A ORIGEM DO MARTINISMO

 

 

 

   

    Começaremos com a história do Martinismo e da Ordem Martinista. Devemos fazer uma distinção porque o Martinismo como grande movimento espiritual é muito mais antigo que qualquer organização com esse nome. As primeiras organizações conectadas com o Martinismo tiveram outros nomes e devemos fazer a observação de que nem Martinez de Pasquallys nem Louis-Claude de Saint-Martin tiveram a intenção de criar ordens com esse nome.

 

    O Martinismo começou com Martinez de Pasqually e com sua Ordem dos Elus-Cohen ou Sacerdotes Eleitos (por volta do ano de 1768). Desenvolveu-se em diferentes direções para chegar a nós numa forma modernizada que deve muito a Papus e a seus associados.

 


Martinez de Pasqually

 

    Podemos dizer que nenhum movimento maçônico exerceu maior influência na França no Séc. XVIII que o iniciado por Pasqually, que foi logo conhecido como Martinismo.

 

    Martinez trabalhou durante toda sua vida na criação de um grande movimento espiritualista dentro do marco da Maçonaria. Quando pôde organizar este movimento como Ordem, não maçônica no sentido estrito da palavra, mas composta, exclusivamente, por Maçons, deu-lhe o nome de: "Ordem dos Cavaleiros Maçons Elus-Cohen do Universo".

 


Antigo emblema dos Elu-cohens

 

    Antes de sua morte, Martinez de Pasquallys havia nomeado como seu sucessor a seu primo Armand Cagnet de Lestère, Secretário Geral do Exército em Port-au-Prince, Haiti. Esse Irmão tinha pouquíssimo tempo para dedicar-se à Ordem e somente podia supervisionar os Templos Cohen de Port-au-Prince e Léogane em Haiti. Ocorreram divisões entre os Templos na Europa.

 

    Pouco a pouco, os Templos Elus-Cohen foram se fechando.

 

    Antes que a Ordem dos Elus-Cohen perdesse sua vitalidade, dois eminentes membros preservaram a doutrina original: o primeiro, Jean-Baptiste Willermoz, integrando-a com alguns Ritos da Maçonaria; o outro, Louis Claude de Saint-Martin, incorporando-a um sistema modificado de filosofia perpetuado por iniciações pessoais.

 


Jean-Baptiste Willermoz

 

    A ordem mais próxima a Willermoz é Os Cavaleiros Benfeitores da Cidade Santa, um rito maçônico antigo que foi reorganizado por ele em 1778.

 


Louis Claude de Saint-Martin

 

    Saint-Martin se foi apartando do lado "prático" dos trabalhos dos Elus-Cohen, quer dizer, a prática das operações teúrgicas, preferindo ao "Sendero Interior". Em 1777, residia em Versalhes, três anos após a morte de Pasquallys. Saint-Martin tentava levar aos Elus-Cohen suas idéias e o misticismo "especulativo" puro. Fracassou em convertê-los e permaneceram fiéis às Operações que Martinez de Pasquallys lhes havia ensinado. Saint-Martin completamente desinteressado nesse tipo de trabalho e havendo fracassado em sua intenção de reformar os Elus-Cohen, transladou sua ação aos círculos herméticos e esotéricos de sua época. Saint-Martin se contentou com a Ordem dos Filósofos Desconhecidos (Silencieux Inconnus de Ordre, mas que é mais conhecida como Ordem Martinista) e seguiu com sua missão pessoal, fazendo seguidores e discípulos, mesmo sem o querer, viajando extensamente.

 

    Em 1790 Saint-Martin se separa totalmente de seu trabalho anterior. Em 4 de julho abandonou a Maçonaria, pedindo que seu nome fosse retirado de todos os registros maçônicos. Isso o forçou, também, dar baixa nos Elus-Cohen. Saint-Martin viajou, então, para a Rússia, onde o Príncipe Galitzin se fez seu discípulo, difundindo os ensinamentos místicos de Saint-Martin dentro da Ordem Russa da Estrita Observância Templária.

 

    A Sociedade dos Filósofos Desconhecidos existiu pelo menos por 75 anos antes que a Grande Loja Maçônica da Inglaterra (fundada em 24/06/1717). A transmissão pessoal não tinha que ver com a Maçonaria.

