No tocante ao psíquico tudo se nos afigura como voluntário e sujeito ao nosso arbítrio. Este preconceito universal provém do fato de confundirmos freqüentemente o psíquico com a consciência. Contudo, há inúmeros processos psíquicos, e até muito importantes, que são inconscientes ou conscientes apenas por via indireta.
O ser humano só se identifica com a parte consciente de sua psique (entenda-se: com os comportamentos voluntários), sendo raramente capaz de perceber o papel importante que seu inconsciente desempenha. “(...) Muitos ainda se agarram desesperadamente à ilusão de que pensam por si mesmos, determinam seus próprios destinos e exercem, tanto individual quanto coletivamente, seu livre-arbítrio (o grande mito subjacente à ideologia democrática)” (...) [C. G. Jung, idem, p. 27]. Freud (o “pai” da Psicanálise) argumentava que os sentimentos e comportamentos das pessoas são influenciados por necessidades, desejos e conflitos inconscientes subjacentes à superfície da percepção consciente.
INTRODUÇÃO
O Doutor P. Read Montague, um neurocientista da Faculdade de Medicina Baylor, estima que 90% das ações cotidianas das pessoas são executadas por esta espécie de sistema automático e inconsciente que possibilitou a sobrevivência dos seres vivos.
Uma pessoa que está lendo em voz alta, pode distrair-se pensando em coisa inteiramente alheia ao assunto da leitura. Chegada ao fim desta, não saberá quase nada do que acaba de dizer em voz alta; no entanto, sua leitura se fez de um modo inteligente. Respeitou a pontuação, deu as inflexões necessárias às frases. Outro exemplo: quando guiamos um carro, nossa mente pode estar dirigida para vários pensamentos (conscientes), que nada têm a ver com o ato de guiar, enquanto estamos, ao mesmo tempo, observando o trânsito e manobrando o veículo, sob um comando mental, automático, do qual não estamos tomando ciência (ou seja, estamos executando ações decorrentes de pensamentos inconscientes). Apesar disso, todo esse trabalho se executou inconscientemente, porque o centro da consciência estava cogitando.
“A limitada porção da memória da qual os homens tomam consciência quando falam, pensam ou escrevem parece funcionar com uma defasagem no tempo entre a armazenagem na memória pré-consciente e a comunicação consciente. As palavras, por exemplo, são pronunciadas aparentemente depois que cinco a sete palavras à frente no discurso são selecionadas pela mente. Antes do discurso, a memória parece classificar, selecionar, avaliar e comparar o significado, organizar a sintaxe e a pronúncia – um complexo imperceptível de funções ocorrendo simultaneamente e em alta velocidade. Isto foi chamado de processo de abstração”. [C. G. Jung, “O Homem e Seus Símbolos”, p. 61].
É inegável que muitos atos dos automatismos, associações de idéias espontâneas, elaborações por intuição de que seguimos o curso e muitos fenômenos “psíquicos” não se passam à luz clara do consciente. Neste sentido restrito não pode haver dúvida de que há um inconsciente, constituído por fenômenos psíquicos latentes, aos quais falta a “qualidade da consciência”.
“A percepção consciente parece ser limitada em grande parte por aquilo que os indivíduos tentam evitar, reprimir, negar e aquilo de que tentam defender-se – tudo isso é excluído da percepção consciente. Oito defesas perceptivas foram descritas, modos pelos quais escondemos informações de nós mesmos para evitar a ansiedade, a depressão, a confusão e a sobrecarga perceptiva. Elas incluem a repressão, o isolamento, a regressão, a formação de fantasias, a sublimação, a negação, a projeção e a introjeção (...). Elas podem ser diferentes aspectos do mesmo processo perceptivo. De qualquer forma, elas controlam significativamente nosso dia-a-dia, nossos pensamentos, nossas ações e nossos destinos. Aquilo que é deixado de fora (excluído da percepção consciente) pode ser bem mais significativo para a sobrevivência do que aquilo que é percebido conscientemente”. [Jung, idem, p. 86].
Pesquisas consideráveis indicam que avaliamos estímulos que não percebemos conscientemente. Um tenista (só para citar um exemplo), é capaz de posicionar-se em relação à bola antes que tenha a percepção visual consciente de sua trajetória.
A CONSCIÊNCIA (OU O SISTEMA CONSCIENTE) [CS]
Pelo conceito clássico, ‘Consciência’ é aquele estado em que a pessoa está ciente de suas ações físicas e mentais, o que só ocorreria, se ela estiver acordada e alerta. A consciência permite que o homem vivencie, entenda e compreenda seu mundo, e adapte-se à realidade externa, à qual este lado da psique está ligado. Por outro lado, é através do inconsciente que o homem se adapta à realidade interna.
