Os Sonhos segundo a Psicologia de Carl Gustav Jung


e foram recolhidos pelos “Terapeutas”.

    Os terapeutas eram uma seita que habitava no vale do Jordão e nas margens do Mar Morto e alguns dos seus ensinamentos chegaram até nós. Eram consultados habitualmente, quando, nas cortes, os adivinhos oficiais esgotavam o seu saber, ou não davam, com medo das responsabilidades, senão uma interpretação amenizada. Esses terapeutas faziam muitas curas, graças à terapia psíquica, e interessavam-se regularmente pelos sonhos.

 

 

    Todo mundo sonha. Mas aquelas pessoas que acordam com o barulho de um despertador e levantam rapidamente da cama inibem a liberação de noradrenalina, que são neurotransmissores auxiliares na manutenção da memória. Como a noradrenalina não é liberada durante o sono, é importante dar um tempo para que isso ocorra nos primeiros momentos desperto. É durante a fase de alta atividade neural do sono (chamada REM = Rapid Eye Movement = Movimentos Rápidos dos Olhos) que se desenrolam os sonhos.

 

    Os sonhos têm importância comprovada para o fortalecimento da memória, e a lembrança deles é um excelente exercício mnémico, além de estimular a criatividade, o que é reforçado pelo “fantasiar”.

 

    Neurologistas defendem que  as imagens dos sonhos são, muitas vezes, resultado de percepções sutis e de memórias antigas que vêm à tona e se encaixam. Isso explicaria os sonhos que parecem trazer soluções para a vida real, como a história do físico Alemão Albert Einstein, que concluiu a Teoria da Relatividade depois de um cochilo.

 

    Hoje, os sonhos são utilizados como porta-voz do inconsciente; sua função é revelar os segredos que a consciência desconhece, e realmente o faz com incrível perfeição. A via régia para a exploração do inconsciente é o Sonho, bem como a análise dos devaneios e fantasias. Para a Psicologia e a Psicanálise, a função geral dos sonhos seria o tentar restabelecer o equilíbrio psicológico, produzindo material onírico que restabeleça de forma sutil o total equilíbrio psíquico. Os sonhos são a reação natural do sistema de auto-regulação psíquica.

 

    Sonhos podem ser interpretados de muitas maneiras, dentro das mais variadas crenças, culturas, filosofias, religiões e linhas científicas. Mas ninguém estudou tão profundamente o assunto quanto o psiquiatra suíço Carl Gustav Jung. Para desvendar os mistérios do sono, ele recorria aos símbolos universais do que chamou de inconsciente coletivo.

 


Carl Gustav Jung

 

    Jung, leu a obra de Freud “Interpretação dos Sonhos” e ficou bastante entusiasmado com o assunto, passou a estudá-lo com afinco. Ele desenvolveu uma maneira peculiar de abordar os sonhos, no qual cada personagem, ou mesmo o cenário, representa partes do mundo psíquico do sonhador. Aqui, esses complexos tomam a forma de outras pessoas, conhecidas ou não, que expressam estados de ânimo, afetos ou idéias do sujeito que está sonhando. É como se o sonhador fosse, ao mesmo tempo, o diretor, o protagonista, ou os diversos personagens que entram em cena. Os personagens simbolizam partes de nossa personalidade e dizem coisas que precisamos ouvir.

 


Sigmund Freud

 

    Manter um registro deles é fundamental para uma análise profunda de seus significados. O hábito permite traçar um panorama dos sonhos mais recorrentes ao longo da vida para tentar entender a mensagem contida neles, assim como identificar os verdadeiros temores por traz dos pesadelos. Para tanto, o sonho deve ser anotado assim que se acorda. Um despertar tranqüilo ajuda a lembrar de detalhes e pessoas envolvidas. É bom que se carregue consigo um bloquinho de anotações, pois é comum que ao longo do dia nos recordemos de detalhes do sonho, muitas vezes em associação com eventos que nos ocorrem àquele instante.

 

    Recomenda-se também que uma auto-sugestão seja feita antes de dormir, reafirmando para si mesmo o desejo de ter sonhos inspiradores durante o sono.

