Pyramon estava aproveitando bem o tempo de espera. Ele
confirmara mais uma vez, com o máximo rigor, todas
as medidas que ainda seriam usadas. Pois cada mínima
medida aplicada na construção da pirâmide
possuía um significado profético, astronômico
e geofísico... Portanto, não se podia omitir
nem a mínima coisa.
Finalmente chegaram ao ponto de poderem ser reiniciados
os trabalho da pirâmide. Kosbi trouxera tantos mantimentos,
que os armazéns estavam novamente repletos de provisões.
Novas remessas também já estavam providenciadas.
Nesse ínterim haviam comparecido de novo também
os trabalhadores com suas famílias. Os poucos que
haviam sido mortos na sítio de Akeru, ou feridos
tão gravemente que não pudessem continuar
a trabalhar na pirâmide, foram substituídos
por outros.
Não demorou muito e se ouviram as metálicas
marteladas dos ferreiros que tinham retomado seu trabalho
com grande afinco. Também os sons das flautas de
pastores enchiam novamente o ar. Eram as crianças
do acampamento que tocavam com grande persistência
as flautas feitas por elas mesmas. Para tanto subiam nas
árvores mais altas, a fim de que os gigantes também
pudessem ouvir sua bonita música. Tudo estava como
sempre. Nada mais indicava que os trabalhos haviam ficado
paralisados durante tanto tempo.
O trabalho, na realidade, nunca ficara parado, pois os
gigantes haviam prosseguido ininterruptamente. Eles haviam,
nesse ínterim, acabado o teto da "sala do
Juízo", composto de muitos e pesados blocos
de pedra. O sarcófago há muito já
estava nessa sala. Os gigantes, com sábia previsão,
haviam colocado o grande bloco de granito vermelho, no
lugar a ele destinado, muito antes que as paredes laterais
dessa sala ficassem prontas. O escultor transformou-o
depois, dentro da própria sala, num sarcófago,
usando para isso serrote, martelo e talhadeira. O sarcófago
nunca poderia ter sido colocado por último na sala
do Juízo da pirâmide acabada, pois para tanto,
era grande demais.
Além disso, os gigantes também haviam trazido
e empilhado nas proximidades, todos os blocos para o revestimento
externo da pirâmide. Eram vinte e cinco mil blocos
de mármore, reluzentes, de cor amarelo-escuro,
pesando muitas toneladas cada um. Os blocos eram cortados
com absoluta precisão, possuindo superfícies
brilhantes. Não obstante isso, ainda tinham de
ser polidos. Uma vez que esse trabalho somente podia ser
executado por mãos humanas, os gigantes colocaram
certo número deles no chão, em volta da
pirâmide, de tal modo que cada um poderia trabalhar
neles comodamente. Os trabalhadores retomaram alegremente
os trabalhos que ainda antes do sítio de Akeru
haviam iniciado.
Incidentes ocorriam sempre de novo. Contudo, nunca mais
representaram obstáculos tão sérios,
que pudessem prejudicar a continuação da
obra.
E então chegou o dia em que os gigantes colocaram
a última pedra, fechando a pirâmide. Pyramon
contemplou com alegria e satisfação a obra
acabada. Pensou no dia em que pisara pela primeira vez
o solo do oásis, para começar o trabalho.
Como que voando havia passado o tempo. Agora estava cumprida
a missão de sua vida. E ele perguntava a si próprio
como prosseguiria sua vida...
Os dias que se seguiram à conclusão da
pirâmide, foram dias de inquietação
para Pyramon. Ele andava de um lado para outro, como se
esperasse algo. Mas o que esperava, ele mesmo não
sabia. À vezes ficava parado diante da esfinge,
levantando pensativamente seu olhar para o rosto de pedra.
Os olhos desse rosto pareciam olhara para distâncias
longínquas, e eles davam uma impressão tão
viva, que ele se assustava cada vez que os via. Da colossal
figura de leão deitado emanavam uma serenidade
e uma altivez impossíveis de serem perscrutadas.
ERa como se um halo de mundos superiores e eternos pairasse
em volta dela.