Várias funções e habilidades conscientes dependem do estado em que o indivíduo se encontra. Por ex.: a aprendizagem, que requer atenção e concentração (não se aprende e fixa-se o aprendizado estando-se ébrio). Todavia, nossa atenção é seletiva, ela focaliza-se em alguns estímulos e ignora outros. Assim, reconhecemos modificações quantitativas da consciência.
A consciência é composta por um conjunto integrado de sistemas mais ou menos autônomos: vontade, desejo, lógica, emoção, que são sistemas volitivos os quais muitas vezes agem motivados por objetos de representação opostos entre si; assim, muitas vezes temos vontade de fazer algo, mas temos medo; sabemos que uma dada atitude é a mais lógica ou moralmente correta, mas tomamos atitude oposta, etc. O desacordo que tantas vezes se nota entre as idéias e os sentimentos de certas pessoas e o seu modo de agir vêm exatamente de que as nossas ações são, sobretudo, condicionadas pelo inconsciente. Se atentarmos bem para esta questão, veremos que, de fato, todo fenômeno psicológico traz, como apêndice, seu contrário, numa ambivalência, numa ambitendência. Com efeito, o complexo de inferioridade guarda, em seu íntimo, idéias de grandeza.
O que é, no seu modo e ritmo próprios, conscientizado, pode retroceder, de novo, ao inconsciente. Sem isto, nem a memória poderia funcionar. Conteúdos conscientes acabam mergulhando no inconsciente quando perdem sua intensidade ou atualidade. A este processo denominamos “esquecer”. A partir do inconsciente emergem novas imagens e tendências que penetram na consciência; falamos de idéias súbitas e impulsos.
“(...)a nossa mente desenvolveu-se até o seu atual estado de consciência (...) da mesma maneira que se desenvolveu por muito tempo, continua ainda a desenvolver-se e assim somos conduzidos por forças interiores e estímulos exteriores”. [Jung, “O Homem e Seus Símbolos”, pág. 81]. (...) “O homem desenvolveu vagarosa e laboriosamente a sua consciência, num processo que levou um tempo infindável, até alcançar o estado civilizado (arbitrariamente dotado de quando se inventou a escrita, mais ou menos no ano 4000 A.C.). E esta evolução está longe da conclusão pois grandes áreas da mente humana ainda estão mergulhadas em trevas. O que chamamos psique não pode, de modo algum, ser identificado com a nossa consciência e o seu conteúdo”. [idem].
PRÉ-CONSCIENTE (PERCEPÇÃO DIFUSA) [PCs]
Também chamada de percepção semiconsciente. Aqui é o campo da percepção difusa, que se dá, por exemplo, no caso da visão periférica (todo o campo visual que não corresponde ao foco da nossa atenção, e que forma o “fundo” do campo para o qual dirigimos nossos olhos).
As recordações acessíveis à consciência são chamadas de recordações pré-conscientes. Elas incluem recordações específicas de eventos pessoais, bem como as informações acumuladas ao longo de uma vida, tais como o conhecimento do significado das palavras, a localização espacial em uma cidade em relação às suas ruas, etc., como também as percepções orgânicas e sensoriais que operam abaixo do limiar da percepção consciente, ou que não despertam a atenção desta (embora sensório-perceptivamente dentro do limiar de percepção consciente, como o ato de respirar, por exemplo). “(...)ao latente, que é inconsciente apenas descritivamente, não no sentido dinâmico, chamamos de pré-consciente (...)” – Freud, “O Ego e o Id – I. A Consciência e o que é Inconsciente” (1923).
SUBCONSCIENTE [SCS]
O Subconsciente é muitas vezes chamado de estado de “inconsciência vígil”, a ele incluímos o controle sobre atividades automáticas e o conhecimento sobre habilidades aprendidas, como os procedimentos envolvidos para dirigir-se um automóvel, andar de bicicleta, digitar ao computador (quem digita com técnica) etc. Esses procedimentos, uma vez dominados, geralmente operam fora da consciência, a menos que algo desperte nossa atenção. É o campo onde são projetados os sonhos (oriundos do Inconsciente) e onde “circulam” nossas fantasias não elaboradas, de onde “emergem” nossos insights...
O
INCONSCIENTE [ICs]
“(...)Há uma realidade psíquica inconsciente que influencia a consciência e seu conteúdo de maneira demonstrável. Tudo isso é sabido, mas não se tiraram daí as conclusões práticas. Continuamos a agir e a pensar como antes como se fôssemos simplex e não duplex. Em conformidade com isso (...) não pensamos em duvidar de nossas motivações. A consciência do homem moderno ainda está tão apegada aos objetos exteriores, que faz deles os únicos responsáveis, como se deles dependesse a decisão”. [Jung, “O EU Desconhecido” ]
O inconsciente, nos fenômenos do hipnotismo, tornou-se algo real, tangível e objeto da experiência; e a Parapsicologia em muito contribuiu para a conceituação dinâmica moderna do inconsciente. A medicina o define como “ausência de consciência” e o localiza topograficamente na área subcortical do cérebro, junto ao tálamo, ao hipocampo e ao cerebelo.