 

    Os sonhos são vistos por Jung como uma manifestação de processos inconscientes, do ponto de vista do inconsciente, ou seja, seriam auto-representações, sob a forma simbólica, da situação do inconsciente. Assim, o sonho traz a representação de alguns conteúdos inconscientes que se atualizam, cristalizam e selecionam (“constelam”, termo usado pelos junguianos) em correlação com o estado da consciência.

 

    O mitólogo Joseph Campbell dizia que o mito é o sonho coletivo, enquanto o sonho é o mito pessoal de cada indivíduo.

 

    Interpretar corretamente o próprio sonho ajuda a perceber com o que estamos insatisfeitos para fazer pequenos ajustes ou iniciar grandes transformações pessoais. Os sonhos ajudam a mostrar quem somos na essência, são um caminho para o auto-conhecimento, para a nossa verdade mais profunda.

 


O próprio pai da Psicanálise, Sigmund Freud, definiu o sonho como o caminho real para o inconsciente.

 

    O herói, personagem principal do sonho, é sempre a pessoa que está sonhando e a experiência onírica é dividida em três partes. Para começar, apresenta-se um ambiente e uma situação, como nas primeiras imagens de um filme. A seguir, desenvolve-se um enredo, o vilão (chamado na psicologia de “Sombra”)  se manifesta, os personagens definem seu papel na história (como os arquétipos de Jung) e o herói inicia um caminho de conflitos, provações – e cheio de pistas. Na ultima seção, acontece o grand finale: respostas são oferecidas e a trama é concluída.

 

 

    A psicóloga suíça Marie-Louise Von Fraz, uma das maiores colaboradoras e defensoras das idéias de Jung, dizia que a última frase de um sonho merece uma atenção especial, pois é na interpretação dela que reside a chave para a solução do enigma. “O sonho é uma simulação do futuro possível com base no passado conhecido, mas nem sempre recordado”.

 

    Detectar e classificar os personagens que aparecem no sonho é o primeiro passo da interpretação. Reconhecer personagens como o sábio, os aliados, o mensageiro, o rival e seus comparsas torna possível a compreensão das atitudes de cada um deles. Pode ser mais difícil do que parece, pois não necessariamente todo sonho será povoado por todos esses arquétipos – que também podem estar representados por símbolos abstratos, em vez de pessoas. Mapeando quem é quem na história, devem-se analisar o enredo em si e suas particularidades (tempo, espaço, situações), para desvendar a aventura proposta e os meios de realizá-la.

 

 

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    Jung também admite a existência de vivências especiais, chamadas de “revelação”, nas quais subitamente e quase com força alucinatória aparece ante o indivíduo uma imagem ou idéia (arquétipica), totalmente desligada da corrente habitual do pensamento corrente.

 

    Para Freud, os sonhos são a realização de desejos; para Jung são “auto-representações do inconsciente”. Ao contrário de Freud, as situações absurdas dos sonhos, para Jung, não seriam uma fachada, mas a forma própria do inconsciente de se expressar:O sonho é um evento natural, e não existe qualquer fundamento para que se suponha que ele seja uma criação astuciosa determinada a enganar-nos”. Psicologia e Religião; C. G. Jung.

 

    “A idéia de que o sonho dissimula qualquer coisa é uma idéia antropomórfica! [o inconsciente não é antropomórfico, na verdade ele tende a ser anímico]”. (Nota de roda-pé) O Homem à Descoberta de sua Alma; C. G. Jung.

 

    “Quando nos firmamos nesta hipótese de que o sonho é o que é, e se contém inteiramente em si mesmo, encontraremos em cada caso particular a limitação necessária às associações livres, limitação que nos obrigará a ficar sempre no contexto, na trama e na vizinhança imediata do sonho”. (pág. 349) O Homem à Descoberta de sua Alma; C. G. Jung.

 

    “Em oposição a FREUD, que considera os sonhos como uma realização de desejos, cheguei  pela experiência adquirida ao lidar com sonhos a ver neles muito mais uma função compensadora. Durante a análise, quando a discussão vai terminando o exame dos conteúdos conscientes, começam então a adquirir vida as possibilidades até então inconscientes, e estas passam a atuar como causadoras dos sonhos. (...) Considero os sonhos como compensatórios, porque eles contêm aquelas imagens, aqueles sentimentos, aqueles pensamentos, cuja ausência produz na consciência um vazio que é preenchido pelo medo, em lugar de ser substituído pela compreensão (...)” [(185) O Desenvolvimento da Personalidade; C. G. Jung]. Ou seja, alguém masculinizado pode sonhar com figuras femininas que tentam demonstrar ao sonhador a necessidade de uma mudança de atitude.