 

    Saint-Martin morreu em 1803 deixando muitos discípulos em vários países europeus. Depois de sua morte, seus discípulos prosseguiram a transmissão da Iniciação e a difusão da doutrina do “Filósofo Desconhecido”. Foram particularmente ativos na França, Alemanha, Dinamarca e Rússia. Não há historicamente documentos que comprovem que Saint-Martin fundou realmente uma ordem, entretanto existe um rito maçônico chamado Rito Retificado de Saint Martin, constituída de dez graus, que mais tarde foram reduzidos a sete.

 

    Depois da morte de Saint-Martin em 1803, a iniciação Martinista (denominada S.I.) continuou sendo transmitida de pessoa a pessoa dentro de uma organização livremente entrelaçada.

 

    As Ordens da linha de Martinez de Pasqually são consideradas menos místicas que as Ordens fundadas com a orientação em Louis Claude de Saint Martin.

 

    Pasqually trabalhava na chamada “Via Externa” que com seus diversos cultos (expiação, limpeza da aura da terra, contra guerras, descida do Espírito Santo, etc...) visava a evocação teúrgica de Seres e forças espirituais  com o objetivo de ajudar, orientar, limpar  e preparar seus praticantes – e nosso planeta - em sua Regeneração, caminho para a Reconciliação, estágio final e introdutório para a Reintegração no seio do Absoluto. Destas liberações individuais sairá a libertação coletiva que permitirá a reconstituição do homem-arquetípico, esfacelado em pedaços na Queda bíblica, e sua reintegração no  divino que o emanou. Saint-Martin, discípulo de Pasqually, abandonou as práticas de seu primeiro Mestre e dedicou-se a trabalhar na chamada “Via Interna” ou “Via do Coração” onde a ênfase está na meditação, na ascese, na prece ativa e em técnicas precisas de retificação do interior do Ser no sentido de uma aproximação cada vez mais Real com o Absoluto.

 

    Podemos resumir, de uma maneira geral, a diferença entres estes dois Grandes Mestres afirmando que enquanto Pasqually concedia a chave da Reintegração Universal, Saint-Martin concedia a chave ativa da Reintegração Individual.

 

    Certamente alguns Martinistas preferiram continuar seus trabalhos de forma independente. Era Martinistas "livres". Ainda se tem noticias de que há ainda algum Martinistas livres, independentes não associados com as chamadas Ordens regulares.

 

 


 

 

    Quase todas as ordens Martinistas modernas são uma manifestação do bom trabalho de Papus (Dr. Gerard Encausse, 1865-1916), que criou ou se preferirem, revitalizou, o pensamento de Louis-Claude de Saint-Martin durante o período de 1882-91.

 


Papus

 

    Naqueles dias Gérard Encausse, Agustin Chaboseau e outros jovens intelectuais tinham o costume de se alimentarem juntos, enquanto debatiam assuntos de interesse mútuo. Foi assim que Papus e Chaboseau descobriram que ambos haviam recebido a Iniciação S.I. Papus tomou essa coincidência como um sinal do Céu e começou a trabalhar para criar uma organização que unisse, em seu seio, a todos os que haviam recebido o "legado misterioso" e que serviria como centro de estudos da Doutrina Martinista e como meio de propagar o movimento. Em 1884 se realizou um rascunho da constituição desta organização ao qual se deu o nome de "Ordem Martinista". Em 1890 se decidiu colocar a Ordem sob o Supremo Conselho de doze membros, com Papus como Presidente e Grão-Mestre. Os doze membros originais desse Primeiro Conselho foram: Papus, Agustin Chaboseau, Stanislas de Guaita, Chamuel, Sedir (Yvon Leloup), Paul Adam, Maurice Barrés, Jules Lejay, Montiére, Charles Barlet, Jacques Burget e Joséphin Péladan. Logo dois deles se demitiram do Conselho: Marrès e Péladan, sendo substituídos por Marc Haven (Lalande) e Victor-Emile Michelet.

 

    Recrutou diversos de seus irmãos em 1888 para dar forma ao primeiro conselho supremo Martinista, a fim de regularizar as diversas iniciações Martinistas livres da época. Em 1891 este conselho sob a direção de Papus deram forma a uma organização chamada Ordem Martinista ou Ordem dos Superiores Incógnitos (Paris, 1888) com três graus, é reconhecido que esta Ordem Martinista que foi baseado em dois Ritos Maçônicos extintos: o Rito de Elus-Cohens (de Pasqually) e o Rito Retificado de Saint-Martin, de características templárias. A Ordem Martinista teve um período de atividade florescente na França e outros países. Papus foi infatigável em seu labor e introduziu a Ordem inclusive na Corte Russa, onde o Martinismo era conhecido ha um século. Diz-se que o Czar Nicolau II foi Mestre de uma loja que havia dentro do Palácio Real.

