O incidente da Torre de Babel pôs um fim súbito
e inesperado à mais longa era de paz na Terra de
que o homem tem notícia. A cadeia de eventos trágicos
que esse acontecimento iniciou teve uma relação
direta com a Grande Pirâmide e seus mistérios.
Para desvendar esses segredos, apresentaremos nossa teoria
sobre como essa estrutura singular foi projetada e construída,
e posteriormente lacrada e invadida.
Como se não bastassem os inúmeros enigmas
existentes sobre a construção da Grande
Pirâmide, existem outros dois relacionados com a
estrutura terminada. Todas as teorias que tentaram explicálos,
uma vez que se baseavam na hipótese de que a pirâmide
seria uma tumba real, mostraram-se inconsistentes. Acreditamos
que as respostas para esses enigmas não estão
nas lendas dos homens, mas sim nas dos deuses.
Várias referências à Grande Pirâmide
encontradas em crônicas gregas e romanas comprovam
que naquela época era bem conhecida a entrada protegida
pela pedra giratória, o Corredor Descendente e
a Cova Subterrânea. No entanto, ninguém desconfiava
da existência de todo o sistema de túneis
e câmaras superiores, porque a entrada para o Corredor
Ascendente encontrava-se lacrada por três grandes
blocos de granito e camuflada com uma pedra triangular
encaixada no teto da passagem.
Durante os séculos que se seguiram, até
mesmo a posição da entrada da pirâmide
acabou sendo esquecida. Por isso, quando o califa Al-Mamun
decidiu penetrar na pirâmide, no ano 820, seus homens
forçaram uma abertura, abrindo um túnel
escavado a esmo.
O Corredor Descendente foi descoberto por acaso. O som
de uma pedra que caiu no vazio incentivou os trabalhadores
a continu-ar com a escavação até
atingi-la. Mas o que caíra com o impacto das picaretas
e martelos era uma pedra triangular que disfarçava
a entrada do Corredor Ascendente, e a queda revelou o
tampão feito com os blocos de granito. Incapazes
até mesmo de lascá-los com suas ferramentas,
os homens do califa cavaram as pedras de calcá-rio
em torno deles e chegaram ao Corredor Ascendente, e daí
ao conjunto de câmaras e túneis superiores.
Todos os historiadores árabes contemporâneos
de Al-Mamun afirmam que ele não encon-trou no interior
da pirâmide nada além de espaços vazios.
Depois de retirarem o entulho - pedaços de calcário
que com o passar dos séculos tinham deslizado pela
passagem e se acumulado junto ao tampão de granito
-, os árabes subiram agachados o estreito túnel
quadrado. Ao chegar ao seu final puderam ficar em pé,
pois tinham atingido a junção do Corredor
Ascendente com o Corredor Horizontal e a Grande Galeria.
Seguindo pelo túnel hori-zontal, eles chegaram
à câmara com teto em V invertido, que ex-ploradores
de épocas posteriores passaram a chamar de "Câmara
da Rainha". Ela e seu enigmático nicho estavam
completamente vazios, e as paredes não mostravam
nenhum sinal de decoração. Voltando à
junção, os homens subiram pela Grande Galeria,
usando para se apoiar os orifícios perfeitamente
cortados na pedra, agora não mais que buracos vazios,
pois uma camada de poeira branca que cobria o piso e as
rampas era limosa e escorregadia. Depois de subirem o
Grande Degrau no final da galeria, viram-se diante da
Antecâmara e, ao entrarem nela, descobriram que
as portas corrediças que de-viam fechá-la
não existiam mais. Agacharam-se para penetrar na
câmara superior (mais tarde batizada Câmara
do Rei") e constata-ram que a única coisa
que havia nela era uma pedra escavada em forma de baú
("O Caixão", dos exploradores posteriores).
Voltando à junção das três
passagens, os árabes notaram um buraco num canto
junto à entrada da Grande Galeria e viram que uma
das pedras de calcário que formava a rampa tinha
sido arrebentada. Entrando pelo buraco, eles encontraram-se
numa curta passagem horizontal que se abria para um túnel
vertical, que ima-ginaram ser um poço de água.
Enquanto desciam por esse Po-ço (como veio a ser
conhecido), descobriram que aquele era apenas o trecho
superior de uma longa série de dutos, com cerca
de 60 metros de comprimento total, que terminava no Corredor
Descen-dente, dessa forma ligando as câmaras e corredores
superiores com os inferiores. Tudo indica que a abertura
para o Corredor Descendente estava fechada e escondida
de quem passava por ela até os homens do califa
a abrirem, vindos de cima para baixo.
As descobertas dos árabes e investigações
posteriores desen-cadearam uma infinidade de enigmas.
Por que, quando e quem ve-dou o Corredor Ascendente? Por
que, quando e quem fez o Poço que atravessava o
terço inferior da pirâmide até atingir
sua base rocho-sa?
A teoria mais corrente que tentou responder essas perguntas
dizia que a pirâmide fora construída por
Khufu (Quéops) para ser sua tumba e que, depois
de o corpo mumificado do faraó ter sido colocado
no "caixão da Câmara do Rei", os
servos, por ordem dos sacerdotes, fizeram deslizar os
três blocos de granito pelo Corredor Ascendente,
de cima para baixo, para vedarem sua entrada. Eles, portanto,
ficariam enterrados vivos com o faraó. Contudo,
esses servos enganaram os sacerdotes: arrebentaram a pedra
no canto da Grande Galeria, escavaram o poço e
atingiram o Corredor Descendente, fugindo pela entrada
da pirâmide situada na face norte.
Essa teoria é muito difundida, mas não
resiste a um escrutínio crítico.
O Poço é constituído por sete segmentos
distintos. Seis deles são constituídos com
precisão, possuindo linhas e planos retos, e um
é tortuoso, escavado a esmo, obviamente sem seguir
um projeto anterior. A série de dutos começa
com a parte horizontal superior (A) curta, que liga a
Grande Galeria com o segmento vertical B, que, por meio
do segmento tortuoso C, liga-se com um trecho verti-cal
inferior (O). Segue-se um trecho bastante inclinado (E),
que leva a um segmento mais curto (F), com uma inclinação
bem menor do que a anterior. Por fim há um pequeno
trecho que deveria ser horizontal para se equiparar com
A, mas que é ligeiramente inclinado e desigual
(G), abrindo-se para o Corredor Descendente. O poço
propriamente dito, constituído pelos trechos B,
C, D, E e F, apesar das mudanças de rumo quando
visto num plano norte-sul está precisamente alinhado
dentro de um plano leste-oeste paralelo ao plano das passagens
e câmaras.