 

    “Os sonhos contêm imagens e associações de pensamentos que não criamos através da intenção consciente. Eles aparecem de modo espontâneo, sem nossa intervenção e revelam uma atividade psíquica alheia à nossa vontade arbitrária. O sonho é portanto um produto natural e altamente objetivo da psique, do qual podemos esperar indicações ou pelo menos pistas de certas tendências básicas do processo psíquico. Este último, como qualquer outro processo vital, não consiste numa simples seqüência causal, sendo também um processo de orientação teleológica. Assim pois podemos esperar que os sonhos nos forneçam certos indícios sobre a causalidade objetiva e sobre as tendências objetivas, pois são verdadeiros auto-retratos do processo psíquico em curso”. [210 O Eu e o Inconsciente; C. G. Jung].

 

 

    “Já percebi que os sonhos são tão simples ou complicados quanto o próprio sonhador; a única diferença é que eles sempre se encontram um pouco adiante da consciência da pessoa. Não entendo meus sonhos melhor do que os senhores entendem os seus porque eles se encontram sempre um pouco além do meu poder de captá-los. Tenho os mesmos problemas que alguém que não conheça nada sobre interpretação dos sonhos. Não há muito grande vantagem no conhecimento quando se trata de interpretar a si próprio”. [244 Fundamentos de Psicologia Analítica; C. G. Jung].

 

    “(...) os seres simples têm sonhos simples e os seres complicados, com cérebros mais diferenciados, têm sonhos complicados. (...) Não compreendo à primeira vista os meus próprios sonhos melhor do que qualquer outra pessoa os seus, pois eles situam-se sempre um pouco para lá da minha expectativa e do seu alcance, e experimento com eles as mesmas dificuldades que qualquer outro indivíduo. O saber não representa uma vantagem absoluta quando se trata dos próprios sonhos. Os sonhos de crianças podem ser já de grande profundeza”. [(pag. 385) O Homem à Descoberta de sua Alma; C. G. Jung].

 

    “[Os sonhos são] uma expressão integral, importante e pessoal de inconsciente particular de cada um e tão “real” quanto qualquer outro fenômeno vinculado ao indivíduo. O inconsciente individual de quem sonha está em comunicação apenas com o sonhador e seleciona símbolos para seu propósito, com um sentido que lhe diz respeito e ninguém mais. Assim, a interpretação dos sonhos, por uma analista ou pela própria pessoa que sonha, é para o psicólogo junguiano uma tarefa inteiramente pessoal e particular (e algumas vezes, também, uma tarefa longa e experimental) que não pode, em hipótese alguma, ser executada empiricamente. [(pág. 12) O Homem e seus símbolos; C. G. Jung].

 

    “Quero chamar a atenção para o fato de que não é seguro interpretar um sonho, sem percorrer todos os detalhes de seu contexto, com todo o cuidado possível. Nunca aplique nenhuma teoria, mas pergunte sempre ao paciente como ele se sente em relação às imagens que produz. Afirmo mais uma vez que os sonhos são tão complexos, imprevisíveis e incalculáveis como as pessoas que observamos na vida de todos os dias”. [248 Fundamentos de Psicologia Analítica; C. G. Jung]. “(...) e estou mesmo convencido de que não existe nenhum método de interpretação absolutamente seguro. (...)” [(pág. 96) O Homem à Descoberta de sua Alma; C. G. Jung].

 

 

    “O significado e o conteúdo dos sonhos estão sempre em relação íntima com o estado ocasional da consciência, como atesta a experiência. Sonhos que se repetem correspondem a estados de consciência que também se repetem. Nestes casos torna-se certamente mais fácil exagerar o sentido da alusão dos sonhos. (...)” [(187) Idem].

