Rob sempre se sentia triste, com vontade de morrer mas não tinha coragem para se suicidar. Sempre viva desejando uma doença , que o levasse dessa para uma melhor.
    Certo dia, ele começou a se sentir mais desanimado do que já era, muito cansado, indisposto para sair da cama. Ele pensou que era uma depressão, mas sua pele cada vez mais branca indicava algo mais grave. A família pensou que ele estava com anemia, logo correram para preparar-lhe uma refeição com muito ferro. Insistiam para que ele comesse de tudo que tinha ferro. Seus avós fizeram com que o garoto tomasse sol, tentaram também o matricular em uma escolinha de esportes, mas foi em vão. Todos já pensavam que ele estava quase recuperado, mas era apenas a pele bronzeada que enganava.
    Certo dia em um almoço, um medico amigo da família, sugeriu que ele fizesse exames.
 

    -Sinto lhe informar Rob,  mas você esta com leucemia – disse o medico em tom profissional.
Uma noticia dessa, para a maior parte das pessoas o mundo iria desmoronar. Mas no rosto de Rob apenas surgiu um sorriso sutil. Ao ouvir isso dentro dele surgiu uma alegria mórbida. Sem dizer nada saiu da sala, preocupado não com sua vida e sim da maneira que iria dar a noticia quando chegasse em casa.
       Ao chegar em casa, foi para o seu quarto – seu refugio - como de costume. Tirou o tênis – pois nessa historia ele é um jovem então decidi que ele não usaria sapatos, mesmo que perca um pouco do glamour da historia – e se deitou na cama ligando o som. A musica que tocava era alegre demais para a data, talvez a mais correta para comemorar a chegada desse tão esperado dia. Mas ele não era alegre, então se levantou e trocou para um cd bem triste do Renato Russo. Ficou ali imaginado como daria a noticia, do mesmo modo que uma pessoa imagina como vai conversar com alguém que esta afim. Ficou no impasse se diria ou não que esta doente. Mas achou melhor dizer do que os seus familiares perceberam por si próprios.
    À noite quando seus pais chegaram junto com os seus avos, que residiam também naquela casa, ele achou melhor contar depois da janta para não estragar o apetite de ninguém. Ele não estava com medo de assustar ninguém , mas sim do carnaval que iriam fazer depois que soubessem, talvez era esse um dos motivos que ele já estava de saco cheio para viver – mas esse era um dos inúmeros.
    Disse oi a todos, e esperou para que começassem a jantar. Ele daria a noticia assim que a ultima pessoa da mesa dessa a ultima garfada.
- Rob você foi hoje ao medico pegar o resultado do exame? – indagou seu pai.
- Não, eu irei amanha.
- Mas que moleque de merda! Não faz nada. Esta vendo só Ema, - disse ele falando com a esposa - não se preocupa nem com a própria saúde. Para mim esse moleque esta mexendo com drogas, onde já se viu uma atitude dessa. No meu tempo eu seria punido, você esta merecendo uma boa surra moleque da porra.
- Sim seria punido, mas me arrependo disso – disse o avo que ate então só escutava.
- Arrepende-se-se ou não, me punia e agora já foi feito. Não adianta se desculpar – disse Antonio pai de Rob. Mostrando toda sua amargura. Feito isso, começou a se recordar que estava cometendo os mesmos erros com Rob. Decidiu então que trataria o filho melhor daquele dia em diante. E também o pai pois ele havia reconhecido que errou, e como ninguém muda o passado ele iria construir um futuro melhor desse dia em diante. E pediu desculpas a Rob. E prometeu tratar ele melhor, ali mesmo na mesa na frente de todos.
Rob ficou perplexo, pois o seu pai nunca havia lhe pedido desculpas.
Depois disso continuaram a comer em silencio. E Rob imaginando como a vida é irônica, justo no dia que iria dar a noticia o seu pai pede desculpas.
Depois disso, todos continuaram a comer em silencio como Rob havia planejado o seu avo como de costume foi o ultimo a terminar de comer. Respirou fundo, puxando quase toda vida que existia dentro de si para criar coragem para dizer.
- Tenho algo a dizer.
- Vai falando porque tenho outras coisas a fazer – disseram praticamente todos juntos. E cada um começou a se levantar. Talvez a vida que Rob puxou de dentro de si, tenha sido mais do que ele imaginava, porque como em um filme ele viu o ato passar em sua frente, como se fosse outra pessoa no lugar dele. Rob deu um soco tão forte na mesa que ate cortou um pouco sua mão.
Todos olharam horrorizados para ele.
- O que tenho a dizer é que eu fui sim hoje no médico. Só estava esperando todos comeram para dizer isso.
- Ora moleque – moleque mas parecia o nome dele pois era assim que todos se dirigiam a Rob mesmo ele tendo 23 anos, e ele percebia pelo nome a importância que ele tinha dentro daquele “lar“ – disse a mãe dele irritada com o ódio fluindo em seu sangue. – Você causou toda essa confusão na janta, por ter mentido. Mentira é uma coisa que não vou admitir nessa casa, assim que disse isso jogou o prato tentando acertar Rob, ele desviou mas não foi rápido o bastante. O prato machucou um pouco sua cabeça, ele percebeu que essa era a hora de dar a noticia para acalmarem os nervos, o choque que levaria os acalmaria.
- Fui no medico e estou com leucemia. Logo estarão sem essa companhia insuportável que sou eu. Estou indo passear – disse ele saindo correndo de casa, antes que o segurassem querendo maiores explicações. Na sua magoa ate pensou que se o segurassem seria para lhe baterem por ter dado a noticia, já que ele sempre era o culpado por tudo. O culpariam por ter dado a noticia em hora imprópria.
Mas ninguém o segurou, todos ficaram paralisados sem saber que atitude tomar, mas logo começariam a falar, discutir uns com os outros.
Rob sabia porque saiu, deixaria as coisas esfriarem, a se conformarem com a noticia, deixaria que discutissem bastante só então voltaria para o “lar”.
 