 

    Parece que quando Papus criou a Ordem Martinista existiam, ainda, desconhecidos para ele, representantes diretos dos Elus-Cohen e dos Primitivos Martinistas em Lion e fora da França.

 

    Depois de morte de Papus, em 1916, a Ordem Martinista perdeu sua unidade e se dividiu. Charles Detré (nome místico Teder) se tornou o Soberano Grande Mestre, ele decidiu limitar a afiliação à Ordem Martinista (L`Ordre Martiniste) para Mestres Maçons, especialmente do Rito de Memphis & Misraim, a Ordem passou a se chamar Ordem Martinista Martinezista (L'Ordre Martiniste-Martineziste de Lyons), e sua sede foi mudada para Lyon. Claro que isto significou que as mulheres seriam excluídas do Martinismo, e isto também não estava de acordo à filosofia do Martinismo original. Naturalmente isto causou grande discordância entre os membros, e vários membros do Conselho Supremo original de 1891 deixaram a Ordem. Então, poderíamos considerar a Ordem Martinista original de Papus como morta, pelo menos até que depois de vários anos ela fosse reativada pelas inúmeras outras organizações que se fundaram.

 


Charles Detré

 

    Após a divisão da OM, com a morte de Papus, a Via Externa – teúrgica chamada de "Martinezista" foi quase totalmente abandonada, e hoje, com raríssimas exceções , a quase totalidade dos ramos Martinistas trabalham exclusivamente com a Via Interior de Saint-Martin.

 

    Détré (sucessor de Papus) morreu em 1918 e sucedido por Jean Bricaud, que decidiu que a Ordem Martinista deveria ganhar se fosse estabelecida sobre uma base firma de Simbologia Maçônica. Decretou, portanto, que a Ordem Martinista admitisse somente Maçons do Terceiro Grau (M.'.M.'.) de qualquer rito e a Sede da Ordem foi transferida a Lion. É por isso que esse ramo da Ordem Martinista chegou a ser conhecida como a "Ordem Martinista de Lion". Essa "maçonazição" da Ordem Martinista não agradou a todos os martinistas e muitos recusaram reconhecer o novo regime que estava impondo restrições a alguns membros e particularmente às mulheres e Irmãs. Decidiram voltar ao sistema das Iniciações Livres, inerentes ao grau de Iniciador Livre e prosseguiram suas atividades de forma independente da Ordem de Bricaud.

 


Jean Bricaud

    

    Victor Blanchard, que havia sido Deputado Grão-Mestre de Détré e Bispo da Igreja Gnóstica, depois de recusar a sucessão de Bricaud reuniu os Irmãos livres e formou um ramo da Ordem Martinista que se aderia à constituição original da Ordem e desaprovava os requerimentos maçônicos da Ordem Martinista de Lion.

 

    Em 1934, em Bruxelas, Bélgica, em conexão com um Congresso de Ordens Espirituais não-Maçônicas, se desenvolveu uma Convenção Internacional de Martinistas. Em 09 de agosto, Victor Blanchard foi eleito, por unanimidade, Soberano Grão-Mestre Universal da Ordem, por representantes da França, Bélgica, Áustria, Suíça, América do Norte e do Sul, Dinamarca etc. O Conselho Supremo da Ordem foi reconstituído e se decidiu acrescentar o adjetivo "Sinárquica" ao nome da Ordem para distinguí-la da Ordem Martinista cuja sede estava em Lion. As qualificações maçônicas para ser membro foram abolidas. Dessa forma renasceu oficialmente a Ordem Martinista e Sinárquica, que marcava o retorno á tradição original da constituição do Supremo Conselho de 1890. Nessa ocasião, no Congresso de Ordens Espirituais não-Maçônicas, estas se organizaram em uma federação conhecida como FUDOSI (Federação Universal de Ordens e Sociedades Iniciáticas) tendo Victor Blanchard como Soberano Grão Mestre da Ordem Martinista e Sinárquica, foi um dos primeiros três "Imperator" desta Federação.