Enquanto os três segmentos superiores do Poço
cortam cerca de 20 metros de blocos de calcário,
os inferiores atravessam cerca de 50 metros de rocha pura.
Ora, segundo a teoria acima, alguns poucos servos deixados
no interior da pirâmide para fazerem desli-zar o
tampão de granito não poderiam ter escavado
a rocha com tanta perfeição. Também,
se a escavação foi feita de cima para baixo,
onde teria ido parar o entulho que, obrigatoriamente,
teria de ser levado para cima enquanto eles cavaram? Levando-se
em conta que o Poço tem cerca de 70 centímetros
de largura na maio-ria de seus trechos, quase mil quilos
de pedaços de calcário e rocha teriam de
ser depositados nas câmaras e passagens superiores.
Em vista dessas improbabilidades, novas teorias foram
apresentadas, tendo como base a hipótese de que
o Poço fora escavado de baixo para cima (nesse
caso, o entulho teria sido removido pelo Corredor Descendente).
E qual seria a explicação para isso? Segundo
essas teorias, quando o faraó estava sendo enterrado,
um terremoto sacudiu a pirâmide, fazendo soltarem-se
prematuramente os blocos de granito que iriam vedar a
passagem. E não somente servos, mas também
membros da família real, e altos sacerdotes, ficaram
presos. Como os projetos de construção da
pirâmide ainda con-tinuavam disponíveis,
equipes de salvamento fizeram o Poço para atingir
a Grande Galeria e libertar os dignitários.
Essa teoria e muitas outras, como uma há muito
descartada, que afirmava ser o Poço obra de ladrões
de túmulos, pecam por não explicar a questão
da precisão. Por que equipes de salvamento ou ladrões
perderiam tempo em construir dutos tão perfeitos?
Como já dissemos, todos os segmentos são
retos, com ângulos uniformes ao longo de todo o
comprimento e cuidadosamente acabados.
Enquanto cresciam os indícios de que jamais um
faraó fora enterrado dentro da Grande Pirâmide,
surgiu uma nova teoria, que logo ganhou muitos seguidores:
o Poço fora construído para permitir o exame
de fissuras na rocha resultantes de um terremoto. A me-lhor
obra com base nessa hipótese é o livro The
Great Pyra-mid Passages and Chambers, dos irmãos
John e Morton Edgar. Moti-vados por um zelo religioso
que via no monumento uma expressão em pedra das
profecias bíblicas, os Edgar limparam, examinaram
e fotografaram todos os cantos da pirâmide. Com
isso, demonstraram conclusivamente que tanto o trecho
horizontal curto A como o primeiro segmento vertical B
eram parte da construção original. Além
disso, descobriram que o segmento D não fora escavado,
mas cuida-dosamente construído com blocos de calcário,
para atravessar uma cavidade natural na base rochosa.
Essa cavidade só poderia ter sido preenchida por
ocasião da construção da pirâmide.
Em outras pala-vras, esse trecho também era muito
antigo.
Segundo a teoria dos irmãos Edgar, quando a base
da pirâmide estava em construção,
um terremoto abalou vários pontos da rocha em que
ela se assentava. Para avaliar a extensão dos danos
e determinar se a obra poderia continuar, os construtores
fizeram os dutos E e F como poços de inspeção.
Ao constatarem que os estragos não tinham sido
importantes, eles autorizaram o prosseguimento da obra.
No entanto, visando possibilitar inspeções
periódicas mais rápidas, foi escavado o
pequeno trecho horizontal G, não tão per-feito
e com cerca de 1,80 metros de comprimento, ligando a Passa-gem
Descendente com o segmento F.
Embora as teorias dos irmãos Edgar (ampliadas
por Adam Ru-therford em seu livro Pyramidology) tenham
sido adotadas por mui-tos, elas ainda estão longe
de dar solução aos enigmas. De novo, se
os trechos E e F foram construídos como poços
de inspeção feitos numa emergência,
por que tanto gasto de tempo e preocupação
com precisão durante sua construção?
Qual o propósito original dos dutos B e D? Como
explicar o trecho tortuoso C, escavado grosseiramente
no calcário? E o tampão de granito? Por
que lacrar o Corredor Ascendente se não tinha havido
um enterro?
Apesar de a teoria dos Edgar ser falha, a árdua
e minuciosa medição feita por eles guarda
a chave dos enigmas. Acredito que as partes essenciais
do Poço foram de fato executadas pelos construtores
originais e eram parte integrante do projeto, sendo características
destinadas a servir de diretrizes arquiteturais durante
a construção da pirâmide.
Ao longo dos séculos, muito se escreveu sobre
as maravilhosas proporções e notáveis
relações geométricas da Grande Pirâmide.
No entanto, como todas as outras estruturas similares
do Egito possuíam apenas passagens inferiores,
sempre houve a tendência de se encarar todo o sistema
superior como uma melhoria que surgiu com o passar do
tempo. Em resultado disso, foi dada pouca atenção
a certos alinhamentos entre os dois sistemas, que só
poderiam existir se as partes inferiores e superiores
tivessem sido planejadas e cons-truídas simultaneamente.
Assim, por exemplo, o ponto na Grande Galeria onde o piso
eleva-se abruptamente para formar o Grande Degrau (U -
fig. 71), o eixo central da Câmara da Rainha (Q)
e um recesso no segmento G estão todos situados
na linha central da pi-râmide. Um enigmático
degrau (5), situado na parte superior do Corredor Horizontal,
está alinhado com o ponto que marca o final do
Corredor Descendente (P). O diagrama que se segue revelará
muitos outros alinhamentos.
Mostraremos agora que todos esses alinhamentos não
foram obra do acaso, mas de um cuidadoso trabalho de concepção
e planejamento, e que os dutos acabados do Poço
eram parte integrante da pirâmide.
Comecemos pelo trecho D, porque acreditamos que foi o
pri-meiro a ser construído. Atualmente todos concordam
que a eleva-ção rochosa onde a pirâmide
está assentada foi aplainada em de-graus. O nível
mais inferior da rocha (visível do lado de fora)
formava a Linha Base. O nível superior da rocha
fica na altura da Gruta, e ali pode ser vista a primeira
camada ("Curso") de blocos de calcário.
