Fui
para a cama para mais uma seção de relaxamento,
depois de tomar uma boa caneca de chá. Deitado,
relaxei os músculos, como de praxe, e fui tentando
amenizar a respiração, respirando cada vez
mais lentamente, lentamente, lentamente.
Tudo estava escuro, um breu total e completo. Nada havia
a minha volta, não podia ver meus braços,
nem pernas, nem nada. Sabia que estavam ali, de alguma
forma, mas não podia vê-los, nem tocá-los.
Então percebi uns flocos de luz flutuando a minha
volta, como se fossem flocos de neve, só que eles
não se moviam apenas para baixo mas em todas as
direções, como se fossem flocos de neve
malucos, em movimentos aparentemente sem sentido e sem
lógica, soprados pelo vento.
Achei aquilo curioso, imaginando o que seria, e pensei
se não havia nada mais ali. Concentrando minha
força de visão comecei então a perceber
que havia algo mais ali. Tratava-se de umas espécies
de mangueiras, mas não feitas de plástico
e sim de luz, transparentes, translúcidas.
A princípio vagamente e de forma vaporosa as imagens
daquelas mangueiras foram se tornando, pouco a pouco,
mais claras e nítidas. Dei-me conta que havia um
emaranhado fantástico daquelas mangueiras de luz.
Por toda parte que olhada haviam mangueiras emaranhadas
umas com as outras como se estivesse dentro de um novelo
de lã todo emaranhado. E no meio daquele emaranhado
de mangueiras os flocos de luz flutuavam, pra lá
e pra cá, lentamente, graciosamente.
Prestando mais atenção às mangueiras
percebi que elas eram coloridas, mas não todas
da mesma cor. Dentro delas se movia uma espécie
de líquido colorido, mas dividido em partes, cada
parte com, digamos, uns 10cm de comprimento. As mangueiras
eram assim divididas em partes, em todo seu comprimento,
preenchidas por aqueles líquidos coloridos, de
todas as cores, como se fossem água misturada (ou
não misturada) com óleo.
E aqueles líquidos se moviam dentro da mangueira
de forma lenta mas implacável. Toda aquela infinidade
de mangueiras era assim constituída. E então
dei-me conta de que aquele líquido que se movia
dentro das mangueiras era, de alguma forma, magnético,
e com seu magnetismo atraia os flocos de luz que estavam
flutuando por ali.
Percebi que o movimento dos flocos não era aleatório
como havia imaginado mas regido pelas forças de
ação magnética daqueles líquidos
coloridos que se moviam dentro das mangueiras. Conforme
os líquidos se moviam provocavam o movimento dos
flocos de luz, num imenso bailado, lento e gracioso, e
muito engenhoso apesar da imensa complexidade de interação
de forças ali envolvidas.
Voltei minha atenção para os flocos de
luz flutuantes pois estava curioso para ver do que se
tratavam. Aproximei-me de uma deles para ver mais de perto
como era constituído o tal floco. Bem diante de
um deles fiquei fascinado ao perceber que, dentro do floco,
havia uma infinidade pontinhos de luz. Eram estrelas,
uma infinidade de estrelas. "É um universo",
pensei, "que fantástico".
Não resisti e logo me inclinei a entrar dentro
daquele universo para ver aqueles tão belas estrelas
mais de perto. De alguma forma fui sendo "espremido"
e entrando dentro do floco de luz. Já podia ver
as estrelas a minha volta, uma infinidade delas, de todas
as cores, mas algum força me empurrou de volta
para fora.
Percebi-me novamente observando o floco pelo lado de
fora e uma voz reboou em minha mente, "não
podes entrar aí, este universo não te pertence".
Por um breve momento fiquei frustrado, que coisa chata.
Mas essa frustração logo passou e pensei
"bom, já que este não me pertence então
onde está o meu universo?".
Dei uma olhada em volta e vi o meu floco de luz, logo
ali, a pouca distância. Desloquei-me até
ele e observei-o de perto. Era como o outro, aparentemente
idêntico, com miríades de estrelas brilhando
lá dentro. Não tive dúvidas, entrei
dentro dele.
Uma vez lá dentro percebi-me rodeado por estrelas
por todos os dados. Eram estrelas "infinitas",
de todas as cores, uma visão magnífica.
Fiquei algum tempo ali apreciando aquela paisagem e então
pensei "Direção Terra", e num
instante estava bem diante daquele globo azul tão
familiar.