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Roberto Shinyashiki em Heróis de Verdade Revista ISTOÉ. Quem são os heróis de verdade? Roberto
Shinyashiki - Nossa sociedade ensina que, para ser uma pessoa de
sucesso, você precisa ser diretor de uma multinacional, ter carro
importado, viajar de primeira classe. O mundo define que poucas pessoas
deram certo. Isso é uma loucura. Para cada
diretor de empresa, há milhares de funcionários que não
chegaram a ser gerentes. E essas pessoas são tratadas como uma
multidão de fracassados. Quando olham para a própria vida,
a maioria se convence de que não valeu a pena porque não
conseguiu ter o carro nem a casa maravilhosa. ISTOÉ - O sr. citaria exemplos? Shinyashiki:
- Dona Zilda Arns, que não vai a determinados programas de
tevê nem aparece de Cartier, mas está salvando milhões
de pessoas. Quando eu nasci, minha mãe era empregada doméstica
e meu pai, órfão aos sete anos, empregado em uma farmácia. ISTOÉ - Qual o resultado disso? Shinyashiki:
- Paranóia e depressão cada vez mais precoces. O pai quer
preparar o filho para o futuro e mete o menino em aulas de inglês,
informática e mandarim. Aos nove ou dez anos a depressão
aparece. A única coisa que prepara uma criança para o
futuro é ela poder ser criança. ISTOÉ - Por quê? Shinyashiki:
- O mundo corporativo virou um mundo de faz-de-conta, a começar
pelo processo de recrutamento. É contratado o sujeito com mais
marketing pessoal. As corporações valorizam mais a auto-estima
do que a competência. ISTOÉ - Há um script estabelecido? Shinyashiki:
- Sim. Quer ver uma pergunta estúpida feita por um presidente
De multinacional no programa O Aprendiz? "Qual é seu defeito?"
Todos respondem que o defeito é não pensar na vida pessoal:
"Eu mergulho de cabeça na empresa. Preciso aprender a relaxar."
É exatamente o que o chefe quer escutar. Por que você acha
que nunca alguém respondeu ser desorganizado ou esquecido? É
contratado quem é bom em conversar, em fingir. Da mesma forma,
na maioria das vezes, são promovidos aqueles que fazem o jogo
do poder. ISTOÉ - Temos um modelo de gestão que premia pessoas mal preparadas? Shinyashiki: - Ele cria pessoas arrogantes, que não têm a humildade de se preparar, que não têm capacidade de ler um livro até o fim e não se preocupam com o conhecimento. Muitas equipes precisam de motivação, mas o maior problema no Brasil é competência. Cuidado com os burros motivados. Há muita gente motivada fazendo besteira. Não adianta você assumir uma função para a qual não está preparado. Fui cirurgião e me orgulho de nunca um paciente ter morrido na minha mão. Mas tenho a humildade de reconhecer que isso nunca aconteceu graças a meus chefes, que foram sábios em não me dar um caso para o qual eu não estava preparado. Hoje, o garoto sai da faculdade achando que sabe fazer uma neurocirurgia. O Brasil se tornou incompetente e não acordou para isso. ISTOÉ - Está sobrando auto-estima? Shinyashiki:
- Falta às pessoas a verdadeira auto-estima. Se eu preciso que
os outros digam que sou o melhor, minha auto estima está baixa.
Antes, o "ter" conseguia substituir o "ser". O cara
mal-educado dava uma gorjeta alta para conquistar o respeito do garçom.
Hoje, como as pessoas não conseguem nem "ser" nem "ter",
o objetivo de vida se tornou "parecer". ISTOÉ - Por que nos deixamos levar por essa necessidade de sermos perfeitos em tudo e de valorizar a aparência? Shinyashiki
- Isso vem do vazio que sentimos. A gente continua valorizando os heróis. ISTOÉ - O conceito muda quando a expectativa não se comprova? Shinyashiki:
- Exatamente. A gente não é super-herói nem superfracassado.
A gente acerta, erra, tem dias de alegria e dias de tristeza. ISTOÉ - É comum colocar a culpa nos outros? Shinyashiki: - Sim. Há uma tendência a reclamar, dar desculpas e acusar alguém. Eu vejo as pessoas escondendo suas humanidades. Todas as empresas definem uma meta de crescimento no começo do ano. O presidente estabelece que a meta é crescer 15%, mas, se perguntar a ele em que está baseada essa expectativa, ele não vai saber responder. Ele estabelece um valor aleatoriamente, os diretores fingem que é factível e os vendedores já partem do princípio de que a meta não será cumprida e passam a buscar explicações para, no final do ano, justificar. A maioria das metas estabelecidas no Brasil não leva em conta a evolução do setor. É uma "chutação" total. ISTOÉ - Muitas pessoas acham que é fácil para o Roberto Shinyashiki dizer essas coisas, já que ele é bem-sucedido. O senhor tem defeitos? Shinyashiki:
- Tenho minhas angústias e inseguranças. Mas aceitá-las
faz minha vida fluir facilmente. Há várias coisas que
eu queria e não consegui. Jogar na Seleção Brasileira,
tocar nos Beatles (risos). Meu filho mais velho nasceu com uma doença
cerebral e hoje tem 25 anos. Com uma criança especial, eu aprendi
que ou eu a amo do jeito que ela é ou vou massacrá-la
o resto da vida para ser o filho que eu gostaria que fosse. Quando olho
para trás, vejo que 60% das coisas que fiz deram certo. O resto
foram apostas e ISTOÉ - Como as pessoas podem se livrar dessa tirania da aparência? Shinyashiki:
- O primeiro passo é pensar nas coisas que fazem as pessoas
cederem a essa tirania e tentar evitá-las. São três
fraquezas. A primeira é precisar de aplauso, a segunda é
precisar se sentir amada e a terceira é buscar segurança.
Os Beatles foram recusados por gravadoras e nem por isso desistiram.
Hoje, o erro das escolas de música é definir o estilo
do aluno. ISTOÉ - Muitas pessoas têm buscado sonhos que não são seus? Shinyashiki:
- A sociedade quer definir o que é certo. São quatro
loucuras da sociedade. Fonte: Revista Isto É
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