Ele estava na faculdade, andando distraído
em seus pensamentos. Passou pelo vestiário feminino e ouviu risos
de lá de dentro. Nesse momento seu cérebro entrou em parafusos,
olhou para o vestiário e pensou : tão perto e ao mesmo tempo
tão longe. Como queria ver todas elas ali peladinhas, rindo, conversando,
ensaboando-se , mostrando uma para outra a vagina, ou o seio depois da
plástica. Conversando intimidades, tamanho do pênis dos namorados,
e tudo mais que acontece em um vestiário. Ele olhava para a porta,
queria entrar mas suas pernas não se mexiam. Tinha vontade de entrar,
mas não tinha coragem pra viver. Se ele fosse criança entraria,
mas já tinha vinte e três anos e depois de vinte e três
anos seus pais e a sociedade, podando-no, colocando bloqueios nele. Ele
já tinha completado o circulo da maioridade, já estava com
todos os pudores e limites, como todos os cidadões “normais”. Ele
queria ser maluco beleza, por que o que é um maluco beleza? Alguém
que não tem medo de fazer o que quer. Alguém que não
tem medo do que os outros vão dizer.
Já estava totalmente submisso ao governo,
aceitando tudo apenas reclamando do que acontecia, das explorações
em conversas informais de mesa de bar, sem reação; submisso
a tudo.
Queria ter uma câmera dessas de espiões,
mas não tinha dinheiro para comprar. Como queria ver. Já
que na vida real era um “cidadão” deu asas a imaginação
e começou a pensar nos filmes e livros que lera, durante a sua vida
e lembrou dos heróis destemidos, que entrariam e ainda traçariam
alguma das moças. Depois de pensar nisso, sua imaginação
voou mais alto, e pensou como seria bom se pudesse controlar o seu tamanho
e diminuir para apenas três centímetros. Ficaria menor do
que um rato, entraria no vestiário contemplaria tudo, e depois quando
elas se vestissem voltava ao tamanho normal, e no dia seguinte faria o
mesmo e depois quando enjoasse delas, iria visitar outros vestiários,
banheiros, depois iria para a casa das famosas, como seria boa a vida.
Só então percebeu que os humanos não eram os únicos
que tem valor, e que cada raça tem uma qualidade sem preço.
Pensou como os pássaros tem sorte de terem asas, poderem desfrutar
da sensação de voar, como seria essa sensação?
Com certeza uma sensação de liberdade total.
Despertou do seu transe, com as moças saindo
do vestiário e esbarrando nele ali, feito estatua.