(Haukaipata) e ali faziam seus sacrifícios ao sol,
com muitas cerimônias numa coluna de pedra que tinham
no meio da praça, com seu teatro chamado Osno (Ushnu)..."
O cronista Frei Domingo de Santo Tomás (que escreveu
a primeira gramática quíchua, em 1560) também
mencionava a função do Ushnu: "Ozño
(Ushnu): altar ou lugar sagrado para sacrificar; altar
onde sacrificam..." Outro cronista, González
Holguín (1608), dizia: "Ushnu: tribunal de
juiz com uma pedra fincada... altar antigo". O célebre
Cieza de León (1553), dizia que "[...] no
meio da grande praça (de Cuzco) havia outro assento
como no teatro onde o senhor se sentava para ver os fiéis
e as festas habituais..."
"O pilar de pedra principal", disse Dario Iturriza,
"devia ser o chamado gnomon, que servia para medir
a passagem do sol, pela sombra que projetava no chão,
e para planejar as atividades agrícolas".
Curiosamente, foi possível encontrar restos de
cerâmica espanhola de Talavera de la Reina e várias
lajes espanholas, o que parece indicar que o lugar continuou
sendo utilizado mesmo depois da chegada dos conquistadores.
Segundo as investigações dos arqueólogos,
especialmente de Rodolfo Raffino, do Museu Nacional de
La Plata, estes restos coloniais poderiam ser resultado
dos acontecimentos do século 17, o chamado Gran
Alzamiento Diaguita (Grande Revolta Diaguita). Entre 1630
e 1636, El Shincal, já em ruínas, foi ocupado
por tropas da confederação indígena
dos Diaguitas, sob o comando do cacique Chelemín.
A partir dali, em várias ocasiões, atacou
o povoado de Londres de Nueva Inglaterra, ordenando pilhagens
e roubando gado espanhol. Ao mesmo tempo, cortaram a água
do povoado, obrigando os moradores a abandoná-lo.
"O incomum", dizia o inconformado arqueólogo,
"é esta seguência invertida, com os
objetos mais antigos encima, e os mais recentes embaixo.
É curioso que, junto com a cerâmica de Talavera,
tenha sido encontrado um crânio de touro. Rafiro
diz que está enterrado de forma ritual. Acredita-se
que Chelemín roubou o gado espanhol e fez uma cerimônia
de poder. Mais acima, encontramos a capa Coche, uma cerimônia
inca, um sepultamento de grandes animais como lhamas.
Mais acima, encontramos cerâmica diluída,
Tem de haver uma revisão do que foi Ushnu, pois
ainda é um mistério".
No cume de uma pequena colina, 100 metros ao norte da
Praça de Armas, encontra-se - além de algumas
estatuas arquitetônicas quadrangulares e outras
circulares - uma pedra quase quadrada com um pequeno túmulo
no lado norte. "Tinha a função de Intihuatana,
a de prender o Sol, no conceito dos antigos incas, algo
semelhante à Intihuatana que existe em Machu Picchu".
Outras colinas, uma a leste, outra mais ao sul e outra
mais ao norte, coincidem, a grosso modo, com os ângulos
poentes do Sol nos solstícios de verão e
inverno.
As investigações apenas começaram
na enorme cidade. Iturriza acredita que com o auxílio
de arqueólogos de outros países, em breve
poderão mostrar que El Shincal foi um dos espaços
sagrados e astronômicos mais importantes da América.
Fonte: Revista Sexto Sentido - ano 5 - número
60, Mythos Editora, pp.37-39.