Uma vez que o trecho D esta abaixo desse primeiro curso,
ele deve ter sido construído antes, pois o único
modo de se abrir um túnel numa rocha é da
face externa para dentro. O duto E co-meça sua
descida inclinada exatamente no final do trecho D, o que
significa que ele só foi escavado quando D já
estava pronto. Termi-nado E, foram feitos F e G.
Por que - e esse é um fato que geralmente passa
despercebido o segmento E está inclinado em relação
ao trecho D e a Linha Base num ângulo exato de 45
graus? Por que, se era meramente um poço de inspeção,
ele não continua até o Corredor Descendente
em vez de inclinar-se, dando origem ao trecho F? E por
que esse trecho F está num ângulo exato de
90 graus em relação ao Corredor Descen-dente?
Como os arquitetos da pirâmide projetaram essas
simetrias, alinhamentos perfeitos e notáveis relações
geométricas? Nossa ex-plicação para
isso mostra a disposição das partes interiores
da pi-râmide como devem ter sido projetadas pelos
que a conceberam. Trata-se de um projeto arquitetônico
simples, mas muito engenhoso que alcança a perfeição
com o auxílio de apenas três circunferên-cias
e algumas linhas!
A construção da pirâmide começou
com o nivelamento da colina rochosa onde ela seria erigida.
Para conferir maior estabilidade à estrutura, a
rocha só foi cortada perto da circunferência
da base da pirâmide. No núcleo o leito rochoso
foi deixado mais alto, elevando-se em degraus. Então
a Gruta - uma falha natural na rocha ou uma cavidade artificial
- foi escolhida para ser o ponto onde come-çariam
os alinhamentos da estrutura.
O primeiro dos dutos verticais, D, foi construído
atravessando a Gruta, sendo em parte feito de blocos de
calcário e parte escava-do diretamente na rocha.
A altura do trecho D marca exatamente a distância
do nível base até onde termina a rocha e
começa o assen-tamento de blocos de calcário
no núcleo da pirâmide.
Há muito reconhece-se que o valor de n, ou seja,
a relação entre o valor do comprimento da
circunferência e seu diâmetro, foi empregado
para se calcular a circunferência da base, lados
e altura da pirâmide. Mas, como mostra claramente
o diagrama, não apenas o aspecto exterior, mas
também suas características interiores fo-ram
projetadas com o auxílio de três circunferências
iguais.
É claro que antes de desenhar as três circunferências,
os ar-quitetos das pirâmides tiveram primeiro de
escolher uma medida de raio adequada. Os que vêm
estudando a Grande Pirâmide nunca conseguiram encaixar
em suas proporções perfeitas nenhuma das
antigas unidades egípcias de medição:
o cúbito comum, com 24 de-dos, ou o "cúbito
real", com cerca de 28 dedos (525 milímetros).
Há uns três séculos, Isaac Newton
concluiu que um enigmático "cúbito
sagrado", com 600 milímetros, fora empregado
não somente na construção da pirâmide
como também na Arca de Noé e no templo de
Jerusalém, conclusão que atualmente os egiptólogos
e piramidó-logos aceitam para o caso da pirâmide.
Nossos próprios cálculos mostram que o raio
adotado para as três circunferências foi igual
a 60 desses cúbitos sagrados e, como se sabe, 60
era o número-base do sistema matemático
sumério, o sistema sexagesimal. Essa medi-da de
60 cúbitos sagrados é dominante nos comprimentos
e alturas da estrutura interior da pirâmide e nas
dimensões de sua base.
Uma vez escolhido o raio das circunferências, traçou-se
a Li-nha Horizontal que marcaria o fim do leito rochoso
e início das ca-madas de blocos de calcário,
passando pelo ponto D, situado na Gruta. O centro da primeira
circunferência ficou nesse ponto (1). Os dois seguintes
ficaram nas interseções dessa circunferência
com a linha horizontal.
No ponto onde a segunda circunferência cortava
o Nível da Base da Pirâmide (4) elevar-se-ia
uma das faces da pirâmide, com uma inclinação
de 52 graus - o ângulo perfeito porque é
o único que incorpora as relações
Pi na estrutura.
O trecho E seria construído num angulo de 45 graus,
saindo do fundo do duto D. A projeção da
linha E para cima, cortando o círculo 2 no ponto
5, forneceu a linha inclinada para a face oposta da pirâmide
e também demarcou a altura onde deveriam ficar
a Câmara do Rei e a Antecâmara (linha 5-U-K),
e o final da Grande Galeria. Projetada para baixo, a inclinação
do trecho E determinou o ponto onde terminaria a Passagem
Descendente. Uma linha vertical saindo de P determinou
a posição do Degrau (5) no Corredor Hori-zontal,
perto da Câmara da Rainha.
Passando para a terceira circunferência, a da esquerda,
ve-mos que seu centro (ponto 3) marca a linha vertical
da pirâmide. No local onde ela corta a linha que
passa pela parte superior das três circunferências
foi colocado o Grande Degrau (V), marcando o final da
Grande Galeria e a posição do piso na Câmara
do Rei. A linha central vertical em si determinou a posição
da Câmara da Rainha. Ligando-se o centro da segunda
circunferência (ponto 2) com V, obteve-se a linha
de piso do Corredor Ascendente e da Gran-de Galeria.
O duto vertical F sai do final do segmento E, numa inclinação
que permite que a linha projetada para cima a partir dele
corte a linha de piso 2-V num ângulo reto. À
partir do ponto formado pela interseção
da projeção do segmento F com a primeira
circunferên-cia, a central, (ponto 6), desenhou-se
uma linha passando pelo pon-to 2 e continuando até
se encontrar com a face da pirâmide (ponto 7), o
que determinou a posição do Corredor Ascendente,
sua junção com o Corredor Descendente (ponto
2) e a entrada da pirâmide.
Portanto, as três circunferências e os túneis
verticais D, E e F determinaram a maioria das partes essenciais
da Grande Pirâmide. No entanto ainda faltava marcar
onde ficariam os pontos em que terminaria o Corredor Ascendente
e começaria a Grande Galeria e, conseqüentemente,
o nível do Corredor Horizontal levando para a Câmara
da Rainha. É aqui que entra em cena o trecho B
do Poço. Ninguém até agora salientou
que seu comprimento é exatamente igual a D e que
ele marca exatamente a distância entre o nível
da entrada e o nível do Corredor Horizontal. B
foi colocado no ponto onde a linha do Corredor Ascendente
corta a circunferência 2 (pon-to 8), e sua extensão
vertical determina o inicio da parede da Grande Galeria.