 

    Nem todos os Martinistas que divergiam da organização maçônica de Chevillon aceitaram a autoridade de Blanchard. Um deles foi Augustin Chaboseau, que havia estado com Papus desde o princípio. De sua correspondência privada parece deduzir-se que Chaboseau se considerava a si mesmo como um dos fundadores e não podia admitir a autoridade de Blanchard, que era mais moderno na Ordem. Junto com outros Irmãos fundou, Augustin Chaboseau, uma terceira Ordem Martinista, que se chamou de "Ordem Martinista Tradicional" e cujo primeiro Grão-Mestre, Victor Emile Michelet, foi prontamente sucedido por Chaboseau mesmo. Devido ao prestígio do nome de Chaboseau e as muitas qualidades deste, esta Ordem, bem organizada, se desenvolveu rapidamente na França, enquanto que a Ordem Martinista e Sinárquica seguia dominante em outros países, particularmente em Suíça e Bélgica.

 

    Em 1939 a Ordem Martinista Tradicional (O.M.T.) era a Ordem Martinista não-Maçônica mais numerosa. Em 1946 Augustin Chaboseau morreu e deixou sua sucessão ao seu filho, Jean Chaboseau. Sem embargo, de acordo com a constituição desta Ordem, essa sucessão devia ser confirmada pelo Supremo Conselho. Jean Chaboseau não recebeu o apoio requerido, nem foi confirmado como Grão-Mestre. Essa divisão ameaçava destruir a Ordem e Jean Chaboseau renunciou a sua pretensão e abandonou a Ordem, junto com outros membros do Supremo Conselho.

 

    Como Augustin Chaboseau havia sido, também, Imperator na FUDOSI na qual representava o Martinismo, essa função ficou vaga e foi ocupada por um Imperator interino até que a sucessão da O.M.T. fosse esclarecida. Formou-se um comitê interino, conhecido como o Conselho de Regência, com o fim de manter unida a Ordem enquanto se faziam esforços para tratar de encontrar um Grão-Mestre que pudesse obter o apoio necessário. Enquanto isso, a maioria das Sociedades que compunham a FUDOSI estavam desgastadas com os métodos de propaganda que utilizava uma delas. Realizou-se uma reunião geral, mas a citada Sociedade não quis abandonar seus métodos, pelo que a FUDOSI foi dissolvida em 1951. Com ela desapareceu o Comitê de Regência da Ordem Martinista Tradicional e os restos dessa organização foram dissolvidos também. A Ordem Martinista Tradicional desapareceu de cena, deixando um ramo americano que se manteve vivo graças ao corpo rosacruz associado a ela.

 

    Em 1951 Philippe Encausse (o filho de Papus), Ordem Martinista de Paris (L`Ordre Martiniste de Paris), tendo como órgão oficial a revista L'Initiation, idealizada por Papus em 1898. Ele havia reunido vários Martinistas livres da França e formou a uma ordem baseada da constituição original. Phillipe Encausse sendo o Grande Mestre fundiu-se com a Federação das Ordens Martinistas, com a Ordem Martinista e Elus Cohen (L`Ordre Martiniste e o Martinist Order do Elus Cohen de Robert Ambelain) e removeu a exigência da qualificação maçônica pela qual era determinada a pré-afiliação. Ele resignou como Grande Mestre em 1971, e teve como sucessor Irénée Séguret . Philippe Encausse retomou a direção em 1975 e resigna finalmente em 1979.

 

    Depois da dissolução da Ordem Martinita Tradicional, muitos martinistas, sobretudo na França, ficaram sem uma organização própria. Alguns encontraram seu caminho na Ordem Martinista Retificada de Boucher, outros na Ordem Martinista de Philippe Encausse, neto de Papus, que havia reativado a "Ordem Martinista" original, de acordo com a constituição criada por seu avô.

    As ordens as mais antigas em existência, derivando-se todas da ordem de Papus são estas: a Ordem Martinista Synarquica (Synarchy de Martinist), a Tradicional Ordem Martinista TOM (Tradicional de Martinist) e finalmente a Ordem Martinista (Ordre Martiniste).

 

    A base dos ensinamentos em todas as Ordens inclui Misticismo Cristão, Teosofia, Kabbalah, Hermetismo, e outros assuntos esotéricos semelhantes. A filosofia Martinista está inspirada no teosofismo clássico e nos trabalhos de Jacob Boehme, Swedenborg, além é claro em Martinez de Pasqually, Jean-Baptiste Willermoz e Louis-Claude de Saint Martin.

 

    Tradicional Ordem Martinista (L'Ordre Martiniste Traditionnel) - A Tradicional Ordem Martinista permanece como a maior e mais fechada Ordem Martinista em atividade no mundo, para tanto conta com a aliança fraterna com a Ordem Rosacruz AMORC, é a organização Martinista que possui o maior número de Heptadas tradicionalmente constituídas e é a que possui a melhor organização administrativa.

 

 

 

 

 

 

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