REA
Rede de Astronomia Observacional


 
Contagem Regressiva

Faltam 

para o Trânsito de Vênus

 

 
 
APRESENTAÇÃO
 
 

Em 8 de junho próximo, quando o Sol nascer nos horizontes da América do Sul, o planeta Vênus estará completando mais uma de suas raras passagens diante do disco solar. O fenômeno, que terá se iniciado próximo de 05:17 TU, portanto, em plena madrugada, quando o Sol ainda se encontrava muito abaixo do horizonte, irá durar até cerca de 11:32 TU (08:32), Hora de Brasília.

Para obter as circunstâncias para sua cidade (ou região próxima), verifique a Tabela 1, abaixo. Previsões para coordenadas específicas podem ser solicitadas no endereço: [email protected] Além da hora prevista para o nascer do Sol, a tabela lista os instantes, em Tempo Universal (TU), da saída de Vênus da frente do disco do Sol (contatos III até o IV) e as alturas em graus sobre o horizonte correspondentes:


 
 
 




Tabela 1- Circunstâncias locais para o trânsito de Vênus em 8 de Junho de 2004
 
 
 

 
Cidade
Nascer do Sol (TU)
Contato III
Contato IV
Hora (TU)
Altura (o)
Hora (TU)
Altura (o)
Belo Horizonte
09:27
11:12:55
21
11:32:07
25
Brasília
09:30
11:12:39
20
11:31:55
24
Buenos Aires
10:56
11:13:36
3
11:32:50
6
Campinas
09:46
11:13:07
17
11:32:20
21
Campos
09:20
11:13:01
22
11:32:10
25
Curitiba
10:00
11:13:16
14
11:32:28
18
Florianópolis
10:03
11:13:22
13
11:32:34
17
Fortaleza
08:37
11:11:35
34
11:30:51
38
Lisboa
05:11
11:05:53
65
11:25:18
68
Montevidéu
10:48
11:13:38
4
11:32:51
7
Porto Alegre
10:17
11:13:29
10
11:32:41
13
Recife
08:29
11:11:55
35
11:31:07
39
Rio de Janeiro
09:29
11:13:06
20
11:32:16
23
Salvador
08:52
11:12:22
29
11:31:34
33
São Paulo
09:40
11:13:09
17
11:32:21
21
Vitória
09:14
11:12:55
24
11:32:04
27

 

Os trânsitos de Vênus são eventos muito especiais. Várias gerações não tiveram a sorte de vê-los. Costumam ocorrer em intervalos de 105,5 ou 121,5 anos, aos pares, com um segundo trânsito ocorrendo 8 anos após o primeiro. Felizmente, ainda teremos o segundo dessa série daqui há 8 anos. Depois disso, o evento somente se repetirá no século XXII, conforme mostra a Tabela 2. Durante o trânsito deste ano, Vênus cruzará o hemisfério sul do Sol, enquanto que em 2012 cruzará o hemisfério norte. Veja o gráfico de autoria de Fred Espenak (NASA/GSFC) ao final desse projeto.
 

mapa Espenak
 
 
 

Tabela 2 - Datas de Trânsitos de Vênus
 

 
Dez 1631
Dez 1639
Jun 1761
Jun 1769
Dez 1874
Dez 1882
Jun 2004
Jun 2012
Dez 2117
Dez 2125

 
 
 

O QUE É UM "TRÂNSITO"?

Vênus está situado entre o Sol e a Terra e, por isso, é conhecido como planeta inferior, mesma situação de Mercúrio. Em algumas oportunidades, portanto, o planeta posiciona-se entre o Sol e a Terra (evento denominado "conjunção inferior"). Na grande maioria das conjunções inferiores, Vênus passa um pouco acima ou um pouco abaixo do Sol. Isso se deve à diferença de 3° 23' entre os planos de órbita desses dois planetas. No entanto, algumas vezes, Vênus passa exatamente diante do disco solar. Quando isso acontece, diz-se que ocorre um "trânsito" (ou passagem).Nessas raras ocasiões, é possível observar-se o planeta cruzar o disco solar de leste para oeste, como um pequeno círculo, enegrecido pelo ofuscamento causado pela intensa luz solar.