Enquanto Pyramon ainda pensava no misterioso e enigmático
que emanava dessa figura de pedra, ele sentiu a forte
correnteza de ar, sempre causada pelos gigantes ao se
aproximarem. Com alegria olhou para cima. Todos os que
haviam trabalhado juntos na pirâmide, estavam presentes.
Ao vê-los, ele sabia por que tinham vindo. Estavam
prestes a deixar o oásis. Com saudade e tristeza
no coração, ele ouviu as poucas palavras
que Enak lhe dirigiu, despedindo-se.
"De bom grado trabalhamos contigo", deu Enak
a entender. "Teu amor e tua confiança enriqueceram-nos,
aquecendo nossos corações. Nosso trabalho
está terminado. Deixamos agora este país
e a proximidade da Terra, esperando pelo que vier. Saudamos-te
e permaneceremos teus amigos".
"Não pensei que vos afastaríeis tão
rapidamente", murmurou Pyramon com o olhar abaixado,
enquanto percebia, envergonhado, que lágrimas lhe
enchiam os olhos. Olhando novamente para cima, viu que
estava sozinho. Pela primeira vez, desde a morte de Thisbe,
ele sentia-se só e abandonado no Egito. Os gigantes
foram durante um longo tempo seus amigos e confidentes,
e ele, até certo ponto, havia-os entendido melhor
do que aos seres humanos, embora fossem seus semelhantes.
Pyramon não pôde entregar-se muito tempo
a seus tristes sentimentos intuitivos. No mesmo dia ainda,
ao anoitecer, chegaram mensageiros enviados à frente
por Aphek, o sacerdote-rei, para noticiar a sua chegada.
Aphek há tempo havia planejado uma solenidade de
agradecimento, que deveria ser realizada no oásis,
logo depois da conclusão da pirâmide. Agora
ele estava se aproximando juntamente com vinte xeques
de tribos independentes, três reis dos reinos da
Arábia do sul, além de um determinado número
de sábios que em caminho se haviam juntado a sua
caravana.
Aphek sempre estivera informado exatamente sobre o andamento
dos trabalhos da pirâmide. Dessa maneira ele pôde
em tempo avisar todos aqueles que ele sabia que gostariam
de viajar juntamente com ele para o Egito, a fim de ver
a pirâmide acabada e assistir à solenidade
de agradecimento.
E todos vieram para ver a obra monumental que há
anos vinha agitando todos os ânimos.
Cada um, ao ver a pirâmide acabada pela primeira
vez, ficava parado diante dela com sentimentos indizíveis
e indefiníveis. Sentimentos esses que deixavam
estremecer espíritos e almas. Ninguém ficava
sem ser tocado por aquilo.
As paredes dessa obra colossal, lisas como um espelho
e de um vislumbre amarelo, davam um aspecto inesquecível,
quando eram atingidas simultaneamente pelos raios solares.
Do mesmo modo inesquecível ficava a esfinge, lisa
e de um vislumbre avermelhado, a qual estava ligada à
grande pirâmide de maneira misteriosa.
Um halo de eternidade envolvia ambos os monumentos, dos
quais cada pedra falava uma linguagem poderosa!
Milhares de pessoas assistiram à solenidade de
agradecimento. A oração de agradecimento,
contudo, não pronunciada por Aphek ou um outro
sábio, mas sim, foi cantada pelos homens que tinham
colaborado na pirâmide e na esfinge. Era um coro
maravilhoso de homens que louvava a onipotência
do Criador e a grandeza das obras iniciadas e concluídas
em Seu nome.
Também pYramon e os gigantes foram louvados, por
terem sido escolhidos para edificar essa obra única.
Numa outra canção pediam a Thaui, a senhora
da Terra, e a Ea, o senhor do sol, para tomarem a pirâmide
e a esfinge sob a sua proteção, a fim de
que permanecessem conservadas até o fim dos tempos.
Enquanto soava a cação dirigida à
senhora da Terra e ao senhor do sol, levantou-se voando
da plataforma da pirâmide uma cesta de ouro que
parecia conter frutas áureas. Cada um que ainda
podia perceber acontecimentos extramateriais, viu a cesta
desaparecer bem no alto, no irradiante brilho solar. A
cesta que continha os frutos do trabalho feito, saiu das
mãos da senhora da Terra, que igualmente se tornava
visível acima da pirâmide, por um momento.