 

    “O material com que se deve operar na análise do inconsciente não consta apenas de sonhos. Há também os produtos do inconsciente denominados fantasias. Essas fantasias são como que uma espécie de sonhos ocorridos durante o estado de vigília, ou como que visões e inspirações. Podem ser analisadas do mesmo modo que os sonhos”. [(193) Idem].

 

    “O simbolismo onírico apresenta antes de tudo caráter pessoal, que pode ser esclarecido pelas idéias súbitas que ocorrem ao sonhador. Não é aconselhável estender a interpretação além daquilo que é apresentado pelo sonhador, ainda que isto seja possível em relação a determinados simbolismos. Para determinar a significação exata e estritamente pessoal de  um sonho, é certamente indispensável a ajuda do sonhador. As imagens oníricas podem ter sentidos diversos, e jamais se pode confiar na suposição de que certa imagem tenha sempre o mesmo sentido, quando se trata de outro sonho ou de outro sonhador. Existem apenas certa consonância de significados quando se trata de imagens arquetípicas, como as designamos”. [(197) O Desenvolvimento da Personalidade; C. G. Jung].

 

    “Certos sonhos, visões ou pensamentos podem aparecer de repente e, por mais cuidadosamente que se investigue, não se descobre o que os motivou. (...) Neste caso, deve-se esperar até compreender melhor o sonho e seu significado, ou até que alguma ocorrência externa aconteça, explicando o sonho”. [(pág. 78). O Homem e seus Símbolos; C. G. Jung].

 

    “Tanto quando podemos julgar através dos sonos, o inconsciente toma suas deliberações instintivamente. Esta distinção é importante. Uma análise lógica é prerrogativa da consciência; selecionamos de acordo com a razão e o conhecimento. O inconsciente, no entanto, parece ser dirigido principalmente por tendências instintivas, representadas por formas de pensamento correspondentes – isto é, por arquétipos. Um médico a quem se pede que descreva a marcha de uma doença vai empregar conceitos racionais, como ”infecção” ou “febre”. O sonho é mais poético: ele apresenta o corpo doente do homem como se fosse a sua casa terrestre, e a febre como o fogo que a destrói”. [(pág. 78). O Homem e seus símbolos; C. G. Jung].

 

    “Nossos sonhos, no entanto, não têm como preocupação dominante a nossa adaptação à vida exterior. Em nosso mundo civilizado a maioria dos sonhos cuida do desenvolvimento (pelo Ego) da atitude interior “correta” em relação ao Self, pois devido à nossa moderna maneira de pensar e agir sofremos um número muito mais intenso de perturbações neste relacionamento do que os povos primitivos. Eles em geral vivem diretamente apegados ao seu centro interior, enquanto nós temos a nossa consciência de tal forma desenraizada e envolvida em assuntos exteriores e mesmo “forasteiros” que é difícil ao Self nos enviar suas mensagens. Nossa mente consciente cria, continuamente, a ilusão de um mundo exterior “real”, claramente definido, que bloqueia muitas outras percepções. No entanto, através da nossa natureza inconsciente conservamos-nos inexplicavelmente ligados ao nosso ambiente psíquico e físico”. [(pág.208). O Homem e seus símbolos; C. G. Jung].

 

    “(...) um indivíduo, acompanhando seus sonhos durante determinado tempo, vai descobrir que eles dizem respeito ao seu relacionamento com as outras pessoas. (...) A imagem pode ser apenas uma projeção, o que significa que a imagem onírica é o símbolo de um aspecto interior  qualquer do próprio sonhador (...) mas também acontece, por vezes, que os sonhos nos revelem legitimamente alguma coisa a respeito de outras pessoas (...) para descobrir qual a interpretação correta é necessário uma atitude honesta e atenta e um cuidadoso raciocínio”. [(pág. 220). O Homem e seus símbolos; C. G. Jung].

 

    “(...) Os dois pontos essenciais a respeito dos sonhos são os seguintes: em primeiro lugar, o sonho deve ser tratado como um fato a respeito do qual não se fazem suposições prévias, a não ser a de que ele tem um certo sentido; em segundo lugar, é necessário aceitarmos que o sonho é uma expressão específica do inconsciente”. [(pág. 32) O Homem e seus símbolos; C. G. Jung].