Durante um trânsito, existem quatro momentos que exigem atenção especial dos observadores: o chamado contato I, quando a borda externa do disco do planeta tangencia ("toca") a borda externa do disco do Sol; o contato II dá-se quando o disco do planeta, já à frente do disco solar, desliga-se completamente da borda interna do disco solar. Por outro lado, quando o planeta deixa o disco solar ocorre uma situação inversa. No contato III, a borda externa do disco do planeta toca a borda interna do disco solar. Finalmente, no contato IV, temos o momento da separação das bordas externas dos dois discos, o solar e o planetário. Veja os desenhos desses momentos na coluna ao lado.

Como se pode ver no mapa abaixo (cortesia de Fred Espenak (NASA/GSFC)), durante o trânsito de 8 de junho próximo, apenas poderemos observar os contatos III, quando o disco planetário, ao sair, tocará a borda interna do Sol, e o contato IV, no momento exato em que os dois discos separar-se-ão por completo. Dessa vez, o trânsito ocorrerá à frente do hemisfério sul solar, na linha aproximada de 40° de latitude.
 
 

A OBSERVAÇÃO DO TRÂNSITO

A observação do trânsito de Vênus em 8 de junho de 2004 será duplamente dificultada: primeiramente porque não poderemos observar os dois primeiros contatos, visto que, quando o Sol nascer, o evento já estará próximo de seu término. Soma-se a isso, o fato de que o Sol ainda estará a uma baixa altura sobre o horizonte quando Vênus deixar o disco solar. Considerando que será necessário o uso de instrumental adequado, é provável que nem todos os observadores poderão ter acesso telescópico ao fenômeno no horário adequado (08:23, local). Escolha um local de observação com o horizonte leste-nordeste desobstruído, permitindo a visão do Sol logo após o seu nascer. Veja a altura do Sol para sua cidade (ou região próxima) na tabela apresentada acima.

Recomenda-se aos amadores o uso de um telescópio com pelo menos 100 mm de abertura óptica, para propiciar uma boa definição do disco planetário à frente do disco solar. Há ainda a necessidade de se utilizar um filtro solar H-Alpha para se evitar a ocorrência do fenômeno da "gota negra" ("black drop"), o qual pode reduzir a precisão das cronometragens dos contatos e que será descrito posteriormente.
 

Sugestões de Procedimentos para Treinamento da Observação

1. Independentemente da experiência do observador, recomenda-se a observação telescópica de Vênus durante o período de algumas semanas em torno de sua próxima elongação, que se dará em 29 de março.

2. Poucos dias antes do evento, Vênus estará muito próximo do Sol (aproximadamente 10° entre os dias 2 e 14, e cerca de 5° entre os dias 5 e 11). O planeta exibirá então um fino crescente (às vezes formando um círculo). Esse fenômeno, digno de ser fotografado, é causado pelo espalhamento da luz solar na atmosfera de Vênus acima de suas mais altas nuvens. Contudo, devido à pequena distância aparente entre o planeta e o Sol (com os perigos que isso representa), e ao fato de que tal observação dar-se-á ao amanhecer ou ao entardecer, com o planeta baixo no horizonte, conclui-se que não será uma tarefa fácil fotografar o planeta nessas interessantes ocasiões, embora o resultado possa se mostrar plenamente compensador.

3. Recomenda-se o uso da técnica divulgada pela seção de Planetas Inferiores da REA/Brasil, a qual utiliza-se da proximidade de Vênus ao Sol, para facilitar a localização do planeta durante o dia. Veja o tutorial "como localizar Vênus durante o dia".
 

CRONOMETRAGENS E A "GOTA NEGRA"

1. Como os contatos I e II não serão observáveis desde as Américas, recomenda-se que os contatos III e IV (ver desenhos na coluna à direita) sejam cronometrados com a máxima precisão possível. Será necessário utilizar um cronômetro, o qual deverá ser disparado em num instante conhecido com precisão, através de serviço de hora certa baseada em um relógio atômico, e que pode ser obtido pela Internet. Recomenda-se usar o botão "split" do cronômetro para fazer a leitura dos contatos (o botão "split" congela a leitura sem interromper o funcionamento do cronômetro). Os instantes de interesse serão calculados, somando-se o horário em que o cronômetro foi disparado, com a leitura do cronômetro em cada contato. É recomendável treinar o uso do cronômetro várias vezes antes do evento para reduzir-se a chance de erros que possam invalidar a cronometragem de algum contato.

gota negra
 
 
 

O chamado fenômeno da "gota negra", observado pela primeira vez em 1677, apresenta-se como um pequeno ligamento entre a borda do planeta e a borda do Sol e que pode ser visto durante os contatos II e III. Há algumas explicações aventadas para esse fenômeno como, por exemplo: 1) irradiação da luz solar; 2) difração da luz e seus efeitos sobre as imagens que se formam em instrumentos ópticos; 3) aberração esférica das objetivas e oculares dos telescópios etc. Veja o desenho a seguir e consulte a bibliografia ao final desse projeto.
 

