Estava eu diante de uma radiola antiga, de caixa arredondada
feita de madeira, que funcionava a base de válvulas.
Comiga estava um rapaz e uma moça, aparentemente
namorados. Estavamos diante da radiola ouvindo música.
Então disse ao meus dois acompanhantes.
- No futuro, teremos aparelhos que cabem na palma da
mão e que guardam milhares e milhares de músicas,
que podem ser ouvidas a qualquer momento.
Então os dois ficaram olhando para mim com cara
de espantados.
Como essa viagem foi muito curta não achei interessante,
no momento, registrar a data em que ocorreu. Ela só
passou a fazer sentido quando, alguns dias depois, ocorreu
a segunda viagem, que segue abaixo.
De volta para o futuro
Antes de relatar a experiência em si gostaria falar
sobre as conclusões a que cheguei, meditando sobre
ela depois de ocorrida. Talvez pareça estranho
colocar o carro na frente dos bois dessa forma mas julgo
interessante que seja feito assim. E para deixar meu ponto
de vista mais claro vou contar uma pequena estória
fictícia.
Imagine que você nasceu em uma cidade, em algum
país do mundo, e nessa cidade você viveu
até os seus 10 ou 15 anos, com amigos de escola,
familiares, vizinhos, etc. Imagine que depois dos seus
15 anos você viajou para outra cidade, outro estado
e talvez outro país, e nunca mais teve contato
com aquele lugar e aquelas pessoas. Imagine ainda que,
depois de uns 80 anos, já velho e aposentado, você
decide voltar aquela cidade onde você nasceu, para
ver como andam as coisas, rever velhos amigos, etc.
Então você viaja até aquela cidade
mas, para sua surpresa, dá-se conta de que já
não é mais o mesmo lugar. Onde antes havia
uma igreja, hoje há um cinema; onde antes havia
uma escola, agora há um supermercado; a praça
onde você costumava brincar com seus amigos de escolha
agora é uma pizzaria; a casa onde você morava
agora é um grande prédio residencial; os
amigos que você tinha ali já morreram ou
foram morar em outro lugar; os vizinhos, idem; seus parentes
já não estão mais ali, a não
ser os filhos deles, que você nunca conheceu, ou
netos, ou bisnetos.
Enfim, a cidade onde você nasceu, já não
é mais a sua cidade. O ponto registrado no mapa
continua sendo o mesmo mas o lugar, definitivamente, já
não é mais o mesmo. Ele não pertence
mais a você nem você pertence a ele. De repente,
então, você sente uma estranha sensação
de não-nostalgia, se é que me faço
entender. Sei que esta expressão não traduz
de forma adequada aquela sensação mas é
a única que me ocorre. Essa foi a sensação,
forte, que senti, logo depois de voltar da viajem que
relato logo abaixo.
Outro fator a ser considerado é que, mesmo hoje,
regiões geográficas diferentes apresentam
diferentes padrões de desenvolvimento tecnológico.
É impossível, por exemplo, comparar o desenvolvimento
das regiões agrestes nordestinas, com suas casas
de pau-a-pique, com capitais metropolitanas como São
Paulo e Rio de Janeiro, com seus imensos arranha-céus.
Num mesmo tempo, portanto, pode-se encontrar diferentes
níveis de desenvolvimento tecnológico.
CENA
1:
Estou sobre o que parece ser um telhado feito de grandes
telhas de metal, parecidas com aquelas telhas de eternite
usadas em galpões industriais. O telhado parece
feito de grandes telhas que vão de lado a lado,
levemente abauladas para cima, para dar vasão á
água para as laterais. Curiosamente, porém,
alguma coisa em mim me dizia que aquilo não era
telhado, mas uma espécie de plataforma.
Ao meu lado está um sujeito. Estavamos, juntos,
conversando alguma coisa e mexendo em umas peças.
Ao nosso lado havia uma abertura retangular, recortada
no que imaginei serem as telhas de metal. Decemos pela
abertura, através de uma escada que nos levaria
até o chão. O telhado, ou plataforma, era
bastante alto, como um grande galpão industrial.
Vejo sob a cobertura umas máquinas enormes que
pareciam ser guindastes. Nesse momento é que me
dou conta da enormidade do galpão.
Uma vez no chão, preciso ir ao banheiro. Chegando
lá, porém, fico surpreso com a sujeira que
reina no lugar. Onde deveria haver um vaso sanitário
há uma espécie de miquitório de cerâmica,
que cheira mal. Vejo uma porta ao lado e abro-a para ver
se ali há um vazo sanitário, mas vejo apenas
o que parece ser uma latrina a céu aberto, semelhante
aquelas usadas em sítios antigamente, com um cheiro
ainda pior. Fecho a porta, urino no mictório mesmo,
e saio dali o mais rápido possível para
me livrar logo daquele cheiro insuportável.
Reunindo-me aos demais, numa sala para café ou
algo parecido, vejo vários rapazes conversando
amistosamente. Parece que estão em seu intervalo
de descanço. Nesse momento me dou conta de que
aquele não é o meu lugar comum, digo, o
meu lugar no espaço-tempo correto, como este aqui,
agora, onde estou escrevendo este texto. Quando percebo
isso sinto uma necessidade de coletar informação
precisa, pois nesses casos sempre costumo voltar, para
o meu lugar comum, aqui e agora, com informações
imprecisas ou distorcidas.
- Que ano é? - Pergunto.