 

    Um aspecto muito importante em se atentar nos sonhos, segundo a linha junguiana, é saber como o sonhador, o protagonista no sonho (que representa o Ego) lida com as forças malignas (a Sombra), para se averiguar como, na vida desperta, a pessoa lida com as adversidades, a autoridade e a oposição de idéias. Jung aponta os sonhos como forças naturais que auxiliam o ser humano no processo de individuação.

 

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    O trecho a seguir foi retirado da obra “O Homem à Descoberta de sua Alma”; C. G. Jung.

 

    Compreender o sonho, psicologicamente falando, exigirá, portanto, em primeiro lugar, que se investigue as reminiscências vividas de que se compõe. E assim, no que respeita a cada uma das partes da imagem onírica, se remontará até aos antecedentes.

 

    Seria aventurar-se muito pretender explicar todos os fenômenos conscientes por uma teoria que os reduzisse, sem distinção, à satisfação de desejos ou de pulsões. É do mesmo modo, pouco provável que os fenômenos oníricos se possam submeter a uma explicação igualmente simplista.

 

    Quando, tendo sonhado com uma locomotiva, por exemplo (...) o que eu desejo saber é o que, pessoalmente, a locomotiva significa para o sonhador, e por isso as suas associações não devem afastar-se exageradamente dessa locomotiva. Não tenho receio de perguntar, por exemplo, ao sonhador: diga-me, então, o que é que uma locomotiva lhe faz lembrar.

 

 

    “ – Ultimamente vi uma muito grande; é tudo o que me ocorre no espírito.”

 

    “ – suponha o senhor que eu não tenho idéia nenhuma do que seja uma locomotiva; explique-me o que pensa sobre o assunto.”

 

    Pode suceder então que o sonhador vos conte uma história muito interessante e vos dê uma definição que contém eventualmente o significado que teve a locomotiva no sonho. Porque a locomotiva, no sonho, é, realmente, uma locomotiva. Esta afirmação constitui também uma diferença essencial entre a minha teoria dos sonhos e a de Freud. Como diz o Torah [leis de Moisés], o sonho é realmente um sonho. Traz em si o seu significado. (...) Não é uma fachada, qualquer coisa de feito ou de preparado, uma aparência enganadora, mas uma construção acabada.

 

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    O trecho a seguir foi retirado da obra O Homem e seus Símbolos; C. G. Jung.

 

    O sonho recorrente é um fenômeno digno de apreciação. Há casos em que as pessoas sonham o mesmo sonho, desde a infância até a idade adulta. Este tipo de sonho é em geral uma tentativa de compensação para algum defeito particular que existe na atitude do sonhador em relação à vida; ou pode datar de um traumatismo que tenha deixado alguma marca. Pode também ser a antecipação de algum acontecimento importante que está para acontecer. (pág. 53).

 

    O Dr. Jung dava grande importância ao primeiro sonho em análise pois, no seu entender, tinha muitas vezes um valor de antecipação. A decisão de ir a um analista está sempre acompanhada de uma convulsão emocional que perturba as camadas psíquicas mais profundas, de onde surgem os símbolos arquetípicos. Os primeiros sonhos, portanto, muitas vezes apresentam “imagens coletivas” que dão uma perspectiva global à análise e permitem ao terapeuta melhor percepção dos conflitos psíquicos do paciente. (pág. 277).

 

    Na história do simbolismo o lado direito representa, geralmente, o domínio da consciência; a esquerda significa o inconsciente (pág.280).

 

    Para muitos o porco está intimamente associado com a baixa sexualidade (Circe, por exemplo, transformava em porcos os homens que a desejavam). O cachorro representa a fidelidade mas também a promiscuidade, desde que não mostra discriminação na escolha dos companheiros. O canguru, no entanto, é um símbolo da maternidade e de terna capacidade protetora. (pág.282). (...) “Um casaco pode simbolizar, muitas vezes, a máscara exterior ou persona, que apresentamos ao mundo”. (pág.286 – foto).

 

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    “Permitindo-se que a pessoa fale sobre os detalhes de seu sonho – obedecidas determinadas regras técnicas – vemos que as idéias que lhe ocorrem seguem todas uma mesma direção, concentrando-se em torno de uma assunto específico, de significado pessoal. Inicialmente, essas idéias assumem um sentido que se dissimulava por trás do enredo do sonho. O conflito elaborado no sonho é inconsciente; o mesmo se dá com a respectiva tentativa de solução”. (...) [21 Psicologia do Inconsciente; C. G. Jung].