A distância entre o ponto 8 e o ponto 9, onde a
linha vertical saindo de D corta a linha horizontal que
sai de 8 é o local da grandiosa junção
das passagens e a Grande Galeria.
Para a execução desse projeto, a construção
teve de começar pelo trecho D, com o aproveitamento
da cavidade natural da rocha, e nele foi colocado o teodolito
ou equipamento similar que deter-minou a direção
em que os segmentos E e F teriam de ser escavados na rocha
pura. Esses trechos sumiram de vista quando o assenta-mento
dos blocos de calcário subiu acima do nível
rochoso. Então foi escavado o duto G, mais grosseiro,
para a retirada dos instru-mentos de medição
ou então para se permitir inspeções
de última hora. No ponto de junção
do trecho G com o Corredor Descendente, colocou-se um
bloco de calcário bem ajustado fechando a abertura,
o que terminou escondendo de vez esses dutos inferiores.
O trecho B, ligado no ponto 8 com as passagens através
do pequeno segmento horizontal A, permitiu aos construtores
da pirâmide terminar o seu interior. Uma vez concluída
essa parte da obra, deixou de haver necessidade do uso
funcional ou arquitetural desses segmentos e a entrada
para eles foi fechada por meio de uma pedra de calcário
da rampa, bem ajustada, em forma de cunha.
A obra estava completa, com todos os segmentos do Poço
o-cultos de vista. No entanto, resta um deles que, pelo
que vimos anteriormente, não teve nenhuma função
ou propósito no projeto ou na construção
da Grande Pirâmide.
Essa exceção é o trecho C, escavado
grosseiramente nas ca-madas de blocos de calcário,
torto, desigual, deixando as pedras quebradas, cheias
de pontas e asperezas. Quando, por que e como surgiu esse
enigmático pedaço do Poço?
Esse trecho, acreditamos, não existia quando a
pirâmide foi concluída pelos seus construtores.
Como mostraremos adiante, tra-ta-se de um túnel
feito apressadamente muito mais tarde, quando Marduk foi
aprisionado vivo dentro da Grande Pirâmide.
Não existe dúvida de que Marduk foi aprisionado
vivo na "Tumba Montanha", porque vários
textos mesopotâmicos traduzidos com competência
atestam esse fato. Outros relatos nos esclarecem so-bre
a natureza do crime que redundou nessa sentença.
Todos juntos nos permitem fazer uma reconstrução
plausível dos acontecimen-tos.
Expulso da Babilônia e de toda a região
da Mesopotâmia, Mar-duk voltou ao Egito e não
perdeu tempo para se estabelecer em Heliópolis,
enfatizando o papel da cidade como seu "centro de
cul-to" ao reunir os objetos celestiais que possuía
num santuário espe-cial, ao qual, daí em
diante e por muitos séculos depois, os egípcios
faziam peregrinações.
Porém, ao tentar restabelecer seu domínio
hegemônico sobre o Egito, Marduk descobriu que as
coisas tinham mudado desde que ele partira dali para tentar
seu golpe de Estado na Mesopotâmia. Embora, pelo
que se pode depreender, Thot não tenha se empenhado
numa luta pela supremacia e Nergal e Gibil estivessem
muito distantes desse centro de poder, surgira um novo
rival nesse ínterim: Dumuzi. O filho mais novo
de Enki, cujos domínios faziam fronteira com o
Alto Egito, estava emergindo como o novo preten-dente
ao trono.
Havia alguém insuflando as ambições
de Dumuzi e era nin-guém mais ninguém menos
que sua noiva Inanna/Ishtar - mais um motivo para o desagrado
e suspeitas de Marduk.
A lenda de Dumuzi e Inanna, já que ele era o filho
de Enki e ela neta de Enlil, faz o leitor recordar-se
da história de Romeu e Julieta. E, tal como no
drama de Shakespeare, essa crônica também
termina em tragédia, morte e vingança.
A primeira presença de Inanna/Ishtar no Egito
está registrada no texto de Edfu que conta a Primeira
Guerra da Pirâmide. Ali chamada de Astarot, seu
nome cananeu, conta-se que ela surgiu no meio do campo
de batalha para ajudar as forças de Hórus.
O motivo para essa inexplicável presença
no Egito poderia talvez ser uma visita ao seu noivo Dumuzi,
por cujos domínios o exército passava no
seu avanço para o Alto Egito. Um texto sumério
registra uma visita que a deusa fez ao noivo, "O
que Cuida do Gado", em seu dis-tante distrito rural.
Ele nos conta como Dumuzi esperava a chegada de sua prometida
e como dirigiu palavras de incentivo a uma noiva ansiosa
em relação a seu futuro numa terra estranha:
O rapaz aguardava;
Dumuzi abriu a porta.
Como um raio de luar ela avançou ao seu encontro...
Ele a contemplou, regozijou-se com o que viu, tomou-a
nos braços e a beijou.
O que Cuida do Gado colocou o braço em torno da
donzela.
"Não a trouxe para a escravidão",
ele disse.
"Sua mesa será esplêndida, a mesma em
que eu mesmo como...".
Naquela época, Inanna/Ishtar tinha a bênção
de seus pais, Nannar/Sin e Ningal, e também a de
seu irmão, Utu/Shamash, para uma união tipo
Romeu e Julieta entre a neta de Enlil e um filho de Enki.
Alguns irmãos de Dumuzi, e talvez o próprio
Enki, concordavam com o casamento e a presentearam com
contas e peças de lápis-lazúli, a
pedra preciosa de que ela mais gostava. E, para sur-preendê-la,
esconderam as jóias no fundo de uma cesta cheia
de tâmaras. Além disso, ao entrar no quarto
que lhe fora destinado, Inanna encontrou "uma cama
de ouro, adornada de lápis-lazúli, que Gibil
mandara fundir para ela na morada de Nergal".
Foi então que a guerra explodiu, e irmão
lutou contra irmão. Enquanto eram apenas os filhos
de Enki que se enfrentavam, nin-guém viu grandes
problemas na presença de uma neta de Enlil na região.