2. Fique atento a fenômenos como halos, de cor branca, cinzenta, ou azul e registre cuidadosamente o que observar.

3. As condições do céu devem ser informadas de acordo com a seguinte escala, utilizada pela área de Planetas Inferiores da REA: 1 = péssimo; ...; 5 = perfeito. Estime as condições do céu e use valores intermediários, se necessário.

4. Prepare-se com antecedência, lendo o tutorial sobre a observação de Vênus. Isso deve ajudá-lo no planejamento de sua observação.

5. Alguns relatos antigos de trânsitos de Vênus descrevem a observação de alguns fenômenos anômalos, tais quais: 1) deformações do limbo do planeta e 2) áreas ou pontos de luz dentro do disco enegrecido do planeta. Portanto, mantenha-se atento a eles.
 

O FENÔMENO DA LUZ CINZENTA
 

Em 1806, Schröter divulgou que havia visto uma luz acinzentada na parte escurecida do disco do planeta. Desde então, esse fenômeno tem intrigado os observadores de Vênus, sem que haja até hoje uma resposta plenamente conclusiva para ele. Há até quem duvide de sua existência, simplesmente pelo fato de nunca tê-lo visto. Entretanto, desde 1643 (Giovanni Riccioli), esse fenômeno, denominado "luz cinzenta", tem sido reportado por vários observadores. Até mesmo a cor tem sido objeto de divergências: já tendo sido também descrita como "acinzentada", "avermelhada" e até "amarronzada". Richard M Baum, que observou o fenômeno por 35 anos, classificou sua cor desde "acobreada", "marrom enferrujada", "azeitonada" e até "arroxeada". Toda essa multiplicidade de impressões entre os que conseguem observá-la, aliada ao ceticismo dos que não conseguem, só fazem aumentar o mistério, ainda não explicado, da luz cinzenta.

luz cinzenta

Fonte: Foto de Richard Baum, em 29 março 1977, às 19:10 UT., in Price,"Handbook"


 
 
 

REGISTROS OBSERVACIONAIS

Prepare seu material de registro (prancheta, lápis, borracha) cuidadosamente. Para encaminhar os dados à seção de Planetas Inferiores, que coordena esse projeto observacional, envie um e-mail para [email protected] , contendo os dados abaixo:

Nome completo do observador

Sítio observacional (cidade, UF)

Coordenadas geográficas do sítio: latitude, longitude, altitude

Telescópio: abertura e relação focal

Aumento utilizado

Filtros usados durante a observação

Fonte do sinal horário empregado

Condições do céu

Instantes cronometrados dos contatos III e IV (hora TU e local, expressa como hh:mm:ss)

Comentários / observações


 
 
 

CUIDADOS ESPECIAIS

Toda observação que envolva o Sol exige cuidados especiais, mesmo de observadores experientes. Nunca olhe diretamente para o Sol sem proteção adequada para os seus olhos. A melhor e a mais segura maneira de observação solar é por projeção de imagem. Sempre que for possível, utilize esse método. A imagem solar deve ser projetada em superfície adequada, sem rugosidades. Se optar por fazer observação direta, verifique com antecedência o estado do filtro solar.

Nunca é demais repetir: não se deve em absoluto tentar olhar para o Sol através de negativos de filmes, papéis transparentes esfumaçados, ou coisas do gênero. Como o brilho do Sol é muito atenuado com o uso desses recursos, poder-se-ia pensar que não há mal em usá-los. Esquece-se, no entanto, que os danos à visão são ocasionados pelos raios infravermelhos e ultravioletas, os quais podem produzir o envelhecimento dos olhos, o aparecimento de cataratas e, pior, a queima da retina. Cones e bastonetes são muito suscetíveis quando expostos a altos níveis de luminosidade. Os filtros solares, apropriados para a observação segura do Sol, deixam passar apenas um milionésimo dessa radiação. Com exceção dos filtros solares, o único recurso aceitável é o vidro de soldador #14. Mas cuidado: se você não vir esse número marcado no vidro, não o use.