 

    “Muitas vezes o sonho apresenta pormenores aparentemente pueris, à primeira vista ridículos e exteriormente sem pé nem cabeça, deixando-nos, quando muito, intrigados. Por isso, num primeiro momento, sempre há uma resistência a vencer, antes de nos darmos seriamente ao trabalho paciente de desenrolar, fio por fio, a trama emaranhada. Quando, finalmente, deparamos com o verdadeiro sentido de um sonho, já penetramos no âmago dos segredos de quem sonhou e vemos, cheios de espanto, como um sonho aparentemente desprovido de sentido é engenhosos e só exprime coisas graves e importantes. Esta constatação requer de nossa parte um maior respeito pelo que se chama de superstição da interpretação de sonhos, que o racionalismo da nossa época desprezou ostensivamente até agora”. [24] Idem.

 

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    O trecho abaixo pertence à obra “Temas Básicos de Psicologia”; Clara Regina Rappaport (Coordenadora),

 

    Assim, sempre que a atitude consciente tornar-se demasiadamente unilateral ou exagerada, surgem sonhos compensadores, indicando a função de auto-regulação da psique.

 

    Em suas obras, Jung cita vários exemplos de casos deste tipo. Um destes é o caso de um homem extremamente arrogante, que criticava muito seu irmão [em “o Eu e o Inconsciente”]. Porém, sonhava sempre com o irmão nos papéis de Bismarck, Napoleão, Júlio César. Neste caso, o inconsciente necessitava exaltar o irmão. Portanto, Jung pôde deduzir que o paciente estava se superestimando e depreciando o irmão de modo exagerado. Além disto, como as figuras usadas no sonho eram heróis coletivos, concluiu que o paciente se superestimava não só com relação ao irmão, mas com relação a todos, sendo isto depois confirmado.

 

    Um outro exemplo ilustrativo é o de uma jovem que amava muito a mãe, mas que sonhava sempre com a mãe como bruxa ou perseguidora. Na verdade, a mãe a mimava exageradamente e por isso a filha não podia reconhecer conscientemente a influência nociva disto.

 

    Assim, para Jung, o sonho é algo bastante diferente da concepção da Psicanálise freudiana. Esta o vê como uma realização disfarçada de um desejo. Mas para ele “um sonho é sempre a melhor interpretação de si mesmo”.

 

    Para compreender os sonhos, em particular, e os conteúdos inconscientes de modo geral, Jung parte sempre de dois pontos de vista, a sua causalidade e a sua finalidade.

 

    A abordagem causal visa descobrir as origens da manifestação inconsciente, o porquê, a partir da análise de suas diferentes partes.

 

    A abordagem finalista ou sintética, por outro lado, visa a descobrir o para que do sonho, a sua finalidade. Esta abordagem pressupõe um ponto de vista teleológico, conseqüência da hipótese de Jung de que o inconsciente contém uma função potencialmente construtiva, devida ao fato de abranger os organizadores inatos do desenvolvimento psíquico, os arquétipos. Esta hipótese é radicalmente diferente da posição psicanalítica mais tradicional, em que o inconsciente se apresenta como um conjunto de pulsões mais ou menos desordenadas (“o inconsciente só sabe desejar”, diz Freud). A abordagem finalista ou prospectiva é a especial contribuição de Jung para a compreensão dos fenômenos inconscientes.

 

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    OS SONHOS E A PRE-COGNIÇÃO (previsão do futuro)

 

    A ciência discute cada vez mais seriamente a questão do espaço-tempo e o rompimento das dimensões. Não se sabe se, através do sonho, é possível ter acesso a conteúdos de um outro espaço temporário.

 

    Sobre os polêmicos sonhos premonitórios, Jung observa que o inconsciente, tem os seus próprios meios de interpretar a realidade e, muitas vezes, algo que ainda vai se tornar consciente já existe inconscientemente. Os sonhos, portanto, às vezes “vazam” a informação para a consciência, o que dá a impressão de ter havido uma antevisão.