 

Enquanto se distanciava de sua casa, em seu carro começou a se lembrar do seu passado, dos poucos momentos que tinha sido feliz, dos muitos que tinha sido infeliz, e da felicidade que estaria por vir com a chegada da mulher de manto negro.
Lembrou-se do primeiro beijo, de quando conseguiu se equilibrar na bicicleta e mostrar apenas a si mesmo que conseguia porque não tinha ninguém para olhar, e incentiva-lo. Das pessoas que deixou de ser amigo por ter medo, ou das meninas que deixou de tentar algo por ter medo também. Das maluquices que poderia ter feito, das vezes em que apanhou, chorou, invejou as pessoas, das vezes em que foi injustiçado e incompreendido. Mas agora nesse pouco tempo que restava de vida para ele, e que ele ainda não tinha enjôo e indisposição, decidiu que jogaria tudo para o alto e começaria a viver. Tudo que não viveu. Não se preocuparia mais com a opinião de ninguém , não teria mais medo de receber um não. Assim começou: desceu do carro , tirou toda a roupa e andou nu pelas ruas movimentadas do bairro, voltou para o seu carro abriu os vidros e ia cantando alto, pelas ruas, buzinando e rindo. Sentiu uma enorme alegria por fazer algo proibido e fazer o que queria. Mas ele tinha consciência de que isso só foi possível graças à doença.
Agora ele dirigia seu carro para outra direção, para a casa de uma amiga que ele sempre quis que fosse mais do que isso, mas nunca agiu para que acontecesse. Ele tinha medo de que com a declaração ou um beijo de supetão levasse um não. E perdesse essa amizade de que tanto ele gostava.
Ao chegar lá, não hesitou em apertar a campainha nem fico com a mão suada, quase dando meio volta com essa idéia que ele estava prestes a executar. Porque agora ele era um novo homem, um homem chamado atitude.
Se fosse a alguns meses atrás, ou dias, a hora em que ela abrisse a porta ele desistiria dessa idéia, e apenas diria que foi fazer uma visita.
Ela estava linda como sempre, com um vestido amarelo esvoaçante, de sandália, e com o cabelo solto ate a altura do ombro.
Nem oi ele disse, a puxou para perto de si e deu-lhe um beijo de novela. Ela ficou um tanto surpresa, pois ele sempre foi tão tímido. Só que estava mais eufórica, do que surpresa. Ela tinha esperado tanto por esse dia, que estava achando que era um sonho. Esperou afoitamente, só que também não fez nada para que isso acontecesse. Esperou , esperou e esperou até esse dia chegar. Como foi boba pensou, poderia estar vivendo isso a anos. Tanto era à vontade que sentia, que explodiu como uma bomba, soltou o vestido - estava sem nada por baixo - e fizeram amor ali mesmo na frente de sua casa, pois o tesão não deixou nem com que fechassem a porta.
Depois de terem feito amor, eles entraram e conversaram sobre como isso não tinha acontecido antes. Rob viu que era a hora de explicar, o porque de ter mudado. Antes ele sofreria para dar a noticia, mas agora era um novo homem que não sofria por besteiras. Talvez estava esperando o momento certo de sofrer, em sua fase terminal.
- Ana, eu estou com leucemia.
A noticia veio para ela como um choque de cadeira elétrica. O dia mais feliz de sua vida era também o mais triste.
Para ele apenas o mais feliz.
Assim ele a acalmou e contou tudo melhor.
E não era a beleza de Ana que o seduziu fazendo se apaixonar, e sim sua inteligência, e a filosofia de vida. E Ana sabia que da vida ficam apenas o aprendizado e a memória do que viveu, pois a felicidade, dor, tristeza, são apenas sentimentos que viram nada mais que  memórias. Uma conclusão que Ana tirou disso, foi que não devemos esperar demais, quando queremos algo.
 