Tudo o que o ser humano realiza na Terra, toma forma
e produz frutos! Bons ou maus. No caso da pirâmide,
os frutos eram de um puro brilho de ouro, pois todos,
sem exceção, haviam trabalhado na obra com
amor.
O senhor do sol e a senhora da Terra sempre haviam acompanhado
com interesse os trabalhos da obra. Pois não se
tratava de uma obra comum. A pirâmide surgira da
Vontade do Onipotente Criador. Através de milênios
deveria ela ser um marco de advertência, lembrando
sempre de novo os seres humanos de que o tempo do último
julgamento se aproxima.
Havia um motivo especial para que a pirâmide não
terminasse numa ponta. É que o Senhor do Universo
colocaria ali o seu sinal, quando viesse à Terra
no tempo do último Juízo. É o sinal
da vida eterna, e este iluminaria o caminho para todos
aqueles que conseguissem caminhar até o final do
salão do Juízo, passando pelo sarcófago
aberto. De lá em diante então começaria
a ascensão que conduz para cima, através
de cinco degraus do Universo. Para cima, às campinas
da paz, em direção à pátria
eterna dos seres humanos.
A solenidade de agradecimento ficou inesquecível
para todos que a ela assistiram. Cada ano, na mesma data,
os sábios realizavam uma solenidade em comemoração,
a qual de ano em ano era mais concorrida. Os peregrinos
pareciam ter uma predileção especial por
essa solenidade. Os sábios esclareciam sempre de
novo o sentido e a finalidade da pirâmide, exortando
simultaneamente todos os peregrinos, vindos de perto e
de longe, para que vivessem sempre de tal maneira que
não precisassem temer o Juízo.
Durante o dias subsequentes à solenidade de agradecimento,
Pyramon dedicou-se integralmente a seus visitantes. Não
podiam ouvir o suficiente das profecias da pirâmide.
Antes de tudo, interessavam-se pela maneira com que essas
profecias tinham sido expressas.
Pyramon levou-os várias vezes para o meio do pátio,
onde havia levantado o modelo da pirâmide, esclarecendo-lhes
os acontecimentos mais importantes através do mesmo.
No modelo, que tinha o tamanho de Pyramon, faltavam duas
paredes externas, bem com algumas internas, recebendo
os visitantes assim uma visão do interior. Pyramon
indicou para alguns lugares importantes, dando-lhes os
seguintes esclarecimentos.
Pegou no último bastão de ouro que ainda
possuía, pois os muitos outros havia deixado na
sala do Juízo, e disse:
- A câmara que estais vendo aqui, situa-se mais
ou menos, em altura, entre o solo e a sala do Juízo.
O tamanho da câmara e a cor com que são pintadas
as paredes internas, indicam que uma emissária
feminina virá das alturas máximas até
a Terra. Por isso denominamo-la "câmara da
Rainha". A época desse acontecimento reconhece-se
pela medição da altura em que a câmara
se encontra. E essa medida indica uma data daqui a deis
mil e quinhentos aos.
Segui agora exatamente o caminho que conduz para essa
câmara da Rainha. Ele sobe, sim, contudo, em determinado
ponto segue uma ramificação para baixo,
até as câmaras subterrâneas. Isso significa
que uma parte da humanidade já estará trilhando
um caminho que termina no abismo. A emissária das
alturas supremas, a Rainha, terá de lidar, portanto,
com seres humanos que visam o abismo. A câmara fechada
indica que os ensinamentos e as advertências dela
não penetrarão nos corações
humanos, e que ela mesma sucumbirá numa prisão.
Além da Rainha - o país do seu destino
situa-se em direção às ilhas - descerão
antes do Juízo Final ainda dois enviados de alturas
supremas. A permanência deles foi simbolizada por
recintos altos e arejados.