A maioria dos psicólogos aceita a idéia de que existem recordações e processos mentais inacessíveis à introspecção e que uma grande parte dos processos perceptivos e decisórios são inconscientes (percepção subliminar, figura/fundo etc).
Eles incluiriam no inconsciente um grande arranjo de processos mentais dos quais
dependemos constantemente em nossas vidas diárias, mas aos quais não temos
acesso consciente.
Para Freud/Lacan o inconsciente se estrutura na linguagem.
Para Jung é a consciência que se estrutura na linguagem.
“Tudo o que conhecemos a respeito do inconsciente foi-nos transmitido pelo próprio consciente. A psique inconsciente, cuja natureza é completamente desconhecida, sempre se exprime através de elementos conscientes e em termos de consciência, sendo esse o único elemento fornecedor de dados para a nossa ação” [Jung, “Fundamentos da Psicologia Analítica” ].
O inconsciente tem motivações que o consciente desconhece. O inconsciente produz combinações subliminais prospectivas, tanto quanto o nosso consciente; só que elas superam de longe, em finura e alcance, as combinações conscientes. “O inconsciente não é capaz apenas de associar e de combinar, mas é capaz, também, de julgar. É um julgamento intuitivo, mas em circunstâncias favoráveis, absolutamente correto” [Jung, “O Homem e Seus Símbolos, pág. 310]. O inconsciente percepciona, tem intenções e pressentimentos, sentimentos e pensamentos, tal como o consciente. Por outro lado, ele não é uma “outra consciência” separada da primeira, como se poderia concebê-lo a partir dos fenômenos de desdobramento da personalidade, mas sim um outro aspecto do psiquismo (ou seria mais correto dizer dos psiquismos), funcionando de acordo com outros princípios.
A memória “inconsciente” (hipermnésia) traz o registro de fatos tanto negativos como positivos, o que descarta a visão psicanalítica do inconsciente como epifenômeno da consciência, campo do recalque/repressão – espécie de lata de “lixo da psique”.
O inconsciente exerce uma função compensatória com respeito à mente consciente. Na prática, quanto mais forte for a consciência e a auto-estima da pessoa, mais o inconsciente reagirá para contrabalançar estas funções.
INCONSCIENTE COLETIVO
O Inconsciente Coletivo é uma espécie de “banco de dados da humanidade”, que herdamos naturalmente ao nascer. Diferentemente da consciência e do inconsciente pessoal, ele independe da nossa vivência, trazendo à tona experiências e sensações relacionadas não ao nosso passado individual, mas ao passado da espécie humana. Medos “naturais” como o de enfrentar a escuridão ou a gratuita antipatia que nutrimos por serpentes podem ser explicados através da teoria do inconsciente coletivo. Aliás, um experimento recente colocou um bebê já capaz de engatinhar próximo a diversos animais, usando um vidro como proteção; a criança aproximou-se até mesmo de bichos selvagens do porte de um leão, mas evitou instintivamente as cobras.
O que o Inconsciente Coletivo contém é universalmente humano, sem nenhum toque pessoal. Todos os padrões de reação herdados, todos os conteúdos humanos primitivos estão presentes neste nível. Não estando ligada a valores pessoais, e portanto subjetivos, ela reage e funciona inteiramente com base nos valores humanos universais.
Todo ser humano é capaz de ascender a uma consciência mais ampla. O crescimento fundamental resulta da “interpretação recíproca” do consciente e do inconsciente. Esses pólos opostos devem ser reconciliados na experiência do indivíduo; devem ser integrados.
É preciso ter em mente que o inconsciente é uma forma de articulação psíquica, e não um lugar; ele designa a função simbólica. “A percepção (...) não pode ser dividida em categorias simplistas como percepção consciente (cognitiva) e inconsciente (subliminar). A relação consciente-inconsciente deve ser encarada antes como uma gradação de mais-ou-menos do que como uma oposição de ou-uma-ou-outra” [Virgílio Camargo Pacheco,, “Habitantes do Inconsciente”, Editora Anhambi, São Paulo, 1959]. Processos conscientes e inconscientes são diferentes níveis de percepção. Por esta razão, alguns psicólogos preferem não fazer este tipo de distinção, e, em vez disso, falam sobre um continuum não-consciente/consciente que vai de um extremo de processos totalmente inconscientes (através de várias gradações) até o outro extremo de consciência reflexiva.
BIBLIOGRAFIA