 

Quando Rob voltou para sua casa, já estava começando a perceber muito no seu intimo – aquela parte que fingimos não escutar - que a sua vida poderia ter sido feliz, sem precisar morrer tão novo, se ele tivesse mais coragem, mas isso era algo que ele não queria perceber e por enquanto não percebeu. Em sua casa já estavam mais conformados, mesmo assim quiseram saber mais sobre a doença e a perguntar se ele estava bem, se sentia dores e ele começou a perceber que eles apenas não demonstravam, mais gostavam dele. Mas deitado em seu canto, ele filosofou e tirou a conclusão: O que adiantou gostarem de mim, sem terem demonstrado com pequenos gestos no dia a dia, que o amor estava ali. Porque guardaram o amor tão para dentro de si? O que custava um abraço?
Ele viu que sua doença, não estava sendo em vão que ele estava ganhando muito conhecimento, e vivendo o que deveria ter vivido em muitos anos, fazendo o que queria. Deveria ter sido como um mato, sempre que podavam-no, ele deveria ter nascido outra vez , sem se deixar modificar o formato.
Rob aprendendo tudo isso, saiu pelas ruas e começou a demonstrar carinho pelas pessoas estranhas. Sendo que ele sempre teve , mas mostrava apenas com um sorriso, ou um obrigado a moca do supermercado.
Nesse dia agiu, como todos os outros, mas todos que o ajudaram nesse dia , desde o guardador de carro , a moca do supermercado, o gerente, ele ao invés de dizer obrigado com um sorriso no rosto, abraçou a todos eles. E sentiu a energia fluir, não estava mais guardando ela para si. Essa energia ele decidiu chamar de amor. Notou que não deveria apenas sentir amor no ato sexual, ou com os mais próximos, que o amor se manifesta de varias formas, às vezes apenas escutando um problema e aconselhando, outras vezes ajudando alguém atravessar a rua. Enfim tendo amor e compaixão ele se sentiu muito bem. Novamente renaceu.
 
 

Rob sempre tivera vontade de correr muito com o carro, mas tinha medo de um acidente e morrer. Mas agora que ia morrer mesmo, fez o que sempre teve vontade, correu , voou baixo. Mais tarde lembrando do que tinha feito, notou que ele tinha medo de morrer por isso não corria, mas que medo era esse da morte que ele sempre teve ? Como uma luz que passou por sua mente, notou que ele já poderia ter morrido de tantas outras causas, no seu dia a dia mesmo trancado dentro de um bunker que viu que a morte é inevitável. E então ele deixou de temer o inevitável.
 

Todo dia Rob, fazia o que sempre quis fazer. Nesses dias, já tinha aprendido e vivido muito mais do que qualquer tempo em que era “saudável”. Agora o seu corpo não era mais saudável, mas sua mente começou a ser, mais do que nuca.
Rob começou a comer no quarto , coisa que antes não fazia com medo de que viesse barata. Mas agora se viesse, a mataria e pronto, tudo começou a ser tão simples. Até o seu ultimo dia, ele não deixaria besteiras nem medos estragar sua felicidade.
 
 

Antes ele sabia o que deveia ser feito; mas apenas sabia. Agora ele simplesmente fazia. E ensinava. Agora ele vivia.
 