De acordo com as medidas, o primeiro enviado virá
quinhentos anos depois da Rainha, à Terra. A vinda
do segundo enviado das alturas supremas ocorrerá
num futuro mais remoto, daqui a quatro mil e quinhentos
anos. Pela posição e direção
dos salões, depreende-se que ambos os enviados
viverão e atuarão naquela parte da Terra
onde agora nos encontramos.
Pyramon afastou mais algumas pedras, indicando agora
para um corredor baixo, que se tornara visível.
- Vedes, recomendou ele, que o teto desse corredor se
abaixa de tal modo, que uma pessoa somente agachada pode
passar por ele. O abaixamento encontra-se no corredor
que sai do salão alto e arejado do segundo enviado.
Isso indica algo horrível.
O corredor baixo, pelo qual os seres humanos somente
podem passar agachados, encolhidos e sem enxergar nada,
simboliza a perda da verdadeira dignidade humana. Esse
infortúnio desencadear-se-á sobre a humanidade,
depois da vinda do último enviado das alturas supremas.
A culpa que acarretará a perda da dignidade humana
iguala-se a um pesado muro opressor que deverá
calcar ao solo cada um.
O corredor, sim, novamente se torna mais alto, de movo
que os que perceberam sua estreiteza e seu peso opressor,
poderão respirar de novo um pouco. Nesse período
de tempo até lhes seria possível reconhecer
sua grave culpa, libertando-se dela. De que espécie
essa grave culpa será, não sabemos, disse
Pyramon, dirigindo-se a seus visitantes.
- Mas do caminho seguinte depreende-se que não
houve nenhum reconhecimento. O teto abaixa-se mais uma
vez. Agachados, com o olhar dirigido à Terra, e
desligados de qualquer irradiação da Luz,
devem os seres humanos prosseguir sua vida. Pyramon indicou
para um ponto onde o corredor novamente se tornava mais
alto.
- Daqui em diante os seres humanos novamente podem erguer
a cabeça. E parece que nada mais pode impedir o
prosseguimento de sua caminhada. Contudo, isto é
um erro, pois, como vedes, levanta-se de repente uma parede,
pondo fim ao caminho deles. Essa parede significa o fim
do tempo de desenvolvimento humano. Daqui em diante só
existe uma única saída. E essa conduz, quando
o ser humano se vira para a direita, à sala do
Juízo com o sarcófago aberto.
Pyramon virou-se. Não, ninguém tinha perguntas.
Eles queriam que ele prosseguisse falando. Aliás,
do Juízo, que todos intimamente temiam. Pyramon
tirou uma parede, de modo que todos podiam ver a sala.
Calados e com toda a atenção contemplavam
o sarcófago aí existente. Eles tinham a
impressão de que mesmo o pequeno modelo do sarcófago
tinha algo de sinistro.
A execução sem acabamento da sala chamou
a atenção do rei de Sabá, e ele perguntou
por que assim era.
- Todas as outras paredes e pisos da Pirâmide são
lisos e reluzentes. Mesmo o sarcófago parece não
estar ainda pronto, disse ele com surpresa.
Pyramon respondeu, sorrindo, que a sala do Juízo,
na pirâmide, tinha o mesmo aspecto que no modelo.
- Lá o piso também é desigual, as
paredes são ásperas e o sarcófago
dá a impressão de torto. Mas assim é
intencionado, pois sabeis que tudo na pirâmide tem
sentido profundo e duplo.
A sala do Juízo, também chamada câmara
do Rei, é o símbolo da época do Juízo.
Início e fim desse Juízo poderão
ser reconhecidos pela altura em que a sala está
situada dentro da pirâmide e pelas suas medidas.
Mesmo nas medidas desiguais do sarcófago encerram
um profundo sentido.
O piso desigual indica que na época do Juízo
os seres humanos não mais terão sob os pés
um solo liso e firme. A terra onde eles se locomovem não
contém mais nenhuma segurança para eles.
Não sabem o que o próximo passo lhes pode
trazer.
Além, disso, para onde quer que olhem, deparam
com paredes e um teto que pelo seu aspecto, igualmente,
nada promete de bom. Resta apenas olharem para o sarcófago,
cujo aspecto mais temem. Sentem-se presos num recinto,
do qual não há uma fuga.