No entanto, depois da vitória de Hórus,
quando Set ocupou terras que não lhe pertenciam,
a situação mudou por completo. A Segunda
Guerra da Pirâmide atirou os filhos e netos de Enlil
contra os descendentes de Enki, e a "Julieta"
teve de ser separada de seu "Romeu".
Quando, terminada a guerra, os noivos se reuniram e consu-maram
o casamento, passaram muitos dias e noites envoltos em
êxtase e bem-aventurança, fato que foi tema
de muitas canções de amor sumérias.
Mas mesmo enquanto eles faziam amor, Inanna sus-surrava
palavras provocadoras ao marido:
Suas partes são tão doces como sua boca
e fazem jus a sua posição principesca!
Subjugue o país rebelde, faça a nação
se multiplicar.
Eu o governarei corretamente!
Numa outra ocasião, Inanna revelou a Dumuzi:
Tive a visão de uma grande nação
escolhendo Dumuzi como seu deus...
Pois eu fiz de Dumuzi um nome a ser exaltado, eu lhe dei
posição.
Apesar de todo esse amor, a união não foi
considerada feliz, pois não produziu um herdeiro
- ao que tudo indica, um requisito essencial para tornar
realidade os anseios dos dois deuses. Dumuzi, na esperança
de ter um herdeiro homem, recorreu a uma tática
que já fora adotada por seu pai: tentou seduzir
e fazer sexo com a própria irmã. Mas enquanto
em épocas anteriores Ninharsag cedera aos avanços
de Enki, Geshtinanna recusou a proposta do irmão.
Deses-perado, Dumuzi violou um tabu sexual e a estuprou.
Essa trágica história está registrada
numa plaquinha de argila que os estudiosos catalogaram
como CT.15.28-29. O texto conta como Dumuzi despediu-se
de Inanna, dizendo-lhe que precisava ir à planície
deserta onde guardava seus rebanhos. Geshtinanna, "a
irmã que conhecia canções, estava
sentada lá", pois pensava que fora convidada
para um piquenique. Quando os dois estavam "comendo
o alimento puro, rico em mel e manteiga, enquanto bebiam
a fra-grante cerveja divina" e "divertiam-se
alegremente... Dumuzi tomou a solene decisão de
fazê-lo". A fim de preparar Geshtinanna para
o que ele tinha em mente, pegou um cordeiro e o fez copular
com a ovelha-mãe, depois fez um cabrito copular
com sua irmã cabrita. Enquanto os animais cometiam
incesto, Dumuzi tocava Geshtinanna, procurando imitá-los.
Quando suas intenções foram ficando mais
óbvias, a moça "gritou e gritou em
protesto". Mas, "ele a montou... sua semente
estava se derramando na vulva de Geshtinanna...
Ela gritou: "Pare! Isto é uma desgraça!"
Mas Dumuzi não parou.
As rachaduras na placa de argila não nos permitem
ler o que aconteceu depois do ato, mas tudo indica que
Dumuzi explicou à irmã que aquilo fora premeditado,
tendo talvez sido planejado com a ajuda de Inanna.
No código moral dos Anunnaki, o estupro era considerado
um grave crime sexual. Em épocas mais remotas,
quando os primeiros grupos de astronautas tinham chegado
à Terra, Enlil, o comandante supremo, fora condenado
ao exílio por ter estuprado uma jovem enfermeira
(que posteriormente veio a ser sua esposa). Sem dúvida
Dumuzi sabia bem o que estava fazendo e só deve
ter tomado a irmã à força porque
jamais imaginara que ela iria recusá-lo ou porque
seus motivos eram muito fortes para superar seu temor
pela proibição. Já o consentimento
de Inanna nos faz lembrar da história de Abraão
e Sara, sua esposa estéril, que lhe ofereceu a
criada para ele ter um herdeiro homem.
Consciente de que cometera uma falta terrível,
Dumuzi previu que pagaria por seu ato com a própria
vida, como está contado no texto sumério
SHA.GA.NE.IR.IM.SHI - "Seu Coração
Estava Cheio de Lágrimas". Composta como se
fosse um sonho de Dumuzi, a história conta como
ele viu todos os seus títulos e propriedade lhe
serem tirados um a um pelo "Pássaro Principesco"
e um falcão. O pesadelo terminou com Dumuzi vendo-se
morto no meio de seus currais.
Ao acordar, ele pediu a Geshtinanna para interpretar
o sonho. "Meu irmão, está muito claro
para mim, seu sonho não é favorável",
ela respondeu. Ele prevê que "bandidos o atacarão
em tocaia... você será manietado, terá
os pés presos em grilhões". Nem bem
a jovem acabou de falar, os inimigos capturaram Dumuzi.
Ao se ver em ferros, Dumuzi lançou um apelo a
UtuShamash: "Ó, Utu, és meu cunhado,
sou o marido de tua irmã... Faça meus pés
se transformarem nos de uma gazela, para que eu consiga
escapar dos malvados!". Ouvindo a súplica,
Utu facilitou a fuga de Du-muzi. Depois de algumas aventuras,
este foi se esconder na casa do Velho Belili - que tinha
um caráter bastante duvidoso, que fazia jogo duplo.
Mais uma vez foi capturado e fugiu. Finalmente encon-trou-se
de novo entre seus currais, onde tentou esconder-se de
seus perseguidores. Soprava um vento forte, que derrubou
as cercas, tal como Dumuzi vira em seu sonho. E, no final:
As taças de beber estavam tombadas;
Dumuzi jazia morto.
O curral fora levado pelo vento.
A arena desses eventos, pelo menos nesse texto, é
uma planí-cie desértica perto de um rio.
A geografia do local é ampliada numa outra versão
da história, um texto intitulado "O Mais Amargo
dos Gritos". Composto como um lamento de Inanna,
ele conta como sete delegados de Kur entraram no curral
e acordaram Dumuzi, que dor-mia. Diferente da versão
anterior, que fala apenas que os persegui-dores eram os
"malvados", esse texto deixa claro que eles
represen-tavam uma autoridade mais alta: "Meu amo
mandou-nos vir buscá-lo", disse o chefe. Em
seguida, o grupo começou a tirar os objetos divinos
do prisioneiro:
Tire a tiara divina de sua cabeça; levante-se
de cabeça descoberta.
Tire o manto real de seu corpo, levante-se nu.
Ponha de lado o cajado divino que carrega, levante-se
de mãos nuas.
Tire as sandálias sagradas de seus pés,
levante-se descalço!