 

    “Alguns sonhos parecem predizer o futuro (talvez devido a um conhecimento inconsciente das possibilidades que estão por vir) e é por isso que foram, durante muito tempo, utilizados como vaticínios. (...) os sonhos podem adquirir um aspecto de antecipação ou de prognóstico, e quem os for interpretar deve levar isto em conta, sobretudo quando um sonho que tenha um sentido evidente não oferece um contexto que o explique satisfatoriamente. Este tipo de sonho pode surgir do nada e a gente se pergunta o que o motivou. Se conhecêssemos a sua mensagem posterior, logicamente esclareceríamos as suas causas. Porque só a nossa consciência é que ainda nada sabe a seu respeito; o inconsciente está informado e já chegou a uma conclusão – que é expressa no sonho. Na verdade, parece que o inconsciente tem a capacidade de examinar e concluir, da mesma maneira que o consciente. Pode mesmo utilizar certos fatos e antecipar seus possíveis resultados, precisamente porque não estamos conscientes deles”. O Homem e seus Símbolos; C. G. Jung.

 

    “O sonho, ao mesmo tempo que compensa a unilateralidade da consciência, também pode advertir sobre os perigos desta atitude. Como exemplo, Jung relata o caso de um homem que se encontrava envolvido com certos negócios obscuros [O Homem e seus Símbolos]. Como uma espécie de compensação, desenvolveu uma paixão por escaladas perigosas de montanhas, como que buscando “chegar mais acima de si mesmo”. Em um sonho, viu-se escalando uma montanha, até chegar ao cume, ficando possuído de tal êxtase que continuou escalando o ar. Jung conta que, ao ouvir o sonho, tratou de adverti-lo contra o perigo que corria, mas não foi ouvido. Seis meses depois, este homem morreu, em um acidente, numa de suas escaladas". Temas Básicos de Psicologia; Clara Regina Rappaport (Coordenadora).

 

    “Sonhos deste tipo ilustram uma outra função do sonho, segundo Jung, chamada função prospectiva. Isto não quer dizer que o inconsciente tenha capacidade de profetizar o futuro. Mas pode acontecer que apareça, no inconsciente, uma antecipação da futura atividade consciente. Na verdade, observando-se uma seqüência de sonhos, pode-se prever a eclosão de um transtorno psíquico, como uma psicose, ou mesmo prever doenças somáticas. O que acontece é que esses processos já vêm ocorrendo muito antes que se manifestem à consciência, porém de modo subliminar, isto é, inconsciente. São impressões, sentimentos, pensamentos subliminares que são apreendidos inconscientemente e se manifestam no sonho”. (pág. 67). Idem.

 

    No momento do sonho tal ocorrência ainda pode pertencer ao futuro. Mas, assim como nossos pensamentos conscientes muitas vezes se ocupam do futuro e de suas possibilidades, também ocorre o mesmo com o inconsciente e seus sonhos. Durante muito tempo acreditou-se que a principal função do sonho era prever o futuro. Na antiguidade e até a Idade Média, os sonhos faziam parte do prognóstico dos médicos. (pág. 78) O Homem e seus Símbolos; C. G. Jung.

 

 

    Sonhos arquetípicos ou mitológicos (ou ainda “grandes sonhos”)

 

    “(...) Quando é um caso de sonho obsessivo ou de sonhos com grande carga emocional, as associações pessoais produzidas pelo sonhador não são, em regra, suficientes para uma interpretação satisfatória. Em tais casos precisamos levar em conta o fato (primeiramente observado e comentado por Freud) de que num sonho muitas vezes aparecem elementos que não são individuais e nem podem fazer parte da experiência pessoal do sonhador. A estes elementos, como já mencionei antes, Freud chamava “resíduos arcaicos” – forma mentais cuja presença não encontra explicação alguma na vida do indivíduo e que parecem, antes, formas primitivas e inatas, representando uma herança do espírito humano”. Temas Básicos de Psicologia; Clara Regina Rappaport (Coordenadora).