A época do Juízo não poderia ser
transmitida mais impressionantemente do que através
dessa sala. Para onde quer que o ser humano se volte,
a insegurança e o medo serão sempre seus
acompanhantes. Não pode fugir de si mesmo e de
sua própria culpa. Além disso, as condições
terrenas naquele tempo serão de tal maneira, que
ele, quer queira, será lembrado da morte.
A sala do Juízo, porém, não encerra
apenas a morte! Ela é grande. Dá suficiente
espaço para as pessoas que nela se encontram, andarem
eretas e se movimentarem livremente. A amplitude da sala
indica que um enviado das alturas supremas - com este
entende-se o próprio Regente do Universo - trará,
durante o tempo do Juízo, uma mensagem que encerra
segurança, saber e salvação aos seres
humanos que ainda puderem assimilá-la. De certas
medidas do sarcófago depreende-se, contudo, que
será mínimo o número daqueles que
aceitarão o ensinamento salvador.
Para esses poucos agraciados, a sala do Juízo
bem como o sarcófago, não amedrontarão.
Deparam, sim, por toda a parte, com um mundo feio e desequilibrado,
e o caminhar no piso desigual também nem sempre
será fácil.
Em contraste com os outros, carregados de culpas, que
dentro de si e em seu redor somente enxergam coisas feias,
os agraciados procurarão melhorar e embelezar o
seu ambiente! Devido ao seu anseio de criar um ambiente
harmonioso, quererão ajudar os outros, que apenas
enxergam coisas feias, a fim de que também o ambiente
interior deles se torne belo e equilibrado.
- E o sarcófago? perguntou o rei de Ma'in. Os
agraciados também vêm o sarcófago!
E esse indica para a morte!
- A morte não encerra pavor para os seres humanos
que vivem dentro das leis do Regente do Universo! Pelo
contrário! Sabem que a morte terrena significa
para eles o nascimento num mundo mais belo e superior!
disse Pyramon com convicção.
Todos concordaram com Pyramon. Todos eles desejavam de
todo coração que também para eles
a morte fosse o nascimento num mundo superior.
Pyramon pegou um dos rolos de couro branco que estavam
na mesa e desenrolou-o, indicando para os sinais de escrita
verdes e vermelhos que cobriam o couro.
- Colocamos setenta placas com sentenças instrutivas
nos diversos compartimentos da pirâmide. Os sábios
da Caldéia escreveram essas sentenças em
couro e em finas chapas de cobre, mandando-as para cá.
Aqui nós as transcrevemos em placas pesadas e as
colocamos na pirâmide. A sentença de uma
dessas placas que coloquei no sarcófago, diz:
"Sem terminar realiza-se o mistério da vida
e da morte. O mistério da transformação
e do renascimento! Aquele que durante a sua vida terrena
se lembrar da morte, não precisa temer o Juízo,
quando o fim chegar!"
- Repete essa sentença para nós, Pyramon,
pediu um dos xeques. Ela me deu esperanças! A seguir
Pyramon teve de repeti-la várias vezes ainda, pois
cada um queria gravar as palavras exatamente.
Quando todos sabiam de cor a sentença, Pyramon
disse que ele havia mencionado apenas algumas das muitas
profecias apontadas na pirâmide. Mas eles podiam
perguntar, se quisessem saber mais.
Depois de pensar algum tempo, um dos xeques levantou
a mão, indicando para uma grande rachadura visível
num dos blocos de pedra que formavam o teto.
Todos levantaram as cabeças e viram a fenda na
pedra, a qual parecia perigosa.
- Quase parece como se o teto estivesse rachado, murmurou
o rei de Sabá. Logo depois, porém, ele olhou
sorrindo para Pyramon e perguntou o que isso significava.
- Um rachadura na construção tão
perfeitamente executada, seguramente indica algum acontecimento!
Pyramon deu-lhe razão e olhou um momento para
o teto, dizendo a seguir que essa rachadura indicava um
acontecimento que ocorreria dois mil e quinhentos anos
mais tarde.
