Caçador Caçado
Posso sentir a criatura , ela está próxima com certeza, estou a seguir seu rastro de morte e terror a semanas e agora ao anoitecer e com essa chuva forte que cai sob a relva fina dessa maldita mata está mais difícil de encontrar indícios exatos de qual rumo essa besta do mal tomou, mas eu tenho certeza e posso afirmar que ela não está longe, é apenas uma questão de tempo e de qual medida a ser tomada para um tiro certeiro que proporcione uma morte sofrida e agonizante do início ao fim, quero o pior final para essa criatura, quero sentir o medo e a súplica em seus olhos, quero provar de seu sangue e defecar em suas entranhas, e acreditem eu não peço muito.
Mais a frente quando a chuva já tinha se extinguido sinto uma corrente de vento não muito usual, paro e observo mais a frente e visualizo uma caverna, me sinto compelido em adentra-la mas por instantes eu exito, alguma coisa não está certa naquele local e eu posso sentir mas mesmo assim eu entro.
A caverna parecia estar fria e úmida sendo bem espaçosa , procuro cautelosamente por habitantes indesejados mas só encontro morcegos, acendo uma fogueira e começo a me aquecer. Passa alguns minutos e começo a adormecer e então reparo a que nível de exaustão eu cheguei perseguindo essa aberração da natureza dias e noites, obcecado pela besta, obcecado por vingança.
No momento em que eu já estou entrando num sono profundo, sou acordado repentinamente por gemidos altos vindos de uma parte da caverna que certamente não explorei, armo meu rifle, e agora tenho certeza que não estou só. Rezo para que seja a criatura, que esse inferno acabe.
Me levanto bem devagar e tento não fazer barulho, olho na direção que veio os gemidos e vou na direção com o rifle em punho, paro e olho bem , acabo visualizando dois seres dando voltas em outro bem maior, os seres pequenos não param de fazer esses pequenos grunidos e o maior não se move, a corrente de ar é bem mais forte para esse lado e provavelmente tem uma outra saída e eu não percebi, a exaustão é muita mas mesmo assim vou na direção dos seres com confiança.
Me aproximo com cautela dos seres para ver o que são, ao chegar bem perto vejo dois filhotes de urso rodeando o que parece ser a sua mãe, um odor pútrido é levado até mim pela corrente de ar, a fêmea já deve ter sucumbido a algum tempo, procuro analisar a causa de sua morte e observo por instantes algo estranho com o seu corpo, paro e olho mais de perto.
Olhando as feridas, vejo marcas de garras profundas, equimoses
diversas e escoriações múltiplas ao longo do corpo
do animal . O corpo fora trespassado na altura do coração
e seus orgãos vitais desapareceram como se tivessem sido arrancados
de forma brutal, restos de placenta jaziam por todo lado, aquela
fêmea estava grávida mas nenhum sinal do seu rebento. A besta
passou por aqui com certeza eu penso, lembro dos pesadelos do passado
e me desespero, sento e começo a chorar ao lado daquele corpo e
abraço os filhotes que agora com certeza tinham alguma coisa
em comum comigo, meu corpo não agüenta mais e adormeço
num sono pesado.
Acordo de forma brusca com um uivo macabro e muito alto,
os filhotes sumiram, penso que só a criatura poderia fazer
tal som, som este que conheci no dia em que ela quebrou o pescoço
de minha amada com os dentes, estraçalhou sua barriga, devorou seu
coração e engoliu meu filho de 7 meses que ainda estava em
seu ventre com uma única abocanhada, logo em seguida uivou para
a noite como que em forma de contemplação, e eu vendo tudo
aquilo, jogado ao chão e impossibilitado de fazer nada devido ao
golpe que a criatura do mal desferira em minhas pernas rasgando-as e
me deixando incapacitado, via que ela tinha me deixado por último
e eu esperava a morte sem medo, logo me juntaria a minha família,
quando o inesperado ocorreu.
No final de seu banquete a criatura virou-se para mim seus olhos eram vermelhos e reluziam como fogo na noite escura, seu pelo era preto e esta parecia um colossos de quatro patas. A criatura calmamente se aproximou de meu corpo, me cheirou e esboçou um maquiavélico sorriso, pude ver suas presas empapadas de sangue e com pedaços de carne que gotejavam em abundância sobre minha face aterrorizada, momentos depois a besta se retirou e foi para a mata, por que ela não me matou? por que ela queria que eu vivesse? qual o motivo daquilo tudo? eu não tenho ciência até hoje mas a partir daquele dia só sentia uma coisa por ela, ódio um grande ódio que iria me alimentar pelo resto da minha maldita vida até o dia que tivesse dado cabo dessa fera das trevas.
Por alguns instantes fiquei absorto nos meus pensamentos passados, quando num piscar de olhos voltei ao mundo real novamente, o momento tão esperado chegara e o uivo era da criatura com certeza, ela estava lá fora a espreita como um caçador hábil esperando a presa frágil só que agora, o grande caçador era a caça, comecei furtivamente a me esgueirar para fora da caverna, hoje seria a minha tão esperada noite de contemplação.
Hannibal 5 de dezembro