 

    “Nossa consciência pessoal é como que um edifício erguido sobre o inconsciente coletivo, de cuja existência ele normalmente nem suspeita. Esse inconsciente coletivo apenas ocasionalmente influencia nossos sonhos. Quando tal ocorre, surgem então aqueles sonhos raros e admiráveis, de notável beleza ou de terror demoníaco ou de sabedoria enigmática, aos quais certos povos primitivos dão o nome de “grandes” sonhos. As pessoas costumam ocultar esses sonhos como um segredo precioso, e procedem corretamente agindo assim. Tais sonhos são de significado muito grande para o equilíbrio psíquico do indivíduo. Muitíssimas vezes até ultrapassam o horizonte mental da pessoa e adquirem assim validade para muitos anos de vida, como se fossem uma espécie de marcos miliários espirituais, mesmo que jamais sejam entendidos completamente. Será tarefa bem desalentadora tentar interpretar esses sonhos pelo método redutivo; o valor e o verdadeiro sentido deles é inerente a eles mesmos. São como que acontecimentos psíquicos, os quais no caso dado resistem a qualquer tentativa de racionalização. (...)” (208) O Desenvolvimento da Personalidade; C. G. Jung.

 

    “(...) No processo de análise precisamos sempre estar conscientes do quanto os símbolos oníricos podem ter um valor explosivo para o paciente. O analista nunca será cuidadoso e reservado o bastante. Se um luz excessivamente forte for lançada sobre a linguagem onírica dos símbolos, o sonhador pode ser levado a um estado de ansiedade e, como mecanismo de defesa, à racionalização. Ou então não consegue mais assimilar estes símbolos e entra em séria crise psíquica”. (pág. 275). O Homem e seus Símbolos; C. G. Jung.

 

    “(...) sob quais condições se tem um sonho mitológico? Em nossos meios eles são um tanto raros, pois nossa consciência está grandemente separada da mente arquetípica subjacente. Eis por que sentimos os sonhos míticos como elementos bastante alienados, o que entretanto não se dá com uma mente mais próxima da psique primitiva. Os primitivos dão grande atenção a esse tipo de sonhos, chamando-os de “grandes sonhos”, em contradição com as imagens oníricas comuns. Sentem que eles são importantes, bem como encerram um significado geral. Eis a razão de, numa comunidade primitiva, o sonhador sentir-se impelido a anunciá-lo na assembléia dos homens, onde uma discussão se estabelece sobre o seu conteúdo. O mesmo se dava com o senado romano. Temos a história da filha de um senador do século I aC, que sonhou que a deusa Minerva lhe havia aparecido e lamentado que o povo romano estivesse negligenciando o seu templo. A moça sentiu-se impelida a transmitir o sonho ao senado, que logo a seguir votou uma verba para a restauração do templo. Sófocles narra um caso semelhante, quando do roubo de um precioso vaso de ouro do templo de Hércules. A própria divindade apareceu a Sófocles, em sonhos, e disse-lhe o nome do ladrão. Depois de tal aviso ter-se repetido três vezes, Sófocles viu-se obrigado a informar o Areópago. O tal homem foi preso, e ao curso das investigações acabou confessando tudo e devolveu o que roubara do templo. Os sonhos arquetípicos ou mitológicos têm um caráter especial, que força a pessoa instintivamente a contá-los. E esse instinto é perfeitamente explicável, já que tais fatos não pertencem à pessoa; pelo contrário, inserem-se no coletivo. No sentido geral também têm sua dose de verdade para o indivíduo. Eis por que na Antiguidade e na Idade Média os sonhos eram levados em grande consideração; sentia-se que eles expressavam uma verdade humana coletiva”. [250] Fundamentos de Psicologia Analítica; C. G. Jung.

 

    Mas como se sabe, porém se o sonho é “grande” ou “pequeno”? Por um sentimento intuitivo de sua importância significativa. Tal impressão é de tal modo avassaladora, que o indivíduo jamais pensaria guarda-lo para si. Tem de contá-lo, supondo, de um modo psicologicamente correto, que o sonho é importante para todos. Mesmo entre nós, o sonho coletivo é carregado de uma importância significativa que nos impele a comunica-lo. Originando-se de um conflito de relação, deve ser levado à relação consciente, porque compensa esta última e não apenas a um defeito pessoal interior. [277] O Eu e o Inconsciente; C. G. Jung.

 

 

 

 

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