Dumuzi, porém, consegue fugir e alcança
o rio "no grande di-que no deserto de E.MUSH ('Casa
das Cobras')". Só havia um lugar no Egito
onde deserto e rio encontravam-se num grande dique: a
pri-meira catarata do Nilo, onde atualmente está
localizada a represa de Assuã.
Dumuzi atirou-se à água, mas devido à
violenta correnteza não conseguiu atingir a margem
oposta, onde sua mãe e Inanna ten-tavam oferecer-lhe
proteção. As ondas o levaram para Kur.
Esses e outros textos paralelos revelam que os que haviam
ido prender Dumuzi o faziam por ordem de um deus mais
alto, o Senhor de Kur, que "lhe passara uma sentença".
No entanto a condenação não poderia
ter vindo da Assembléia dos Deuses, pois deuses
enlili-tas, como UtuShamash e Inanna, estavam ajudando
Dumuzi. Portan-to, a sentença deveria ter sido
dada por decisão única do Senhor de Kur,
ou seja, Marduk, o irmão mais velho de Dumuzi e
Geshtinanna.
Essa identidade surge num texto que os estudiosos chamam
de "Os Mitos de Inanna e Bilulu". Por ele ficamos
sabendo que o Velho Belili da versão que vimos
anteriormente era o Lorde Bilulu (EN.BILULU) disfarçado,
a mesma deidade que ordenara a ação pu-nitiva
contra Dumuzi. Os textos acadianos que tratam dos epítetos
divinos explicam que En-Bilulu era il Marduk ska hattati:
"O Deus Marduk que Pecara" e "O Lamentador
de Inanna".
Tendo desaprovado a união Inanna-Dumuzi desde
o início, Marduk sem dúvida se colocou mais
fortemente contrário a ela depois das guerras da
pirâmide. O estupro de Geshtinanna, feito com motivos
políticos, foi a oportunidade que ele esperava
para pôr fim às intenções de
Inanna em dominar o Egito. Talvez Marduk não te-nha
decretado a morte de Dumuzi, pois a pena costumeira nesses
casos era o exílio. É possível que
ela tenha sido acidental.
Mas, para Inanna, acidentalmente ou não, Marduk
causara a morte de seu amado. E, como deixam bem claro
os textos, ela procurou vingança:
O que é sagrado no coração de Inanna?
Matar!
Matar o Lorde Bilulu.
Trabalhando com fragmentos encontrados em diversos mu-seus,
os estudiosos reconstituíram um texto que Samuel
N. Kramer chamou de "Inanna e Ebih" e classificou
como parte do ciclo dos mitos de "morte do dragão",
pois trata da luta da deusa contra um deus cruel que se
escondia no interior da "Montanha".
As partes disponíveis dessa lenda contam como
Inanna armou-se com tudo o que pôde para atacar
o deus em seu esconderijo. Embora os outros deuses tenham
tentado dissuadi-la, ela aproximou-se confiante da Montanha,
que chamava de E.BIH ("Morada do Chamado Tristonho"),
e proclamou:
Montanha, és tão alta, elevas-te acima
de todas as outras...
Tocas o céu com teu ápice...
Mesmo assim, eu a destruirei, ao solo te atirarei...
No interior de teu coração, dor eu causarei.
Além dos textos, um escudo cilíndrico sumério
deixa bem cla-ro que a Montanha era a Grande Pirâmide,
e o local, o Egito. Inan-na, em sua habitual semi-nudez,
é vista em confronto com um deus situado sobre
três pirâmides, que aparecem exatamente como
sur-gem diante de um observador em Gizé. A tiara
do sacerdote, o signo egípcio ankh e as serpentes
entrelaçadas apontam para o único lu-gar:
o Egito.
Enquanto Inanna continuava a desafiar Marduk, agora escondendo-se
dentro da grandiosa estrutura, sua fúria ia aumentando
porque ele ignorava suas ameaças: "Pela segunda
vez, indignada com aquele orgulho, a deusa aproximou-se
novamente e proclamou: 'Meu pai Enlil me permitiu entrar
na Montanha!"'. Exibindo suas ar-mas, Inanna anunciou:
"No coração da Montanha penetrarei...
Den-tro da Montanha, estabelecerei minha vitória!".
Não obtendo res-posta, deu início ao ataque:
Ela não parou mais de golpear os lados de E-Bih
e todos os seus cantos, até mesmo sua miríade
de pedras assentadas.
Mas dentro... A Grande Serpente que entrara não
parava de cuspir seu veneno.
O próprio Anu interferiu na disputa, alertando
Inanna de que o deus que se escondia na Montanha possuía
armas terríveis: "Sua explosão é
avassaladora; elas a impedirão de entrar".
Em seguida, Inanna foi procurar justiça pelos trâmites
legais, levando sua causa contra o deus ofensor ao tribunal.
Os textos não deixam dúvida sobre a identidade
do inimigo de Inanna. Tal como nas histórias sobre
Ninurta, ele é chamado de A.ZAG e apelidado de
"A Grande Serpente", ou seja, Marduk. O local
onde ele se escondeu é o "E.KUR, cujas paredes
atingem os céus", isto é, a Grande
Pirâmide.
O registro do julgamento e da condenação
de Marduk está num texto bastante fragmentado publicado
pela Seção Babilônica do Museu da
Universidade da Pensilvânia. As linhas legíveis
começam com os deuses já sitiando a pirâmide
e um porta-voz dirigindo-se a Marduk, "enclausurado",
implorando-lhe que se entre-gasse. O "malvado"
ficou comovido com o apelo: "apesar da raiva em seu
coração, lágrimas marejaram-lhe os
olhos". Marduk concor-dou em sair e apresentar-se
diante do tribunal. O julgamento teria lugar perto das
pirâmides, num templo situado à beira do
rio.
Ao local de reverência, junto ao rio, acusadores
e acusados se dirigiram.
Os inimigos ficaram a um lado.
A justiça foi colocada em ação.
Ao chegar a hora de sentenciar Marduk, veio à baila
o mistério da morte de Dumuzi. Não havia
dúvida de que ele era o responsável, mas
teria sido propositado ou um acidente? Se o crime não
fora premeditado, não caberia uma sentença
de execução.
Enquanto estavam ali, perto das pirâmides, Inanna
teve uma idéia, que apresentou diante do Conselho
dos Deuses:
Nesse dia, a própria Dama, aquela que fala a verdade,
a acusadora de Azag, a grande princesa, emitiu seu impressionante
julgamento.
