PITÁGORAS DE SAMOS
Na Grécia Antiga, matemática e misticismo já estiveram unidos.
As colônias gregas ao longo dos mares Negro e Mediterrâneo eram pontos de contato entre centros antigos de conhecimento, como o Egito, a Babilônia e a Magna Grécia. Foi em uma dessas colônias, a ilha de Samos, no mar Egeu (costa jônica), não distante de Mileto, sua rival comercial, que nasceu um personagem genial - meio místico, meio mágico -, cujo lema era "tudo é número": Pitágoras, que viveu entre 580 e 500 a.C. aproximadamente. Viajou muito, é provável que tenha viajado pela Ásia Menor e pelo Egito, como fizeram muitos filósofos gregos, e pode ter conhecido até a Índia. É muito pouco o que conhecemos sobre sua vida. Esta figura cedo foi envolvida pelo lendário, de modo que é difícil separar nele o histórico do fantástico. Supõe-se também que tenha sido aluno de Tales. Pitágoras fez mais do que procurar por uma base numérica para o Universo. Ele e seus discípulos ascenderam a posições de poder em várias cidades gregas, e tentaram aplicar suas crenças idealistas no governo. No entanto, os cidadãos acabaram rebelando-se, e por volta de 530 a.C., sofreu perseguição política devido a suas idéias, sendo obrigado a deixar sua terra de origem, instalando-se em Crotona (sul da Itália), região conhecida como Magna Grécia, onde fundou uma poderosa sociedade de caráter filosófico, religioso, e de acentuada ligação com as questões políticas, cujas doutrinas eram mantidas em segredo. Seus adeptos logo criaram novos centros em: Tarento, Metaponto, Síbaris, Régio e Siracusa.
Participantes ativos da política, provocaram a revolta dos crotonenses. Depois de exercer, por longos anos, considerável influência política na região, a sociedade pitagórica foi dispersada pelos opositores, e o próprio Pitágoras foi expulso de Crotona, refugiando-se em Metaponto, onde morreu em 497 ou 496.
Para Pitágoras a essência de todas as coisas residia nos números, os quais representam a ordem e a harmonia. Assim, a essência dos seres, a arché, tinha uma estrutura matemática da qual derivam problemas como: finito e infinito, par e ímpar, unidade e multiplicidade, reta e curva, etc. Pitágoras estava ligado ao Orfismo, religião que cultuava o deus Dionísio e afirmava a reencarnação da alma, numa progressiva purificação; mas Pitágoras fez uma modificação fundamental nessa religião: substituiu a função salvadora do deus pela investigação matemática, capaz de introduzir na alma ordem, beleza e claridade. Trata-se de encontrar fórmulas matemáticas para as forças absolutamente impenetráveis. Interpretada como recurso de salvação da alma, a matemática recebeu grande impulso entre os pitagóricos. Todavia, o próprio Pitágoras não deixou nenhum documento escrito; seus ensinamentos, transmitidos oralmente, eram rigorosamente guardados em segredo pelos primeiros discípulos que também nada escreveram. Daí a grande dificuldade em reconstruir o pensamento do pitagorismo primitivo e ainda mais o do próprio Pitágoras, distinguindo-o do de seus discípulos. No entanto, o pitagorismo exerceu profunda influência na filosofia grega, que pela reação polêmica que provocou (Xenófanes, Heráclito, Parmênides, Zenão), quer pelos elementos positivos que passaram aos pensadores posteriores - ao pitagorismo posterior - com escritos - ao qual pertencem Filolau e Arquitas.
As contribuições da escola pitagórica podem ser encontradas no campo da Matemática (lembre-se do célebre Teorema de Pitágoras: o quadrado construído sobre a hipotenusa de um triângulo retângulo é igual à soma dos quadrados construídos sobre os catetos); a aplicação deste teorema já era bem conhecida dos egípcios e babilônios, que a comprovaram em vários casos. Mostrando a lógica e a generalidade de alguns teoremas, até então verificados somente em casos particulares, os pitagóricos elevaram a matemática à dignidade de uma Ciência. Mais ainda, intuíram a universalidade de suas aplicações, situando-a assim na dianteira das Ciências.
O pitagorismo desenvolveu também um grande esforço no sentido de relacionar a Astronomia com a Matemática, usando para isso a Aritmética, a Geometria e até a Música.
Os pitagóricos usavam a Matemática para explicar todos os fenômenos, acreditando que o número (ou seja, as relações matemáticas) é a essência de todas as coisas e que o Universo é regido pela harmonia Matemática. Da racional concepção de que tudo é regulado segundo relações numéricas, passa-se à visão fantástica de que o número seja a essência das coisas. A contribuição original dos pitagóricos é, pois, uma invenção extremamente importante: a significação do número e, portanto, a possibilidade de uma investigação exata em física. Grande contribuição também incide nos campos da Música e da Astronomia. No entanto, os pitagóricos não diferiam profundamente dos outros filósofos gregos, mais preocupados com jogos intelectuais do que com observações práticas: as teses eram enunciadas com o fim de adaptar a realidade à idéia.
A Música, com efeito, é o melhor exemplo do que queriam dizer os pitagóricos: a Música, como tal, só existe em nossos nervos e em nosso cérebro; fora de nós ou em si mesma, compõe-se somente de relações numéricas quanto ao ritmo, se trata-se de sua quantidade, e quanto à totalidade, se trata-se de sua qualidade, conforme considere-se o elemento harmônico ou o elemento rítmico.
A escola pitagórica tinha uma prescrição de rígidas condutas morais. Acreditava na transmigração das almas (crenças místicas relativas à imortalidade da alma, à reencarnação dos pecadores) e, portanto, que não se devia matar ou comer um animal porque ele poderia ser a moradia de um amigo morto. Também não se podia comer lentilhas ou alimentos que causassem gases. Devido aos costumes dessa escola. Diz-se que seus integrantes não se conheciam uns aos outros, pois se reuniam encapuzados. Após cinco anos de aprendizado, os membros do chamado círculo externo eram iniciados no círculo interno, onde descobriam as doutrinas místicas baseadas nas relações entre os números.
É difícil especificar o papel desempenhado por esta ou aquela figura na elaboração da doutrina, principalmente quanto à sua origem.
Os pitagóricos imaginavam que os números ímpares tinham atributos masculinos e os pares eram femininos. O número 1, diziam, é o gerador dos outros números e o número da razão. Dizia-se que Pitágoras e seus discípulos imaginaram uma série de exercícios matemáticos que serviam como rituais para suas vidas. Assim, a determinados números, principalmente os dez primeiros, eram atribuídas virtudes especiais.
Os pitagóricos afirmaram a esfericidade da Terra e dos demais corpos celestes, bem como a rotação da Terra, explicando assim o dia e a noite; e afirmaram também a revolução dos corpos celestes em torno de um foco central, que não se deve confundir com o Sol.
Os maçons desenvolveram uma afeição e uma afinidade especial por Pitágoras.
Outros pensadores importantes dessa escola: Filolau, Arquitas, Alcmeón.
Referência Bibliográfica:
- Fundamentos da Filosofia - Para uma Geração consciente; Gilberto Cotim, Editora Saraiva.
- Pré-Socráticos - Coleção "Os Pensadores", Editora Nova Cultural.