- Deve tratar-se de um gravíssimo delito da humanidade,
pois as respectivas profecias dizem que os efeitos disso
serão sentidos até as alturas máximas.
- O trabalho dos gigantes é insuperável.
Essa rachadura parece um corte na pedra, disse um dos
visitantes com admiração.
- As salas e os corredores também apresentam fendas,
aliás, somente perceptíveis àqueles
que conhecem os lugares, recomeçou Pyramon. Hoje
são apenas fissuras fina, não representando
nenhum perigo de desmoronamento. Contudo, se as salas
e os corredores, em cujas pedras se encontram essas fissuras,
estiverem desmoronados até o fim dos tempos, então
a respectiva profecia diz o seguinte:
"O Regente do Universo poderá entrar na pirâmide,
certificando-se de que o serviço de seus servos
fora bem feito. Se, porém, até a sua vinda,
as paredes, em todos os lugares onde hoje existem as rachaduras
estiverem gravemente danificadas e desmoronadas, então
a destruição esperará os seres humanos.
Eles mesmos terão destruído os caminhos
que conduzem para cima. A Divindade abandonará
a Terra, voltando para o seu céu e tristeza haverá
em seu coração..."
As palavras dessa profecia desencadearam em todos um
medo atormentador. Foi como se um pesado fardo se deitasse
sobre eles. Por que estavam com medo? Eles seguramente
não estariam entre aqueles que destruiriam os caminhos
para cima... Mas também sabiam que tais angustiantes
sentimentos intuitivos saíam do espírito,
e que deviam dar atenção a eles... Mais
tarde então iriam se ocupar com a causa desse medo
inexplicável. Agora não havia tempo para
isso, pois Pyramon já prosseguia falando. Ele tirara
um pequeno bloco ao lado da entrada da sala do Juízo
e dizia:
- Este lugar indica o início do Juízo.
Aqui já nos encontramos no último século.
No século do Juízo. Na placa encostada neste
lugar, dentro da pirâmide, encontram-se gravadas
as seguintes palavras:
"O dragão que levou a ordem universal ao
desmoronamento, deslocando seu eixo, alcançou o
ápice de seu poder. Todos os povos até aqui
já traíram o seu Criador! Voluntariamente
curvaram-se ao domínio do dragão, ao domínio
da mentira! Aqui chegou o fim do dragão. O Juiz
Universal venceu-o com sua lança, pondo-o fora
de ação! A sagrada lança está
então dirigida contra a humanidade! O sarcófago
aberto está esperando!"
- Essas palavras não significam nada de bom para
nós, disse o rei de Sabá, quando Pyramon
calou. Soam sem esperança. Mas eu te agradeço,
em nome de todos, por nos teres comunicado justamente
essa profecia. Há anos nossos pensamentos rodeiam
esta extraordinária construção! E
eu acho que todos me darão razão, se eu
agora digo que será bom para nós, termos
medo daquilo que ainda está no futuro! Tanto mais
nos acautelaremos agora, para não cometermos erros
que talvez não mais possam ser resgatados até
o Juízo...
Quando o rei de Sabá terminou, todos agradeceram
a pYramon. Eles esperavam, de todo coração,
que essas palavras significativas se gravassem tão
profunda e duradouramente em suas almas, que eles também
se lembrassem delas em vidas terrenas posteriores.
- Achas, Pyramon, que as palavras dessa pavorosa profecia
ainda estarão tão vivas em nossas almas,
em nossa última vida terrena, que possam penetrar
até os nossos cérebros?... Pergunto a mim
mesmo, se até lá elas ainda terão
bastante força para fazer com que nos tornemos
conscientes delas!
Fora o irmão de Pyramon que falara. Também
os outros haviam formulado essa pergunta intimamente.
O que Pyramon responderia?
- Não sei qual será o estado de nossas
almas então, disse Pyramon, após sérias
reflexões. Acho que ninguém poderá
predizer isso agora... Aphek, o sacerdote-rei da Caldéia,
ainda falará convosco sobre as profecias... talvez
ele possa dar-vos alguns esclarecimentos sobre isso.
Um dos xeques que se ocupava com a astronomia, ainda
quis saber como seriam as influências dos astros
no começo do Juízo.