Existia um jeito de condenar Marduk à morte sem
de fato e-xecutá-lo, disse a deusa. "Que ele
seja enterrado vivo dentro da Grande Pirâmide".
Que ele fique lá, como dentro de um envelope lacrado.
Sem ninguém para lhe fornecer alimento; sozinho
deve sofrer, a fonte de água potável será
cortada.
O Conselho dos Deuses aceitou a sugestão. "Tu
és a dona da arte... A sorte decretas. Que assim
seja!". Imaginando que Anu concordaria com o veredicto,
"os deuses passaram a ordem para o Céu e a
Terra". Ekur, a Grande Pirâmide, acabara de
se transformar nu-ma prisão e, daí em diante,
um dos epítetos de sua dona passou a ser "Senhora
da Prisão".
Foi então, acreditamos, que se terminou a lacração
da pirâ-mide. Deixando Marduk sozinho na Câmara
do Rei, os deuses que o prenderam saíram e, ao
atingirem o Corredor Descendente, solta-ram o dispositivo
que fez deslizarem os blocos de granito que lacra-ram
a entrada para o Corredor Ascendente.
Devido aos dutos inclinados que ligavam a Câmara
do Rei às faces norte e sul da pirâmide,
Marduk tinha ar para respirar, mas não lhe fora
deixado nenhum alimento ou água. Ele estava enterrado
vivo, condenado a morrer em agonia.
O registro do enclausuramento de Marduk ficou preservado
em tabuinhas de argila encontradas nas ruínas de
Assur e Nínive, as antigas capitais assírias.
O texto de Assur sugere que ele servia de roteiro para
uma cerimônia realizada habitualmente na Babilônia,
reencenando o sofrimento e o salvamento do deus. No entanto,
nem a versão babilônica original nem o texto
anterior sumério em que esse roteiro se baseou
foram descobertos.
Heinrich Zimmem, que transcreveu e traduziu o texto de
Assur a partir das tabuinhas guardadas no Museu de Berlim,
criou uma grande comoção nos círculos
teológicos ao anunciar sua interpreta-ção
numa conferência realizada em setembro de 1921,
pois viu nele um Mistério pré-cristão,
tratando da morte e da ressurreição de um
deus e, portanto, uma lenda do Cristo primitiva. Stephen
Langdon, por sua vez, ao incluir o texto em seu livro
sobre os Mistérios de Ano-Novo da Mesopotâmia,
deu a esse relato em especial o titulo de A Morte e Ressurreição
de Bel-Marduk, salientando seus paralelos com a história
da morte e ressurreição de Jesus contada
no Novo Testamento.
Mas, como conta o texto, Marduk ou Bel ("O Senhor")
não morreu, embora tenha sido encerrado dentro
da Montanha como se ela fosse uma tumba - o que faz com
o que o paralelo ainda se susten-te.
Essa antiga "peça teatral" para as festividades
de Ano-Novo começa quando Marduk já está
encarcerado na Montanha. Um men-sageiro vai avisar Nabu,
o filho do deus, que, chocado com a notí-cia, toma
seu carro para ir à Montanha. Ele chega "à
casa na beira da Montanha, onde é interrogado".
Respondendo às indagações dos guardas,
o filho aflito diz que é "Nabu, que vem de
Borsippa, procu-rando saber sobre o bem-estar de seu pai,
que foi feito prisioneiro".
Vários atores entram e saem no palco. Eles representam
"as pessoas das ruas que correm à procura
de Bel, perguntando: 'Onde ele está preso?"'.
O texto explica que depois de Bel "ter entrado na
Montanha, a cidade foi tomada pelo tumulto" e, "por
causa dele, houve muita luta". Então surge
uma deusa, Sarpanit, a irmã-esposa de Marduk, que
é avisada por um mensageiro em lágrima que
seu marido foi levado para a Montanha. Ele mostra as roupas
de Marduk (possivelmente manchadas de sangue), dizendo:
"Esta é a veste que tiraram dele, que foi
trocada por um Traje de Condenação".
O homem então exibe uma mortalha para a platéia.
"Isto significa que ele está num caixão".
Sarpanit aproxima-se de uma estrutura que simboliza a
Montanha. Ela vê um grupo de carpideiras. O roteiro
explica:
Essas são as que lamentam depois que os deuses
o trancaram, separando-o dos vivos.
Na Casa do Cativeiro, longe do sol e da luz, eles o prenderam.
O drama chega ao clímax: Marduk está morto...
Mas... Esperem, nem tudo está perdido! Sarpanit
recita u-ma súplica aos dois deuses capazes de
falar com Inanna a respeito de seu marido: seu Pai, Nannar/Sin,
e seu irmão, Utu/Shamash. "Ela reza para Sin
e Shamash, dizendo: 'Dêem vida a Bel'.
Sacerdotes, astrólogos e mensageiros entram no
palco numa procissão, recitando preces e encantamentos,
para fazer sacrifícios em honra de Inanna/Ishtar,
pedindo sua misericórdia. O sumo sacerdote roga
ao deus supremo e também a Sin e Shamash: "Devolvam
Bel à vida!".
O drama agora muda inesperadamente. O ator que faz o
papel de Marduk, vestindo uma mortalha "tinta de
sangue", de repente começa a falar: "Não
sou um pecador! Não serei exterminado!". Em
seguida anuncia que o deus supremo reviu seu caso e considerou-o
inocente.
Mas, então, quem era o assassino? A atenção
da platéia é desviada para a "porta
de Sarpanit na Babilônia" e fica sabendo que
o verdadeiro deus culpado foi capturado e vê sua
cabeça por uma fresta da porta. "Essa é
a cabeça do malvado, que será executado".
Nabu, que retornara a Borsippa, volta para "parar
diante do malvado e olhá-lo bem de perto".
Não ficamos sabendo a identidade do verdadeiro
culpado, mas somos informados de que Nabu já o
vira antes na companhia de Marduk. "Este é
o pecador", diz ele, selando o destino do cativo.
Os sacerdotes agarram o malvado, e ele é executado.
"Aquele que cometeu o pecado" é levado
num caixão. O assassino de Dumuzi pagou o crime
com a própria vida.
Mas o pecado de Marduk, o de ser o causador indireto
da mor-te de Dumuzi, pode ser reparado? Sarpanit reaparece
em cena, u-sando as Vestes da Expiação.