 

Tão boa foi a energia que ele sentiu em amar e demonstrar esse amor, que agora não fazia apenas pequenos atos, agora visitava asilos, deficientes, e não apenas demonstrava amor, e sim passava o conhecimento que tinha sobre a vida. Se concordavam com ele ou não, já não era com ele.
Teve a idéia de ajudar drogados. Sentou-se com um deles ali na rua mesmo.
- Porque você usa drogas amigo?
- Com ela consigo liberdade.
- Então você não conhece a verdadeira liberdade, desse jeito você esta só se acorrentando, se prendendo. – Conversou durante um tempo com esse morador de rua, depois começaram a se aproximar mais e mais moradores, mas eles se queixavam de que não tinha vida melhor, que assim esqueciam um pouco dela. Rob contou a sua historia, deu mais alguns conselhos e disse para eles pensarem nisso.
 
 

Toda vez , que Rob via alguém por quem se interassava , chegava para conversar , sem medo. Medo era algo que ele perdeu quando ganhou a doença. E sem medo seu cérebro funcionava perfeito, tranqüilo, não dizia besteiras nem errava como antes. A maioria de suas tentativas davam certo, as que não davam , não deu. Não era perfeito e tinha consciência disso.
 
 

Rob começou a perder o cabelo, que ia quase ate a sua cintura, um cabelo que ele teve que esperar anos para crescer, agora ia como a água vai pelos canos. Como ele prometeu a si mesmo não iria deixar a tristeza tomar conta dele por besteiras. Não iria condicionar a felicidade em algo material, ou algo que ele não podia comprar. A felicidade para ele era ter: segurança emocional, felicidade, inteligência, sabedoria. Esses sim são os verdadeiros tesouros que podemos ter, pois esse tesouro ninguém pode roubar de nós. E o levamos sempre conosco.
 

Rob começou a criar afeto com pessoas, que conhecia a menos de um mês, no entanto parecia conhecer a anos. Nunca teve tantos amigos. Estava feliz como nunca.
Um dia andando pela rua viu um grupo de moradores de rua, andando juntos sem bebida, todos rindo uns abraçando os outros.
Ele olhou bem e não estava acreditando. Eram aqueles moradores que conversou e aconselhou. Uma energia tão grande,  flui dentro dele, que não agüentou e caiu em lagrimas. Tinha sido a maior recompensa que já tivera. Foi lá falar com eles.
- Vocês mudaram tanto !
- Sim, mudamos graças a você e a Deus. Antes discutíamos, brigávamos muito, mas não no separávamos porque algo dentro de nós não deixava. Esse algo notamos que é o amor, e o transformamos em um amor muito mais saudável. Um ajudou o outro e saímos das drogas. Hoje sempre que vemos alguém que foi como nós, perguntamos se ele não quer se juntar com agente. Somos uma grande família.
 
 

Rob começou a perder suas forcas, ele lutava como um guerreiro mas estava cada vez mais fraco, porem sua mente cada vez mais forte. Enfim ele percebeu, que poderia ter aprendido tudo isso sem morrer, poderia ter vivido alguns anos a mais. Mas se esse era o preço para o aprendizado, então foi barato.
Nos seus últimos dias, todos seus familiares e amigos que ele conhecia desde criança, vieram a sua casa a pedido dos seus pais.
Para quem queria enxergar, viu que era uma despedida. Outros pensavam que era apenas uma reunião. Ele abraçou a todos, disse para cada um algo diferente, para um ele relembrava de um tempo distante chamado passado, para outros encorajava a lutar pelo futuro, enfim falou com todos.
No fim da noite chamou apenas seus pais, e contou que poderiam ter sido mais felizes, mas passou a eles o que tinha aprendido.
-Agora só depende de vocês quererem percorrer a estrada, como chegar nela eu ensinei. Vou dormir porque estou muito cansado.
- Fechou seus olhos, pela ultima vez, adormeceu...
Teve uma morte sutil, calma como muitos desejam ao invés de desejarem uma vida feliz e alegre.
As duas ultimas lições de Rob foi: que o tempo é muito relativo poderia ter vivido mil anos como vivia antes, que não teria sido nem dez do novo jeito em que aprendeu a viver. Então não ficou triste por ter morrido cedo. E a ultima foi : que aqui na terra é apenas um aprendizado, não devemos nos preocupar com coisas bobas, que não fazem parte desse aprendizado. Nem lutar a vida inteira atrás de dinheiro se não o levaremos daqui. Devemos perseguir o verdadeiro tesouro.
 
 

                                                                                          7/11/2000
 
 
 
 
 
 

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