- Nossos sábios já agora estão observando
movimentos sob forma de turbilhões em redor do
sol. E do próprio sol eles viram conjuntos de chamas
elevarem-se tão alto, que não podiam segui-las
com os olhos... Dizem também que ainda muito longe,
atrás do sol, está girando um cometa, o
qual transformará, no fim dos tempos, nosso sol
num mar de chamas. Viram também, várias
vezes, o próprio senhor do sol. O aspecto dele,
contudo, havia-os inquietado profundamente. O maravilhoso
era quase irreconhecível, de tão envolto
que estava de chamas vermelhas de ira... A ira dele dirigia-se
contra os seres humanos. Os sábios não tinham
uma explicação para isso.
Com alívio, Pyramon viu Salum parado na entrada.
O muito falar deixara-o cansado. Agora não mais
precisaria dar outros esclarecimentos. Ultimamente sentia
cada vez mais necessidade de estar só. Os visitantes
tinham vindo de tão longe. Não devia perder
a paciência. Percebendo que eles hesitavam em seguir
o convite de Salum, ele então perguntou amavelmente
se alguém ainda queria saber algo...
Mal Pyramon havia pronunciado essas palavras, e um dos
visitantes saiu do grupo, colocando-se diante dele.
Era um velho, de estirpe nobre, chamado por todos xeque
Ibrahim. Ele pediu a Pyramon que lhe dissesse uma sentença
que tratasse da morte.
- Minha última vontade de ver a pirâmide
ainda se realizou, mas eu sei que o tempo de minha existência
terrena está no fim. Só me restam as forças
vitais para voltar a minha pátria. A sepultura
que acolherá meu corpo, já está preparada.
Pyramon, de bom grado, satisfez o desejo do velho. Ele
tirou um rolo de couro branco da pilha, desenrolou-o e
leu os sinais de escrita que ele mesmo escrevera:
"A alma do justo elevar-se-á cheia de força
do seu invólucro terreno. Ela será recebida
por entes que jubilarão de alegria e será
conduzida em uma canoa vermelha, que navega num rio comprido
e fundo, para o país ensolarado das almas. Entes
dos ventos impulsionam a canoa rapidamente para frente.
A viagem parece curta e logo alcançam a margem
do novo e luminoso país. Também no novo
país a alma é recebida com júbilo,
e grinaldas de flores de Ankham são oferecidas
a ela. Ela chegou ao destino, e a nova vida no país
das almas se inicia!"
O velho xeque ouvira essas palavras com uma expressão
de felicidade no rosto. Contudo, somente quando Pyramon,
a pedido dele, ainda as repetiu novamente, ele se retirou,
deixando vagarosamente o pátio.
- Qual é o teor da sentença escrita na
placa de bronze, ao lado da estrada? perguntou um outro
xeque com interesse.
Pyramon tirou uma pequena e fina placa de cobre de uma
prateleira e leu os sinais de escrita gravados nela ainda
pelo próprio Sargon:
"Vós, seres humanos, que entrastes nesta
construção perfeita, prossegui com profundo
respeito! Pois esta obra perfeita é um gigantesco
papiro coberto de muitos sinais de escrita, que contêm
uma dupla revelação!
Aquele que quiser decifrar o segredo do papiro de pedra,
deverá implorar primeiramente o auxílio
dos eternos!
Aquele que procura perscrutar a sabedoria oculta na pedra,
deve inclinar-se diante da grandeza da obra e esquecer
seus próprios pequenos conhecimentos durante algum
tempo!
Aquele que se torna consciente de que é apenas
uma minúscula partícula no mundo, e de que
outros muito maiores do que ele mesmo governam o mundo,
mantendo-o em movimento, novamente fará parte,
como outrora, dos iniciados, e será um escolhido
na Terra!
Somente aquele que for pequeno na Terra e grande no espírito,
decifrará o segredo das pedras falantes, pois somente
esse caminhará na graça dos eternos!
Aquele, porém, que tece redes de mentira, turvando
a verdade, revela com isso apenas que faz parte dos seres
humanos caídos, que se ligaram às forças
do mal já desde muito tempo. Sejam esses advertidos,
pois os filhos de Osíris zelam até o fim,
e eles destruirão cada malfeitor.