Ela limpa simbolicamente o sangue que foi derramado e
em seguida lava as mãos em água purificada.
"Esta é a água para a lavagem de mão
que trouxeram depois de o Malvado ter sido levado embora."
Tochas são acesas em "todos os lugares sagrados
de Bel", e novamente todos dirigem súplicas
ao deus supremo. A supremacia de Ninurta, que fora proclamada
por ocasião de sua vitória sobre Zu, é
reassegurada, aparentemente para aplacar qualquer receio
de que Marduk, libertado, pudesse tentar contestá-la.
Os rogos se sucedem até que o deus supremo envia
um mensageiro divino, Nusku, para "anunciar as boas
novas".
Num gesto de boa vontade, Gula, a consorte de Ninurta,
envia a Sarpanit novas roupas e sandálias para
ser entregues a Marduk. A carruagem do deus, sem o condutor,
é trazida à cena. Mas Sarpanit está
confusa; não entende como Marduk poderá
ser libertado, se estava preso numa tumba lacrada. "Como
poderão colocar em liberdade aquele que não
tem como sair?
Nusku, o mensageiro divino, explica que Marduk passará
pelo SA.BAD, a "abertura superior entalhada".
Conta que ela é:
Dalta biri ska iqabani ilani
Uma porta-túnel que os deuses perfurarão
Shunu itasrushu ina biti etarba
Seu vórtice eles levantarão, em sua morada
reentrarão.
Dalta ina panishu etedili
A porta que foi barrada diante dele
Shunu harrate ina libbi dalti uptalishu
No vórtice do buraco, dentro das entranhas, uma
porta eles perfurarão.
Qarabu ina libbi uppashu
Aproximando-se, em suas entranhas forçarão
uma passagem.
Essa descrição de como Marduk seria libertado
permaneceu sem sentido para muitos estudiosos. Todavia,
para nós, o significado está mais do que
claro. Como explicamos anteriormente, o segmen-to irregular
e grosseiro C do Poço da Pirâmide não
existia quando a construção foi concluída
nem quando Marduk foi encarcerado. Ele foi o túnel
que os deuses abriram para libertar o prisioneiro perdo-ado.
Como ainda estavam familiarizados com a disposição
interior da estrutura, os Anunnaki perceberam que o caminho
mais curto para chegarem a Marduk, faminto e sedento,
seria abrindo uma passagem unindo os segmentos B e D do
Poço de construção, o que representaria
escavar um túnel de pouco mais de dez metros através
dos relativamente moles blocos de calcário, uma
tarefa que poderia ser realizada em poucas horas.
Removendo a pedra que cobria a entrada do Poço
no Corredor Descendente, os salvadores entraram no trecho
G e subiram rapidamente pelos segmentos inclinados E e
F. No local onde E se ligava com o trecho vertical D,
existia uma pedra de granito cobrindo a entrada na Gruta.
Ela foi empurrada para um lado - e ainda continua nessa
posição. Os salvadores galgaram a pequena
distância até o alto de D e viram-se diante
do primeiro curso de blocos de calcá-rio da pirâmide.
Cerca de dez metros acima ficava o fundo do trecho vertical
B e o caminho para a Grande Galeria. Quem mais, senão
os que ti-nham construído a pirâmide poderiam
saber de suas seções superio-res lacradas
e tinham as plantas do projeto para localizá-las?
Portanto, nossa teoria é que foram os salvadores
de Marduk que escavaram o trecho C, usando ferramentas
para "perfurar uma porta-túnel".
Tendo atingido B, eles passaram para a pequena passagem
horizontal A, onde um estranho, sem conhecimento do interior
da i-mensa estrutura, teria parado mesmo se tivesse conseguido
chegar até lá, pois só o que teria
visto era uma parede de caleário sólido.
Por isso, sugerimos que só os Anunnaki, que tinham
em mãos a plan-ta do projeto da Grande Pirâmide,
poderiam saber que atrás do bloco de caleário
que tinham diante deles ficava a imensa cavidade da Grande
Galeria e todas as outras partes superiores.
Para eles conseguirem acesso a essas câmaras e
passagens, eles teriam de remover a pedra de rampa em
forma de cunha, mas ela estava ajustada demais e não
podia ser movida.
Se ela pudesse ter sido puxada, continuaria ali, na Grande
Ga-leria. No entanto, o que vemos é um buraco,
e todos os que o exa-minaram atentamente usaram a palavra
explodido para descrevê-lo, afirmando que a explosão
não foi de dentro da Galeria, mas a partir do Poço.
Segundo Rutherford, em Pyramidology, "o buraco parece
ter sido explodido por uma força tremenda vinda
do interior do Po-ço".
Mais uma vez os textos mesopotâmicos nos dão
a solução do mistério. A pedra de
fato foi retirada a partir do interior do trecho A. Como
diz o verso final do texto que vimos: "Aproximando-se,
em suas entranhas forçarão uma passagem".
Os fragmentos do bloco de calcário deslizaram pelo
Corredor Ascendente abaixo até chegarem aos tampões
de granito, e foi ali que os homens de Al-Mamun os encontraram.
A explosão também cobriu a Grande Galeria
com o pó fino e branco que os árabes encontraram
- uma prova muda da anti-ga explosão e do enorme
buraco que deixou.
Tendo entrado na Grande Galeria, os salvadores retiraram
Marduk por onde tinham ido. A entrada pelo Corredor Descendente
foi novamente fechada, mas já não com tanto
cuidado, pois os ho-mens de Al-Mamun a encontraram com
facilidade. Já os tampões de granito continuaram
no mesmo lugar, com a pedra triangular escon-dendo-se
da vista, e assim o Corredor Ascendente continuou ignora-do
por milênios. E, no interior da pirâmide,
as partes superiores e inferiores originais do Poço
ficaram para sempre ligadas por um túnel tortuoso,
grosseiramente escavado.
E quanto ao prisioneiro da pirâmide?
Os textos mesopotâmicos contam que ele foi exilado.
No Egito, Ra adquiriu o epíteto de Amen, "O
Escondido" ou "O Oculto".
Por volta de 2000 a.C., Ra/Marduk reapareceu para novamente
exigir a supremacia. Por causa disso, a espécie
humana terminou pagando um preço por demais amargo.
Fonte: As Guerras de Deuses e Homens - Zecharia Sitchin