- Que ano é? - Respondem as pessoas que estão
ali.
- Em que ano nós estamos? - Repeti, pois sentia
uma necessidade premente de saber a informação
correta, saber onde e quando eu estava.
- Hei, esse é um bom exercício. - Respondeu
alguém.
"Exercício?", pensei, "mas do que
é que eles estão falando?". Olhei a
volta da sala para ver se encontrava algum cartaz, algum
planfleto, qualquer coisa impressa que pudesse me dar
uma informação a respeito da data em que
estávamos. Encontrei um calendário, ou pelo
menos pensei ser um calendário, pendurado em uma
das paredes. Tinha as tabelas normais dos 12 meses do
ano e mais uma porção de outras tabelas
que não fazia a menor idéia do que eram.
Procurei pelo calendário até encontrar um
lugar onde estava escrito "Ano". Aha, pensei,
é aqui. E ao olhar para o número que vinha
ao lado fiquei confuso. Dizia 13.1xx (treze mil, sento
e alguma coisa, não consigo me lembrar dos ultimos
dois número, apesar de ter me esforçado
para guardar bem o número na cabeça para
lembrá-lo depois).
"13.000?", pensei, "13.000? Não,
não pode ser, alguma coisa está errada."
Acontece que, pelo que vi naquele lugar, não podia
acreditar que estivéssemos no ano 13.000. Normalmente
sempre pensamos no futuro como algo sofisticado, com tudo
mais moderno, mas não era isso o que eu via ali.
- Há outro calendário por aqui? - Perguntei.
- Outro calendário? - respoderam. - Para que você
quer outro calendário?
Vi que estavam todos me olhando de forma estranha, deviam
estar me achando maluco. Entendi então que não
podia contar com eles para obter mais informações.
Saí dali e fui andando pela estrada, olhando o
comércio local, uma mercearia, uma padaría,
lojinhas, um comércio típico da década
de 80-90, um comércio de bairro. Procurava algum
lugar onde pudesse encontrar um calendário ou qualquer
coisa que me confirmase aquela data absurda.
CENA
2:
Estou no que parece ser uma cozinha. As peredes brancas,
talvez cobertas por azulejos. Estou conversando com uma
moça, de cabelos compridos e claros. Não
me lembro o que estamos conversando. Logo aparece um garoto,
entrando correndo pela porta, diz algo à moça.
Esta lhe responde e o garoto sai correndo novamente. Então
ela olha pela janela, uma grande janela que opuca toda
a parede, ao lado da porta, com cortinas rendadas brancas.
Abaixo da janela encontra-se um grande balcão,
branco, que também ocupa toda a parede. Ela se
debruça sobre o balcão para olhar pela janela
e eu a acompanho.
Na rua, bem em frente a casa, vejo uma van, branca, estacionada
rente ao meio fio. Logo ao lado dela um outro veículo
semelhante a um gol bola, também branco, mas com
umas faixas quadriculadas na lateral. Logo os dois veículos
se poem em movimento e vão embora. São bastante
silenciosos e por isso julguei que fossem movidos a eletricidade.
Pareciam um pouco mais modernos do que os veículos
atuais, mas não muito. Pelo que pude perceber externamente,
as maiores diferenças eram as janelas e parabrisas,
que eram um pouco maiores que nos veículos atuais,
além de um design algo diferente. Pelos desenhos
que vi no carro menor, julguei que fosse um veículo
policial ou algo do gênero.
Depois que os veículos foram embora percebi que
a moça estava segurando, sobre o balcão,
uma espingarda. Aquela arma ficou estranha e deslocada
ali, porque era uma espingarda antiga, fina e comprida.
Não entendi o porque de ter uma espingarda ali,
mas talvez por isso tenha imaginado que o veículo
com a faixa quadriculada fosse uma viatura policial.
CENA
3:
Vejo o que parece ser uma nave espacial. É formada
por gomos retangulares, ligados uns aos outros em sequencia.
Imagine um trem, bem comprido, com vagões ligados
em sequencia, grudados uns aos outros. Agora imagine que
ligado a esse trem, colado ao lado dele, há outros
aglomerados de vagões, e mais outros, e uma infinidade
de outros conjuntos compridos de vagões, de forma
que todos juntos formam uma estrutura grossa, larga, e
muito comprida. Em alguns pontos há estruturas
fixadas transversalmente, mas são poucas, a maioria
das estruturas são fixadas longitudinalmente, ao
comprido da nave.
Vou passando pela nave, observando seus detalhes, ou
tentando observar. Chego a uma das estremidades e percebo
que de uma das estruturas começam a sair outros
estruturas, lateralmente. São como folhas, ou placas,
também de metal ou algo parecido, da mesma cor
da nave, um marrom escuro. Cada placa, talvez com 5 ou
10 metros de largura, tem desenhos diferentes: circulos,
losangos, triangulos, quadrados, etc, todos desenhados
em alto relevo. Fiquei impressionado pela quantidade de
placas que saem da estrutura e pela distância que
alcançam, ficando com quase tres ou quatro vezes
a largura da estrutura de onde sairam. Elas eram como
aquelas antenas que se usam em rádios portáteis
que você vai esticando até ela ficar com
um tamanho final muito maior do que o tamanho inicial.
Aquelas placas iam saindo de dentro da estrutura da mesma
forma. Acredito que esse movimento só era possível
devido a gravidade nula do espaço, do contrário
seriam inviáveis.