 
 
 

FOTOGRAFIAS

Para aqueles que desejam obter registros fotográficos do fenômeno, além dos cuidados acima descritos, deve ser lembrado que se trata de fotografar também o Sol. Dessa forma, caso o observador não queira usar ou não disponha de um telescópio refrator, o qual permite que a observação seja feita por projeção, torna-se necessário colocar à frente da abertura de seu telescópio um filtro adequado, como o da Thousand Oaks Optical (Sol alaranjado) ou o da Baader Planetarium (Sol branco, mas permitindo um contraste um pouco maior). No caso da observação por projeção de imagem, a comodidade poderá ser maior: será então possível utilizar-se uma câmera digital para captar a imagem projetada, atentando-se para o ajuste preciso da focalização.

Outro interessante desafio para os astrofotógrafos seria captar num mesmo quadro o disco negro do Vênus e algum grupo de manchas solares, ou mesmo uma mancha isolada. Entretanto, não é muito provável que isso seja possível durante esse próximo trânsito, porque, estando o Sol caminhando para o final do seu ciclo 23, os grupos de manchas costumam aparecer mais próximos ao equador, ao passo que Vênus cruzará o disco solar logo abaixo da latitude de 40°. Os grupos costumam aparecer nessas latitudes solares mais altas no início do ciclo solar: é exatamente esse o sinal mais evidente de que um novo ciclo está se iniciando.

Para determinar as dimensões das imagens resultantes (fotografia tradicional, usando filme de 35 mm) recomenda-se a consulta à tabela abaixo:
 
 
 
 

Distância 
focal (mm)
Campo (graus)
Diâmetro 
da imagem 
do Sol (mm)
400
3,4x5,1
3,7 
500
2,7x4,1
4,6 
1000
1,4x2,1
9,2 
1500
0,9x1,4
13,8 
2000
0,7x1,0
18,4 
2500
0,6x0,8
22,9 

 
 
 

Fonte: Pedro Ré, "Fotografar o Céu", pg. 116

 
 
 

CCD -aqueles afortunados que dispõem de acesso a uma câmera CCD poderão fazer a fotometria da auréola e da gota negra. Com a ajuda de "flat" e "dark frames" poderão corrigir o ruído de fundo da imagem e obter as variações de sensibilidade. O brilho do centro do Sol poderia, por exemplo, servir como padrão para aferição dessas variações. A desvantagem desse método é a necessidade de ter-se um computador acoplado à câmera. Contudo, como o fenômeno durará pouco tempo, o uso de um "laptop" poderá resolver o problema.

VÍDEOS, WEBCAMS -Esses dois recursos, cada vez mais usados em astronomia planetária (estão se tornando rapidamente quase imbatíveis), permitem a obtenção de uma enorme seqüência de "frames" em apenas 30 segundos, por exemplo. Múltiplas exposições nesse período gerarão muitas imagens as quais deverão ser tratadas posteriormente, usando-se programas adequados. Os resultados poderão ser compensadores.


 
 

BIBLIOGRAFIA e SITES


 

Ronaldo R F Mourão, "ECLIPSES da superstição à previsão matemática", Ed Unisinos, 1993.


 

Fred W Price, "The Planet Observer's Handbook", Cambridge University Press, 1994. 


 

http://www.chocky.demon.co.uk/oas/venus.html

http://www.lpl.arizona.edu/~rill/alpo/transitstuff/transit2004.html

http://www.stadtgymfw.de/venus/index.htm

http://www.transit-of-venus.org.uk/science.htm

http://www.transitofvenus.org/faq.htm

http://sunearth.gsfc.nasa.gov/eclipse/transit/transit.html

http://sunearth.gsfc.nasa.gov/eclipse/transit/venus0412.html

http://www.venus-transit.de/TransitObserver/

http://www.bo.astro.it/~biblio/Horn/dicembre2.htm

http://www.vt-2004.org/
 
 


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Observações do Trânsito


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