Acordei
cedo, com frio. Curitiba é uma cidade onde quedas
de temperatura pela madrugada são comuns. Ao levantar
para pegar outro cobertor percebi luz por baixo da porta.
Fui ver o que era. Alguém esqueceu a luz da sala
acesa. No relógio marcava 4h25. Aproveitei para
ir ao banheiro, peguei o cobertor e voltei para a cama.
Concentrei-me em manter-me lúcido durante o adormecimento
do corpo para conseguir uma projeção consciente.
Por experiências anteriores já sei que os
períodos matutinos como esse são ótimos
para se conseguir projeções integrais e
conscientes.
.:.
Estou batendo numa porta. Espero. Um jovem abre a porta,
com cara de quem acabou de acordar.
- Olá. O Moriel(*) está?
- Está. Lá no final do corredor.
Do outro lado da porta vejo um corredor comprido, com
portas de lado a lado. Parece ser uma república
de estudantes. Cada porta dá para um quarto apertado,
com uma ou duas camas, e uma porção de trecos
jogados pelos cantos. No corredor também prolifera
objetos jogados, uma máquina de lavar com uns cacarecos
encima, e mais uma porção de coisas no chão,
aqui e ali. Curiosamente os quartos não têm
portas. Chegando ao final do corredor olho para os lados
a busca de meu amigo. Encontro-o no quarto da direita,
deitado na cama, aparentemente dormindo.
- Olá. - digo, entrando no quarto.
Ele levanta-se lentamente para ver quem é. Parece
bastante cansado.
- Olá.
- Vim conversar com você. Pode ser?
- Claro. - responde, fazendo esforço para sentar-se
na cama.
Ao mesmo tempo que estava feliz por rever um velho amigo,
também estava constrangido por vê-lo naquele
estado. O quarto era uma bagunça total, com roupas
e livros jogados para todos os lados.
- Como você está? - perguntei.
- Bem.
- Lembra-se do dia em que nos conhecemos?
- Não.
- Lembra-se do nosso último encontro? - Eu estava
curioso para saber como tinha sido sua vida desde que
nos separamos. Mais do que isso, queria saber qual o momento
exato em que houve a bifurcação espaço-temporal
e nossos caminhos se separaram definitivamente.
- Não. - foi a resposta seca. Fiquei um pouco
decepcionado.
- É a droga. - disse uma colega do quarto vizinho,
que aparentemente estava ouvindo nossa conversa do corredor.
- Tá acabando com a cabeça dele. - completou,
e sumiu pela porta tão rápido quanto apareceu,
meio envergonhado.
- Droga? - falei de mim para mim mesmo, não necessariamente
surpreso.
- Cara, você precisa parar com isso. - disse para
ele, que pareceu não ouvir.
- Tenho algo para lhe contar. Essa vida que você
está vivendo é apenas uma, dentre uma infinidade
de vidas diferentes. Eu já passei por algumas delas.
Não sei ao certo como isso acontece, só
sei que uma hora estou aqui e outra hora estou ali. Há
um monte de vidas diferentes, e você escolhe qual
delas vai viver.
Ele virou-se para o lado por um instante, para vomitar.
Ao voltar-se sua boca ainda estava suja, mas ele pareceu
nem perceber. Neste momento ouvi tocar a campainha. Logo
alguém veio informar que sua mãe estava
na porta esperando para falar com ele. Por minha visão
remota vi uma senhora alta e gorda, com um sobretudo e
um chapéu pretos, esperando do lado de fora da
porta.
- Eu preciso ir. - disse ele.
- Só mais uma coisa. - disse eu. Queria fazer
alguma coisa para garantir que ele não ia esquecer
de nossa conversa. Pensei em flutuar, coisa que sabia
fazer bem e provavelmente ia impressioná-lo.
- Olhe. - disse, e afastei-me um passo. Fiquei com os
pés juntos e os braços dobrados nos cotovelos,
concentrando-me para levitar. Por um breve instante fiquei
com receio de que não pudesse fazê-lo, mas
logo meu corpo começou a se elevar no ar, até
ficar a uns 30 ou 40 centímetros do chão.
Ele começou a rir dizendo que podia fazer o mesmo.
Imitou minha posição fazendo de conta que
estava se concentrando, debochando de mim.
- Preste atenção. - disse, isso não
é só um truque de mágica. - E lentamente
desloquei-me para traz, até o corredor, onde vi
que não tinha ninguém observando, e lentamente
voltei para perto dele.
- Sabe, quando você desenvolve suas habilidades,
- disse para ele, apontando para sua cabeça - coisas
acontecem. Pense nisso.
A campainha tocou novamente.
- Eu preciso ir. - disse ele. - Se não atender
minha mãe ela não me dá a pensão.
- Fui afastando-me de costas, ainda flutuando, passando
por uma porta no corredor, que dava para uma área
aberta.
- Espere. - disse ele, correndo em minha direção.
Fui afastando-me mais rápido, passando sobre o
muro, flutuando mais alto, até sair de seu alcance
de visão. Fiquei flutuando assim por alguns instantes,
planando sobre a cidade, a alguns metros do chão,
vendo passarem as ruas e casas.
Passando rapidamente sobre um rio lateral à estrada,
vi uma árvore com alguns galhos quedando sobre
o rio. Num galho havia um conjunto de 5 velas brancas.
Voltei um pouco para ver com mais detalhes. As velas estavam
apagadas (ainda não haviam sido acessas) e no galho
ao lado havia mais umas três ou quatro velas brancas.
"Que estranho", pensei, "isso não
é lugar para se fazer um trabalho". Pelo que
sei normalmente esses "trabalhos" com velas
são feitos em encruzilhadas. E porque as velhas
não haviam sido acessas?
Neste
momento o despertador tocou. Eram 6 horas da manhã.