Os grandes no espírito sema bem-vindos com a saudação
da paz da eternidade. Eles trazem o amor no coração
e a eles será permitido ver a sagrada chama no
cristal. Os filhos de Osíris pedem a bênção
deles!"
Também essas palavras Pyramon teve de ler repetidas
vezes, antes que eles se dessem por satisfeitos, pois
tinham o mais ardente desejo de que essa palavras se gravassem
em suas almas para sempre.
Antes de deixar o pátio, o rei de Ma'in disse
que todos eles se preocupavam muito por causa do último
Juízo.
- O que podemos fazer, para que reconheçamos logo
o Juiz Universal, quando ele vier à Terra? Pelas
profecias da pirâmide sabemos de sua vinda. Sabemos
também em que época o Juízo acontecerá,
e também quando estará consumado. E embora
estejamos convictos de que nada nos poderá acontecer
de mal, se sempre seguirmos a lei do Onipotente Criador,
a inquietante preocupação de que nesse ínterim
possamos cair nas redes habilmente colocadas pelas servas
de Septu, não nos abandona.
Quando o rei terminou, todos olharam para Pyramon. Aliás,
com a silenciosa esperança de que ele lhes pudesse
dar um conselho nesse sentido.
Pyramon recolocou a placa de cobre na prateleira, dirigindo-se
depois a seus visitantes e olhando para cada um. O que
deveria ele responder? Todos eles estavam firmemente ligados
com os mundos superiores da Luz. Nenhum deles precisava
preocupar-se... De repente lembrou-se de Harpo. Essa lembrança
atingiu-o como um golpe... Os rostos dos que estavam a
sua frente confundiam-se diante de seus olhos e o solo
sob seus pés parecia oscilar. O acesso de fraqueza
passou tão rapidamente como viera. Além
de seu irmão, o rei de Kataban, ninguém
havia notado algo.
Pyramon dominou seu susto e seu atordoamento. Por que
fora ele lembrado da horrível mulher? Pois não
estava morto o que se relacionava a ela? Tão morto
como ela mesma?
Os visitantes ficaram inquietos. Por que Pyramon ficava
calado tanto tempo? Talvez ele não pudesse entender
a preocupação deles.
Somente reunindo toda sua força de vontade, Pyramon
pôde novamente voltar a atenção aos
seus visitantes. Ele já se havia considerado muito
superior e inviolável, e agora caíra de
sua altura imaginada.
- Posso compreender as vossas preocupações,
pois elas também são minhas! disse ele finalmente.
Contudo, não vos posso dar nenhum conselho. Oh!
sim... de repente um sorriso libertador iluminou o seu
rosto. Ele viu Tahia e Kina, que, despercebidas, haviam
entrado no pátio. Logo depois apareciam também
Chatna e Lachis com um grupo de mulheres, que, curiosas,
investiram para dentro do pátio.
- Oh! sim, começou Pyramon de novo, pois existem
também mulheres que vivem e atuam afastadas dos
charcos de vícios. Essas mulheres possuem um poder
que desperta o bem em cada um que chega em contato com
elas. Nós todos apenas podemos pedir e esperar
que nossos guias espirituais nos conduzam, na época
do Juízo, àquelas mulheres, cuja total aspiração
esteja dirigida rumo à Luz. E se formos de boa
vontade, também acontecerá!
Essas palavras de Pyramon desencadearam uma alegria geral.
Algo melhor do que uma mulher ligada a mundos superiores
ninguém poderia desejar! Eles circundaram Pyramon,
agradecendo-lhe a paciência e a atenção
que ele lhes dispensara.
- Transmitiremos tuas palavras a nossos filhos e seus
descendentes, para que eles também possam tirar
proveito de tua sabedoria!
Depois dessa palavras eles deixaram o pátio, para
ceder lugar às mulheres.
Fonte: A grande pirâmide revela seu segredo, Roselis
von Sass, Ordem do Graal na Terra, 13 Edição,
1991, Embu-SP, pp. 283-296.